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Bom dia!
Sábado é dia de passar a semana a limpo, e esta edição especial junta o que mais mexeu no agro de 28 de junho a 3 de julho. A semana tá de tirar o chapeu: o vizinho americano abriu a porteira pra mostrar a safra dele, e a China avisou que o balcão da carne tá quase fechando. No fim da feira, o grão respirou. O boi, não.
Pra você não ficar por fora de nada no agro.
Por Luciana Stival
TÁ QUANTO?
Grãos: passou o susto. O relatório americano era esperado como exame ruim, mas soja e milho seguraram o preço, ainda abaixo de janeiro, mas sem tragédia.
Boi: recorde com prazo de validade. Arroba nas alturas, só que a cota de carne pra China quase bateu no teto e só reabre em outubro. Frigorífico já sentiu e reduziu compra: menos boi hoje, arroba apertada amanhã.
Café: o showman da semana. Colheita atrasada encareceu o grão, que deu a maior arrancada da semana, mas no acumulado do ano ainda vale menos que em janeiro. Açúcar nem saiu do sofá.
Dólar e juros: o pano de fundo de sempre. Dólar pregado em R$ 5,20, sorriso pra quem exporta, careta pra quem compra adubo; juro segue salgado. A boa é que o Plano Safra definiu as taxas, agora dá pra fazer conta, não aposta.
No placar da semana: café e milho pra cima, boi e frigorífico pra baixo, dólar e bolsa em cima do muro.
Fontes: Cepea, CME/CBOT, ICE/Nova York (via Reuters), Banco Central (Focus) e B3. Valores até quinta 02/07. Panorama informativo, não recomendação de investimento.
ASSUNTO DE GABINETE
O resumo da novela Plano Safra

Fonte: AGEFeed
A semana inteira girou em torno de um anúncio só. Segunda, o mercado apostava entre R$ 570 e R$ 652 bilhões; terça o governo bateu o martelo; dali em diante, o setor pegou a calculadora.
O Plano Safra 2026/27 empresarial saiu em R$ 525,1 bilhões (+R$ 8,9 bi), com juros do custeio caindo de 14% pra 12,5% e Pronamp a 9%, CAR em dia e prática sustentável ainda dão até 1 ponto de desconto. A agricultura familiar levou R$ 97,3 bi, R$ 85,2 bi no Pronaf, juro do alimento básico de 3% pra 2%.
Só que a calculadora estragou a festa: alta nominal de 1,72% contra inflação de 4,72% vira queda real de 2,86% no poder de compra do crédito.
Custeio e comercialização: R$ 384,9 bi, retração real de 11,37%, bem na hora em que adubo e defensivo sobem.
Investimento: de R$ 101,5 pra R$ 140,2 bi, trator novo com verba, semente sem.
Oferta R$ 127 bi abaixo do pedido do setor.
A FPA recontou e, tirando fundos fora do escopo, viu o pacote R$ 29,6 bi menor, com seguro rural cobrindo só 2,69 milhões de hectares, o menor da década.
O clima político não ajudou: Lula foi pro Mercosul e deixou Alckmin na cerimônia, e o deputado Pedro Lupion questionou como o produtor endividado acessa o dinheiro, já que seguro reforçado e renegociação de dívida ficaram de fora. No fim da semana veio o remendo: Move Agricultura, R$ 10 bi via Finep pra máquinas, num ano em que o setor prevê queda de até 20% nas vendas e o Moderfrota encolheu de R$ 12,5 pra R$ 5,8 bi.
Resumindo: recorde nominal, dinheiro real menor, juro caiu menos do que a Selic prometia. Cobertor curto esquenta quem deita primeiro.
SAFRA DE CIFRAS
A dívida que ninguém paga esperando o perdão

Fonte: Globo Rural
Tem produtor apostando que o perdão chega antes do oficial de justiça, e essa aposta virou o nó mais caro da semana.
No Sicredi, os atrasos dobraram em junho, de 8% pra 16%, com oito em cada dez clientes segurando a parcela na esperança do PL 5.122, que Brasília ainda não vota. No agregado é pior: a LEK Consulting calcula que o atraso saiu dos 3% históricos pra perto de 15% nos ciclos recentes.
E o calote em câmera lenta contamina a cadeia: compra de fertilizante roda 10 pontos abaixo do normal, venda de máquina caiu 18% no primeiro quadrimestre, e a SRB repudiou a regra do CMN que deixa a prorrogação a critério do banco, mesmo com a Resolução 5.314 dando mais corda ao alongamento. Brasília empilha promessa: o ministro acenou com uma MP de renegociação, e a Câmara marcou pra terça (7) a mesa entre bancada do agro e equipe econômica, com a Fazenda estimando a fatura em R$ 140 bilhões em dez anos.
Só que esperar também tem juros. A Justiça do MT decretou a falência do grupo Pupin, ex-rei do algodão, e o Ruiz, segundo maior produtor de café do país, conseguiu uma cautelar que congela dívidas por 60 dias, deixando Fiagros expostos em uns R$ 300 milhões em CRAs.
A engrenagem é conhecida: quem não paga esperando anistia trava o banco, banco travado encarece o crédito de todo mundo, e a safra que vem nasce menor. Perdão sem data tem preço, e ele é cobrado em silêncio.
E ESSE TEMPO, HEIN?
O inverno mandou a fatura em três parcelas

Fonte: Giphy
Você sentiu no bolso antes de ver no noticiário: a feira veio mais cara, culpa do termômetro.
No campo, a frente fria pegou o milho tardio em cheio. No Paraná, 15% das áreas semeadas após 20-25 de fevereiro entraram na zona de risco (risco, não perda contada). Em Mato Grosso do Sul a conta veio mais redonda: 29,2% das lavouras comprometidas (Aprosoja/MS e Famasul), numa safra estimada em 11,139 milhões de toneladas; em Mato Grosso a colheita patinava perto de 30%, travada por chuva e fila de caminhão.
Na cidade, o frio virou boleto. Legumes subiram 15,1% num mês, de R$ 6,89 pra R$ 7,93 o quilo, e no acumulado de dezembro a maio a alta chega a 44,2%, com feijão (26,5%) e leite UHT (23,9%) na cola. Mas nem tudo subiu: ovo caiu 6,5% e café recuou 2,5%. Cesta mista, susto seletivo.
E a semana fechou com o tempo dobrando a aposta: o Inmet abriu julho com alerta vermelho de temporal no Sul (vento acima de 80 km/h, granizo), mais uma frente fria com ar polar atrasando a colheita de café da Cooxupé em Minas. Lá fora, o cacau subiu mais de 20% no mês, com o Citi projetando US$ 5.000-6.000 a tonelada se o El Niño se confirmar na próxima safra.
Traduzindo pro seu bolso: o hortifrúti segue sendo o termômetro mais honesto do país, quando o campo esfria, o caixa do mercado esquenta. E o El Niño ainda nem entrou na sala.
COMO TÁ LÁ FORA?
Quem já paga a conta do tarifaço americano

Fonte: Giphy
Sabe quem levou o primeiro soco da tarifa que ainda nem entrou em vigor? O plantador de cana do Nordeste.
A ameaça dos EUA, aberta sob a Seção 301, a regra que Washington usa pra retaliar comércio "desleal", não mira o agro inteiro. Café, carne bovina, frutas, suco de laranja, fertilizante e aeronave ficaram fora; o alvo central é o etanol, que os americanos acusam o Brasil de ter destratado tarifariamente em 2017. Pra dimensionar: o agro exportou US$ 169,2 bilhões em 2025, os EUA levaram US$ 11,4 bilhões (terceiro maior comprador), e as compras de maio já vieram 28% menores que um ano antes.
O detalhe é que a plateia da briga está longe de unânime. Um levantamento da CNI contou 80 manifestações inscritas pra audiência de segunda (6): 66 contra a tarifa (boa parte de empresas americanas que compram do Brasil) e só 14 a favor, concentradas em etanol, pecuária, siderurgia e madeira. Se nada mudar, a tarifa pode valer a partir de 15 de julho.
Enquanto o novo round não começa, a fatura do tarifaço de 2025 já chegou pra alguém: o governo publicou a MP que cria subvenção de R$ 12 por tonelada pros produtores independentes de cana do Nordeste, os mais castigados pela barreira do ano passado, medida que a Feplana estima alcançar 16 mil agricultores e 60 mil trabalhadores. É curativo, não cura: o preço do açúcar segue baixo e a barreira segue de pé.
No comércio internacional, a guerra é anunciada no atacado e paga no varejo. A audiência é segunda. O bolso do canavieiro já sabe o resultado.
POR DENTRO DO MERCADO
Chicago soltou o susto e a saca nem piscou

Fonte: Globo Rural
Poucos rituais estressam o mercado como dia de relatório do USDA, e essa semana tinha um dos grandes no calendário.
A semana começou torta: soja e milho abriram em queda na bolsa de Chicago, depois de uma sexta que já tinha fechado de lado, esperando os números. Veio o relatório de área e estoques de 30 de junho, mais soja plantada nos EUA, estoques um pouco menores que o esperado, e os grãos viraram pra cima, com a saca brasileira segurando perto de R$ 130 nas principais praças. O número que assustava já estava no preço.
O nó da semana ficou em terra firme. O Boletim Logístico da Conab mostrou o frete rodoviário perto do pico de fevereiro/março mesmo já passado o auge do escoamento, cortesia de uma safra com 8,8 milhões de toneladas a mais de soja disputando caminhão e do diesel S-10 a R$ 6,38 no Paraná. Tanta soja na fila que a ADM passou a fechar negócio de madrugada pra conseguir encher navio.
Nos outros balcões, o trigo deve encolher de 2,5 pra cerca de 2 milhões de hectares, com importação podendo chegar a 7 milhões de toneladas em 2027, e o feijão-carioca desinflou da máxima de R$ 500 pra R$ 375-415 a saca. Alívio na panela, aperto pra quem plantou no preço alto.
No fim das contas, o preço aguentou o relatório, mas o jogo daqui pra frente se decide na chuva de Iowa, no humor de Pequim e no frete até o porto. Colher bem virou só metade da conta.
COLHENDO CAPITAL
O CAR em dia começou a valer dinheiro

Fonte: Giphy
Reparou que o gerente do banco anda perguntando de árvore? Não é moda passageira, é a letra miúda nova do crédito.
A trading chinesa Cofco, uma das maiores compradoras de grão do mundo, já soma US$ 1,2 bilhão em empréstimos atrelados a metas de descarbonização, com desconto no juro por cumprir etapas, cortar 54,6% das emissões do milho e 39,4% das da soja até 2033, ante 2021. E já tem freguês do outro lado: a empresa exportou soja certificada pra Bangladesh e fechou 1,5 milhão de toneladas com gigantes do leite na China. Rastreabilidade virou cifra no caixa.
Em Brasília, o dinheiro verde saiu com a torneira mais apertada. O decreto que regulamenta o Pagamento por Serviços Ambientais frustrou o setor ao excluir da remuneração áreas que a lei já obriga a preservar (Reserva Legal, APP), na lógica da adicionalidade, só se paga pelo que não aconteceria sozinho. Pra Rodrigo Lima, da Agroicone, o desenho corre o risco de deixar o PSA como projeto simpático sem escala; o cadastro nacional e os incentivos fiscais ficaram pra uma segunda rodada no fim do ano.
Some as peças da semana: o Plano Safra dá até 1 ponto de desconto pra quem tem o CAR em dia, a Cofco paga menos ao banco cortando carbono, e a China aceita o Código Florestal como régua da soja. O ambiental saiu do marketing e mudou pro financeiro.
A jogada de hoje é o juro de amanhã: quem anota o que faz no campo começa a pagar menos pelo dinheiro. E quem não anota vai descobrir o preço da folha em branco.
PLANTÃO RURAL DA SEMANA
Cosan pode largar a Rumo: a holding de Rubens Ometto, pressionada a reduzir dívida, confirmou que avalia alternativas pra sua fatia na ferrovia, com o BTG assessorando.
Amaggi comprou cadeira na mesa do combustível: o grupo concluiu a aquisição de 40% da FS, referência em etanol de milho, por US$ 100 milhões.
A fintech que quer bancar a lavoura: a MerX, tocada por ex-BTG, prepara fundos pra chegar a R$ 1 bilhão em crédito ao agro.
A porteira destrancou no Leste: a Rússia reconheceu o Brasil como livre de aftosa sem vacinação e ampliou o acesso da proteína brasileira ao seu mercado.
Adubo deu uma trégua: com a reabertura do Estreito de Ormuz, a ureia aliviou a tempo de socorrer o milho, mas o fosfato seguiu caro.
SE DIVERTE AÍ
Hoje o passatempo é uma caça ao tesouro botânica. No Metaflora aparece uma planta misteriosa e, a cada palpite, o jogo mostra o quão perto você chegou na árvore genealógica das espécies, do reino até a família, feito quem vai podando galho por galho até achar a certa. Pra quem vive de planta, é praticamente jogar em casa: dá pra usar tudo que você já sabe de cultura, origem e parentesco pra encurtar o caminho. Começa mirando as famílias que você conhece de olho fechado.
VIVENDO E APRENDENDO
Resposta da edição passada: é o milho, que fica em segundo, logo atrás da soja. Somando a safra de verão e a safrinha, o cereal é plantado de Norte
Pergunta de hoje: o que é agricultura familiar?
A resposta você fica sabendo na próxima edição!
