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Bom dia!
A gente tarda mas não falha. Hoje tem acordo Mercosul-UE que finalmente saiu do papel e entra em vigor na sexta, Brasil que colhe como potência mas ainda tá devendo na hora de guardar e cannabis medicinal que começa a trocar o debate pelo laboratório e mira um mercado de R$ 1 bilhão por ano. No meio disso, a Solinftec chega na Agrishow com IA que age antes do problema estourar, a Suzano lucra 32% menos no trimestre e a Selic cai mais 0,25 ponto mas sem festa.
Pra você acordar bem informado
Por Enrico Romanelli
TÁ QUANTO?
POR DENTRO DO MERCADO
Brasil colhe como potência, mas ainda armazena como quem tá improvisando

Foto: Kepler Weber/Divulgação
O agro brasileiro colhe e produz com força, mas na hora de guardar a produção ainda tá devendo. Segundo a Kepler Weber, o país precisaria investir R$ 148 bilhões pra zerar o déficit de armazenagem e conseguir guardar tudo o que deve sair da safra 2025/26. A conta do aperto também assusta, faltam espaço e estrutura pra 135 milhões de toneladas de grãos. É muita soja, milho e companhia vivendo sem teto.
Hoje, a capacidade estática do país atende 223 milhões de toneladas, mas a produção estimada já bate 357 milhões. Aí não tem mágica, tem correria. Como a safra cresce mais rápido do que a armazenagem, muita gente acaba vendendo na pressa só pra liberar espaço ou apelando pra armazenamento a céu aberto, que é quase o agro dizendo “deixa ali por enquanto e depois a gente vê”. A Kepler calcula que o Brasil precisaria de mais 7 mil armazéns pra fechar esse buraco, mas só tá botando de pé 2 mil por ano. Então, pra zerar esse gargalo, o trampo teria que ser feito no estilo JK, 5 anos em 1.
O problema fica ainda mais caro porque o Brasil também armazena pouco dentro da fazenda. Só 16% das unidades armazenadoras estão dentro da porteira, contra 65% nos Estados Unidos e 40% na Argentina. Ou seja, além de colher muito, o produtor brasileiro ainda precisa rodar mais com a produção, gastar mais com frete e perder margem num momento em que escolher melhor a hora de vender podia fazer diferença. A indústria diz que até tem capacidade pra produzir mais silo, mas o crédito segue curto, o juro continua indigesto e o investimento de longo prazo anda mais difícil de descer do que papo de banco em feira do agro.
ATUALIZAÇÃO RURAL
Solinftec chega à Agrishow querendo mostrar que IA no campo não é só moda

Foto: Divulgação/Solinftec
A Solinftec apareceu na Agrishow 2026 com aquela energia de quem não quer só participar da conversa sobre tecnologia no agro, mas puxar a cadeira da cabeceira. A empresa lançou a Alice Multiagentes, uma plataforma de inteligência artificial com agentes especializados em clima, manutenção, logística, plantio e colheita, todos trabalhando juntos pra tentar transformar o perrengue premium de uma fazenda grande em decisão útil. A proposta é fazer a IA parar de esperar pergunta e começar a agir antes que a máquina trave, a chuva chegue ou a janela de plantio feche na cara do produtor.
O grande argumento da Solinftec é que ela não tá vendendo só inteligência artificial com nome simpático e interface bonitinha, tá vendendo uma montanha de dados organizados há anos, coisa que, segundo a própria empresa, é o grande trunfo do negócio. São quase duas décadas de operação, presença em 14 países, 70 mil máquinas monitoradas, 250 mil operadores e mais de 13 milhões de hectares acompanhados.
Na prática, a Alice quer funcionar como aquela pessoa da equipe que vê tudo, lembra de tudo e ainda manda mensagem antes da confusão começar. Se a máquina tá dando sinal de problema, ela avisa. Se o clima tá virando, ela sugere mudar o manejo. Se a logística tá pra dar BO, ela tenta reorganizar o baile antes que a operação vire treta generalizada no grupo do WhatsApp. A Solinftec diz que o sistema fala com o produtor pelo celular, pelo relógio, pelo computador de bordo e até pelo próprio WhatsApp, então de algum jeito o produtor vai receber a informação.
A ambição financeira também veio sem freio de mão puxado. A meta da empresa pra 2026 é passar dos R$ 500 milhões em faturamento, depois de já ter superado R$ 430 milhões em receita recorrente anualizada e mais de R$ 100 milhões de EBITDA. Pra bancar esse crescimento, a Solinftec já levantou R$ 1,5 bilhão entre rodadas e emissões de CRA. E como ninguém tá nadando em caixa no agro atual, a empresa ainda criou um modelo pra usinas contratarem tecnologia usando crédito de PIS/Cofins, sem desembolso imediato.
Além da Alice, a empresa levou pra feira os robôs da família Solix e reforçou a tese de que a fazenda não precisa de mais máquina só por ter máquina, precisa de mais inteligência por hectare. A Solinftec segue fortíssima em cana, mas quer crescer mais em grãos, café, citros e florestas, e ainda anunciou seu primeiro contrato no México. No fundo, ela tá tentando se vender menos como software e mais como cérebro operacional da fazenda. E num agro em que falta gente, sobra variável e a margem anda mais apertada que botão de camisa em almoço de domingo, qualquer tecnologia que consiga pensar antes do problema estourar já entra em campo com alguma vantagem.
NAS CABEÇAS DO AGRO
Biogás de suíno tá mudando a rotina de criadores no interior de Pernambuco

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No Agreste Meridional de Pernambuco, 20 pequenos suinocultores tão descobrindo que porco também pode ajudar bastante fora do chiqueiro. Um projeto piloto bancado por Sebrae-PE e Adepe, com investimento de R$ 327 mil, instalou biodigestores nas propriedades pra transformar fezes dos animais em biogás e biofertilizante. Na prática, o que antes era problema de manejo agora tá virando gás pra cozinhar, adubo pra lavoura e uma bela ajuda pra aliviar a conta da propriedade.
Cada biodigestor consegue gerar de 2 a 4 botijões por mês, dependendo do tamanho da criação, e os produtores atendidos já cozinham 100% com esse gás, deixando pra trás lenha, carvão e botijão comprado. Além disso, os resíduos do processo tão sendo usados pra adubar palma e milho, que depois ainda entram na alimentação dos próprios bichos. É um ciclo que faz sentido até demais, o porco ajuda a alimentar a casa, aduba a lavoura e ainda dá uma força pra alimentar outros porcos depois.
O projeto também puxou melhorias no manejo e na tecnificação das criações, com meta de reduzir em até 15% os custos de produção e cortar em 12% o tempo até o abate. Pra quem vive no aperto do sítio, isso pesa bastante. Em Lajedo e São Bento do Una, por exemplo, já tem produtor sentindo uma boa economia na cozinha e criando planos de ampliar a criação pra manter o gás saindo com regularidade.
SAFRA DE CIFRAS
Suzano lucra 32% menos no trimestre e o eucalipto não fez milagre dessa vez

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A Suzano fechou o 1º trimestre de 2026 com lucro líquido de R$ 4,3 bilhões, uma queda de 32% na comparação com o mesmo período do ano passado. A receita líquida também veio pra baixo e somou R$ 10,97 bilhões, um recuo de 5%. Não chega a ser um desastre, mas também passou longe de ser um trimestre pra estourar champanhe e comemorar.
Mesmo assim, a operação segue mostrando que ainda tem bastante músculo. O Ebitda ajustado ficou em R$ 4,58 bilhões, baixa de 6%, e a margem permaneceu em 42%, o que mostra que a companhia ainda tá conseguindo segurar bem a onda mesmo com vento contra. A empresa também disse que conseguiu amortecer parte da alta dos combustíveis, puxada pelas tensões no Oriente Médio, usando hedge.
Do lado comercial, a história ficou um pouco mais simpática. As vendas de celulose cresceram 7% e chegaram a 2,84 milhões de toneladas, com a Ásia e a América do Norte puxando a fila, enquanto o preço médio líquido subiu 1% e bateu US$ 560 por tonelada. A dívida líquida foi pra US$ 13 bilhões, com a alavancagem em dólar subindo pra 3,3 vezes, então a conta ainda pede atenção. Ou seja, a Suzano segue vendendo bem, mas o balanço mostra que o trimestre teve mais cara de manejo fino pra manter a floresta em pé do que de passeio tranquilo entre eucaliptos.
ASSUNTO DE GABINETE
Mapa turbina o Zarc, dá bônus pra lavoura bem cuidada e ajuda o seguro rural

Foto: Freepik
O Mapa resolveu mexer no Zarc Níveis de Manejo e basicamente mandou o seguinte recado pro campo: quem faz o dever de casa direito merece entrar no seguro com tratamento melhor. A 2ª fase do programa, que foi aprovada agora, amplia a cobertura pra mais estados, inclui o milho safrinha e eleva a subvenção do prêmio do seguro rural pra até 50% pra quem mostra que não tá tocando o solo no freestyle. Na soja, o modelo agora alcança também Mato Grosso do Sul, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, além do Paraná. No milho de 2ª safra, entra no Paraná e em Mato Grosso do Sul.
A lógica do programa é quase um cashback da boa prática agrícola. Quem tiver área classificada com manejo melhor recebe incentivo maior no prêmio do seguro. Os percentuais passam a 30% pro NM2, 35% pro NM3 e 40% pro NM4. No caso do milho safrinha, os produtores com áreas nos níveis 3 e 4 podem chegar a até 50% de subvenção, o maior percentual do programa. Quanto mais o produtor cuida do solo, mais o governo ajuda na conta. O solo agradece, a apólice sorri e o risco dá uma recuada.
Outra mudança importante é que agora a classificação das áreas no sistema da Embrapa pode ser feita antes, o que dá mais previsibilidade pra produtor e seguradora e ajuda a calibrar melhor o risco. A ideia é parar de colocar tudo no mesmo saco e reconhecer que área bem manejada segura melhor o tranco quando o clima resolve bancar o roteirista de filme de desastre.
O ZarcNM tá tentando colocar uma afirmação simples no centro da política agrícola: lavoura bem cuidada não tem que pagar a conta da lavoura largada. Num país em que seca, excesso de chuva e susto climático já aparecem toda hora, qualquer ferramenta que premie quem faz a lição de casa já chega com moral.
DE OLHO NO PORTO
Mercosul e União Europeia finalmente saem da enrolação e o agro já tá de olho

Gif: Giphy
Depois de anos de vai, não vai, assinatura, reza brava e diplomata gastando sola de sapato, o acordo entre Mercosul e União Europeia finalmente foi promulgado no Brasil e entra em vigor na sexta-feira (1º). Na prática, isso coloca pra rodar uma das maiores zonas de livre comércio do mundo, conectando mais de 720 milhões de pessoas dos dois lados do Atlântico. E se tem um setor que ouviu isso e já abriu a calculadora com brilho no olho, esse setor atende por agro brasileiro.
O acordo promete facilitar a vida de quem exporta, com redução e até eliminação de tarifas, menos barreira comercial, regras sanitárias mais alinhadas e processos aduaneiros que, em tese, devem parar de agir como se cada contêiner fosse suspeito de crime internacional. Carnes, açúcar e etanol aparecem entre os produtos que podem sair na frente nessa nova fase. O agro já tá olhando pra Europa como quem vê uma porteira finalmente destrancada depois de anos emperrada.
A ApexBrasil estima que o tratado pode acrescentar cerca de US$ 7 bilhões às exportações brasileiras, além de ajudar a diversificar o cardápio do que o país vende lá fora. Claro que nem todo mundo vai comemorar do mesmo jeito, até porque parte da indústria deve sentir mais a pressão da concorrência europeia por aqui. Mas no agro o sentimento é de alívio misturado com ambição. Depois de tanto tempo falando “acho que agora vai”, parece que dessa vez foi mesmo.
PAUTA VERDE
O Brasil pode estar perdendo um mercado bilionário na cannabis medicinal

Foto: Globo Rural
A cannabis medicinal tá começando a trocar a fumaça do debate pelo cheiro de laboratório, investimento e oportunidade de negócio no Brasil. Depois de a Anvisa aprovar neste ano o cultivo pra fins terapêuticos por pessoas jurídicas, além de permitir venda em farmácias de manipulação e fabricação de produtos de uso bucal, sublingual e dermatológico, o setor ganhou um empurrão regulatório daqueles que fazem muito investidor levantar a sobrancelha. E como os Estados Unidos também mexeram nas regras e aliviaram a classificação da substância por lá, o assunto ficou ainda mais global e menos escondido no fundo da gaveta.
Hoje, o Brasil já tem cerca de 49 produtos de cannabis medicinal que são autorizados, ligados a 24 empresas, mas a maior parte ainda vem de fora e chega com preço de item premium. Segundo a Abicann, esse mercado já movimenta algo perto de R$ 1 bilhão por ano, com os produtos custando entre R$ 500 e R$ 1.800. A leitura do setor é que esse dinheiro podia ser usado pra bancar pesquisa, cultivo, extração e inovação aqui dentro, em vez de sair do país embalado em dólar.
Só que não adianta achar que amanhã já vai ter remédio nacional brotando na prateleira. Os primeiros medicamentos brasileiros de cannabis ainda devem levar de 5 a 6 anos pra chegar ao mercado, segundo especialistas, e antes disso tem uma maratona de pesquisa, estabilização, regulação e desenvolvimento pela frente.
Mesmo assim, a lista de possibilidades é grande e vai além da saúde humana, com espaço pra saúde animal, recuperação ambiental, cânhamo industrial e integração com agricultura e pecuária. Universidades como UNILA, UEL e Esalq já aparecem no mapa dessa corrida, enquanto Embrapa e Anvisa tentam pavimentar o terreno regulatório. O mercado bilionário ainda tá em fase de montagem, mas já tem bastante gente olhando pra essa planta com menos tabu e mais calculadora.
PLANTÃO RURAL
UPL salva a Sinova no aperto. A UPL vai injetar R$ 450 milhões na Sinova pra reforçar capital de giro, reduzir dívida e assumir 55,81% da revenda. A rede, que já faturou mais de R$ 4 bilhões, viu a receita despencar de US$ 849 milhões pra US$ 329 milhões em 2 anos.
Juro freia máquina no campo. O setor de máquinas agrícolas começou 2026 em marcha lenta. A receita caiu 15,5% em março e 16,4% no trimestre, segundo a Abimaq. Com crédito caro, margem apertada e câmbio atravessado, o produtor segue adiando compra e a colheitadeira tá sentindo o baque mais forte.
BB entra no solo do carbono. O Banco do Brasil colocou R$ 10,8 milhões na Agrorobótica, startup incubada pela Embrapa que usa laser e IA pra analisar solo e medir carbono armazenado. A aposta é transformar esse carbono em ativo financeiro e acelerar a agricultura de precisão com cara de mercado verde.
Bunge sobe a régua do lucro. A Bunge melhorou a previsão de lucro ajustado pra 2026 e agora espera entre US$ 9 e US$ 9,50 por ação. O empurrão veio das margens mais fortes em oleaginosas e do novo mandato de biocombustíveis nos EUA, que ajudou a dar mais tração ao setor.
Bayer promete 5 lançamentos por ano. Com vendas pressionadas e produtor mais seletivo, a Bayer resolveu responder com pipeline pesado. A empresa quer lançar cerca de 5 produtos por ano até 2030, com foco em herbicidas, biológicos e sementes, tentando retomar fôlego num campo onde resistência já virou dor de cabeça de rotina.
Selic cai, mas sem festa. O Banco Central cortou a Selic em 0,25 ponto e levou a taxa pra 14,50% ao ano. O problema é que o Copom veio em tom de muita cautela por causa da confusão no Oriente Médio e dos impactos sobre preços.
Mulheres do agro lotam encontro. O Encontro Mulheres do Agro em Ação reuniu cerca de 600 produtoras na Agrishow e ainda atraiu 3 pré-candidatos à Presidência de 2026. O evento misturou protagonismo feminino, produção de alimentos e discurso político.
ABPA reforça o peso das proteínas. A ABPA lançou seu Relatório Anual 2026 e confirmou o protagonismo brasileiro em frango e suíno. O país segue como maior exportador mundial de carne de frango, 3º maior produtor global e também avança na suinocultura, mantendo a proteína animal como uma das locomotivas do agro.
Açúcar cai e etanol cresce. A produção de açúcar no Centro Sul deve ter caído 26,4% na 1ª quinzena de abril, mesmo com a moagem maior, segundo a S&P Global. Já o etanol foi na direção contrária e deve avançar 23,5%, mostrando que a cana continua olhando pro mercado antes de decidir pra onde corre.
SE DIVERTE AÍ
Hoje a brincadeira é com o Tradle, o joguinho estilo wordle da balança comercial. Você recebe a lista dos principais produtos que um país exporta e tem que adivinhar quem é o dono dessa pauta. Vale ler com olhar de agro nerd mesmo: reparou muito grão, carne e minério, já pode chutar Brasil ou vizinho forte no campo. Se pintou muito eletrônico, máquina e química, talvez seja alguém lá da Europa ou da Ásia. Bora testar se você tá afiado pra bater o olho na lista de exportações e adivinhar o país antes do sexto palpite.
VIVENDO E APRENDENDO
Resposta da edição passada: Romã
Pergunta de hoje: Qual cereal originário da Etiópia é a base da injera, pão típico que alimenta milhões de pessoas no Chifre da África?
A resposta você fica sabendo na próxima edição!
