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Bom dia!

Hoje tem União Europeia tornando oficial o bloqueio a carnes, pescados e mel brasileiros a partir de 3 de setembro, guerra no Irã mudando as rotas dos fertilizantes com Nigéria perdendo espaço e Marrocos ganhando força e clima aparecendo como o maior risco do agro brasileiro em 2026 pelo segundo ano seguido. No meio disso, a iRancho mira R$ 10 milhões com IA no curral, a Cargill negocia vender sua unidade de metais e Nobel da Agricultura vem palestrar em Piracicaba (SP).

Pra você acordar bem informado

Por Enrico Romanelli

TÁ QUANTO?

FOCUS 2026 Semana 2027 Semana
Câmbio (R$/US$) 5,15 -0,16% 5,20 -0,95%
IPCA (%) 5,11 0,38% 4,03 0,28%
PIB (%) 1,91 0,47% 1,70 0,00%
Selic(% a.a.) 13,50 1,89% 11,50 2,22%

Os dados são publicados por BCB. A variação considerada nesta tabela é semanal.

ASSUNTO DE GABINETE

UE fecha a porteira e carne brasileira corre contra o tempo até setembro

Foto: Thiago de Jesus

A União Europeia tirou do rascunho e colocou no Diário Oficial: a partir de 03/09, o Brasil fica fora da lista de países autorizados a vender carnes, tripas, pescado e mel pro velho continente. A decisão já tinha sido anunciada em maio, mas agora ficou 100% oficial. O motivo é a falta de garantias, no padrão exigido por Bruxelas, sobre o controle do uso de antimicrobianos na produção animal.

Mas o que são antimicrobianos?

Antimicrobianos são um guarda-chuva de medicamentos usados pra combater microrganismos, como bactérias, fungos, vírus e parasitas. Na pecuária entram principalmente quando o animal precisa ser tratado de alguma infecção. Também podem ser usados de forma preventiva em situações específicas, como surtos ou risco elevado no rebanho. Depois da aplicação, existe um período de carência, que é o intervalo mínimo entre o uso do medicamento e o abate, pra garantir que a carne, o leite ou outros produtos cheguem ao consumidor dentro dos limites permitidos.

Mas o uso que fez a União Europeia fechar a cara não é o antibiótico usado pra tratar animal doente. A bronca é com os antimicrobianos usados como promotores de crescimento, quando essas substâncias entram na ração ou na água em doses baixas e contínuas pra melhorar desempenho, ganho de peso e conversão alimentar. Na prática, é uma tentativa de fazer o animal ganhar mais peso com menos ração, meio whey protein do boi. Esse uso reduz certas bactérias no intestino, melhora o aproveitamento dos nutrientes e pode acelerar a produtividade, mas também aumenta o risco de resistência antimicrobiana. Por isso, a UE quer barrar produto de animal criado com esse tipo de empurrão farmacológico.

A treta não é porque a UE encontrou carne brasileira batizada com medicamento. O ponto é outro: rastreabilidade, certificação e comprovação documental. Na pecuária, tratar animal doente com antibiótico tá liberado, desde que tenha registro e respeite o período de carência antes do abate. O que a Europa não quer é produto de animal que recebeu antibiótico como promotor de crescimento ou remédio que é feito só pro tratamento em humanos.

O Brasil até proibiu, em abril, uma parte dos antimicrobianos usados como aditivos melhoradores de desempenho, incluindo avoparcina, bacitracina e virginiamicina. Só que, pra UE, isso ainda não fechou a conta. As regras europeias sobre o tema vêm de 2023, com exigência de comprovação reforçada em 2024, e agora o bloco diz que a gente não entregou garantias suficientes pra seguir vendendo.

Técnicos em Brasília admitem que o Brasil demorou pra apresentar os protocolos pedidos, em parte por negociações com a indústria nacional desses medicamentos. Sabe aquele trabalho que tinha prazo faz tempo e alguém deixou pra entregar no último minuto? Então...

O tamanho do boleto também não ajuda no humor da reunião. Se o embargo não for revertido, o impacto pode chegar perto de US$ 2 bilhões por ano, valor que o Brasil exportou em 2025 nos produtos afetados. A restrição pega bovinos, aves, suínos, equinos, pescados, mel e tripas. Na carne bovina, a União Europeia é daqueles mercados que talvez não leve o maior volume, mas paga bem e faz falta no balanço.

O governo tenta correr atrás. Geraldo Alckmin disse que o Brasil vai trabalhar pra voltar pra lista enquanto o Itamaraty e o Ministério da Agricultura tentam manter um papo mais técnico com a Comissão Europeia. O Brasil também apresentou um protocolo privado pra exportação de bovinos livres de antimicrobianos, homologado pelo Mapa. Só que, nos bastidores, tem gente vendo a medida com cara de gambiarra de última hora e ninguém garante que passa na vistoria europeia.

Do lado do setor, Abiec e ABPA defendem que o Brasil tem um dos sistemas sanitários mais robustos do mundo e que a decisão não nasce de problema sanitário, não conformidade ou uso inadequado de antimicrobianos, mas da falta de reconhecimento dos mecanismos oficiais de fiscalização e controle.

NAS CABEÇAS DO AGRO

Clima vira o risco número 1 do agro e já pesa no bolso

Gif: ReconnectingRoots on Giphy

O agro brasileiro abriu a lista de preocupações de 2026 e encontrou o mesmo vilão de sempre: as mudanças climáticas. Segundo um estudo da EY, o clima aparece como o principal risco pro setor nesse ano, repetindo o posto que já tinha ocupado em uma pesquisa parecida de 2022. A consultoria ouviu 52 empresas e produtores rurais pra entender onde o risco é grande e a preparação nem tanto, ainda naquela vibe “segunda-feira eu vejo isso”. O problema é que o clima não espera reunião de alinhamento, manda seca, chuva fora de hora e quebra de safra sem marcar no calendário.

Na visão de Otávio Lopes, sócio-líder de agronegócio da EY, o agro ainda precisa de um zoneamento agrícola mais ajustado pro mundo real. A conta é simples: plantar em área de menor risco climático, com manejo correto e genética adequada, reduz as perdas. Só que parte do setor ainda insiste em seguir fazendo o trampo como sempre fez, num jeitão mais raiz, e aí acaba tratando o problema novo com a solução velha.

E agora esse risco tá começando a aparecer onde mais dói: no bolso. Seguro agrícola e crédito já tão olhando com mais carinho, ou melhor, com mais calculadora, pras regiões mais vulneráveis. A tendência é que produzir em áreas de maior risco fique cada vez mais caro, empurrando parte das lavouras mais “pra cima” no mapa.

A segunda maior dor de cabeça é mão de obra, que saiu da 8ª posição em 2022 pra vice-liderança no ranking. Esse pulo tem a ver com sucessão, avanço tecnológico e uma pergunta que tá difícil de responder: quem vai tocar essa fazenda cada vez mais digital? Não adianta encher o discurso de IA, drone, sensor e dashboard bonito se falta gente preparada pra operar tudo isso. Cooperativas no Paraná já criaram a UniTI pra democratizar tecnologia entre médios produtores, mas o desafio ainda é grande. A maior dificuldade tá em atrair talento disputado pelos centros urbanos pra trabalhar no campo.

Fechando o top 3, a geopolítica apareceu pela primeira vez entre os maiores riscos do agro. E não foi do nada. A pesquisa foi feita entre agosto de 2025 e janeiro de 2026, quando o tarifaço de Donald Trump tava rolando e mexendo com o setor, junto com EUDR e dúvidas sobre China. Segundo Lopes, se o levantamento tivesse ido até maio, esse risco provavelmente teria subido ainda mais, por conta da guerra no Irã e todo o B.O. que envolve o Estreito de Ormuz.

SAFRA DE CIFRAS

iRancho aposta em IA e mira R$ 10 milhões na pecuária

Foto: Divulgação

A pecuária brasileira tá digitalizando cada vez mais o curral e a iRancho quer aproveitar essa porteira aberta. A empresa de tecnologia focada em gestão pecuária e rastreabilidade animal tá de olho em crescer pelo menos 48% em 2026 e passar de R$ 10 milhões em faturamento, depois de fechar 2025 com receita de R$ 6,63 milhões.

Segundo o CEO Thiago Parente, a iRancho vem crescendo entre 45% e 50% ao ano puxada por uma mudança de comportamento no produtor, que tá mais interessado em tecnologias novas e em produtividade maior. A busca agora é por ferramentas que ajudem a conhecer melhor a produção, melhorar a rentabilidade e deixar a gestão menos dependente de conta no caderno. Com mais pressão por eficiência, sustentabilidade e controle, a tecnologia deixou de ser enfeite de palestra e começou a entrar de vez na lida, sem pedir licença.

O grande empurrão da vez é a IA lançada pela empresa, que permite registrar informações por comando de voz direto no campo, inclusive sem internet. A ferramenta foi pensada pra simplificar a coleta de dados no manejo e incluir quem tinha dificuldade com tecnologia. Em vez de parar tudo pra digitar, o funcionário fala e o sistema registra. É quase uma Alexa no pasto, só que em vez de tocar música, ela ajuda o peão ou o produtor a lembrar dado de lote, manejo e animal.

A iRancho também aposta na rastreabilidade com o SafeBeef, uma plataforma em blockchain que registra informações dos bovinos ao longo da cadeia produtiva. A procura cresce junto com a pressão dos mercados por transparência, porque hoje tem comprador querendo saber a história do animal quase com árvore genealógica e comprovante de residência, tipo a UE com essa história dos antimicrobianos. A empresa também tá investindo em soluções com processamento de linguagem natural, automação e análise de dados em tempo real pra transformar dado em decisão antes que vire prejuízo.

DE OLHO NO PORTO

Guerra no Irã muda rota dos fertilizantes do Brasil

Foto: iStock

A guerra no Irã deu uma bela chacoalhada no tabuleiro global dos fertilizantes, e o Brasil, como bom comprador dependente de insumo importado, teve que mexer seu peão de lugar. Segundo um levantamento da Datagro, os fluxos de nitrogenados e fosfatados mudaram nos primeiros meses do ano, com a Nigéria perdendo espaço nos nitrogenados e o Marrocos ganhando força nos fosfatados.

De janeiro a abril, o Brasil reduziu em quase 44% as compras de fertilizantes nitrogenados da Nigéria, que é um dos maiores fornecedores de ureia pra cá. Foram 316,8 mil toneladas, contra 568 mil no mesmo período de 2025. A conta também ficou salgada: em março, a ureia nos portos da Nigéria tava a US$ 570 por tonelada, quase a mesma coisa dos US$ 565 no Brasil. Com frete marítimo médio de US$ 26 por tonelada, mandar produto de lá pra cá ficou meio sem sentido.

Enquanto isso, a China e a Rússia cresceram na lista de fornecedores: os chineses venderam 1,8 milhão de toneladas ao Brasil, e os russos, 468 mil toneladas. A explicação passa pelo preço da ureia, que subiu tanto que os importadores tiveram que olhar pro substituto, vendido por Rússia e China, com mais carinho. Um desses substitutos é o sulfato de amônia, que tem menor concentração de nutriente, mas vem ganhando espaço pelo custo-benefício e é fornecido em grande parte pela China. No total, as importações brasileiras de nitrogenados caíram 3,7% no período, somando 3,5 milhões de toneladas.

Nos fosfatados, quem apareceu com mais força foi o Marrocos. O país aumentou em quase 40% os embarques ao Brasil, chegando a 1 milhão de toneladas e virando o maior fornecedor da categoria no período. O Egito caiu quase 19%, enquanto a Rússia e a China também reduziram as vendas. No geral, as importações brasileiras de fosfatados recuaram 2,9%, mostrando que o adubo continua chegando, mas que o preço fez a carga diminuir de tamanho.

POR DENTRO DO MERCADO

Cargill pode vender metais e voltar pro feijão com arroz

Foto: REUTERS/Maxim Shemetov

A Cargill pode tá tirando o capacete de mineração pra colocar o chapéu de volta na cabeça. Segundo fontes ouvidas pela Reuters, a gigante global tá negociando pra vender sua unidade de metais pro Macquarie Group, num movimento pra focar mais no que é o seu arroz com feijão mundial: alimentos e agricultura. As conversas ainda não viraram anúncio oficial e não têm garantia de acordo, então, por enquanto, é aquele namoro corporativo em segredo.

E não é uma operaçãozinha metálica escondida no fundo do galpão. A unidade de metais da Cargill fica em Singapura e comercializa de 60 milhões a 70 milhões de toneladas de minério de ferro por ano, além de 4 milhões de toneladas de aço, com cerca de 130 funcionários na folha. A Cargill não comentou o assunto, e a Macquarie também preferiu ficar no “sem comentários”, aquele silêncio corporativo que fala pouco e deixa o mercado especular.

A possível venda chega num momento em que o minério de ferro não tá exatamente brilhando. A demanda da China, maior consumidora global, tá mais incerta, e a presença da compradora estatal China Mineral Resources Group tem reduzido a volatilidade do mercado. E, pra quem é trader, menos sobe e desce é tirar a emoção e o lucro do negócio.

PLANTÃO RURAL

SE DIVERTE AÍ

Hoje o desafio é o Contexto, aquele jogo em que você tenta adivinhar a palavra secreta chutando termos e vendo o quão perto tá pelo sentido, não pelas letras. Vale começar com palavras do agro tipo soja, boi, clima, crédito, fertilizante e ir afinando até chegar na resposta. Joga aí, testa seu dicionário e depois conta quantos chutes você precisou pra matar a charada.

VIVENDO E APRENDENDO

Resposta da edição passada: Maracujá

Pergunta de hoje: Qual oleaginosa asiática deu origem ao primeiro óleo vegetal industrializado do mundo?

A resposta você fica sabendo na próxima edição!

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