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Bom dia!

Hoje tem produtores de alho cortando área e preparando pedido de antidumping contra a Argentina, Vale anunciando o primeiro navio transoceânico movido a etanol do mundo e agtech suíça chegando ao Brasil com equipamento que pulveriza planta por planta com 95% de economia. No meio disso, a Fictor Alimentos entra em recuperação judicial, a ONU quer capacitar 600 agricultores em Rondônia e o leite importado virou pauta no Congresso.

Pra você acordar bem informado

Por Enrico Romanelli

TÁ QUANTO?

MERCADO
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IFIX 3.931,06 4,03%
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JALL3 R$3,14 13,36%
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BBGO11 R$75,50 9,58%
ETF OURO R$25,19 1,70%
Bitcoin US$77.458,07 -12,32%

Os dados são publicados por BCB e Brapi.
As variações são calculadas em YTD (Year to date)

NAS CABEÇAS DO AGRO

Alho brasileiro perde área, sobra nos galpões e pede socorro

Foto: Anapa/Divulgação

O alho brasileiro entrou em 2026 com cheirinho de problema. A Associação Nacional dos Produtores de Alho (Anapa) tá dizendo que a área plantada vai cair de 15% a 20% só nesse ano, depois de uma safra que ficou marcada pelo excesso de produto, preços derretendo e produtor levando prejuízo pra casa no lugar do lucro.

No centro da bronca tá o alho argentino, que entra no Brasil sem tarifa por causa do Mercosul e, segundo os produtores, vem sendo vendido abaixo do custo de produção. A associação já prepara um pedido de antidumping até maio, porque a sensação no setor é de que o jogo tá rolando com um time de chuteira e o outro descalço.

O que tá deixando o produtor revoltado não é exatamente a importação em si, mas a forma que essa disputa tá acontecendo.

  • Segundo a Anapa, a Argentina mandou pro Brasil 10 milhões de caixas de 10 kg em 2024, mais 8,7 milhões em 2025 e deve voltar a passar dos 10 milhões nesse ano.

  • O Brasil consome 360 mil toneladas de alho por ano e ainda precisa importar uma parte importante desse volume, já que produz só 172,8 mil toneladas por ano, mas quando esse alho chega barato demais, o mercado satura e o produto nacional empaca.

  • Em 2025, as nossas importações cresceram 9,1% e chegaram a 158,8 mil toneladas, com a Argentina liderando esse fluxo.

O problema é que o alho brasileiro não é exatamente uma cultura barata de manter em pé. Entre semente livre de vírus, irrigação, câmara fria, mão de obra e manejo tecnificado, o custo por hectare passa fácil dos R$ 120 mil e, em muitos casos, encosta ou passa dos R$ 200 mil. Do outro lado da fronteira, o alho argentino tem uma vida bem mais mansa, com clima mais favorável, menos necessidade de tecnologia e um custo mais tranquilo pro bolso dos produtores.

No campo, essa pressão já tá virando corte de área e ameaça de desistência. Em São Gotardo (MG), o produtor José Reinaldo da Cunha reduziu o plantio de 120 pra 80 hectares e disse que, se nada mudar, esse pode ser seu último ano no alho. Em Cristalina (GO), a Wehrmann vai cortar de 550 pra 500 hectares e o presidente da Anapa, Rafael Corsino, vai encolher sua própria área de 150 pra 95 hectares.

No Sul, o cenário tá ainda mais espremido. Produtores seguem com boa parte da safra de 2025 parada nos armazéns, numa região em que o alho é cultivado em grande parte por agricultores familiares e movimenta a economia de cidades inteiras.

E aí mora o drama. O Brasil avançou muito na produtividade do alho, saiu do fundo do quintal pra lavoura profissional e hoje colhe bem mais graças à tecnologia. Só que, quando o mercado interno é inundado por produto importado mais barato, toda essa eficiência começa a perder propósito e rentabilidade. O alho brasileiro tá fazendo o que pode, mas tá cada vez mais difícil competir quando o preço vira o único tempero que o mercado quer sentir.

SAFRA DE CIFRAS

Empresa suíça traz a precisão dos relógios pra pulverização

Foto: Divulgação

A Ecorobotix tá chegando no Brasil com uma proposta que, no agro, parece quase uma afronta ao velho costume da aplicação padronizada e calendarizada. A agtech suíça desembarcou oficialmente por aqui em março com o ARA, um equipamento de ultraprecisão que usa sensores, câmeras e inteligência artificial pra aplicar defensivos planta por planta, mirando reduzir os custos em até 95%. É a velha pulverização, só que com alma de relojoeiro suíço e zero paciência pra desperdício.

A lógica da máquina é justamente tratar cada planta como se fosse um cliente VIP. O sistema Plant by Plant usa flashes, câmeras RGB e 3D e algoritmos pra diferenciar cultura de planta daninha, acionando os bicos em áreas de 6 por 6 centímetros. A empresa diz que isso permite até aplicar herbicidas não seletivos com a lavoura já instalada, sem transformar a área toda num experimento radical. E como o sistema opera meio encaixotado, ainda reduz bastante a deriva.

Pelo menos no começo, o foco da Ecorobotix no Brasil é no mercado de hortifrúti, onde ela vê produtores mais tecnificados e com mais apetite pra investir num equipamento que deve custar por volta de R$ 1 milhão. A empresa promete que o ARA pode ser usado com herbicidas, fungicidas, fertilizantes e bioestimulantes, mas o sonho maior já tá bem desenhado no mapa. Soja, milho e algodão. O problema é que, por enquanto, a máquina ainda vem com barra de 6 metros e velocidade de 7,2 Km/h, o que, no padrão brasileiro de grandes áreas, é mais ou menos como querer secar uma enchente com rodinho. A empresa já diz que tá trabalhando pra trazer barras de 24 metros pra começar a conversar de igual pra igual com esse mercado.

Mesmo assim, a chegada ao Brasil não é chute no escuro. A Ecorobotix já vendeu mil unidades do ARA, opera em cerca de 30 países, soma 138 mil hectares atendidos e levantou mais de US$ 200 milhões em rodadas recentes, com Basf e Yara no grupo de investidores. Os primeiros equipamentos devem chegar ao país a partir de setembro. Se o defensivo tá caro, o produtor não quer mais pulverizar por atacado. Quer errar menos, gastar menos e parar de tratar mato e cultura como se fossem tudo farinha do mesmo saco.

ASSUNTO DE GABINETE

Projeto pra frear leite importado avança e chega na mesa do Congresso

Gif: Giphy

Já tem um tempo que o leite importado virou mais um motivo de azia no setor, abaixando os preços pagos aos produtores daqui e ameaçando o sustento de muita gente, e agora o Congresso resolveu entrar na conversa pra dar um jeito nessa bagunça. Um projeto de lei que proíbe órgãos públicos de comprarem leite importado avançou na Câmara depois de receber sinal verde na CCJC. A exceção só vale se não houver produto nacional disponível, e mesmo assim o órgão vai ter que explicar direitinho por que resolveu buscar o leite lá fora.

Esse movimento tá chegando no embalo da pressão cada vez maior dos produtores, que já tão há uma eternidade reclamando. Eles dizem que o jogo ficou difícil demais por causa das margens esmagadas e concorrência externa num momento em que a conta já anda apertada demais.

Segundo o Cepea, o preço pago ao produtor caiu mais de 25% em 2025 e fechou o ano em R$ 1,99 por litro, um valor que pra muita gente já não fecha nem a conta da ração, muito menos a da paciência. O resultado disso é um filme que já tá bem conhecido do agro, pequeno produtor desistindo da atividade e a cadeia inteira ficando mais apreensiva pra decidir os próximos passos.

No meio dessa briga, os parlamentares também querem empurrar medidas antidumping contra o leite em pó importado da Argentina e do Uruguai. A investigação já foi aberta em 2024, e o setor agora pede medidas provisórias enquanto o processo segue em análise no MDIC.

COLHENDO CAPITAL

Fictor entra em recuperação judicial e ganha 180 dias pra respirar

Foto: Divulgação

A Fictor Alimentos entrou oficialmente no processo de recuperação judicial do Grupo Fictor e ganhou um tempinho pra respirar sem ter que se preocupar com credor batendo na porta. A decisão da Justiça de São Paulo colocou a empresa, principal subsidiária do grupo, no pacote de consolidação substancial com as outras companhias envolvidas. Na prática, começa aquele roteiro já conhecido do mundo corporativo em crise, 180 dias de proteção contra ações e execuções, 60 dias pra apresentar um plano de recuperação e bastante excel pela frente.

Durante esse período, conhecido como stay period, ficam suspensas todas as cobranças judiciais e os atos de constrição sobre os bens das empresas do grupo. A Justiça também nomeou a Laspro Consultores como administradora judicial e a PwC como agente de monitoramento, o que significa que a Fictor vai passar um bom tempo prestando conta de tudo com lupa em cima. O processo vem na sequência de um movimento iniciado em fevereiro, quando a empresa pediu pra ser incluída na recuperação da holding, que já alegava crise de liquidez depois da tentativa de compra do Banco Master.

O detalhe é que a Fictor Alimentos não é uma pecinha qualquer nesse tabuleiro. Ela responde por cerca de 70% da receita do grupo, que faturou R$ 3,5 bilhões em 2024, e vinha apostando pesado no setor de proteína animal e na compra de empresas em dificuldade. Agora, a ironia resolveu sentar à mesa. A companhia que vinha crescendo em cima de ativos problemáticos entrou ela mesma no modo reorganização.

MENTES QUE GERMINAM

ONU quer capacitar 600 agricultores em Rondônia com foco nelas

Gif: TheWadeEmpire2 on Giphy

A ONU resolveu colocar o pé na lama em Rondônia com um projeto que quer capacitar cerca de 600 agricultores familiares e dar mais força pras cadeias do café e do cacau em 6 municípios do estado. O foco da iniciativa tá especialmente nas mulheres empreendedoras, com a ideia de ampliar participação, renda e autonomia delas dentro de um pedaço do agro onde muita gente ainda trabalha muito e aparece pouco.

A iniciativa vai ter capacitação técnica, criação de Unidades de Referência Tecnológica, incentivo à sustentabilidade ambiental e adoção de sistemas agroflorestais. O projeto é liderado pela Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (UNIDO), tem apoio técnico da FAO e da ONU Mulheres, coordenação do governo de Rondônia e financiamento que vem direto do Canadá. É bastante sigla, mas a ambição também é grande.

Além da parte produtiva, o pacote também tem fortalecimento da governança territorial e capacitações em temas como prevenção à violência e abuso. Ou seja, a proposta não quer só melhorar a lavoura, quer mexer também nas condições que cercam quem tá nela.

PAUTA VERDE

Vale quer cruzar o oceano com etanol no tanque

Gif: Giphy

A Vale resolveu mexer num dos territórios mais fiéis ao petróleo e anunciou o que chama de primeiro navio transoceânico do mundo movido a etanol. O acordo com a Shandong Shipping prevê a construção de 2 novos navios Guaibamax, com entrega a partir de 2029, e coloca a mineradora numa aposta daquelas que fazem o setor marítimo olhar 2 vezes pra ter certeza de que leu direito. Sim, o plano é colocar biocombustível pra empurrar minério de ferro mar adentro e mostrar que até um navio gigante pode começar a frequentar a agenda da descarbonização sem desculpa.

Segundo a Vale, o uso do etanol pode cortar em cerca de 90% as emissões de gases de efeito estufa em comparação com o óleo combustível pesado, pelo menos no caso do etanol de segunda geração. Esses novos Guaibamax terão 340 metros de comprimento, capacidade pra 325 mil toneladas e uma lógica bem pragmática de transição, porque além do etanol também poderão usar metanol e óleo pesado, com possibilidade futura de conversão pra GNL ou amônia. Dá até pra dizer que a Vale tá tentando não casar com um combustível só e já tá deixando o relacionamento aberto pra transição energética.

Além do etanol, a nova geração vai ter 5 velas rotativas pra aproveitar energia do vento, motores mais eficientes e um pacote de melhorias pra cortar consumo e emissões. A Vale calcula que só esse combo tecnológico já reduza em cerca de 15% as emissões frente à geração atual dos Guaibamax. Quando até navio cargueiro começa a flertar com etanol, é porque o velho reinado do combustível fóssil já não tá tão confortável assim.

PLANTÃO RURAL

SE DIVERTE AÍ

Hora de dar um descanso pros números e espremer o cérebro em outra lavoura: o vocabulário. Hoje a pedida é o Termo, aquele jogo em que você tem 6 tentativas pra adivinhar a palavra do dia. Vale combinar com o pessoal da fazenda, do escritório ou da república e ver quem acerta primeiro. Depois do café, já sabe: abre o Termo, chuta uma palavra qualquer e deixa a cor dos quadradinhos dizer se sua cabeça tá mais pra lavoura bem manejada ou pra área que precisa de reforço técnico.

VIVENDO E APRENDENDO

Resposta da edição passada: Batata

Pergunta de hoje: Qual fruta brasileira foi levada para a Índia pelos colonizadores portugueses e virou parte de pratos típicos locais?

A resposta você fica sabendo na próxima edição!

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