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Bom dia!
A edição de hoje tem a tensão no Irã pressionando diesel, frete e fertilizante, e a MBRF tendo que responder ao MPT por condições de trabalho de gestantes em MT. No meio disso, tem açúcar com revisão global, soja e milho andando no ritmo do Mato Grosso, a USP botando ciência pra turbinar genética do gado, navio testando biocombustível quase sem emissão, e um apagão no PR virando tragédia na piscicultura. No Plantão Rural, o tempo vem com aviso forte, a BASF fala em mais cortes, a ApexBrasil abre curso grátis, e o mercado digere Frimesa, M Dias Branco, Cosan e Agronelli.
Pra você acordar bem informado
Por Enrico Romanelli
TÁ QUANTO?
DE OLHO NO PORTO
Ataques dos EUA e Israel no Irã puxam diesel e adubo pra cima e deixam o milho sem rumo

Foto: Bloomberg/Brent Lewin
O Oriente Médio acabou virando uma variável bem cara na planilha do agro brasileiro de um dos piores jeitos. Com os ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã, o mercado já começou a precificar o pacote clássico de confusão global, petróleo mais caro, dólar mais esticado e uma logística que fica mais longa, mais cara e mais nervosa.
O primeiro impacto costuma bater no tanque, porque petróleo em alta tende a pressionar o diesel por aqui, e o diesel ainda é o combustível oficial do escoamento da produção. Quando o risco geopolítico sobe, os custos de frete e os prêmios de seguro marítimo vão junto, e o agro acaba pagando a taxa da ansiedade em cada km rodado e em cada milha navegada. E só nessa brincadeira o preço do petróleo já subiu mais de 10%.
No capítulo dos fertilizantes, o enredo fica mais sensível porque o Irã é um baita produtor de ureia e a oferta global de nitrogenados é altamente dependente de gás natural, que também entra nessa montanha-russa de tensão. E tem um gargalo que tá assustando bastante o mercado, o fechamento do Estreito de Ormuz, que é uma das principais rotas de navegação do mundo e por onde passa cerca de 20% do consumo mundial de petróleo e boa parte do escoamento de insumos industriais. Se a restrição de navegação apertar, o preço pode fazer o que preço faz quando sente cheiro de problema.
Pra completar, o Oriente Médio responde por mais de 40% das exportações globais de ureia, e o Brasil tá longe de ser autossuficiente nesse jogo. Em 2025, o país importou cerca de 7,7 milhões de toneladas de ureia, com Nigéria, Rússia e Omã entre os principais fornecedores, e parte do que chega aqui como made in Omã pode incluir carga iraniana, o que bagunça até a estatística quando o mundo entra em modo crise.
Do lado das vendas, o milho também fica com o ouvido em pé. O comércio Brasil-Irã chegou a US$ 3 bilhões no ano passado e o milho respondeu por US$ 1,9 bilhão, 67,9% do total, então qualquer encarecimento de rota, seguro ou travamento logístico mexe com o humor do exportador. No curto prazo, o calendário segura um pouco o tranco, mas se a novela durar mais do que o mercado tá apostando, pode rolar redirecionamento de volume e disputa por destino com preço menos simpático.
DEU B.O.
MPT enquadra MBRF por casos de aborto e rotina pesada pra funcionárias gestantes

Foto: Prefeitura de Lucas do Rio Verde / Divulgação
O Ministério Público do Trabalho de Sinop (MT) entrou com uma ação civil pública contra a MBRF por supostas más condições de trabalho pra gestantes na planta de Lucas do Rio Verde (MT). O estopim foi um caso de 2024 que virou manchete e tragédia. Uma funcionária grávida de gêmeas ficou por cerca de 3 horas no turno da madrugada sem atendimento médico adequado e acabou perdendo as bebês depois de dar à luz num ponto de ônibus.
A partir disso, o MPT pediu documentos e foi puxando o fio da meada. A empresa informou ter 74 gestantes trabalhando por lá, com 55 em atividade e as outras afastadas pelo INSS, dentro de um total de 4,8 mil funcionários na unidade. Segundo o órgão, parte dessas trabalhadoras atuava em áreas como evisceração de aves e miúdos de suínos, setores que o MPT descreve como exposição a um combo de riscos que não combina com barriga crescendo.
O ponto que mais aparece na ação é o ruído. O MPT afirma que havia gestantes trabalhando em ambientes com níveis de barulho acima do que tá permitido na lei de 80 dB e até acima do limite de tolerância de 85 dB, com risco tanto pras trabalhadoras quanto pros bebês. No pacote de alegações, ainda entra frio, umidade, ritmo intenso, posturas inadequadas, risco de quedas, cortes, amputações, vazamento de amônia e até risco psicossocial, ou seja, não é só barulho, é o ambiente inteiro pedindo revisão.
E aí vem o número que dá aquele gelo na espinha. O MPT diz ter verificado 144 casos de aborto ou ameaça de aborto entre 2019 e 2025, ligados a 116 empregadas da planta, além de 71 atestados envolvendo 61 funcionárias com condições que podem piorar com exposição ao ruído, como hipertensão, pré-eclâmpsia, hemorragias e diabetes. O órgão tentou costurar um Termo de Ajuste de Conduta, mas diz que a MBRF não topou, então o assunto saiu da mesa e foi direto pra Justiça.
Na ação, o MPT pede medidas como afastamento imediato de gestantes de áreas com ruído acima do limite de ação, realocação pra setores com menos de 80 dB sem perda de salário e benefícios, programa específico de proteção e treinamento semestral obrigatório das lideranças. Também pediu multas de R$ 50 mil por obrigação descumprida e R$ 20 mil por gestante, além de dano moral coletivo de pelo menos R$ 20 milhões.
A MBRF, por sua vez, se defendeu e disse que segue a legislação, fornece EPI certificado, que não identificou correlação entre os casos e as atividades, que não reconhece os dados apresentados pelo MPT e que tem até um programa de acompanhamento de gestantes com suporte médico, adequação de função e monitoramento contínuo, afirmando que a iniciativa já acompanhou mais de 13 mil colaboradoras desde 2017.
O AGRO EM NÚMEROS
Açúcar encolhe na Índia e MT acelera no barro

Foto: Freepik
A Czarnikow, que é uma provedora de serviços de cadeia de suprimentos, cortou 2,3 milhões de toneladas da projeção de açúcar global na safra 2025/26 e jogou a conta pra 184,4 milhões de toneladas, com a Índia puxando a tesoura. A estimativa indiana caiu de 32,8 milhões de toneladas pra 30,2 milhões de toneladas depois de a safra terminar antes do previsto em algumas regiões.
No Mato Grosso, a soja tá correndo, mas ainda tá correndo atrás do ano passado. O Imea apontou que a colheita já bateu 78,34% da área, abaixo dos 82,30% de 2025, mas bem acima da média de 5 anos, que é de 70,98%. Já o milho 2ª safra chegou a 81,93% plantado, também abaixo de 84,95% de 1 ano atrás e menor que a média histórica de 86,29%, mesmo com um pulo de 15,60 pontos percentuais na semana. Traduzindo, o relógio da janela tá andando e o campo tá tentando acompanhar no ritmo que o tempo deixa.
MENTES QUE GERMINAM
Boi com currículo da USP e planilha de ganho no cocho

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A USP resolveu colocar jaleco e régua na pecuária de corte e vai lançar o Programa de Genética e Melhoramento Animal, pra tentar ajudar o produtor a modernizar a forma de trabalhar e investir o dinheiro onde vai ter retorno. O programa chega puxado pelo Grupo de Melhoramento Animal e Biotecnologia e vai ter suporte científico da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos, em Pirassununga (SP) Além de tudo isso, tem também suporte técnico da empresa CTAG NextGen pra dar conta do trampo de dados. A estreia oficial rola dia 25 de março na Femec, uma feira em Uberlândia (MG) que movimentou mais de R$ 2,7 bilhões na última edição, ou seja, palco perfeito pra mostrar que genética também dá dinheiro.
A ideia do programa é tirar o melhoramento do achismo e empurrar a cadeia da carne pra uma gestão mais profissional, juntando ciência com ritmo de mercado. O professor Fernando Baldi diz que o jogo da pecuária moderna tem que integrar genética, produção, indústria e mercado, e ainda deu o papo de que eles querem ajudar a profissionalizar a cadeia usando uma estrutura mais dinâmica e de olho na inovação, pra aumentar a produtividade e botar dinheiro no bolso do produtor.
Na prática, o GMA vai rodar avaliações genéticas e genômicas juntas e já começou a coletar dados e pedigree pra fazer a 1ª avaliação genômica oficial. No pacote, entram características que mexem no caixa de verdade, tipo crescimento, capacidade materna, longevidade, precocidade sexual, carcaça e eficiência alimentar, além de índices bioeconômicos que vão ser ajustados pra cada rebanho e um índice focado no retorno global do sistema, pra o boi render no pasto e na conta.
DE OLHO NO PORTO
Navio deixou diesel de lado e botou biocombustível pra dentro

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A Navegação Aliança resolveu trocar o cheiro de diesel pelo de futuro e testou em um dos seus navios o BeVant, um biocombustível desenvolvido pela Be8 e que promete revolucionar a descarbonização no Brasil. Segundo a WayCarbon, o resultado foi daqueles que deixam até ambientalista emocionado, as emissões de gases de efeito estufa ficaram 99,41% menores do que no combustível fóssil.
O teste rolou em dezembro no navio NM João Malmann, no trajeto que passou por Porto Alegre, Rio Grande, Pelotas e Guaíba. Teve até equipe técnica da Volvo acompanhando de perto a viagem, de olho em tudo, pra ver se a propulsão entregava o serviço sem drama. E entregou.
O pessoal da Aliança disse que os resultados passaram do esperado e que a performance do sistema de propulsão deu conta do recado com o biocombustível. Do lado da Be8, a leitura foi direta, dá pra descarbonizar agora, sem pedir investimento extra pra trocar equipamento, e ainda dá pra pensar em ampliar o uso contínuo na navegação.
O BeVant sai da fábrica da Be8 lá em Passo Fundo (RS), com capacidade de 120 mil toneladas por ano, e a empresa já anunciou uma nova planta no Piauí. A diferença pra biodiesel é simples e importante, aqui não tem misturinha, o BeVant entra direto no tanque e pode substituir o diesel 1 por 1, litro por litro, e nem precisa alterar nada no motor.
COLHENDO CAPITAL
Apagão matou 1,1 milhão de peixes no PR

Foto: Arquivo pessoal
Em Tupãssi (PR), um apagão virou sentença de morte pra cerca de 1,1 milhão de peixes em 6 reservatórios. O piscicultor Paulo Michelon calcula que foram mais de 900 mil quilos de tilápia pro ralo e um prejuízo de R$ 9 milhões, justo quando o lote tava pronto pro abate. Ele resumiu do jeito mais amargo possível: “tragédia anunciada”.
Segundo o produtor, a desgraça toda aconteceu quando equipamentos da rede elétrica queimaram e caiu a energia do local todo. Os aeradores pararam de funcionar e a oxigenação da água foi pelo ralo, deixando os peixes sem ar. Na sexta-feira (27), o trabalho era de recolher o estrago, porque já não tinha mais o que ser feito.
Michelon diz que vinha enfrentando oscilações desde o começo do ano, mas que tava piorando desde a semana anterior, e que mandou vários pedidos na Copel (Companhia Paranaense de Energia) desde janeiro. Ele também registrou uma reclamação na ouvidoria da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) e entrou na Justiça pra tentar colocar a responsa em quem errou. Pra piorar, e por ironia do destino, um dia antes da fatalidade tinha saído uma liminar determinando que a Copel regularizasse o fornecimento em 48 horas, com multa diária de R$ 2 mil, limitada a R$ 60 mil.
Sem seguro pra esse tipo de perda, o piscicultor cobra ressarcimento e investimento de verdade no meio rural, porque produção de alimento não roda no improviso. A Copel respondeu que a ação corre em segredo de Justiça e que ainda não foi intimada de decisão nenhuma, dizendo que vai analisar quando for oficialmente notificada.
PLANTÃO RURAL
Nordeste começa a semana com tempestade. O Inmet tá vendo chuva acima de 100 mm por dia nesta segunda-feira (2), com risco de deslizamento, alagamento e rio transbordando em boa parte da Bahia, oeste de Alagoas, Pernambuco e Paraíba. No Sul, SC e PR entram na rota do granizo.
BASF afia a tesoura e pede paciência pra 2026. A BASF anunciou mais cortes de funcionários e botou na mesa reduções grandes na equipe interna de TI, que tem cerca de 8,5 mil pessoas. A empresa ainda disse que 2026 ainda vai ser um ano de transição e que a recuperação do mercado químico só deve dar sinal no fim de 2026.
ApexBrasil abriu a porta da exportação sem cobrar ingresso. A ApexBrasil lançou um curso online e grátis de 2 horas pra empresa que ainda não exporta mas quer começar ou que tá começando nesse jogo. Ainda tem teste de potencial exportador e checklist com próximos passos pra organizar o jogo do comércio exterior.
Frimesa passou de R$ 7 bi e botou mais carne no mapa. A Frimesa fechou 2025 com faturamento de R$ 7,04 bilhões, alta de 7%, e exportações subindo 19,4%. A empresa passou de 500 mil toneladas produzidas, processou 3,2 milhões de suínos e captou 258 milhões de litros de leite.
M. Dias Branco cresceu em volume e apanhou na bolsa. A M. Dias Branco viu suas ações, a MDIA3, cair 13% e ir pra R$ 22,85 depois do 4T25, mesmo com volumes subindo 10%. O BTG Pactual manteve recomendação neutra e preço-alvo de R$ 28,00 para a ação.
Cosan levou rebaixada da Fitch e ficou na berlinda. A Fitch rebaixou a Cosan de BB pra BB- e baixou a nota nacional pra A+(bra), com observação negativa, citando alavancagem alta e dependência de venda de ativos. A Cosan não tem vencimentos grandes até 2028, mas o fôlego depende do desinvestimento andar.
Agronelli captou R$ 180 milhões pra esticar a dívida e ganhar ar. O Grupo Agronelli emitiu notas comerciais de R$ 180 milhões com ajuda dos bancos Itaú BBA, Caixa e Banco do Brasil e disse que alongou o prazo médio da dívida. O grupo quer mais previsibilidade no caixa pra planejar médio e longo prazo e estruturar a expansão da empresa.
SE DIVERTE AÍ
Hora de dar um descanso pros números e espremer o cérebro em outra lavoura: o vocabulário. Hoje a pedida é o Termo, aquele jogo em que você tem 6 tentativas pra adivinhar a palavra do dia. Vale combinar com o pessoal da fazenda, do escritório ou da república e ver quem acerta primeiro. Depois do café, já sabe: abre o Termo, chuta uma palavra qualquer e deixa a cor dos quadradinhos dizer se sua cabeça tá mais pra lavoura bem manejada ou pra área que precisa de reforço técnico.
VIVENDO E APRENDENDO
Resposta da edição passada: Lima
Pergunta de hoje: Qual palmeira do Nordeste fornece a “rainha das ceras”, usada em polidores, cápsulas e cosméticos?
A resposta você fica sabendo na próxima edição!
