
APRESENTADO POR
Bom dia!
Hoje tem cheque grande tentando segurar uma gigante de açúcar e etanol sem deixar o balanço virar um dominó, tem apagão no campo mostrando que energia instável não é só inconveniente e tem decisão em Brasília mexendo com comércio exterior, com direito a trava de segurança pra quando a importação exagerar. No meio do caminho, ainda rola número pra medir o pulso do agro, biocombustível ganhando musculatura e um B.O. daqueles que faz qualquer comissão do Senado puxar o freio.
Pra você acordar bem informado
Por Enrico Romanelli
TÁ QUANTO?
Kepler cai na B3 e apaga R$ 240 milhões num piscar de olho. A Kepler Weber virou notícia do jeito que ninguém gosta, com os papéis despencando 13,7% e fechando a R$ 8,31, depois que o mercado engoliu mal o fim da combinação com a americana GPT. No pregão, chegou a bater queda de 20% e a empresa viu o valor de mercado encolher de R$ 1,731 bilhão pra R$ 1,493 bilhão, uma perda de cerca de R$ 240 milhões.
SAFRA DE CIFRAS
Cosan não acompanha o cheque e Shell tenta salvar a Raízen sozinha

Foto: Victor Moriyama/Bl/Victor Moriyama
O capítulo de hoje na novela da Raízen tem nome e sobrenome, recuperação extrajudicial. A empresa disse que pode recorrer a esse caminho enquanto tenta achar uma saída pro endividamento, com a justificativa de criar um ambiente protegido e organizado pra conversar com credores financeiros e costurar uma solução consensual, sem cada ligação virar crise.
No centro dessa história tá a dupla dona da casa. A Shell, que divide o controle com a Cosan, aceitou colocar R$ 3,5 bilhões na companhia, enquanto Rubens Ometto entra com mais R$ 500 milhões via holding, somando R$ 4 bilhões de capital novo. Só que a costura maior entre Shell e Cosan miou, as conversas sobre um resgate mais amplo azedaram e fundos de private equity ligados ao BTG Pactual, que tavam na mesa, também decidiram não aportar.
Pra não ficar só no tapa buraco, a empresa deu o papo de que a reestruturação pode ser daquelas de obra grande. Tá no radar converter parte da dívida em ações, alongar vencimentos do que sobrar e vender ativos não estratégicos pra fazer caixa, tudo pra tentar estabilizar a estrutura de capital sem depender apenas de boa vontade do mercado em semana nervosa.
A partir daqui, o tabuleiro fica mais sensível, porque a Shell e a Cosan têm 44% cada e um aporte sem contrapartida pode passar a tesoura na participação do parceiro. E com a extrajudicial no horizonte e a Shell disposta a seguir com a injeção sozinha mesmo, o jogo vira sobre quem aguenta a pressão e quem sai mais diluído quando a poeira baixar.
NAS CABEÇAS DO AGRO
Queda de energia faz mais uma vítima. Dessa vez, 20 mil frangos pagaram a conta

Foto: CNA/Flickr
No oeste do Paraná, a conta da instabilidade elétrica chegou do jeito mais cruel. Em São Miguel do Iguaçu, a produtora Sandra Bogo perdeu 20 mil frangos depois de uma sequência de quedas e oscilações que derrubou a ventilação do aviário. O gerador até entrou no jogo, mas com a energia indo e voltando sem parar, uma chave do sistema não aguentou e os equipamentos pararam de segurar o tranco.
O lote tinha só 26 dias, que é uma fase em que o frango já tá acostumado com temperatura controlada e qualquer apagão vira caos em minutos. Bastaram 30, 40 minutos sem ventilação pra o ambiente virar uma sauna e a mortalidade explodir, com prejuízo estimado em R$ 150 mil, dividido entre a produtora e uma cooperativa. E nem adiantou ter estrutura extra, porque a própria produtora relata que as oscilações vêm queimando equipamento, incluindo inversores do sistema solar.
A Faep diz que esse tipo de história deixou de ser caso isolado e virou rotina no meio rural, com vários relatos de mortes de animais, perdas na produção e equipamentos indo pro saco em várias regiões. Teve até produtor de fumo que perdeu a safra inteira no momento de secagem e ficou com um rombo de R$ 250 mil e o piscicultor que perdeu 1,1 milhão de peixes, que a gente contou mais cedo nessa semana, além de gente recorrendo à Justiça pra tentar ressarcimento e descobrindo que processo também cai de energia quando convém. Pra piorar o humor, a Copel foi privatizada em 2023 com promessa de eficiência, só que produtores relatam piora no atendimento, técnico que demora 2 ou 3 dias pra aparecer e até um drama pra fazer ligação de rede trifásica.
Do lado da Copel, a explicação bate na tecla do clima e da vegetação, com o gerente Carlos Eduardo Galina dizendo que mais de 65% das ocorrências no rural vêm de galhos batendo nos fios. A empresa também falou que reforçou a manutenção preventiva com poda e roçada e fez parcerias locais, e aproveitou pra lembrar que o Paraná teve 12 eventos climáticos severos nos últimos 3 meses de 2025, incluindo um tornado em Rio Bonito do Iguaçu.
O AGRO EM NÚMEROS
Soja presa na chuva, tabaco batendo recorde e preço do leite finalmente sobe

Gif: dani on Giphy
Teve teste de paciência pros embarques de soja com as águas de fevereiro que vieram cedo demais pra fechar o verão. A Anec disse que 8,9 milhões de toneladas saíram daqui pra ir pra fora, mais de 1 milhão abaixo do esperado, depois de dias de chuva pesada nos principais portos, com Paranaguá de baixo d’água em 26 dos 28 dias do mês. Pra março, a expectativa tá em 16,1 milhões de toneladas.
Enquanto a soja toma conta da logística, o milho vai sendo empurrado pro canto. O Brasil embarcou 3,3 milhões de toneladas em janeiro, caiu pra 1,1 milhão em fevereiro e a previsão pra março tá em 697 mil toneladas, mais devagar que o carro novo da Aston Martin na Fórmula 1.
No tabaco, 2025 terminou com recorde e carimbo de líder global, com receita de US$ 3,389 bilhões e volume de 561,05 mil toneladas. Só que o preço médio por tonelada escorregou 7,6% e foi de perto de US$ 6,54 mil em 2024 pra cerca de US$ 6,04 mil em 2025, aquele clássico de vende mais, mas o caixa cresce com educação. Europa ficou com 41% do valor e o conflito no Oriente Médio ainda tá empurrando parte das rotas pro Cabo da Boa Esperança, somando cerca de 20 dias de trânsito e abrindo espaço pra sobretaxa de risco virar item fixo da conta.
E a CNA já tá trocando o entusiasmo por cautela em 2026. A entidade projetou uma alta de 1,22% no PIB da agropecuária, uma previsão bem tranquila depois do salto de 11,7% em 2025, enquanto o PIB do Brasil deve crescer 1,95% após 2,3% no ano passado, com juros altos, incerteza no petróleo rondando a economia e guerras assustando investidor e mercado.
No leite, depois de 9 meses de queda, o pagamento de fevereiro subiu 1% e levou a média pra R$ 2,09 por litro, ainda 14,3% abaixo de um ano atrás, com captação recuando 1,4% em janeiro e 66% dos laticínios apostando em nova alta no próximo pagamento.
ASSUNTO DE GABINETE
Acordo Mercosul-UE passa no Senado e ganha manual de importação

Foto: Reprodução
O Senado aprovou na quarta-feira (4) o PDL 41/2026 que ratifica o acordo provisório de comércio entre Mercosul e União Europeia. Agora o texto ainda precisa ser promulgado pelo presidente do Congresso, Davi Alcolumbre (União-AP), pra fechar a etapa brasileira de internalização.
Na prática, o acordo mira uma das maiores zonas de livre comércio do planeta, juntando mais de 720 milhões de pessoas e um PIB combinado na casa de US$ 22,4 trilhões. O cronograma prevê redução gradual de tarifas por até 30 anos e, na conta do governo e do Senado, a União Europeia tende a zerar tarifas pra 95% dos produtos que importa e o Mercosul pra 91%, com cotas e preferências que deixam o agro de olho em carnes, açúcar e etanol.
Só que o Brasil não quis abrir a porteira sem tranca, e aí entrou o decreto de salvaguardas no mesmo dia. Com articulação da relatora Tereza Cristina (PP-MS), o governo publicou o Decreto 12.866, que regulamenta como investigar e aplicar salvaguardas bilaterais quando um aumento de importação com tarifa reduzida ameaçar causar prejuízo grave à indústria doméstica. No cardápio, dá pra suspender cronograma de redução tarifária, diminuir preferências e até criar cotas, se o fluxo virar enxurrada.
E não rola no grito, pelo menos no papel. A salvaguarda depende de investigação, pode começar por petição e, em casos específicos, a Secex pode abrir de ofício, com medidas provisórias podendo aparecer durante o processo se os requisitos forem atendidos. No fim, quem decide é a Camex, e a coleta de dados costuma olhar os últimos 36 meses, pra separar aumento pontual de surto de importação com cara de problema sério.
PAUTA VERDE
Be8 fecha a compra no MT, chega a 6 fábricas e puxa o biodiesel pra 1,71 bi de litros por ano

Gif: Reprodução/ND
A Be8 assumiu a operação de uma unidade de biodiesel em Alto Araguaia (MT) e fechou de vez a compra que tinha sido anunciada em novembro do ano passado, depois do sinal verde do Cade. Com isso, a empresa que lidera o país no biodiesel chega à 6ª fábrica no Brasil e eleva a capacidade instalada pra 1,71 bilhão de litros por ano, um salto de 16,7% no tamanho do tanque.
A planta veio da União Agroindustrial e era conhecida como Fênix, nome bom pra quem gosta de renascer com outro dono em fase de expansão. A capacidade dela é de 245 milhões de litros por ano e a Be8 vende a ideia de uma logística mais esperta, com produção mais perto dos principais mercados consumidores e menos quilômetro rodado. No pacote, a companhia diz que agora manda em 15% no mercado brasileiro de biodiesel.
Essa compra entra num ritmo acelerado que a empresa vem empilhando. Em 2025, a Be8 fechou com receita bruta de R$ 12 bilhões, crescimento de 64% sobre 2024 e o maior faturamento da história, além de manter a liderança de mercado. Com a unidade do MT na conta, a empresa também passou a liderar em capacidade produtiva e colocou a régua acima de 5 milhões de litros por dia.
O plano agora é esticar esse motor até 2030 e buscar R$ 20 bilhões de receita, com um novo braço de crescimento que tá chegando por fora, etanol de cereais. A Be8 prevê investir R$ 1,1 bilhão numa unidade em Passo Fundo (RS) com início de operação em 2027, usando principalmente trigo e triticale, e estima que só o etanol some R$ 1,3 bilhão ao faturamento quando a planta rodar, enquanto 2026 já começa com expectativa de alta de 10%.
DEU B.O.
Gado apreendido no Pará volta pele e osso e Senado cobra o Ibama

Foto: Canal Rural/Divulgação
A Comissão de Agricultura do Senado puxou uma audiência pública nesta quarta-feira (4) e o clima passou longe de ser tranquilo. Produtores acusaram o Ibama de maus tratos com um rebanho apreendido no Pará, dizendo que de 337 cabeças confiscadas em Uruará em março de 2025 na operação 8 Segundos, só 180 voltaram pros donos depois de decisão judicial. As outras 157, segundo o relato, morreram enquanto estavam na guarda de um depositário intermediário.
E o que voltou não voltou bem, não. Os pecuaristas mostraram fotos de animais subnutridos, pele e osso, sem força nem pra ficar em pé, e reclamaram de falta de cuidado na alimentação e de pouca transparência durante a custódia. Vinicius Domingues Borba, presidente da Apria, disse que devolver o gado desse jeito vira a narrativa do avesso e muda o foco de quem tá ficando com a etiqueta de crueldade animal.
Do lado do Ibama, o diretor de Proteção Ambiental, Jair Schmitt, jogou a bola pra regra do jogo. Pela lei, quando alguém assume como depositário e não cumpre a obrigação de cuidar do bicho, é essa pessoa que responde pelo prejuízo. Só que, nesse caso, ele mesmo reconheceu que não havia termo formal com quem reteve o rebanho, o que sugere que a guarda pode ter sido combinada direto com a prefeitura local, aí a cadeia de responsabilidade vira um bololô.
No fim, Bruno Valle, presidente do sindicato rural do município, pediu que a comissão encaminhe uma cobrança pra suspender imediatamente todas as apreensões de gado no país. O senador Luis Carlos Heinze (PP-RS), que presidiu a audiência, disse que a comissão vai acompanhar o caso e buscar esclarecimentos sobre o destino dos animais apreendidos, porque nessa história tem número demais que não tá batendo.
PLANTÃO RURAL
Navio com bois vira churrasco sem querer. O North Star 1, que ia embarcar 2,6 mil bois vivos pra Turquia em São Sebastião, pegou fogo na área do feno e da ração e queimou cerca de 30 toneladas. 5 tripulantes passaram mal com fumaça, os animais não se feriram, mas a viagem foi cancelada e o gado deve desembarcar.
Bayer patina no agro e o Ebitda afunda. A divisão agrícola da Bayer somou 21,62 bilhões de euros em vendas em 2025, queda de 2,9%, e o Ebitda virou negativo em 1,58 bilhão de euros após ter sido positivo em 3,96 bilhões em 2024. A empresa citou pressão regulatória e custos e ainda tenta fechar a conta do Roundup nos EUA.
Foi cavar água e achou petróleo. No Ceará, um agricultor perfurou um poço artesiano e encontrou um negócio com cara de petróleo entre 40 e 44 metros de profundidade no seu sítio, em Tabuleiro do Norte. Testes preliminares do IFCE indicaram material com cara de petróleo onshore e a ANP abriu processo pra investigar, lembrando que o subsolo é da União.
Ormuz travou e o adubo ficou na fila. Com o fechamento do Estreito de Ormuz anunciado pelo Irã, navios com fertilizantes tão se acumulando no Golfo Pérsico e embarcadores já tão desviando rota. A Markestrat estima que pelo menos 20% dessas embarcações podem vir pra países importadores como o Brasil, com frete mais salgado.
Genética suína cruza a fronteira. A Topigs Norsvin abriu uma central de inseminação no Paraguai com investimento acima de R$ 5 milhões, capacidade pra 100 reprodutores e operação desde janeiro. A empresa diz que já tem cerca de 32% do mercado local e aposta no salto das exportações de carne suína do país.
Arroz pede socorro em Brasília. Federarroz, Farsul e COOPACC foram ao Ministério da Agricultura cobrando medidas urgentes pro setor, com alongamento de custeio com recibo de depósito, fiscalização mais firme na tipificação do arroz beneficiado, inclusive importado, e reforço de instrumentos da PGPM com PEP e PEPRO.
Cotrijal fecha 2025 forte e distribui sobras. A Cotrijal faturou R$ 4,9 bilhões em 2025 e aprovou distribuir R$ 25,4 milhões em sobras pra cerca de 17 mil associados. A cooperativa investiu mais de R$ 129 milhões em infraestrutura e quer seguir ampliando recebimento e armazenagem em 2026, com robotização no ensaque de rações.
SE DIVERTE AÍ
Hoje a brincadeira é com o Tradle, o joguinho estilo wordle da balança comercial. Você recebe a lista dos principais produtos que um país exporta e tem que adivinhar quem é o dono dessa pauta. Vale ler com olhar de agro nerd mesmo: reparou muito grão, carne e minério, já pode chutar Brasil ou vizinho forte no campo. Se pintou muito eletrônico, máquina e química, talvez seja alguém lá da Europa ou da Ásia. Bora testar se você tá afiado pra bater o olho na lista de exportações e adivinhar o país antes do sexto palpite.
VIVENDO E APRENDENDO
Resposta da edição passada: Jambu
Pergunta de hoje: Qual castanha do Cerrado ficou pop como snack proteico e ajuda a renda de extrativistas?
A resposta você fica sabendo na próxima edição!
