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Bom dia!
O Brasil jogou ontem, mas é hoje que o agro entra em campo. Hoje tem o Plano Safra saindo às 10h com o esperado corte de juro, as mulheres tocando 19% das propriedades rurais, a renegociação que nem saiu já travando a compra do adubo, e o boi tendo que tirar RG pra continuar embarcando pra Europa amanhã. No meio disso, o Japão, rival de ontem mas freguês do nosso café, a Ceratti voltando pra mão de brasileiro e a Rússia abrindo a porteira que a Europa fechou. Pra você começar a terça já no ataque.
Pra você começar a terça no ataque.
Por Luciana Stival
Os dados são publicados por BCB. A variação considerada nesta tabela é semanal.
RETRATO DO CAMPO
Elas tocam a fazenda, mas a terra não é delas

Fonte: giphy
No campo, cada vez mais mulher pega no pesado e toca a propriedade, mas na hora de abrir a escritura a conversa muda de figura. Um estudo da Fundação IDH mostra que elas já respondem por 19% das propriedades rurais do país, 947 mil no total, e mesmo assim controlam só 8,5% da área, uns 30 milhões de hectares.
O que explica o buraco é o tamanho do lote. Quase 78% dessas propriedades têm até 20 hectares, terreno pequeno, muitas vezes herdado e colado na agricultura familiar. E o aperto não fica na terra, só 17,4% das mulheres do setor ganham mais de três salários mínimos, contra 29,8% dos homens, e elas ocupam apenas 8,6% das cadeiras nas cooperativas. Quase um terço ainda nem assistência técnica recebe.
Não que esteja tudo parado, longe disso. Na pecuária, o número de mulheres à frente de fazendas de gado cresceu 55% entre 2006 e 2017, chegando a 450,7 mil, e onde elas mandam o time costuma ser mais misto, no café a presença feminina no quadro vai a 43%, contra 24% nas fazendas tocadas por homens. O detalhe é que mais presença ainda não virou mais terra nem mais renda.
Pra quem ainda acha que o agro é coisa de homem, fica o aviso, elas já tocam quase 1 milhão de fazendas. Falta a escritura alcançar a enxada.
ASSUNTO DE GABINETE
Os juros da safra param de ser palpite hoje

Fonte: Sistema FAEP
Pois é, chegou o dia de saber, de verdade, quanto vai custar o dinheiro da safra, sem mais estimativa de bastidor. Às 10h, no Planalto, o governo vai abrir o Plano Safra 2026/27 da agricultura empresarial, e o número que pesa no seu bolso é o corte de juros, pontual, que pode chegar a 1,5 ponto nas linhas de custeio. Quem vai puxar a cerimônia é o Alckmin, presidente em exercício, junto com o ministro André de Paula.
Mas segura a comemoração, porque esse 1,5 ponto é o teto, não o certo pra todo mundo. A principal linha de custeio empresarial tava em 14% ao ano, o Mapa sonhava em devolver os juros pro território de um dígito, mas tem gente na negociação apostando bem menos, uns 0,5 a 1 ponto. A folga que apareceu veio da Selic, que cedeu de 15% pra 14,25%, só que cada ponto que o produtor deixa de pagar é equalização caindo no colo do Tesouro. Cobertor curto.
E o volume, aquela cifra que todo mundo fica de olho? Decepcionou quem queria mais. A oferta deve ficar um pouco acima de R$ 600 bilhões, abaixo dos R$ 623 a R$ 674 bi que o setor pediu e só um tiquinho acima dos R$ 594,4 bi do ano passado. E tem o que mais incomoda, o pacote vem sem nada de novo pro seguro rural nem pra renegociação de dívidas, logo agora que o endividamento no campo mais aperta.
Pra fechar, a régua final ainda vai passar pela reunião extraordinária do CMN de hoje, e as resoluções só vão sair depois das 18h. E olha o tamanho do recado político, pela primeira vez o Lula não vai tocar o lançamento da safra empresarial, vai estar na Cúpula do Mercosul, em Assunção, deixando a cerimônia pro Alckmin. No fim das contas, o corte de juros é a moeda política do dia, mas quem paga a safra é o caixa, não o discurso.
SAFRA DE CIFRAS
A renegociação que nem saiu já travou o adubo

Fonte: giphy
Tem produtor que parou de pagar a parcela do banco apostando que o perdão das dívidas chega antes do oficial de justiça. E essa aposta já tá secando o caixa, no Sicredi os atrasos dobraram em junho, pularam de 8% para 16% ante abril e maio, com oito em cada dez clientes segurando o pagamento pra tentar entrar na renegociação.
A raiz disso é um projeto de lei, o PL 5.122/2023, parado na Câmara, que promete repactuar as dívidas rurais e, de quebra, travou a cabeça de quem deve. Enquanto Brasília não bate o martelo, a inadimplência sobe de verdade, e as carteiras de crédito do agro saíram de um atraso histórico perto de 3% pra algo perto de 15% nos ciclos recentes, é o que calcula a LEK Consulting.
E não para no boleto, não. É a mesma espera pela renegociação que faz o produtor empurrar a compra de insumo com a barriga, e o fertilizante já tá uns 10 pontos abaixo do ritmo normal pelo índice da Veeries, enquanto a venda de máquina agrícola caiu 18% no primeiro quadrimestre. Pra piorar o clima, a SRB saiu repudiando a nova regra do CMN que deixa a prorrogação no critério do banco, o que, pra entidade, larga o produtor na mão da boa vontade da agência.
No fim, é um nó que aperta antes mesmo de o Plano Safra sair, dinheiro caro, perdão sem data e adubo no aguardo, tudo empurrando pra uma safra 26/27 que pode nascer menor, ainda mais com o El Niño rondando. O governo vai largar a corrida de hoje com esse nó pra desatar.
E ESSE TEMPO, HEIN?
O frio agora dói mais no caixa que na lavoura

Fonte: Gestão de Currículos
Aquele aumento que você xingou na fila do hortifrúti em maio tem origem lá no campo, no frio. Os legumes subiram 15,1% no mês ante abril, de R$ 6,89 pra R$ 7,93 o quilo médio, segundo o levantamento da Neogrid, e foi essa turma que puxou a alta dos alimentos no país. Ou seja, o termômetro caiu na lavoura, mas a conta apareceu no seu carrinho.
E não é só a verdura da banca. O leite em pó subiu 9% e o feijão, 5% no mesmo mês, e no acumulado de dezembro a maio os legumes já dispararam 44,2%, com o feijão logo atrás em 26,5% e o leite UHT em 23,9%. A mecânica é velha conhecida de quem tem horta, frio atrasa a maturação e encolhe a oferta, e o que falta na banca sobra no preço da gôndola.
Agora, antes de botar a culpa toda no frio, vale segurar a onda. O mesmo estudo mostra o outro lado, o ovo caiu 6,5%, o café recuou 2,5%, a carne suína e o açúcar também deram uma aliviada. Ou seja, a cesta veio misturada, e o número que assusta é de maio, retrato do passado. O frio que tá chegando agora, com as frentes frias e o ar polar batendo no Sul, é aposta pra frente, não a causa do que já subiu.
O alerta de verdade tem nome, El Niño, que os meteorologistas seguem de olho e que pode bagunçar chuva e temperatura nos próximos meses. Traduzindo pro seu bolso, o hortifrúti é o termômetro mais honesto da economia, quando esfria no campo, esquenta no caixa do mercado.
COMO TA LÁ FORA
Rastrear o boi pode custar 2 anos sem Europa

Fonte: giphy
Imagina ter que provar, no papel, tudo que cada boi comeu desde que nasceu. Pois é exatamente isso que começa a valer amanhã, 1º de julho, quando o Mapa liga um novo sistema de rastreabilidade do uso de antimicrobianos na pecuária, pra dar conta da régua da União Europeia, que tirou o Brasil da lista de quem pode exportar e ainda negou o pedido de transição.
E não dá pra dizer que pegou todo mundo de surpresa. A UE avisou a intenção lá em 2019, formalizou em 2023 e cravou o prazo de adequação pra 3 de setembro de 2026. O problema é a própria natureza do boi, que leva de 24 a 36 meses pra ir do nascimento ao abate e passa por fazenda de cria, recria e engorda, então rastrear desde o começo pode significar uns dois anos parado sem mandar carne pro bloco.
Pra complicar mais, a lista europeia inclui os ionóforos, aqueles aditivos que ajudam o gado a transformar ração em carne no confinamento, e que muito criador não quer largar sem ganhar a mais por isso. Enquanto o boi pena, frango e suíno passam na frente, a ave tem ciclo de uns 40 dias e cadeia integrada, e o porco, de uns 150 dias, deve se ajeitar até o fim de 2026. Já o protocolo que o governo publicou em 1º de junho é, por enquanto, de adesão voluntária e sem número divulgado.
No fim das contas, é a régua europeia redesenhando a pecuária brasileira de fora pra dentro, e enquanto Argentina e Uruguai já são vistos por lá como casas arrumadas no controle do que o gado recebe, o Brasil corre atrás do próprio atraso. Quem não rastrear, não embarca.
NAS CABEÇAS DO AGRO
A mortadela trocou de passaporte

Fonte: CNN Brasil
Olha que reviravolta de prateleira, depois de quase dez anos com dono americano, uma marca de frios com mais de 90 anos de casa voltou pra mão de brasileiro. O Grupo Zanchetta, dono das marcas Alliz, Mondelli e Frangoeste, comprou a Ceratti, aquela tradicional de frios e embutidos de Vinhedo, no interior de São Paulo, que estava com a americana Hormel Foods desde 2017.
E pra Zanchetta isso é bem mais que pôr uma marca no carrinho. A compra marca a entrada do grupo no segmento de suínos, engordando o portfólio multiproteína com processados de maior valor agregado, daquele que rende mais por quilo do que a carne in natura. Quem já tinha o frango com a Frangoeste agora bota mortadela e presunto na cesta. Quem assessorou foi o Banco Santander, e o negócio envolve a empresa inteira.
Antes de soltar o rojão, ficam dois poréns. O valor não foi divulgado, então o tamanho da aposta segue no escuro, e a operação ainda depende do sinal verde do Cade, com as duas tocando separadas até lá. É a letra miúda de toda fusão, o anúncio veio, a fatura regulatória vem depois.
No fundo, é mais um capítulo da consolidação na indústria de proteína do país, com capital nacional reassumindo marca que era de multinacional. Pra quem acompanha o setor, fica a velha pergunta, quem vai dar o próximo lance no tabuleiro dos frios?
PLANTÃO RURAL
Cosan pode largar a Rumo: a Cosan, holding de Rubens Ometto endividada e pressionada a desalavancar, confirmou que avalia alternativas pra sua fatia na Rumo.
Rússia abre a porta pro boi: a Rússia reconheceu o Brasil como livre de aftosa sem vacinação, depois da China no começo de junho.
EUA querem boi mais magro: a demanda americana por carne bovina magra pode beneficiar o exportador brasileiro.
Chicago no vermelho: soja e milho abriram a semana em queda na bolsa de Chicago nesta segunda (29), num começo sem muito apetite pros grãos.
Girassol troca grão por árvore: a Girassol Agrícola (R$ 1,1 bi, MT) virou a maior dona individual de floresta do estado.
Suinocultura em alerta: surtos de rotavírus C estão crescendo e acenderam o sinal amarelo na criação de suínos.
Embalagem mais verde: a Melhoramentos vai botar R$ 40 milhões numa fábrica de embalagens sustentáveis.
SE DIVERTE AÍ
Hoje a brincadeira é de logística pura. No Travle você recebe dois países e precisa ligar um ao outro nomeando, um a um, os vizinhos de fronteira no caminho, tipo traçar a rota do grão do talhão até o porto, só que no mapa-múndi. Verde é trajeto mais curto, amarelo é desvio que vale, vermelho é divisa que não existe. Pra quem acompanha pra onde vai a soja e a carne do Brasil, é prato cheio: dá pra cruzar continente inteiro só puxando pela memória de quem faz fronteira com quem.
VIVENDO E APRENDENDO
Resposta da edição passada: cerca de 9 meses, em média 283 dias, quase o mesmo tempo de uma gestação humana, e por isso o produtor consegue programar a temporada de nascimentos no curral.
Pergunta de hoje: qual país é o maior comprador da soja brasileira?
A resposta você fica sabendo na próxima edição!
