APRESENTADO POR

Bom dia!

Sabe aquela conta que a gente sente chegar antes de ver? Hoje ela apareceu de vários lados.

No seu bolso, a colheita foi das boas, mas o frete cobrou mais caro assim mesmo, a safra recorde entupiu a estrada e não deixou o preço cair. Lá fora, ao menos, a soja brasileira segurou o tranco do relatório do USDA e manteve a saca firme perto de R$ 130.

Em Brasília, a cana do Nordeste, quebrada pelo tarifaço dos Estados Unidos, ganhou um curativo do governo, R$ 12 por tonelada pra não fechar a porteira.

No mundo corporativo, foi dia de faxina e aposta grande, a Syngenta trocou de CEO de olho na bolsa de Hong Kong, a FMC vendeu 20% a um belga pra respirar e a Suzano pagou R$ 6,7 bilhões pra sair da celulose e entrar no seu papel higiênico.

Teve até tecnologia, uma alemã que lê o solo na hora. Ela captou R$ 106 milhões mirando o Brasil.

Pra você começar o dia um passo à frente.

Por Luciana Stival

TÁ QUANTO?

MERCADO valor % dia % YTD
Soja (R$/saca 60kg) R$134,32 0,55% -4,74%
Milho (R$/saca 60kg) R$64,02 0,69% -7,88%
Boi gordo (R$/arroba 15kg) R$335,30 -0,33% 5,04%
Café Arábica (R$/saca 60kg) R$1.665,59 5,50% -23,41%
Açúcar (R$/saca 50kg) R$91,29 0,02% -17,00%

Os dados são publicados por CEPEA-Esalq/USP Indicadores sob licença CC BY-NC 4.0.
As variações são calculadas em % diária e %YTD (Year to date)

PAUTA VERDE

Você colheu mais e o frete cobrou mais caro assim mesmo

Fonte: Giphy

Reparou que a colheita foi das boas e mesmo assim tirar o grão da fazenda não ficou mais barato? Pois é, o caminhão continua cobrando caro, quando a época já era de dar folga no preço.

Passado o pico de escoamento da primeira safra, o normal seria o frete rodoviário afrouxar. Acontece que ele segue perto do auge de fevereiro e março. O que mantém o caminhão disputado é justamente a fartura, uma safra de soja recorde que apareceu no Boletim Logístico de junho da Conab e ainda vai ganhar reforço da segunda safra:

  • Soja, +8,8 milhões de toneladas sobre o ciclo anterior, ou seja, muito mais grão pra mover.

  • Diesel S-10 no Paraná a R$ 6,38/L, empurrando o custo do caminhoneiro pra cima.

  • Internalização de fertilizante em maio, a menor desde 2022, e El Niño rondando o segundo semestre.

Aí está o contrassenso que dói no bolso. O normal seria o fim do pico liberar caminhão e o frete ceder, só que a safra recorde deixou grão demais na fila pra isso acontecer. Mais carga disputando o mesmo eixo segura o preço firme, e o diesel caro não deixa recuar.

No fim das contas, o recorde na balança não virou desconto no frete. O grão saiu da lavoura em quantidade, mas cada tonelada a mais que você colheu foi também uma tonelada a mais pra pagar pra transportar.

GIGANTES DO AGRO

A dona do eucalipto agora quer mandar no seu papel higiênico

Fonte CNN Brasil

Você provavelmente nunca pensou na Suzano ao trocar o rolo de papel higiênico, mas isso está prestes a mudar. A maior fabricante de celulose do mundo, aquela que vive de eucalipto, decidiu que quer um pedaço do que vai parar no seu banheiro.

A empresa concluiu a compra de 51% da joint venture que montou com a americana Kimberly-Clark, num negócio de US$ 1,3 bilhão, cerca de R$ 6,7 bilhões. Nasce a Arbex, dona de marcas de papel higiênico, toalha, guardanapo e lenço, com a Suzano no controle e Walter Schalka, ex-presidente da companhia, à frente do conselho. No pacote vem também uma dívida líquida de quase US$ 1 bilhão.

É a maior aposta da Suzano fora da celulose, e nem todo mundo aplaude. Sair da matéria-prima, onde ela é gigante global, pra brigar na prateleira do supermercado, onde a margem é fina e a marca é rainha, é trocar um jogo que domina por outro que ainda vai ter que aprender. E a dívida que veio junto pesa num momento de juro alto.

Mas a lógica tem lastro. Quem planta eucalipto e faz celulose passou anos vendo o valor ir embora rio abaixo, do tronco ao produto final. Comprar a fábrica que transforma a própria fibra em item de banheiro é encurtar essa distância e ficar com a parte mais gorda da conta. Se der certo, a árvore da Suzano vai render bem depois de virar papel.

NAS CABEÇAS DO AGRO

Quem decide o preço do seu defensivo mudou de chefe

Fonte: AGFeed

Quando uma empresa escolhe um novo chefe às vésperas de estrear na bolsa, o crachá diz "CEO", mas o recado é "vamos abrir o cofre para os investidores". Foi mais ou menos isso que aconteceu na dona de boa parte do que vai na sua pulverização.

A Syngenta Group, gigante de defensivos e sementes sediada em Basel e controlada pela chinesa ChemChina, anunciou Hengde Qin como novo CEO global a partir de agosto. Mas Qin não é rosto novo, é o atual chefe de Sementes e já passou por praticamente todas as salas da empresa, do financeiro ao RH, com uma temporada de forte crescimento à frente da Syngenta China.

O detalhe que dá liga à troca está fora do organograma. A Syngenta há tempos prepara um aguardado IPO em Hong Kong, e colocar no comando um executivo de perfil financeiro e de operação é o tipo de escolha que sinaliza disciplina para o mercado. Ou seja, menos "visionário de palco", mais "gente que fecha planilha". A ironia é que trocar de comandante para animar uma abertura de capital que vive sendo adiada também confessa o tamanho da lição de casa que falta.

No fim, muda o nome na porta de quem ajuda a ditar o preço da semente e do veneno que entram na sua lavoura. E muda mirando um sino de bolsa do outro lado do mundo.

SAFRA DE CIFRAS

US$ 400 milhões e um sócio belga adiaram uma venda

Fonte: AGFeed

Tem hora que a empresa põe a placa de "vende-se" na janela só pra ver quanto vale, e no fim resolve alugar um quarto em vez de mudar de casa. Foi essa a virada de mesa de uma das grandes do veneno agrícola, que estava se avaliando inteira e acabou entregando só uma fatia.

A americana FMC captou US$ 400 milhões vendendo 20% do capital ao grupo belga Tessenderlo e, com o cheque na mão, encerrou a avaliação de "opções estratégicas" que chegou a incluir a venda da companhia toda. O dinheiro tem endereço certo, abater dívida.

Só que trocar um quinto da empresa por caixa não é exatamente sinal de vida mansa. É o que se faz quando a alavancagem aperta e a margem do insumo anda espremida entre juro alto e preço de defensivo em baixa, o mesmo pano de fundo que já apareceu por aqui na Raízen e no Plano Safra. Desalavancar assim alivia o boleto, mas divide o volante com um novo sócio que agora tem 20% de opinião.

E não deixa de ser um retrato do momento do setor. No mesmo dia, duas gigantes de insumo remexendo a própria estrutura, uma trocando de comandante de olho na bolsa, outra vendendo pedaço pra respirar. Quando as donas do defensivo fazem faxina no balanço, o produtor que depende delas devia ficar de olho no próximo capítulo.

ASSUNTO DE GABINETE

O tarifaço quebrou a cana do Nordeste, e a conta chegou

Fonte: Globo Rural

Nem toda cana vira caipirinha, e a do Nordeste passou o último ano tomando pancada de dois lados, a tarifa dos Estados Unidos e o preço do açúcar lá embaixo. Ontem chegou um curativo do governo, publicado no Diário Oficial.

A MP 1374, assinada por Lula na terça, cria uma subvenção para os produtores independentes de cana da região, os mais castigados pelo tarifaço dos EUA de 2025. Na prática, é o Estado colocando R$ 12 por tonelada de cana comprovadamente entregue a usinas, destilarias ou cooperativas do Nordeste na safra 2025/26. Segundo a Feplana, a federação dos plantadores, a medida deve beneficiar 16 mil agricultores, que empregam 60 mil trabalhadores.

O gesto ajuda quem estava na corda bamba, mas não engana ninguém sobre o tamanho do problema. Subvenção por tonelada tapa o buraco de um ano ruim, não conserta nem o preço do açúcar nem a barreira comercial que jogou o prejuízo na conta do pequeno fornecedor. É socorro, não solução, e chega depois do estrago.

Fica o retrato de quem paga a fatura da guerra comercial. Não foi o negociador em Brasília nem o gigante do setor, foi o plantador de cana do Nordeste, que agora recebe alguns reais por tonelada pra não fechar a porteira. Um alento com data de validade.

CAMPO INTELIGENTE

A alemã que lê o solo na hora levantou R$ 106 milhões

Fonte: AGFeed

Todo produtor conhece a dor de comprar adubo, é caro, vem de fora e sobe de preço quando o mundo espirra. A aposta de uma startup alemã é simples, se você não manda no preço do fertilizante, pelo menos pode mandar melhor em onde e quanto joga no chão.

A Stenon, que faz análise de solo em tempo real, captou 18 milhões de euros, cerca de R$ 106 milhões, numa rodada Série B, e colocou o Brasil no centro do plano. O cheque veio de fundos europeus, com a holandesa Pymwymic à frente e um fundo alemão de clima, além da gestora do fundador da Salesforce. Aqui, a empresa mira sobretudo o manejo de nitrogênio, o insumo mais caro e estratégico da conta.

O produto é uma maleta, o FarmLab, que mede a química do solo na hora com inteligência artificial, em vez de mandar amostra pro laboratório e esperar dias. A companhia diz que, lá fora, isso rendeu de 20% a 40% de economia de adubo nitrogenado e de 2% a 8% a mais de produtividade. O pé atrás é o de sempre com promessa de agtech, número de folheto não é número de fazenda, e a Stenon ainda atende mais o médio e o grande, correndo atrás de parceiro pra chegar ao pequeno.

Mas o timing explica a fila de investidor. Com fertilizante importado caro e incerto, cada quilo de nitrogênio bem colocado vira margem. Se a conta do adubo é a que mais pesa na lavoura, quem souber cortar o desperdício sai na frente, e é nesse desperdício que a alemã aposta as fichas.

POR DENTRO DO MERCADO

O relatório do USDA assustou, e a soja brasileira ficou de pé

Fonte: Agrimidia

Todo fim de safra tem um dia em que o mercado prende a respiração esperando os Estados Unidos abrirem a boca. Dessa vez o número saiu, e a soja brasileira, que costuma apanhar quando Chicago balança, segurou o tranco.

Depois do relatório de área e estoques do USDA, de 30 de junho, os grãos abriram a bolsa de Chicago em alta e a saca brasileira ficou rondando os R$ 130 nas principais praças, sem desabar. O relatório confirmou mais área de soja plantada nos EUA, mas o número já estava no preço, e estoques um pouco menores que o esperado deram sustentação.

Antes de comemorar, vale o pé atrás. Preço firme em dia de relatório não vira tendência, e o próprio mercado avisa que daqui pra frente quem manda é o clima da lavoura americana, com a margem global apertada, qualquer susto de quebra mexe forte com a cotação. Some a China voltando a namorar a soja dos EUA, e o prêmio do porto brasileiro segue sob pressão.

Pro produtor que ainda tem saca no paiol, o recado é de janela, não de porto seguro. O dia foi bom, mas o preço lá na frente vai depender de chuva em Iowa e de humor em Pequim, não do que a gente planta aqui. Por ora, resistir já foi uma pequena vitória.

PLANTÃO RURAL

SE DIVERTE AÍ

Hoje o desafio mistura mapa e máquina do tempo. No TimeGuessr você recebe uma foto histórica de algum canto do planeta e precisa cravar duas coisas: onde no mundo ela foi feita e em que ano. São cinco rodadas, pontuando pela distância no mapa e pela distância no calendário. Pra quem vive de entender o mundo lá fora, de onde vem a tecnologia, pra onde vai a nossa safra, é geografia com uma pitada de história. Confia mais na paisagem e no clima do que no chute.

VIVENDO E APRENDENDO

Resposta da edição passada: safrinha, o nome da segunda safra de milho, semeada logo depois da soja na mesma área, geralmente entre fevereiro e março. Hoje ela já responde pela maior parte do milho colhido no Brasil.

Pergunta de hoje: qual estado brasileiro é o maior produtor de frango do país?

A resposta você confere na próxima edição!

CONTATO

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