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Bom dia!
A semana começa gelada. Hoje tem a geada que desceu pelo Sul e cobrou a fatura de quem plantou milho tarde, a tarifa de 25% dos EUA que não morde o agro inteiro, só algumas cadeias com o etanol no centro do ringue, e o Plano Safra, que amanhã abre o cofre às 10h. No meio disso, um nariz eletrônico que fareja percevejo na soja, o feijão que desinflou na panela e o frango de MS que disparou bem acima da média nacional.
Pra você já acordar bem informado e com o cérebro aquecido para enfrentar o frio.
Por Luciana Stival
TÁ QUANTO?
E ESSE TEMPO, HEIN?
O frio cobrou a fatura do plantio atrasado

Fonte: giphy
Quem plantou milho depois do carnaval no Paraná passou o fim de semana com um olho na lavoura e outro no termômetro. A frente fria que desceu pelo Sul derrubou geada bem na fase de enchimento de grãos, justo nas áreas semeadas depois de 20 a 25 de fevereiro, as tais lavouras de baixada que sempre levam a pior quando o frio aperta.
Cerca de 15% das áreas do Paraná entraram na zona de risco. Risco, repare bem, não é perda fechada, ainda não há quantificação oficial do estrago. Em Mato Grosso do Sul a conta apareceu mais redonda, a Aprosoja/MS e a Famasul calculam 29,2% das lavouras comprometidas, com a região Centro mandando 23,8% das áreas para o time das ruins, numa safra estadual estimada em 11,139 milhões de toneladas.
Enquanto o Sul agasalha o trator, o Centro-Oeste vive o problema oposto. Em Mato Grosso a colheita do milho patina perto de 30% (no norte, uns 40%), atrapalhada por umidade, chuva e fila de caminhão, mesmo com a comercialização da safrinha já passando da metade. E o pior do inverno pode nem ter chegado, outra frente fria com ar polar vem trazendo chuva, granizo e temperatura baixa para Sul, Sudeste e Centro-Oeste.
O instinto é gritar quebra de safra, mas o número ainda não autoriza o pânico, área em risco só vira perda depois que o gelo derrete e alguém vai a campo contar planta morta. Por ora, fica o aviso pra quem semeou tarde e a conta pra quem compra grão. Geada não pede licença pra entrar no talhão.
POR DENTRO DO MERCADO
Cana e milho vão dividir a mesma usina

Fonte: Campo Grande News
Botar a primeira pedra de uma fábrica é o evento mais fotogênico do mundo corporativo, muita pá dourada, capacete novo e zero produção. É o que a Atvos, a antiga Odebrecht Agroindustrial hoje nas mãos do fundo Mubadala, faz nesta quarta em Nova Alvorada do Sul, ao lançar a pedra fundamental da sua primeira usina de etanol de milho.
O projeto é a primeira operação a juntar cana e milho na mesma planta, a Unidade Santa Luzia, com investimento acima de R$ 1 bilhão. No papel, a usina vai processar 642 mil toneladas de milho por ano e devolver 273 milhões de litros de etanol, mais 183 mil toneladas de DDG (aquela ração que sobra do processo) e 13 mil toneladas de óleo de milho, com cerca de 2 mil empregos prometidos.
O CEO, Bruno Serapião, vende a ideia que juntar as duas matérias-primas derrubaria até 10% do custo de produção, numa aposta de que a mistura obrigatória de etanol suba para 35% com a Lei do Combustível do Futuro. Faz sentido em MS, que já é o segundo maior produtor de etanol de milho do país, com 2,128 bilhões de litros e alta de 33,9%. O detalhe que a pá dourada não mostra é o calendário, a operação só roda em 2028.
E aí mora a pergunta de R$ 1 bilhão, mais usina de milho é mais boca disputando o mesmo grão que vai pro prato, pra ração e pro porto. Pedra fundamental rende ótima foto. O milho que vai abastecer tudo isso ainda está pra ser colhido.
SAFRA DE CIFRAS
A soja rica que insiste em sair barata

Fonte: Campo Grande News
Vender soja em grão é mais ou menos exportar farinha e importar o pão de volta, o lucro gordo fica sempre do outro lado do balcão. É o que Mato Grosso do Sul ainda faz, mesmo com seis esmagadoras instaladas e uma sétima em obra.
Um estudo da Aprosoja/MS mostra que o estado embarca 43% da soja como commodity, pura, sem virar farelo nem óleo. As seis indústrias (Coamo e Bunge em Dourados, ADM em Campo Grande, Cargill em Três Lagoas, Lar em Caarapó e Rio Pardo em Sidrolândia) processam 6,3 milhões de toneladas por ano, e a conta dos pesquisadores aponta 1,71 milhão de toneladas sobrando para uma nova fábrica esmagar.
A tese é tentadora, esmagar dentro de casa agrega valor, gira farelo para o frango e óleo para o biodiesel, e diminui a exposição ao sobe e desce da commodity. O problema é que fábrica não nasce só de vontade. O retorno depende do crush spread (a margem entre o grão comprado e os produtos vendidos), da tributação e de quem vai comprar o farelo no fim, e ainda tem o gargalo do armazém, faltam cerca de 12,4 milhões de toneladas de capacidade de armazenagem no estado.
Ou seja, a soja sul-mato-grossense vale mais do que entrega, mas transformar potencial em margem é obra de anos, não de PowerPoint. Por enquanto, o grão continua pegando o porto antes de pegar valor.
ASSUNTO DE GABINETE
Amanhã o agro descobre o tamanho do cofre

Fonte: Canal Rural
Toda véspera de Plano Safra tem o mesmo clima de fim de novela, todo mundo já sabe que vai sair, ninguém sabe com qual número. O Plano Safra 2026/27 da agricultura empresarial sai nesta terça, às 10h, com o da agricultura familiar à tarde.
A apuração do jornalista Fausto Ribeiro, no Canal Rural, fala em algo perto de R$ 652 bilhões, o que seria uns 10% acima dos R$ 516,2 bilhões da temporada passada. Mas vale segurar a empolgação, as estimativas de bastidor variam de R$ 570 a R$ 652 bilhões, e a CNA já entregou ao ministério um pedido na casa dos R$ 570 bilhões.
Tem ainda o detalhe protocolar, Lula não estará na cerimônia da manhã, vai à Cúpula do Mercosul em Assunção, o que esvazia um pouco o palanque do anúncio. E a cifra bonita esconde a parte chata, com juro alto, cada real de crédito subsidiado custa mais caro para o governo equalizar, então número grande no slide não vira automaticamente taxa camarada na ponta. O grosso desse bolo é crédito, não mesada, e a taxa de cada linha pesa mais no caixa do produtor do que a manchete bilionária.
Por isso o que importa amanhã não é só o tamanho do bolo, e sim quanto dele vem com juro de verdade controlado. O cofre abre às 10h. A pergunta que fica não é quanto, e sim a que custo.
COMO TA LÁ FORA
A tarifa americana não é o que parece?

Fonte: giphy
Quando o Tio Sam ameaça taxar em 25%, o instinto é imaginar o agro inteiro no paredão. Acontece que a proposta dos Estados Unidos, aberta sob a Seção 301 (a regra que Washington usa para retaliar o que considera comércio desleal), não é um carimbo automático em tudo que sai do Brasil.
A própria lista entrega o jogo. Ficaram poupados da tarifa café, carne bovina, frutas, suco de laranja, fertilizantes e aeronaves, justamente o filé das exportações. Quem está exposto é outro grupo, com o etanol no centro do ringue, porque os EUA alegam que o Brasil cortou em 2017 o tratamento tarifário que dava ao etanol americano.
Os números ajudam a medir o tamanho. Em 2025 o agro brasileiro exportou US$ 169,2 bilhões, e os EUA foram o terceiro maior destino, com US$ 11,4 bilhões, ou 6,7% do total. Em maio deste ano, as compras americanas caíram para US$ 837 milhões, 28% abaixo do mesmo mês de 2025. (Coberturas de 24/06, fora da nossa janela, também colocavam açúcar e pescados na lista de expostos, fica como contexto, não como dado da semana.)
O relógio corre, os comentários vão até 1º de julho, a audiência é em 6 de julho e a tarifa pode valer a partir de 15 de julho. A lição para o exportador é não generalizar o susto, porque aqui o estrago é por cadeia, não no atacado. Antes de calcular o prejuízo, vale conferir o código tarifário do próprio produto. O diabo, como sempre, mora na linha da planilha.
PLANTÃO RURAL
CMN mexe no Proagro: o Conselho Monetário Nacional atualizou os adicionais do Proagro, prometendo custo menor e controle maior; os novos índices valem a partir de 1º/07, já na safra 26/27.
PL 5122 vira armadilha de espera: advogado alerta que segurar a renegociação da dívida rural esperando o PL 5122/23 sair é apostar alto, o projeto pode demorar e a conta não.
O nariz eletrônico da soja: pesquisadores criaram nanossensores que identificam o percevejo pelo cheiro e podem reduzir o uso de inseticida, um cão farejador em versão de laboratório.
O frango de MS dispara: o abate de frangos cresceu 7,7% no estado, mais de três vezes a média nacional, Mato Grosso do Sul botou a asa pra fora.
Trigo encolhe, importação cresce: a área brasileira de trigo deve cair para ~2 mi ha (de 2,5 mi) e o país pode importar mais 7 mi t em 2027, o pão de cada dia vindo de fora.
O feijão desinflou: o carioca tipo 9, que chegou a R$ 500 a saca, recuou para R$ 375–415, com o comercial girando R$ 350–370, alívio na panela do brasileiro.
SE DIVERTE AÍ
No Worldle aparece só a silhueta de um país e você tem seis tentativas pra cravar qual é; a cada chute o jogo mostra a distância e a direção do território certo, e você vai se aproximando que nem quem acha a porteira pelo faro. Bom pra quem acompanha o agro lá fora: dá pra sacar onde moram os gigantes da soja, do café e da carne só pela forma no mapa. Começa chutando pelos continentes que você manja de cor e vai deixando o palpite fino pros vizinhos de fronteira.
VIVENDO E APRENDENDO
Resposta da edição passada: Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, a estatal de pesquisa do agro, criada em 1973 e ligada ao Ministério da Agricultura.
Pergunta de hoje: quanto tempo dura, em média, a gestação de uma vaca?
A resposta você fica sabendo na próxima edição!
