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Bom dia!
Hoje o calendário vira o semestre e o agro já entra no segundo tempo com a fatura na mesa. Saiu o Plano Safra oficial, um recorde que a inflação encolheu, a Raízen revelou prejuízo de R$ 27 bilhões e encarou a dívida, e o registro da CPR promete ficar 50% mais rápido. No meio disso, o café disparou em Nova York e o Sul amanhece em alerta vermelho.
Pra você começar o dia um passo à frente.
Por Luciana Stival
TÁ QUANTO?
ASSUNTO DE GABINETE
O recorde que mingua quando bate na inflação

Fonte: Tenor
Saiu, enfim, a cifra que todo produtor queria saber. O governo oficializou o Plano Safra 2026/27 da agricultura empresarial em R$ 525,1 bilhões, R$ 8,9 bilhões a mais que no ciclo passado, e passa a valer hoje. No papel, é recorde. Mas tá mais pra sabooooor-recorde.
Porque esse avanço foi de 1,72%, e quando você desconta a inflação de 4,72% no período, o tal recorde vira queda real de 2,86% no poder de compra do crédito. Pior justo no que segura a lavoura no dia a dia, o custeio e a comercialização, o caixa que banca semente, adubo e diesel, encolheu para R$ 384,9 bilhões, uma retração real de 11,37% bem na hora em que fertilizante e agroquímico estão em alta. O governo trocou giro por patrimônio, jogou o investimento de R$ 101,5 para R$ 140,2 bilhões, mas trator novo não paga a conta da safra que já está no chão.
Mas, calma, tem alívio também. Os juros das linhas controladas caem até 1,5 ponto, o custeio empresarial vai de 14% para 12,5%, o Pronamp do médio produtor cai para 9%, e quem está com o CAR em dia e adota prática sustentável abocanha até 1 ponto de desconto. Com crédito real escasso, porém, esse bônus verde deixou de ser enfeite e virou ferramenta de sobrevivência. E veio uma trava nova, renegociar dívida de custeio agora exige seguro rural ou Proagro, justo para quem já está endividado e sem fôlego.
No fim, o número grande veio R$ 127 bilhões abaixo do que o próprio setor pedia, e o deputado Pedro Lupion, da Frente Parlamentar da Agropecuária, já pergunta como o produtor enrolado em dívida vai conseguir acessar esse dinheiro. O título diz recorde. O extrato diz que o custeio minguou. E quando o crédito oficial aperta, a fila anda para o crédito privado, que cobra bem mais caro. E aí, quem poderá nos salvar?
SAFRA DE CIFRAS
A potência do etanol encara a fatura da alavancagem

Fonte: NP Agro
Imagina abrir o primeiro balanço depois de renegociar a dívida e ver o vermelho só engordar. Foi o que viveu a Raízen, a joint venture de Cosan e Shell que é potência em açúcar e etanol, ao fechar a safra 2025/26 com prejuízo de R$ 27,1 bilhões, mais de seis vezes o do ciclo anterior, sendo R$ 7,3 bilhões só no último trimestre.
Antes de entrar em pânico com o tamanho do buraco, vale separar o que é caneta do que é caixa. Boa parte do rombo veio de R$ 22,5 bilhões em provisões sem efeito caixa e R$ 11,9 bilhões de baixas não recorrentes, fruto da faxina no portfólio. Tanto que o Ebitda reportado despencou 92%, para R$ 1,1 bilhão, enquanto o ajustado, que tira esses efeitos, ficou quase de pé em R$ 11,3 bilhões. A operação não virou pó, mas a fotografia contábil saiu bem feia.
O problema é que nem tudo é maquiagem de balanço. A dívida líquida subiu para R$ 58,2 bilhões, quase 70% a mais, e a alavancagem saltou de 3,2 para 5,2 vezes o Ebitda ajustado. É o retrato de quem cresceu na base do empréstimo e foi pego na curva do juro alto. No campo, a moagem caiu 9,8% e a produção de etanol recuou quase 18%, então o caixa operacional também veio mais magro pra socorrer.
Por ora, a empresa ganhou um respiro de 180 dias de suspensão dos juros, aquele fôlego pra arrumar a casa. A maior fabricante de bioenergia do país virou aula sobre o preço de crescer alavancado, e, logo depois do novo Plano Safra, acaba dando o tom do risco de crédito que ronda o setor inteiro. Quando o gigante tropeça na dívida, todo mundo na cadeia confere o próprio extrato.
PAUTA VERDE
Por que o pagamento ambiental frustrou o agro

Fonte: Giphy
Sabe aquela ideia de o produtor receber pra manter a mata em pé em vez de derrubar? O governo enfim colocou regra nela, e o agro saiu da mesa com gosto de quase. O decreto que regulamenta o Pagamento por Serviços Ambientais trouxe avanços, mas deixou de fora justamente o que o setor mais queria.
O ponto que incomodou está no Programa Federal, que não vai pagar pela conservação de áreas que já são obrigatórias por lei, como Reserva Legal e APP. Na Amazônia, onde o Código Florestal exige preservar 80% da propriedade, sobra remuneração só pra vegetação nativa que o produtor poderia legalmente derrubar, aqueles 20%. A lógica vem do mercado de carbono e tem nome técnico: adicionalidade, a ideia de só pagar pelo benefício que não aconteceria sem o incentivo.
Para quem é do setor, a régua esvazia o negócio. Segundo Rodrigo Lima, da Agroicone, o desenho corre o risco de manter o PSA como um punhado de projetos simpáticos que nunca ganham escala. Há ainda quem enxergue brecha pra briga na Justiça, já que a lei aprovada no Congresso não fazia essa separação. Do lado do governo, a tese é que o programa federal é apertado de propósito, pra priorizar a agricultura familiar e as comunidades tradicionais, e que nada impede projetos privados maiores fora dele.
E ainda faltou o melhor da festa: o cadastro nacional que daria tamanho ao mercado e os incentivos fiscais que atrairiam o dinheiro privado, ambos empurrados pra uma segunda rodada no fim do ano. O recado conversa direto com o Plano Safra, que acabou de oferecer desconto nos juros pra quem cuida do ambiente. Preservar começa a ter preço no Brasil. Só que, por ora, com a torneira meio fechada pra quem planta.
POR DENTRO DO MERCADO
O trator zero quilômetro vai ter que esperar a conta fechar

Fonte: CNN Brasil
Tem produtor que empurra a compra de uma colheitadeira nova com a barriga do mesmo jeito que outros adiam a trocar de um pneu novo, segura enquanto dá. E em 2026 vai segurar ainda mais. A indústria já admite que a venda de máquina agrícola deve cair de 15% a 20% no ano, tombo bem maior que os 8% que se esperava antes, número que a Câmara Setorial da Abimaq crava hoje, depois de pôr o novo Plano Safra na balança.
E o mais cruel é que a freada vem mesmo com dinheiro um pouco mais barato na praça. A linha que banca o trator, o Moderfrota, encolheu de R$ 12,5 bilhões para R$ 5,8 bilhões no Plano Safra, ainda que o juro tenha cedido 1 ponto, para 12,5% ao ano. Não adianta, como avalia Pedro Estêvão, da Abimaq, o produtor está com a rentabilidade baixa e, mesmo com crédito em conta, não tira o pé do freio.
Antes de decretar a lavoura de braços cruzados, cabe o contraponto. A margem espremida de soja e milho explica o desânimo, mas o próprio setor aposta que linhas como o Finep, com juro de 9,2%, podem amortecer parte do baque. E essa queda parte de uma base que já tinha recuado, ou seja, é menos um abismo novo e mais o segundo ano seguido de vacas magras no pátio da concessionária.
No fim, o recado fala direto com o Plano Safra, porque máquina é o primeiro investimento que o produtor risca da lista quando o caixa aperta, e a fila parada na concessionária acaba virando termômetro da confiança do campo. Enquanto a conta da safra não fechar, o trator novo segue no showroom, esperando a rentabilidade dar as caras.
CAMPO ATUALIZADO
A papelada da CPR vai andar na velocidade de um Pix

Fonte: Giphy
Quem já correu atrás de crédito rural conhece a via-crúcis, a CPR sai num canto, a documentação vem de outro, a análise de crédito de um terceiro, e o registro arrasta por semanas. É essa fila que a Docket, agtech que automatiza crédito com inteligência artificial, quer furar ao se juntar à Trillia, o braço de dados da B3.
A dupla promete cortar pela metade o tempo de uma operação de crédito. Só a etapa de registro, que hoje leva de 15 a 20 dias, cairia para 3 ou 4, e o processo inteiro, do primeiro papel à conclusão, encolheria de cerca de um mês para 15 dias. O novo produto, batizado de Registro Docket, será apresentado ao mercado hoje, num evento no Cubo Itaú, em São Paulo.
O timing não é à toa. O mercado de CPR tem R$ 5,9 bilhões de crédito ativo, e 14% disso está inadimplente há mais de 180 dias, com outro tanto em regularização fora do radar. Com margem apertada e calote em alta, garantir a segurança jurídica de quem empresta virou prioridade, porque CPR mal formalizada é o que deixa o credor a ver navios quando o produtor entra em recuperação judicial. Não por acaso, a B3 já concentra 93% dos registros, e a freguesia da Docket inclui Bunge, Cargill, Cofco e SLC.
Vale o desconto de otimismo de todo lançamento, porque registro rápido não transforma devedor em bom pagador, só deixa a garantia mais firme, e o sonho de resolver tudo na velocidade de um Pix ainda depende de cartório e certificado digital andarem junto. Mesmo assim, num ano em que o crédito do agro está mais seletivo, quem formaliza a garantia primeiro sai na frente. A papelada deixou de ser detalhe e virou vantagem.
PLANTÃO RURAL
O perdão da dívida virou promessa de MP: no mesmo palco do Plano Safra, o ministro André de Paula disse que o governo deve soltar em breve uma medida provisória pra renegociar a dívida do produtor.
O Japão entra na roda do Mercosul: Alckmin disse que o bloco deve abrir negociação de acordo comercial com o Japão.
A JBS entrou no índice da bolsa americana: a dona de marca de hambúrguer passou a fazer parte do Russell 3000, índice que reúne quase todo o mercado de ações dos EUA.
A agricultura familiar também ganhou cifra: o Plano Safra da Agricultura Familiar saiu com R$ 97,3 bilhões, sendo R$ 85,2 bilhões no Pronaf.
Julho entra chutando a porteira no Sul: o Inmet pôs alerta vermelho de temporal na região hoje, com chuva forte, granizo e vento passando de 80 km/h.
SE DIVERTE AÍ
Hoje a brincadeira é de olho de águia. No WhereTaken você recebe uma foto e tem que cravar em que país ela foi batida, a cada palpite o jogo dá a distância e a direção até o lugar certo, e ainda emenda rodadas-bônus pra fechar a conta. Pra quem acompanha pra onde escoam o grão e a carne do Brasil, é prato cheio: dá pra ir lendo na paisagem e no clima quem é cada freguês que abocanha a nossa soja lá fora. Começa pelos que você já conhece de cor.
VIVENDO E APRENDENDO
Resposta da edição passada: China, que sozinha leva de 70% a 80% de toda a soja que o Brasil exporta, é o freguês que dita o ritmo do preço do grão por aqui.
Pergunta de hoje: como é chamada a segunda safra de milho, semeada logo depois da soja na mesma área?
A resposta você fica sabendo na próxima edição!

