
APRESENTADO POR
Bom dia!
Hoje a xícara vem com geopolítica no açúcar e logística no fundo do copo. Trump ameaçou tarifa de 25% pra quem negociar com o Irã, e isso puxa o Brasil pro radar por causa das exportações do agro. Na Europa, agricultor francês botou trator pra jogo contra o acordo UE-Mercosul. No mercado, o USDA mexeu nas projeções de soja, trigo e milho e Chicago sentiu, as exportações de açúcar e carne bovina disparam no começo de janeiro e produtor driblando crédito caro com consórcio e dinheiro estruturado.
Pra você acordar bem informado
Por Enrico Romanelli
TÁ QUANTO?
Os dados são publicados por BCB. A variação considerada nesta tabela é semanal.
DE OLHO NO PORTO
Tarifas dos EUA: o retorno

Gif by southpark on Giphy
Trump resolveu jogar mais 1 ingrediente no caldeirão geopolítico e ele tem gosto de tarifa. Numa postagem de ontem (12), ele ameaçou cobrar uma sobretaxa de 25% de qualquer país que fizer negócios com o Irã quando esse país for negociar com os EUA. Não explicou critério, não deu data e não detalhou o que é fazer negócios, mas a mensagem foi bem clara no tom.
E aí entra o Brasil, que não tá no Oriente Médio, mas tá no radar quando o assunto é vender comida. Em 2025, o agro brasileiro exportou US$ 2,9 bilhões pro Irã, que ficou como 11º no ranking dos nossos principais destinos e respondeu por 1,73% das vendas do setor. Na lista do que sai daqui pra lá, aparecem com força soja, milho, açúcar e outros itens do pacote de cereais e derivados.
Do lado contrário da balança, o Irã pesa bem menos nas compras brasileiras ligadas ao agro. Em 2025, entraram cerca de US$ 11,9 milhões em produtos do setor vindos de lá, principalmente adubos e fertilizantes químicos, além de um pedaço menor de frutas secas. Mesmo assim, tem um detalhe que deixa o tema espinhoso, o Irã é exportador relevante de ureia no mundo, e o Brasil segue dependente de fertilizante importado.
O pano de fundo dessa ameaça é a escalada de tensão entre EUA e Irã, turbinada por uma onda de protestos no país persa e uma repressão pesada pelo governo. Organizações de direitos humanos falam em mais de 600 mortos, com mais de 10 mil presos e até corte de internet pra isolar o país. No noticiário internacional, ainda entra a discussão sobre programa nuclear, lembrando que a região já viveu confronto direto recente e que esse tipo de faísca costuma virar incêndio rápido.
COMO TÁ LÁ FORA?
Trator no pedágio e Mercosul no porta-malas

Foto: REUTERS/Benoit Tessier
A novela do acordo UE-Mercosul ganhou um episódio bem francês nesta segunda (12). Agricultores pararam caminhões no porto de Le Havre e na autoestrada A1, ao norte de Paris, pra fingir que estavam fazendo inspeções nos alimentos importados e lembrar que, pra eles, esse acordo tem gosto de concorrência desleal.
O choro deles é de que vai ser difícil competir quando a Europa cobra um pacote de regras do produtor local, mas abre a porteira pra produto que vem do outro lado do mundo. Em Le Havre, os manifestantes disseram ter visto chegar itens como cogumelos e vísceras de ovelha vindos da China, só pra ilustrar a bronca.
No pedágio perto de Lille, o sindicato Coordination Rurale repetiu o teatro, checando caminhões rumo a Paris. Ao mesmo tempo, teve bloqueio de depósitos de combustível no porto atlântico de La Rochelle, na região de Savoie, nos Alpes, e até em porto de cereais em Bayonne, no sudoeste. Se a ideia era travar o fluxo, escolheram bem os pontos do mapa.
O pano de fundo é político e tá fervendo. A aprovação do acordo pela maioria dos Estados-membros da UE na última sexta (9), mesmo com a França torcendo o nariz, aumentou a pressão interna e ainda deu munição pra oposição, com moções de censura entrando no radar. O agro francês, que já vinha protestando há semanas, viu ali o sinal pra subir o volume.
E o calendário já tá marcado. Os agricultores planejam levar tratores a Paris ainda hoje (13), depois de uma manifestação surpresa na quinta passada (8), e querem chegar com força antes de uma reunião prevista em Estrasburgo no dia 20, no Parlamento Europeu. O objetivo é fazer o Parlamento bloquear o pacto com o Mercosul. Se vai colar, é outra história: o acordo avançou, mas o tabuleiro político europeu ainda tem peça pra mexer.”
O AGRO EM NÚMEROS
Chicago botou mais soja no balcão e o produtor foi fazer consórcio

Foto: Antônio Neto/Embrapa
O USDA abriu 2026 com aquele tipo de relatório que mexe com o humor do mundo inteiro. A previsão da safra de soja 2025/26 no mundo subiu 0,7% e foi pra 425,7 milhões de toneladas. Nos EUA, a colheita já fechada virou número mais gordinho, 116 milhões de toneladas, e isso ajudou a puxar os preços futuros pra baixo lá em Chicago. No Brasil, o USDA também levantou a sobrancelha e ajustou a safra pra 178 milhões de toneladas e as exportações pra 114 milhões de toneladas, enquanto a expectativa de importação da China ficou parada em 112 milhões de toneladas.
E não foi só a soja que ganhou ajuste de prateleira. No trigo, a produção mundial foi pra 842,1 milhões de toneladas, puxada principalmente por aumentos na produção da Rússia e Argentina. E o milho veio no mesmo pacote de oferta folgada, com produção global estimada em 1,3 bilhão de toneladas e estoques finais em 291 milhões de toneladas, muito por causa da revisão pra cima da safra americana pra 432 milhões de toneladas, enquanto o Brasil segue com 131 milhões de toneladas na conta do USDA e exportação prevista em 43 milhões de toneladas.
Esse clima de oferta maior conversa direto com o que tá saindo do Brasil agora no comecinho de janeiro. No açúcar e melaços, os primeiros 6 dias úteis de 2026 trouxeram uma média diária de 123,4 mil toneladas, alta de 31,7% contra janeiro de 2025, só que o preço médio despencou 22,4% pra US$ 376,30 por tonelada, dando aquela segurada no crescimento do caixa. O resultado foi um faturamento diário que subiu só 2,2% e ficou em US$ 46,4 milhões, com US$ 278,6 milhões acumulados até aqui. Já na carne bovina, a largada foi mais animada no placar, com 89,3 mil toneladas embarcadas em 6 dias úteis, média diária de 14,9 mil, e receita de US$ 493,8 milhões, com média diária de US$ 82,3 milhões, praticamente o dobro do ritmo de janeiro de 2025. E ainda teve um bônus, o preço por tonelada melhorou pra US$ 5,5 mil, cerca de 10% acima do ano passado.
E com a dificuldade de conseguir financiamento, tem plano B chegando com força na área. O consórcio virou a principal alternativa pra muita compra de máquina, já que o crédito tradicional tá mais arisco com juros altos e endividamento pesando no bolso. De janeiro a novembro de 2025, a Abac aponta R$ 23,7 bilhões em créditos comercializados pra máquinas via consórcio, alta de 14%, e isso já representa 51% da comercialização de veículos pesados nessa modalidade. O número de participantes ativos subiu pra 471,7 mil, com tíquete médio batendo R$ 282,7 mil.
CAMPO CONECTADO
Wi-Fi no talhão, saca no bolso

Giphy
A Fazenda Conectada da Case IH em Água Boa (MT) resolveu mostrar que sinal de internet no talhão pode render mais que insumo caro. Na safra 2024/2025, a área teste de cerca de 3 mil hectares colheu 14 mil toneladas de soja e cravou produtividade média 27% acima da média do Brasil, com 75 sacas por hectare contra 59,3 sacas, segundo a Conab.
O pacote do desempenho veio com a cartilha completa do agro digital: decisão guiada por dados, gente treinada e tecnologia do preparo do solo até a colheita. Resultado: 19% acima da média de Água Boa e 14% superior à média de Mato Grosso, além de ser o melhor ciclo da série do projeto, que começou em 2021 e era liderado por 2022/2023, com 68 sacas por hectare.
E não foi só saca pra cima. A Case IH mediu custo e carbono e achou corte de 7% no custo médio por hectare, economia de R$ 1,5 milhão na área total e redução de 23,6% nas emissões por saca na aplicação de defensivos e no uso de combustível. Só no diesel, foram 32% a menos, 99,4 mil litros poupados, com direito a frota enxugada e colheita 8 dias mais curta.
Pras próximas safras, a expectativa deles é colocar mais tecnologia, incluindo drones pra uma pulverização mais precisa, e, com isso, aumentar cada vez mais a produtividade da fazenda.
SAFRA DE CIFRAS
BNDES botou gasolina no etanol de milho da Inpasa

Foto: Divulgação/Inpasa
O BNDES tirou o escorpião do bolso e aprovou R$ 950 milhões pra Inpasa tirar do papel, de vez, a nova usina de etanol de milho em Luís Eduardo Magalhães (BA). A planta já tá em obras e deve ser inaugurada nos próximos meses, com dinheiro dividido entre R$ 350 milhões do Fundo Clima e R$ 600 milhões da linha Finem.
A promessa é de fábrica grande e conta fechando bem fácil. Em 2027, a unidade baiana deve processar até 1 milhão de toneladas de milho e produzir 498 milhões de litros de etanol, além de 248,9 mil toneladas de DDG pra nutrição animal, 24,9 mil toneladas de óleo vegetal e 185 GWh de energia elétrica. Uma verdadeira powerhouse.
Pra Inpasa, o crédito tem gosto de estreia. A empresa disse que essa é a primeira captação junto ao BNDES e que o apoio banca a 6ª biorrefinaria no Brasil, a 1ª na Bahia, coroando a expansão desde 2018. Pra eles não é só mais uma obra, é a companhia ganhando carimbo de gente grande.
E o apetite tá longe de acabar. A Inpasa estimava faturar cerca de R$ 24 bilhões em 2025 e ainda tem unidade em construção em Rio Verde (GO), com inauguração prevista pro 1º trimestre de 2027. Em dezembro, anunciou R$ 3,48 bilhões em Mato Grosso, com a construção de uma planta nova em Rondonópolis (R$ 2,77 bilhões, 2 milhões de toneladas de grãos por ano e 1 bilhão de litros de etanol) e expansão em Nova Mutum (R$ 704 milhões), além da operação já rodando em Sinop e outras unidades no MS, MA e até no Paraguai.
COLHENDO CAPITAL
Supersafra no radar, caminhoneiro no caixa

Gif by daimlertrucks on Giphy
A Frete.com, dona de Fretebras e CargoX, trouxe a XP pra mesa e captou R$ 150 milhões via FIDC pra turbinar o braço de crédito voltado a transportadoras. A ideia é simples e bem do agro: se vem supersafra, vem demanda, e sem caixa no transporte o grão fica preso no armazém.
O programa fechou 2025 com R$ 600 milhões concedidos e agora mira mais de R$ 1,5 bilhão em 2026, quase 3 vezes o valor. Hoje a companhia diz que o agro já responde por cerca de metade das cargas na plataforma, chegando perto de 60% no 1º trimestre, e projeta crescimento de 20% no volume transportado em 2026.
O diferencial que eles vendem é usar dados e IA pra reduzir risco, cortar fraude e oferecer juros mais baixos num mercado de margem curta. No ecossistema, são mais de 25 mil transportadoras e cerca de 900 mil caminhoneiros cadastrados, e a Frete.com quer virar tipo um banco, só que com cheiro de diesel e contrato digital.
PLANTÃO RURAL
Dinheiro carimbado pra virar insumo. A Basf captou R$ 1,4 bilhão via Fiagro FIDC pra financiar a venda de insumos pra distribuidores, cooperativas e produtores. É a 4ª emissão do fundo Opea Agro Insumos e, depois de captar R$ 800 milhões em janeiro de 2025, o veículo cresceu 30% ao longo do ano.
RJ bateu na porteira do Grupo Formoso. Dono da Uniggel Sementes, o grupo pediu recuperação judicial pra renegociar R$ 1,3 bilhão em dívidas e diz que segue operando sem parar e sem demitir. A sementeira relatou dificuldade pra renovar linhas e pediu prazo até fevereiro de 2026, citando fluxo de caixa apertado e calotes de clientes em RJ.
Glifosato saiu ileso por W.O. A Justiça do Trabalho em MT encerrou a ação que queria proibir o uso do herbicida, mas sem julgar o mérito. O tribunal entendeu que Famato, Aprosoja MT e Ampa não eram partes legítimas e fechou o processo por questão processual, deixando o debate técnico pra outra briga
Terra em MT segue valendo ouro. A Terra Santa teve as propriedades avaliadas em R$ 2,8 bilhões pela S&P em 2025, alta de 1,4% sobre 2024, considerando terra nua e benfeitorias. São 6 fazendas em MT somando 80,1 mil hectares, com 5 arrendadas pra SLC por 25 anos e 1 pra Manejo Florestal.
SE DIVERTE AÍ
Hoje o desafio é o Contexto, aquele jogo em que você tenta adivinhar a palavra secreta chutando termos e vendo o quão perto tá pelo sentido, não pelas letras. Vale começar com palavras do agro tipo soja, boi, clima, crédito, fertilizante e ir afinando até chegar na resposta. Joga aí, testa seu dicionário e depois conta quantos chutes você precisou pra matar a charada.
VIVENDO E APRENDENDO
Resposta da edição passada: Mandioca
Pergunta de hoje: Qual grão do Oriente Médio deu origem ao primeiro pão fermentado da história, há mais de 6 mil anos?
A resposta você fica sabendo na próxima edição!

