
APRESENTADO POR
Bom dia!
A primavera começa hoje, e no campo ela chega assim, com coisa brotando onde ninguém plantou, então pega o café que em cinco minutinhos a gente confere o que nasceu fora do lugar. O feijão do ano que vem já brotou caro no papel de quem o vende, o bezerro da próxima safra já faz falta na conta de quem confina, o suíno brotou com dois preços, prejuízo na rua de casa e lucro do outro lado do oceano, e a Minerva brotou numa mesa onde o produtor vende grão, em cadeira que ninguém viu chegar. Rolando a tela tem mais nascendo fora de época.
Pra você saber, antes de ligar o trator, o que já nasceu e o que ainda é promessa.
Por Luciana Stival.
TÁ QUANTO?
Os dados são publicados por BCB. A variação considerada nesta tabela é semanal.
Neste mês o saldo de dólares do país está sendo puxado por minério e petróleo, e o grão que sai da fazenda cresce bem menos nessa fila. Quem compra adubo importado depende de um colchão que já não é só do agro, e isso pesa no custo antes de pesar na saca.
QUEM COMPROU E QUEM SÓ OLHOU
Minerva puxa uma cadeira na mesa do grão

Fonte: Globo Rural
Quem vende soja e milho pela tela do celular agora tem, do outro lado da mesa, a maior exportadora de carne bovina da América do Sul.
A Minerva Foods virou acionista da Grão Direto, a plataforma onde 12 milhões de toneladas de grão trocaram de dono em 2025, número da própria empresa, e puxou a cadeira ao lado de Bayer, ADM, Cargill, Amaggi, Louis Dreyfus, Basf e SLC. É a primeira empresa de carne sentada ali.
Em 29 de agosto a gente contou aqui que a Minerva tinha desligado o modo comprador, só que a história ganhou um novo capítulo. O detalhe é que a cadeira veio de segunda mão: a Minerva comprou a fatia de um fundo de venture capital que quis sair, e a Grão Direto não disse qual fundo; valor e percentual não aparecem em lugar nenhum. Não entrou um real novo na plataforma, o dinheiro foi para o bolso de quem levantou.
O que a cadeira dá é assento, não mando. A própria Grão Direto avisa que todo acionista ali é minoritário, sem controle e sem exclusividade, e que a porta segue aberta para quem mais quiser entrar. Vender gado pela plataforma é oportunidade em estudo, sem cronograma, e uma nova rodada de captação pode vir nos próximos 18 meses, também sem data.
DO CAMPO AO PRATO
A Seara quer te ver com a barriga “trincada”?

Fonte: Giphy
O freezer do supermercado virou o jeito mais fácil de cumprir a promessa de comer mais proteína sem tirar a pizza do cardápio. A Seara ampliou a linha Protein de 3 para 13 produtos, quase tudo congelado, chegando às gôndolas do país inteiro desde o começo do mês.
Mas a conta do benefício aparece no preço: as três panelinhas que abriram a linha, há cerca de um ano, saíram uns 10% mais caras que as versões comuns, e a empresa explica que ali mais proteína custou mais para fazer. Nos dez novos produtos a empresa diz que quer evitar o adicional. Sobre a margem, não abriu. O que vai dizer se realmente está gerando resultado é a prateleira do congelado. E aí, vai encarar?
COLHENDO CAPITAL
No chapéu da Mombak, só o BNDES pôs

Fonte: Globo Rural
Transformar pasto em floresta no Pará ganhou um preço no papel de um banco público, e o preço vem com asterisco.
O BNDES aprovou R$ 200 milhões do Fundo Clima para a Mombak replantar 7,2 mil hectares que a pecuária deixou para trás, numa operação com prazo de 25 anos. Aprovado, não contratado. A régua do que a Mombak entrega é a operação anterior, essa sim assinada em janeiro de 2025, e dela a maior parte dos hectares já estava plantada em junho.
A manchete falou em quase R$ 1 bilhão, e a diferença entre os dois números é chapéu circulando. O dinheiro do banco cobre 44% do projeto, segundo o BNDES, e o resto sai de outras fontes da Mombak.
Por cima disso a gestora está captando um fundo de US$ 150 milhões, cujo primeiro fechamento, feito em setembro, saiu sem valor e sem nome de investidor. E a BNDESPar avalia pôr mais R$ 250 milhões nesse fundo, com a ressalva escrita na própria matéria: se aprovado. Some o aprovado com o que está sendo captado e dá o bilhão; tire o que ainda está no chapéu e sobra um quinto, e esse quinto é o que o banco aprovou, não o que assinou.
O asterisco é o preço do hectare, que muda conforme quem faz a conta. Pela do banco, o projeto aprovado custa R$ 457 milhões para 7,2 mil hectares, R$ 63,5 mil cada, e essa conta inclui manejo e monitoramento, não só a muda no chão.
Pela da Mombak, o fundo somado ao dinheiro do BNDES daria uns 42 mil hectares, conta que a própria matéria trata como possibilidade. Não são dois pedaços de floresta, é o mesmo dinheiro contado duas vezes, e a matéria não diz o que cada conta inclui; só a do banco está no papel.
Para quem vende crédito de carbono, o lado bom é que o comprador tem nome: a Petrobras levou 5 milhões de créditos no primeiro leilão do banco, e o BNDES abriu chamada para um segundo, de até R$ 6 bilhões. Quem diz que a garantia agora sai por fiança bancária é o banco, falando da carteira que ele mesmo financia, no mesmo dia em que a Mombak saiu com o chapéu na mão.
A CONTA CHEGOU
O Pronaf gaúcho tem um dia de margem

Fonte: Giphy
Chegou ao guichê um minuto antes de fechar e o atendente ainda está decidindo se começa.
Onze de novembro é o último dia para o Congresso decidir se a renegociação da dívida rural vira lei; 12 de novembro é o último dia para o produtor assiná-la. Um dia de margem entre o remédio ser receitado e o guichê fechar, e é com esse calendário que a agricultura familiar gaúcha começa a plantar a safra de verão devendo R$ 8,5 bilhões de Pronaf, pela estimativa da Fetag-RS, que é a federação de quem deve e é quem faz a conta. No Paraná, como saiu aqui na semana passada, quem pagou em dia ficou de fora dessa renegociação; no Rio Grande o problema é o tamanho da dose.
Dessa dívida, só uns R$ 3 bilhões, 35%, cabem na receita da MP 1.376, a medida que o governo criou em julho e o Congresso ainda não votou. O resto não foi negado, foi medido para fora: a receita pede perda de pelo menos 30% da renda em duas safras desde 2019, com laudo técnico, e tem teto de R$ 400 mil por produtor. Mesmo quem cabe não leva garantia, porque o banco não é obrigado a renegociar e pode pedir garantia nova, e tem produtor contando que o banco já pediu entrada.
E o remédio não é novo. O Banco Central mede R$ 44,9 bilhões de crédito rural problemático no Rio Grande do Sul na carteira de julho, o pior recorte do país, e a maior parte disso, R$ 37,4 bilhões, só está em dia porque já foi renegociada ou prorrogada; o atraso de fato, R$ 4,1 bilhões, não chega a um décimo.
O recorte do BC é a carteira rural inteira, não o Pronaf: confirma o aperto, não confirma o número da Fetag. Sufoco real, calote ainda não, e a segunda dose do mesmo remédio muda o prazo, não a doença.
POR DENTRO DO MERCADO
O suíno vale pelo CEP em que é vendido

Fonte: TheAgriBiz
O caminhão que sai da granja tem duas direções, e elas pagam coisas opostas.
Virou para o porto, o suíno sai este ano com um spread de 38% na exportação, o ganho de vender lá fora, acima da média de 34% dos últimos cinco anos.
Virou para o mercado interno, a margem bruta da carne fechou agosto negativa em 32%, no levantamento do Itaú BBA, com o vivo pago abaixo do que custa produzir.
O prejuízo por cabeça já passou por aqui na semana passada; a novidade é o endereço dele. O prejuízo mora no CEP doméstico, e o freguês que deveria aparecer com o preço baixo veio menos do que se esperava: em julho o suíno ficou com o maior desconto contra boi e frango em quatro anos, e no primeiro semestre o consumo interno cresceu 1% pela conta do Rabobank, 2% pela do Itaú BBA.
O detalhe está na leitura do Rabobank: o independente com caixa apertado descartou matriz para pagar a conta do mês, e a matriz descartada virou mais carne no abate, agravando a oferta de julho e agosto.
Sobre quando a rua doméstica volta a pagar, os dois bancos discordam: o Rabobank vê indícios de queda no alojamento em algumas regiões e aposta em recuperação a partir de outubro, o Itaú BBA não vê sinal claro de ajuste e avisa que reagir é uma coisa, voltar ao ponto de equilíbrio é outra.
Pra quem decide o lote de hoje, o retrato é de agosto, e a diária do Cepea de 17 de setembro já registrava carcaça e vivo subindo na Grande São Paulo: o preço mexeu; se chegou perto do ponto de equilíbrio, ninguém disse.
SAFRA DE CIFRAS
Soja: pedido grande, horta rasa

Fonte: Giphy
O plantio da soja começou apressado: até 17 de setembro 1,2% da área já estava no chão, segundo a AgRural, contra 0,9% um ano atrás, principalmente no Paraná.
Por outro lado, o tamanho da horta não acompanhou. A safra que está sendo semeada é de 370 mil hectares a mais, um dos menores aumentos em 20 anos.
Mas o filme é bom, tem mais uma reviravolta: a Abiove, associação das esmagadoras, elevou pela terceira vez em quatro meses a projeção de processamento de 2026, para 63,5 milhões de toneladas, e cortou a de exportação de grão.
Não é pedido no vazio: de janeiro a julho a indústria já esmagou 8% a mais que no ano passado. São duas contas diferentes, o esmagamento é deste ano e a área é da safra que só se colhe em 2027, mas é o mesmo balcão: o pedido cresce 8%, o canteiro cresce o mínimo em duas décadas.
PLANTÃO RURAL
A China veio conferir a cozinha logo depois de quase parar de pedir: a missão sanitária chinesa audita 17 frigoríficos de bovinos, suínos e aves até 28/09, com a cota esgotada segurando o embarque e a decisão sobre reabilitações sem prazo.
O ciclo do boi virou no slide da Datagro antes de virar no curral: a Datagro projeta cerca de 50 milhões de bezerros em 2027, abaixo do recorde de 2023, com o abate de fêmeas já recuando nos estados de cria e a conta chegando primeiro ao confinador.
O feijão subiu para convencer alguém a plantar, e não convenceu: o Ibrafe, instituto de quem vende o grão, projeta o carioca perto de R$ 12 o quilo no varejo de algumas regiões em fevereiro de 2027, depois de uma terceira safra menor e com o Paraná plantando menos.
A agroindústria encolheu em julho, e o pior pedaço é o que fala da safra de 2027: a produção agroindustrial caiu 2,9% em julho pelo PIMAgro da FGV Agro, recorte da Pesquisa Industrial Mensal do IBGE, com os insumos agropecuários, adubo, defensivo e máquina, em queda de 20,8%.
O granizo feriu no Cerrado Mineiro a florada de um café que ainda nem existe: na área da Expocacer, o granizo da semana passada feriu a florada de 2027/28 em quatro municípios, Patos de Minas entre eles, com risco de phoma e bacteriose e a colheita já em 99%.
A Vylor ainda não existe e já prometeu à SEC um catálogo inteiro por ano: a empresa de sementes da Corteva, estreante em 1º de outubro, planeja de 200 a 300 híbridos e variedades por ano, meta escrita no documento de registro da cisão.
A Tarken lançou um analista de crédito infinito, e o produtor não está na sala: os 90% dos produtores acima de 50 hectares que a Tarken diz cobrir com o Estrategista, a IA de crédito vendida a revendas e indústrias, valem 23% pela conta do Censo Agropecuário do IBGE.
Washington abriu o balcão de comentários sobre dois algodões da Bayer: o APHIS, regulador americano, recebe até 20 de novembro comentários sobre o pedido da Bayer de desregular dois algodões transgênicos, com avaliação ainda preliminar e nenhum trâmite brasileiro na mesa.
DIVIRTA-SE
Dez filmes, e de cada um chega só o elenco e o nome do diretor para você cravar o título entre cinco opções. Na primeira já vêm Robin Williams, Ethan Hawke e a direção de Peter Weir, com Gênio Indomável logo abaixo da resposta certa, esperando quem responde pelo ator em vez do filme. Marque as dez do Adivinhe o Filme e confira o placar no fim.
VIVENDO E APRENDENDO
Resposta da edição passada: a debênture é um título de dívida que a empresa emite para captar dinheiro direto com investidores e devolver com juros no prazo combinado.
Pergunta de hoje: o que é a terceira safra do feijão?
A resposta você confere na próxima edição!

