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Bom dia!
Hoje tem trégua no Oriente Médio que não chegou a durar um dia e já deixou Ormuz travado de novo, cota chinesa de carne bovina que deve acabar em maio e deixar 600 mil toneladas sem destino, e governo ensaiando linha de crédito pra socorrer produtor endividado. No meio disso, a Frísia finca bandeira no Tocantins com R$ 100 milhões, o algodão bate recorde histórico de exportação em março e um novo score promete dizer ao banco se a lavoura paga a conta.
Pra você acordar bem informado
Por Enrico Romanelli
TÁ QUANTO?
COMO TÁ LÁ FORA?
EUA, Israel, Irã e a trégua que durou horas

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Donald Trump passou a terça-feira (7) fazendo o que já virou especialidade da casa, ameaçando e voltando atrás. Primeiro ameaçou destruir “toda uma civilização” caso o Irã não reabrisse o Estreito de Ormuz até o prazo final. Depois, já quase no apagar das luzes, anunciou um cessar-fogo de 2 semanas com Teerã.
O combinado parecia simples. EUA e Israel pausariam os ataques, o Irã liberaria a passagem por onde circula cerca de 20% do petróleo global e todo mundo fingiria naturalidade e maturidade diplomática por algumas horas. O mercado respirou, o petróleo despencou e, por algumas horas, pareceu que alguém finalmente tinha tirado o dedo do botão do caos.
Mas bastou virar o dia pra trégua começar a parecer propaganda enganosa. Logo no começo dessa quarta-feira (8), Israel não cumpriu o acordo e aumentou os ataques no Líbano, atingindo áreas residenciais em Beirute. O Irã, como resposta, voltou a fechar Ormuz e, segundo fontes do setor náutico, ameaçou destruir os navios que tentassem passar sem autorização de Teerã.
Teerã ainda deixou no ar que pode abandonar o cessar-fogo se a situação seguir descambando. No meio disso tudo, Washington falou em vitória, o Irã também falou em vitória e o resto do mundo assistiu os dois lados comemorarem o mesmo empate ruim.
Por que isso importa?
E aí entra o agro, que não tem nada a ver com a guerra, mas sempre acaba pagando parte da conta no caixa. Com Ormuz sob risco, fertilizantes, combustíveis e várias commodities ficaram ainda mais sensíveis ao humor geopolítico. No caso dos fertilizantes, o setor brasileiro já admite que uma possível reabertura do estreito não resolveria tudo, porque a dúvida agora não é só se o navio passa, mas se a capacidade produtiva da região segue inteira depois de semanas de conflito. Cerca de 50% do enxofre global passa por ali, e isso pesa direto na fabricação de insumos.
Além disso, pelo menos duas embarcações carregadas com fertilizantes que vinham pra cá seguem de castigo no estreito, num retrato perfeito de como a lavoura brasileira pode ficar refém de uma rota que fica a oceanos de distância, mas mexe com a fazenda aqui como se fosse vizinha de porteira.
ASSUNTO DE GABINETE
Governo ensaia linha de crédito pra socorrer produtor endividado

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Quando a conta aperta no campo, Brasília costuma aparecer com 3 coisas na mão, reunião, discurso e a promessa de que agora vai. Desta vez, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse que o governo tá pensando em abrir uma linha de crédito pra dar um help pros produtores rurais atingidos pela crise climática e, agora, também pelos efeitos da guerra no Oriente Médio.
A proposta ainda tá em discussão e deve ser costurada com o Congresso nas próximas semanas, mas o movimento já mostra que até a equipe econômica percebeu que o agro anda carregando dívida demais pra fingir normalidade.
A conversa ganhou força depois de uma reunião com senadores e com o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB-RS), que tá em Brasília desde segunda-feira (6) tentando vender a ideia de que o campo gaúcho não aguenta mais apanhar do clima e depois ouvir que a solução tá sendo estudada. Segundo a Farsul, as estiagens entre 2020 e 2025, somadas às enchentes de 2023 e 2024, tiraram 48,6 milhões de toneladas de grãos da conta e R$ 126,3 bilhões do faturamento do agro gaúcho.
No centro da discussão tá um projeto que autoriza o uso de recursos do Fundo Social pra criar uma linha especial de financiamento a produtores afetados por eventos climáticos. O texto foi aprovado pela Câmara em julho do ano passado e segue parado no Senado, naquele ritmo clássico em que a urgência entra no prédio e sai de lá com crachá de espera. Hoje, o teto previsto é de R$ 30 bilhões, mas a bancada ruralista quer empurrar esse valor pra R$ 40 bilhões.
O AGRO EM NÚMEROS
Proteína sobe, açúcar amarga e o algodão atropela o calendário

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Março terminou com a carne suína brasileira em ritmo de festa no porto. As exportações bateram recorde e chegaram a 153,8 mil toneladas, com alta de 32,2% sobre o mesmo mês de 2025, enquanto a receita também engordou 30,1% e alcançou US$ 361,6 milhões. No acumulado do primeiro trimestre, o setor já embarcou 392,2 mil toneladas e faturou US$ 916 milhões.
E como proteína boa gosta de andar em combo, o frango foi na cola e também saiu de março com número bonito na planilha. O Brasil despachou 504,3 mil toneladas da carne, alta de 6%, e cravou receita recorde de US$ 944,7 milhões, avanço de 6,2% na comparação com o ano passado. No trimestre, o setor somou 1,456 milhão de toneladas e US$ 2,764 bilhões em faturamento, pra mostrar de vez que nem as tretas e BOs causados pela guerra no Golfo Pérsico conseguiram esfriar as vendas.
Se nas proteínas o humor foi de euforia, no açúcar o clima ficou um pouco menos doce. Em março, o Brasil exportou 1,808 milhão de toneladas, queda de 1,42% na comparação com o mesmo mês de 2025. Mas o tombo mais pesado veio mesmo na receita, que caiu 24,71% e ficou em US$ 657,57 milhões. O principal culpado é meio óbvio, o preço. A média por tonelada recuou 23,61%, deixando claro que embarcar muito nem sempre significa bolso cheio.
Já o algodão resolveu compensar esse amargor com um desempenho de encher os olhos. O país exportou 347,8 mil toneladas em março, recorde histórico pro mês e alta de 45,4% frente ao mesmo período de 2025. E ainda teve um crescimento brabo de 33,6% na receita, que bateu US$ 530,08 milhões no período.
Nessa mesma linha, as exportações brasileiras de sêmen bovino cresceram tanto que até parece que tomaram um negocinho. A alta foi de 29%, com 598,72 mil doses exportadas, enquanto a produção total subiu 12,46% e bateu 23 milhões de doses.
Só que nem tudo no campo tá encontrando essa mesma tração, e o seguro rural tá sofrendo cada vez mais. A CNseg revisou a projeção do mercado e agora tá esperando queda de 3,9% em 2026, depois de uma retração de 8,8% em 2025. A área segurada encolheu igual roupa nova depois da primeira lavagem, foi de 13,7 milhões de hectares em 2021 pra 3,2 milhões em 2025.
SAFRA DE CIFRAS
Frísia finca bandeira no Tocantins com R$ 100 milhões

Foto: Divulgação/Frísia
Quando se fala de mercado, negócios e expansão, tem empresa que passa um tempão pensando e perde o timing, e também tem empresa que não quer perder tempo e já escolheu o terreno pra levantar a estrutura. A Frísia entrou no segundo grupo e anunciou um aporte de R$ 100 milhões pra construir um novo entreposto de grãos em Pium (TO). A obra deve começar agora em junho e ficar pronta em janeiro de 2028, num movimento que mostra que a cooperativa paranaense não quer só visitar a região de vez em quando, quer puxar a cadeira e sentar de vez.
A escolha não veio no chute. O Tocantins já representa 45 mil hectares e 10% do faturamento da Frísia, então fazia sentido ficar mais perto da operação dos cooperados que já tão por lá e abrir espaço pra crescer mais. Hoje, a cooperativa já tá com 110 cooperados e 60 colaboradores no estado, com operação em Paraíso do Tocantins (TO), Dois Irmãos do Tocantins (TO) e um escritório em Palmas (TO).
Essa nova unidade chega pra ser a terceira da cooperativa no estado e foi planejada com capacidade de receber até 600 toneladas de grãos por hora, beneficiar 240 toneladas por hora e armazenar 42 mil toneladas, além de um armazém de insumos. Pra quem gosta de estrutura parruda, não tá faltando ambição nem concreto na receita.
E a Frísia não tá sozinha nesse rolê paranaense rumo ao Centro-Norte. A região vem atraindo cada vez mais o olhar de cooperativas do Paraná, tanto que a Castrolanda também tá levantando um entreposto no Tocantins, com investimento de R$ 124 milhões em Colinas (TO).
COLHENDO CAPITAL
Novo score tenta adivinhar se a lavoura paga a conta

Foto: Getty Images
No agro, conseguir crédito tá cada vez mais parecido com entrevista pra vaga concorrida. Pedem histórico, garantia, comprovação, confiança e, se bobear, até mapa astral da fazenda. E não é birra. Em 2025, as empresas ligadas ao agronegócio responderam por 30,1% dos pedidos de recuperação judicial, enquanto a inadimplência do crédito rural subiu pra cerca de 6,5% e as dívidas renegociadas já chegaram a R$ 37 bilhões. Foi nesse ambiente de desconfiança generalizada que a Picsel lançou o que chama de primeiro score de risco produtivo do mercado brasileiro.
A proposta muda um pouco o foco da análise. Em vez de ficar presa só no histórico financeiro, a tecnologia cruza mais de 30 anos de dados agrícolas e analisa até 30 safras, com peso maior pras 5 mais recentes. Entram nessa conta imagens de satélite, clima, solo, tipo de cultura e bases públicas como MapBiomas e CAR, tudo processado por inteligência artificial pra gerar uma nota de 0 a 1000. Quanto maior a pontuação, menor o risco produtivo. É como se o banco ganhasse um boletim da lavoura antes de decidir se libera o dinheiro ou aperta ainda mais a catraca.
O detalhe mais interessante é que o score olha pra área produtiva, não só pro produtor. Ou seja, um mesmo agricultor pode ter uma fazenda nota alta e outra pedindo socorro. A empresa diz que a base cobre 100% da produção nacional de soja e milho, que juntos representam cerca de 88% dos grãos do país, e ainda entrega estimativas de produtividade em kg por hectare. Na prática, bancos, cooperativas, fintechs e tradings ganham uma régua nova pra ajustar crédito, taxa e garantia.
DE OLHO NO PORTO
Cota chinesa deve acabar em maio e o boi brasileiro corre pra procurar novos destinos

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A China segue sendo o maior cliente da carne bovina brasileira, mas isso pode parar já nos próximos meses. Segundo a Abiec, o Brasil deve esgotar logo no começo de maio toda a cota de exportação permitida pro mercado chinês, depois de um março mais acelerado nos embarques. O problema é que, quando a porteira da China fecha mais cedo, sobra boi do lado de cá.
O tamanho do BO pro segundo semestre não é pequeno. A estimativa é que cerca de 600 mil toneladas de carne, equivalentes a 3 milhões de cabeças, fiquem sem destino por causa da salvaguarda que cortou em 35% o volume de carne brasileira despachada pra China.
E aí começa a correria do agro brasileiro de procurar mercado alternativo com pressa e pouca opção pronta na mesa. A Coreia do Sul aparece como uma possibilidade interessante, mas ainda tá no processo de vistoria e burocracia pra abrir o mercado. E a outra alternativa, triangulação via Vietnã ou Hong Kong, não anima muito quem tá fazendo a conta de verdade.
Pra Abiec, a justificativa chinesa tem bem mais cheiro de política do que de argumento técnico, especialmente porque o Brasil foi o país mais atingido pela restrição, mesmo tendo enviado 46% das exportações brasileiras de carne bovina pra lá no ano passado. No meio disso tudo, o cenário segue imprevisível, com dúvidas sobre navios, Ormuz e o custo dos contêineres refrigerados, que mais do que dobraram durante o conflito no Irã.
PLANTÃO RURAL
Belagrícola ganha fôlego e credores levam puxão de orelha. A Justiça deu mais 180 dias de blindagem pra Belagrícola e ainda puxou a orelha de credores que já tavam em clima de liquidação antecipada. O juiz falou em tumulto processual e segurou a pressa da turma. Agora, o plano de recuperação de R$ 1,8 bilhão segue esperando a perícia.
Gasolina pode ficar mais alcoólica. O governo confirmou que estuda subir o teor de etanol na gasolina de 30% pra 32% ainda no primeiro semestre, numa tentativa de amortecer os efeitos da guerra no bolso e no abastecimento. Os estudos saem em até 60 dias.
Mosaic pisa no freio em MG com enxofre nas alturas. A Mosaic vai iniciar a paralisação e desmobilização do complexo de Araxá (MG), suspender as atividades de mineração ligadas a Patrocínio (MG) e avaliar a venda dos ativos. A medida deve reduzir em cerca de 1 milhão de toneladas por ano a produção de fosfato da empresa e ocorre em meio à alta do enxofre, que vem pressionando fortemente os custos da indústria de fertilizantes.
Tyson fecha fábrica e segue aparando custo nos EUA. A Tyson Foods vai fechar uma unidade na Geórgia até 31 de maio e demitir 168 funcionários, numa nova rodada de corte de custos. A empresa vem tentando reorganizar a casa depois da pressão no segmento de bovinos, que segue sofrendo com escassez de gado e margem espremida.
Embrapa leva soja nova pra vitrine em Rio Verde. Na Tecnoshow Comigo, a Embrapa apresentou 3 novas cultivares de soja de olho em produtividade, sanidade e manejo mais eficiente.
Raízen abre conversas com credores. A Raízen iniciou conversas pra converter cerca de R$ 29 bilhões em dívidas em ações, em uma tentativa de viabilizar sua reestruturação extrajudicial e abrir caminho pra cerca de R$ 10 bilhões em venda de ativos.
SE DIVERTE AÍ
Hoje a brincadeira é com o Tradle, o joguinho estilo wordle da balança comercial. Você recebe a lista dos principais produtos que um país exporta e tem que adivinhar quem é o dono dessa pauta. Vale ler com olhar de agro nerd mesmo: reparou muito grão, carne e minério, já pode chutar Brasil ou vizinho forte no campo. Se pintou muito eletrônico, máquina e química, talvez seja alguém lá da Europa ou da Ásia. Bora testar se você tá afiado pra bater o olho na lista de exportações e adivinhar o país antes do sexto palpite.
VIVENDO E APRENDENDO
Resposta da edição passada: Grão-de-bico
Pergunta de hoje: Qual planta cultivada pelos egípcios há mais de 4 mil anos também é usada hoje para fazer bioplástico?
A resposta você fica sabendo na próxima edição!
