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Bom dia!

A seleção tropeçou na Noruega ontem, mas tem um gramado em que o Brasil não sai do pódio: o do agro. Hoje a cooperativa segue engolindo o espaço que a revenda deixou. No meio disso, a erva-de-santa-maria deu uma surra no nim e o índice mundial de alimentos caiu, mas a carne bateu recorde puxada pelo frango.

Pra você começar a semana com o time do agro, que, esse sim, é imparável.

Por Luciana Stival

TÁ QUANTO?

MERCADO valor % dia % YTD
Soja (R$/saca 60kg) R$135,45 0,27% -3,94%
Trigo (R$/tonelada) R$1.372,32 0,59% 16,08%
Arroz (R$/saca 50kg) R$60,43 0,20% 13,06%
Algodão (¢R$/libra-peso) R$413,86 -0,10% 18,71%
Boi gordo (R$/arroba 15kg) R$329,85 -0,87% 3,34%

Os dados são publicados por CEPEA-Esalq/USP Indicadores sob licença CC BY-NC 4.0.
As variações são calculadas em % diária e %YTD (Year to date)

PAUTA VERDE

A Better Beef viu o copo meio cheio

Fonte: CNN Brasil

Na região de Presidente Prudente, uma das maiores produtoras de batata-doce do país, entre 30% e 40% da colheita nasce fora do padrão de prateleira e, em ano de preço baixo, nem sai do chão. A Better Beef olhou pra essa turma desclassificada e enxergou combustível e cocho cheio.

O plano roda na Agropecuária Vista Alegre, braço pecuário do grupo e maior confinamento coberto da América Latina, por onde passam 136 mil animais por ano. A meta é processar 36 mil toneladas de batata-doce por ano e tirar dali uns 5 milhões de litros de etanol industrial. O que sobra da destilação vira cerca de 7 mil toneladas anuais de ração com 29% de proteína, direto pro cocho do gado. A usina, no plano original, ia ser de milho, mas o cereal caro da região empurrou o projeto pro tubérculo do vizinho.

E a esteira não para na batata. A empresa diz ter transformado em um ano 40 mil toneladas de resíduos industriais em nutrição animal, o equivalente, na régua do GHG Protocol, a 20.537 toneladas de CO₂ poupadas, além de mais de 2 milhões de litros de álcool tirados de levedura recuperada. O próximo passo do Projeto Batata-Doce soma biogás na casa dos 10 mil Nm³ por dia, que vira biometano pra aposentar o diesel dos caminhões.

Agora, o alfinete de sempre. Esses números de CO₂ e resíduo saem da régua da própria companhia, um GHG Protocol autodeclarado, sem auditoria de fora citada, e economia circular é a vitrine que release nenhum resiste a polir. Ainda assim, o modelo é engenhoso e cria mercado pra uma batata que antes apodrecia no campo, renda nova pro produtor da região. Selo verde de verdade se pendura com verificação independente. Até lá, a batata feia segue fazendo o trabalho bonito.

NAS CABEÇAS DO AGRO

O plano bilionário que o calendário do governo emperrou

Fonte: AGFeed

Anunciar R$ 6 bilhões de investimento é fácil quando o vento sopra a favor, difícil é segurar a data quando a burocracia troca de ideia três vezes. O paranaense Grupo Potencial admitiu que o pacote bilionário para biodiesel, esmagamento de soja e etanol de milho, prometido para 2030, pode escorregar até 2032.

O nó, segundo o vice-presidente Carlos Eduardo Hammerschmidt, tem nome e sobrenome: o atraso do B16. Pela Lei do Combustível do Futuro, a mistura de biodiesel no diesel deveria ter subido para 16% em março, mas o governo, conta ele, fez três anúncios e três cancelamentos de reunião no conselho que decide o tema. Sem a mistura maior, sobra tanque e falta comprador, o Brasil tem capacidade para 16 bilhões de litros de biodiesel e produz só 10 bilhões, com o parque industrial girando em banho-maria.

O que a empresa segura firme é o passo deste ano, R$ 2 bilhões mantidos, a terceira planta de biodiesel prometida para o início de 2027 e a capacidade indo a 1,7 bilhão de litros anuais. O que cedeu foi a expectativa de caixa: o faturamento, que bateu R$ 12 bilhões em 2025 e mirava R$ 14 bilhões neste ano, agora tenta no máximo "empatar". Vale o desconto de sempre, a companhia põe a conta no colo do governo e não deixa de ter razão, mas o parque ocioso é do setor inteiro, e aposta bilionária amarrada a uma canetada que não vem é risco que o investidor assina junto.

No fim, a régua é política. Enquanto o percentual obrigatório não sai do papel, o cronograma da Potencial vira sanfona, estica de 2030 para 2032 e pode esticar de novo. Usina se constrói com cimento, mas quem liga o motor é o decreto.

MENTES QUE GERMINAM

A erva de quintal que deu uma surra no nim

Fonte: Tenor

No laboratório, a lagarta-do-cartucho, terror do milho, encontrou uma adversária saída bem do fundo do quintal de casa. O óleo essencial da erva-de-santa-maria, o velho mastruz de chá caseiro, matou 62% das larvas de Spodoptera frugiperda num ensaio a 5% de concentração, ao longo de dez dias.

O detalhe que chamou atenção foi a comparação. Na mesma bateria de testes, o óleo de nim, referência natural do mercado, não matou nenhuma lagarta na concentração de 5%. A erva-de-santa-maria, além de derrubar 31 das 50 larvas, encolheu o bicho que sobrou, peso médio final de 7,8 miligramas contra 289 miligramas do grupo que só comeu dieta com água. Até na dose fraca, de 1%, ela travou o crescimento. O crédito vai para compostos como o ascaridol, apontados como o motor do efeito inseticida.

Antes de arrancar o mastruz do jardim para jogar na lavoura, a letra miúda. O teste foi de laboratório, com a larva comendo dieta artificial tratada, nada de planta no campo nem sol na cabeça. Os próprios pesquisadores classificam o trabalho como preliminar e pedem ensaios em casa de vegetação e a campo antes de qualquer promessa. Entre a placa de Petri e o talhão de milho mora um abismo de vento, chuva e escala.

Ainda assim, a pista é boa. Num tempo de praga resistente e defensivo caro, achar munição biológica no canteiro de fundo de quintal é o tipo de aposta que o agro precisa. A erva ainda vai ter que provar valor debaixo do sol. Por enquanto, ganhou a primeira rodada no tapetão do laboratório.

ASSUNTO DE GABINETE

O gramado da Copa e o adubo que o Brasil não faz

Fonte: AGFeed

Enquanto a bola rola lisinha no gramado da Copa, poucos reparam que aquele tapete verde é obra de agrônomo, não só de jardineiro. É o argumento de João Guilherme Sabino Ometto, da Academia Nacional de Agricultura, que puxa o fio do campo de futebol para uma dor bem conhecida da lavoura, o Brasil importa 85% dos fertilizantes minerais que consome.

A conta assusta porque o mundo anda nervoso. A China restringiu a exportação de adubo, a Rússia travou o envio de enxofre para o Cazaquistão fabricar fosfato, e cada tranco lá fora vira preço aqui dentro. A saída que ele defende tem nome, o Profert, a Lei 699/2023, aprovada na Câmara em maio e parada no Senado, que criaria um fundo para a indústria nacional e obrigaria uma fatia de insumo brasileiro na mistura vendida no país.

E tem caminho que já roda na fazenda, não no laboratório. As bactérias fixadoras de nitrogênio, por exemplo, derrubam a adubação nitrogenada da soja de 80 quilos por hectare para 20, e o rizóbio chega a dispensar de vez o nitrogênio químico na cultura. Some a torta de filtro e a vinhaça da cana, a cama de frango do aviário, e o quintal do próprio agro começa a responder parte da conta que hoje chega de navio.

Vale lembrar que o texto é um artigo assinado, defesa de tese de quem torce pela indústria nacional, e que lei aprovada em plenário não vira fábrica de adubo da noite pro dia. Bioinsumo ajuda, não faz milagre sozinho. Mas o paralelo cola, o mesmo conhecimento que deixa o gramado impecável é o que pode secar a dependência lá fora. Pro Brasil, fica a lição do campo, a de futebol e a de soja, quem depende do adubo do vizinho joga sempre no contra-ataque.

COLHENDO CAPITAL

Enquanto a revenda chora, a cooperativa vende lenço

Fonte: Tenor

Toda crise tem quem pague a conta e quem passe o cartão. No aperto recente do agro, com grão devolvendo preço e calote subindo, quem passou o cartão foi a cooperativa. Cálculo da L.E.K. Consulting mostra a fatia das coops no PIB do agronegócio saindo de 8,1% em 2019 pra 15,4% em 2024, uma dobrada de 90% em cinco anos.

O contraste com as revendas de insumos dói de olhar. AgroGalaxy, Lavoro e Belagrícola foram parar em recuperação judicial ou extrajudicial, e a inadimplência do crédito ligado ao agro, que historicamente rondava os 3%, hoje beira os 15%, o triplo do pico da crise de 2016 e 2017. Na leitura da consultoria, muita revenda virou banco sem cofre, financiava o produtor com barter e prazo esticado, e quando o calote engordou o modelo entortou. A cooperativa entrou justamente nesse vão, com crédito, armazém, assistência técnica e balcão de compra no mesmo guichê.

E o avanço não fica na porteira, chega ao caixa. Nos dados do Banco Central, a escalada é de anotar.

  • Crédito rural. As coops saltaram de 13% pra 25% das operações em dez anos.

  • Médio produtor. No Pronamp, a fatia foi de 21% em 2015 pra 50% em 2025, metade do programa.

  • Interior profundo. Em 469 municípios do país, a cooperativa é a única instituição financeira de porta aberta.

  • Munição própria. O estoque de LCA emitida pelo sistema pulou de R$ 8,5 bilhões em 2020 pra R$ 77,3 bilhões em 2024.

Pra Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura, é o cooperativismo fazendo o que nasceu pra fazer, dar escala a quem sozinho nunca teria. Verdade. Mas antes de encomendar a estátua, repare que parte do crescimento é maré, não remo, o Plano Safra perdeu peso, a concorrência quebrou e sobrou espaço. E emprestar pra produtor em época de calote de 15% foi exatamente o filme que terminou mal pras revendas. A cooperativa hoje carrega a lavoura no colo. Que não esqueça quanto pesa.

COMO TA LÁ FORA

O carrinho mundial ficou mais leve, menos no açougue

Fonte: InfoMoney

Desconto de verdade anda em extinção, e o planeta acabou de ganhar um, miudinho. O índice da FAO, o termômetro da ONU pro preço mundial dos alimentos, marcou 130,3 pontos em junho, ante 130,8 em maio, segunda queda mensal seguida. O nível ainda roda 1,7% acima de um ano atrás, mas já está 18,7% abaixo do pico de março de 2022, quando a guerra na Ucrânia botou fogo na prateleira.

Abrindo o carrinho, cada corredor contou uma história.

  • Açúcar (-5,7%). A maior queda do mês, com dedo brasileiro. O etanol barato por aqui fez as usinas empurrarem mais cana pro açúcar, e o preço cedeu.

  • Cereais (-3,5%). O trigo recuou 4,4% com a colheita andando no Mar Negro, e o milho caiu 6,2% com a oferta folgada da América do Sul.

  • Lácteos (-1,5%). Sobrou leite no mundo, preço cedeu.

  • Carnes (+0,4%). Na contramão de tudo, novo recorde do índice, puxado pelo frango em plena demanda global. Suína e bovina recuaram.

  • Óleos vegetais (+3,8%). Palma e canola em alta, com o biodiesel esticando a demanda.

E pro Brasil? Acontece que o país aparece nos dois lados do balcão. A queda do açúcar nasceu de decisão de usina daqui, e o recorde das carnes, puxado pelo frango, é música pros frigoríficos brasileiros, que vivem de embarcar ave pro mundo. Índice global em queda também não quer dizer feira mais barata na sua esquina, câmbio, frete e imposto moram no meio do caminho. Pro produtor, a leitura é dupla, grão e açúcar devolvendo prêmio lá fora, proteína ainda com palco. O açougue segue sendo o corredor mais valente da loja.

PLANTÃO RURAL

SE DIVERTE AÍ

Segunda pede um aquecimento pra cabeça, e hoje a brincadeira é de letra. No Waffle, você recebe uma grade em forma de wafre com as letras embaralhadas e vai arrastando cada uma pro lugar até formar seis palavras cruzadas, com só quinze trocas pra fechar tudo. É aquele jogo de organizar o caos com paciência de quem separa a safra por lote, verde de um lado, maduro do outro, até a peneira ficar certinha. Roda no celular, de graça e sem login, e o desafio troca todo dia.

VIVENDO E APRENDENDO

Resposta da edição passada: o Brasil, disparado. Somos o maior exportador de carne de frango do planeta, respondendo por cerca de um terço de todo o frango que cruza fronteira no mundo, com Paraná e Santa Catarina puxando a fila. Em maio, o setor faturou US$ 1 bilhão só de vendas ao exterior.

Pergunta de hoje: qual matéria-prima o Brasil usa para produzir a maior parte do seu etanol?

A resposta você confere na próxima edição!

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