
APRESENTADO POR
Bom dia!
O jogo de hoje diz o quão perto você chegou da palavra, nunca a palavra, e o agro amanheceu nessa mesma zona do quase. A StoneX cortou o açúcar desta safra e, no mesmo relatório, prometeu recorde para a próxima, com a mesma cana. A Conab diz que o feijão caiu em 20 capitais, e na mesma semana o preto subiu 10% no Paraná. A porta que Trump abriu para a carne brasileira em agosto já tem gente na Casa Branca com a mão na maçaneta. E no Paraná uma cooperativa pequena pediu para entrar na vizinha maior, e resumiu o motivo numa palavra: juro. Descendo o dedo tem mais te esperando.
Pra você entrar na quinta sabendo a distância entre o chute e a certeza.
Por Luciana Stival
TÁ QUANTO?
Os dados são publicados por Cepea.
As variações são calculadas em YTD (Year to date).
O prêmio que sustentava o trigo lá fora esvazia com a trégua no Mar Negro. Aqui dentro, a fábrica que esmaga a soja cresce, mas quem decide a margem dela é a política de biodiesel, não mais a lavoura.
SAFRA DE CIFRAS
A cana que vai passar o réveillon no campo

Fonte: Giphy
Vender o açúcar no aperto de agora ou segurar esperando mais é a conta que a StoneX mudou ontem. A chuva que atrasa a colheita no Centro-Sul deixou tanta cana em pé que a consultoria cortou a produção de açúcar desta safra para 38 milhões de toneladas e, no mesmo relatório, apostou que 2027/28 vai bater o recorde de moagem da região, se a estimativa se confirmar. Não é contradição, é a mesma cana passando o réveillon no campo e rendendo mais depois.
É safra vendida no carnê. O aperto de agora segura o preço, mas as parcelas da fartura já têm data marcada, o volume que falta só chega em 2027/28.
Lá fora, Washington fechou a cota de açúcar com tarifa baixa para o ano fiscal que começa em outubro, e o Brasil ficou com mais de um terço a menos. Para o país é migalha. Para as usinas do Nordeste, que moem agora, é um buraco de US$ 30 milhões, e a conta é do sindicato das usinas de Pernambuco, que é quem perde.
Se você vende agora, vende no aperto de hoje. Se guarda para o ano que vem, encontra a fila cheia e a cana da vizinha chegando junto, e a cota americana nova passa a valer em 1º de outubro.
DE OLHO NO PORTO
Abriram a porta por fome, e podem fechar por voto

Fonte: Giphy
Embarcar aparas de carne para os Estados Unidos agora ou esperar preço melhor é decisão com data. A cota extra de 300 mil toneladas que Trump abriu em agosto vale de setembro a novembro, com a tarifa caindo de um quarto do valor para um trocado por tonelada, e foi inteira para a fila dos outros países, onde o Brasil manda. No nicho das aparas magras o Brasil era figurante, e a Agrifatto calcula que o embarque pode mais que triplicar no trimestre. A regra é de balcão de padaria: quem sai na frente come mais.
Não foi generosidade. O rebanho americano é o menor em 75 anos, a carne moída está encostada no recorde, e o pecuarista de lá está segurando fêmea para reconstruir plantel.
Acontece que a mesma Casa Branca já discute fechar a porta de volta: um grupo pequeno, puxado pelo redator de discursos do presidente, quer reduzir a cota com as eleições de meio de mandato se aproximando, e o escritório de comércio, que ajudou a pôr a cota em prática para baixar o preço no supermercado, é contra. Enquanto isso, Paranaguá bateu recorde de contêiner refrigerado no ano, com o frango puxando.
Se você tem planta habilitada, a janela é agora. Se esperar preço melhor, pode encontrar a cota cheia ou a porta fechada antes de novembro.
NAS CABEÇAS DO AGRO
A Suzano bateu na porta com reajuste pela segunda vez no mês

Fonte: Giphy
Quem tem eucalipto no chão, ou ação da Suzano na carteira, ganhou ontem um preço novo para fazer conta. A maior produtora mundial de celulose de fibra curta anunciou reajuste a partir de outubro nos principais mercados que importam, US$ 50 por tonelada nas Américas e na Europa e um aumento menor na Ásia, o segundo por lá em menos de um mês. Um reajuste é notícia; dois seguidos no mesmo mercado são recado.
O recado que o UBS BB lê é de piso encontrado, com o preço na China batendo no fundo. Já o Bradesco BBI vê espaço para mais um aumento em novembro, depois deste que sai agora em outubro.
A conta tem outro lado, e contamos em 16 de setembro: o ajuste mundial que o Santander enxerga vem de fábrica europeia de fibra longa fechando de vez, enquanto a fibra curta brasileira segue pressionada pela própria expansão de capacidade.
Para você que vende madeira, é o vizinho de cima melhorando de vida, o preço que sobe é o da celulose, e o Santander ainda vê a fibra curta daqui pressionada pelo que ela mesma plantou.
A UNIÃO FAZ A FORÇA
Foi a pequena que pediu a fusão

Fonte: AGFeed
A Codepa, de Mangueirinha, com menos de dois mil sócios, bateu na porta da Coasul, de São João, que fatura dez vezes mais, e pediu a incorporação. Juntas, passam a faturar perto de R$ 6,4 bilhões, o bastante para encostar em Coopavel e Frimesa na fila das maiores do estado. Fusão de cooperativa costuma soar como a grande comprando a vizinha; desta vez, foi a vizinha que pediu.
O motivo, na versão do presidente da Codepa, Nelson Konzen, foi juro. Com o crédito caro, a cooperativa pequena não consegue pagar sozinha a indústria que queria ter, e a Coasul já tem a indústria pronta, frigorífico, farinha, ração e óleo. Repare que a versão é das duas cooperativas, por comunicado conjunto e pela fala dos dirigentes; ninguém de fora foi ouvido.
Nada disso vale ainda. Depende das assembleias das duas, previstas para outubro, e do aval do Cade, e até lá cada uma segue operando por conta própria. O vice-presidente da Coasul, Paulo Roberto Fachin, já disse o que mais lhe interessou no pacote, a armazenagem.
O juro que trava o seu trator está fazendo casamento de cooperativa, e o casamento começa com a menor pedindo.
POR DENTRO DO MERCADO
O feijão caiu em 20 capitais e subiu no armazém

Fonte: Giphy
Plantar feijão na terceira safra com o preço de hoje na mão é decidir entre duas previsões que saíram na mesma semana. O presidente da Conab, Silvio Porto, disse na terça que o preço caiu nas capitais que a estatal acompanha com o Dieese, e que a terceira safra vai reforçar a oferta nos próximos meses. Na mesma semana, o indicador do Cepea com a CNA mostrava o feijão-preto subindo 10% no Sul do Paraná.
Os dois estão olhando o mesmo copo. Do lado do governo, a gôndola de setembro, do lado do mercado, o armazém, onde a safra encolheu e os estoques finais devem parar em 98 mil toneladas, uma gota diante de uma safra inteira. O preto, que perdeu perto de 40% da produção nas duas primeiras safras, também foi o que caiu mais forte no período.
O detalhe é quem faz a conta do preço lá na frente. O Ibrafe projeta o carioca subindo no varejo até fevereiro, com o produtor sem sinalizar área maior. A ressalva do próprio Cepea vai na outra direção, o comprador está cauteloso, e demanda que resiste segura a alta que a falta de oferta puxa.
Se você planta, o preço de hoje é o convite e o estoque baixo é o argumento. Se você compra, a Conab projeta a terceira safra chegando nos próximos meses, sem dizer em qual deles.
PRA DENTRO DA PORTEIRA
O mato da sua lavoura ta aprendendo

Fonte: Giphy
Se o mato que você mata hoje continua voltando ano após ano, é porque ele está aprendendo com a sua lavoura. No Congresso Brasileiro do Algodão, gente do Univag e da Embrapa Soja pôs na mesa o caruru e o capim-pé-de-galinha entre os principais problemas. Um pé de caruru solta perto de 100 mil sementes, e um projeto que analisa amostras há mais de uma década encontrou populações resistentes ao glifosato, aos inibidores de ALS, uma classe de herbicida comum na lavoura, e, em alguns casos, a mais de um mecanismo de ação. O capim-pé-de-galinha faz o resto por adaptação, e algumas populações já podem virar perenes.
O recado dos pesquisadores é menos glamouroso que um produto novo, diagnosticar cada talhão antes de montar o programa, controlar cedo, antes da semente cair, e rodar ferramenta em vez de repetir a que funcionou. É a mesma lógica do antibiótico, cada aplicação que falha forma uma nova turma de sobreviventes.
Do lado de quem vende, a PRÏOBIO, uma startup brasileira, diz estar desenvolvendo um bioherbicida com nanopartículas de prata produzidas por bactérias tiradas de abelhas.
Antes de repetir o produto que funcionou, você diagnostica o talhão e controla cedo; o bioherbicida, por enquanto, é promessa de quem quer vendê-lo.
PLANTÃO RURAL
A Nutrien fechou as lojas em dois estados: a canadense confirmou o fim do varejo em São Paulo e Mato Grosso do Sul, depois de vender desde 2024 as misturadoras que tinha no país, e mantém o resto da operação de varejo no Brasil.
A soja entrou na mesa de Xi Jinping e Donald Trump: a China comprou 12 milhões de toneladas dos EUA entre janeiro e agosto, ainda distante do compromisso de 25 milhões por ano até 2028, e o mercado espera se o encontro desta semana acelera o resto.
O Uruguai cedeu à cota de boi que não usa para o Brasil vender à China: a troca ainda depende do aval chinês, que nunca aceitou pedido parecido antes, e pode render ao Uruguai a cota brasileira mais valiosa junto à União Europeia.
A tilápia mais que dobrou na piscicultura brasileira em dez anos: a produção saltou de 285 mil para 707 mil toneladas em dez anos e já responde por 70% de todo peixe criado no país, segundo a Alianima.
A laranja vai encolher de novo na safra que sai agora: o cinturão paulista e mineiro deve colher 263 milhões de caixas, 10,2% menos que a safra passada, com o greening e o cancro cítrico cobrando a conta da produtividade, segundo o Fundecitrus.
A Conab abre dois leilões de arroz nesta sexta: a estatal vai comprar até 96,4 mil toneladas da safra gaúcha, com entrega até novembro e garantia de 5% do valor exigida de quem arrematar.
O Senado se deu mais tempo antes de proibir a pulverização aérea de defensivo químico na seca: a Comissão de Assuntos Econômicos suspendeu a votação do projeto, que já tem parecer favorável da senadora Teresa Leitão, para primeiro ouvir o setor em audiência pública.
A Cooxupé foi buscar os filhos dos cafeicultores antes que eles fossem embora: a cooperativa e a JDE Peet's vão capacitar 700 jovens produtores em cinco anos, começando por uma turma de 70 em Guaxupé, para não perder mão de obra no campo.
A máquina da Jacto passou a decidir planta a planta se vale a pena pulverizar: a fabricante brasileira embarcará o sensor da argentina DeepAgro em toda a linha de aplicação seletiva, que, somado ao resto da máquina, pode cortar em até 70% o gasto com insumos químicos.
O Super El Niño já tem uma conta em vidas, e o Brasil é o quinto da fila: um estudo da Universidade de Chicago projeta 451 mil mortes a mais no mundo pelo calor até fevereiro, 13 mil delas aqui, parte evitável com alerta de calor e centro de resfriamento.
A florada do café pegou em setembro, e o El Niño decide nas próximas semanas se vira fruto: o Cepea confirma chuva na hora certa para a safra 2027/28, com o pegamento das flores, sob risco de calor e seca, decidindo se volta a qualidade que faltou nesta safra.
SE DIVERTE AÍ
Uma palavra secreta e um ranking de proximidade: cada chute recebe um número dizendo o quão perto ele está da resposta. Ontem "lavoura" voltou na posição 340, longe, e dezoito chutes depois "colheita" acendeu a posição 4, quase batendo. O Contexto tem uma palavra nova esperando, sem tentativa limitada e sem relógio correndo.
VIVENDO E APRENDENDO
Resposta da edição passada: boi China é a cotação que o Cepea separa do boi gordo comum, o animal que cumpre a idade e o rastreio que a China exige, por isso vale mais na tabela.
Pergunta de hoje: o que é a cana bisada?
A resposta você confere na próxima edição!

