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Bom dia!
A Europa tá pedindo VAR jurídico no acordo UE-Mercosul e jogando a assinatura pra fila de espera. Do lado de cá, tem planilha chorando em Mato Grosso, tilápia virando investimento sério no Paraná e insumo fechando 2025 com comércio exterior turbinado. Pra completar, a Basf promete soja nova pra encarar nematoide, o trigo gaúcho ganha cara de etanol, a Mosaic segue segurando o superfosfato simples, Itaú BBA escolhendo quem anda e quem patina na bolsa, e o Mapa abrindo mais portas no Vietnã e na Arábia Saudita.
Pra você acordar bem informado
Por Enrico Romanelli
TÁ QUANTO?
Ibovespa decolou com passaporte gringo. A B3 teve dia de festa: o Ibovespa subiu 3,33% e fechou em 171.816,67 pontoso colado nos 172 mil, batendo recorde mais uma vez, puxado por fluxo estrangeiro. Vale e Itaú renovaram máximas e o giro bateu R$ 43,32 bilhões. Em 2026, a alta já soma 6,64% e a entrada líquida de gringo chega a R$ 7,6 bilhões.
ASSUNTO DE GABINETE
Acordo UE-Mercosul volta pra fila

Foto: Reprodução
O acordo UE-Mercosul, que tava saindo do forno com cheiro de assinatura fresca, levou uma rasteira jurídica em Estrasburgo. O Parlamento Europeu aprovou um requerimento pra mandar o texto pro Tribunal de Justiça da União Europeia avaliar se tudo ali conversa direitinho com os tratados do bloco. Foi no sufoco, com 334 votos a favor, 324 contra e 11 abstenções, e o efeito prático foi simples: o processo de aprovação no Parlamento ficou suspenso.
Na prática, a União Europeia resolveu conferir a letra miúda antes de servir o prato. A dúvida não é só política, é de base jurídica mesmo: eurodeputados questionam o formato de fatiar o pacote em 2 instrumentos, um acordo de parceria e um acordo comercial provisório, e se isso contorna o direito de parlamentos nacionais entrarem no jogo.
No centro da treta tá o tal do mecanismo de reequilíbrio. Ele abre espaço pra Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai pedirem compensação se leis futuras da União Europeia reduzirem exportações do Mercosul, mesmo quando a medida europeia não viola o acordo. Pra uma parte do Parlamento, isso vira um convite pra pressão indireta contra normas ambientais, climáticas, de segurança alimentar e até proibição de alguns agrotóxicos, bem no momento em que o campo europeu tá mais barulhento do que nunca e com o megafone ligado.
A reação veio do jeito que a Europa sabe fazer bem: protesto, nota e mais protesto. Entidades de agricultores e cooperativas, como a Copa Cogeca, disseram que a decisão valida preocupações do setor e que comércio justo não pode premiar um produto de padrão mais baixo enquanto o produtor europeu é cobrado pra produzir mais com menos. Do outro lado, parlamentares favoráveis ao acordo chamaram a decisão de tiro no pé em tempos de tensão global escalando cada vez mais, dizendo que isso escancara um racha no elenco e cria um muro onde o bloco precisava de parceiro.
Agora o acordo fica em standby, com o Tribunal analisando a compatibilidade e o procedimento, e esse parecer pode levar até 18 meses, com risco de empurrar a entrada do acordo em vigor por até 2 anos ou até travar tudo de vez e matar os 20 e tantos anos de negociação. Enquanto isso, o Parlamento diz que segue estudando os textos, mas só vota pra valer depois do carimbo do Tribunal, e o agro do Mercosul fica olhando pra Europa com esperança, mas cheio de incerteza.
NAS CABEÇAS DO AGRO
As peripécias da família Vorcaro

Foto: Reprodução/ Facebook e Valor
A família Vorcaro entrou no radar de um rolo bem doido sobre crédito de carbono na Amazônia. A treta toda tem como pivô a Alliance Participações e Investimentos, empresa que tem como sócios Henrique Vorcaro, pai de Daniel Vorcaro do Banco Master, e Natália Vorcaro, irmã do banqueiro. O fio dessa história passa por Apuí (AM), onde o sobrenome da família apareceu juntinho de um projeto que prometia gerar e monetizar créditos de carbono numa área de cerca de 145 mil hectares entre 2022 e 2024.
O problema é que a fazenda comprada em 2009 tem 68% de sobreposição com o Projeto de Assentamento Agroextrativista Aripuanã-Guariba, que é área da União. Ou seja, mais da metade do território invade área pública e não pode ser tratada como propriedade privada pra exploração econômica sem aval do Incra. Especialistas chamaram isso de grilagem verde, que é quando alguém toma na cara dura uma terra que é pública. E o problema não fica só nessa fazenda não, tem mais de 41 milhões de hectares de imóveis rurais dentro de áreas da União, com 15 milhões em assentamentos do Incra.
Mesmo com esse terreno escorregadio, o projeto ganhou musculatura financeira no papel. Um inventário técnico feito pela Unesp e com certificação da KPMG estimou mais de 2 bilhões de Unidades de Estoque de Carbono geradas entre 2011 e 2022, com cada unidade equivalendo a 1 tonelada de emissão evitada. O problema é que, sendo um assentamento, a exploração econômica sem consentimento do Incra não rola, e aí o carbono fica com cara de miragem: dá pra enxergar de longe, mas na hora de pegar, mete o pé.
No miolo financeiro, um contrato de dezembro de 2023 entre Marco Antônio de Mello, José Antonio Ramos Bittencourt e a Alliance desenhou a engrenagem pra opção de compra, cessão e transferência dessas unidades, inclusive permitindo exploração retroativa do estoque e não só de crédito futuro. A divisão do bolo também vinha com caneta firme: 80% dos direitos econômicos pra Alliance e 20% pra Bittencourt, com autorização expressa pra emitir CPR Verde e instrumentos parecidos lastreados no tal serviço de conservação.
Só que tudo começou a azedar quando o Incra identificou indícios de grilagem e recomendou o cancelamento da matrícula do imóvel em outubro de 2024. Logo depois o castelo de papel perdeu o chão e o projeto original virou juridicamente inviável, ainda mais depois do clima de suspeita aceso pela Operação Greenwashing da Polícia Federal na região.
Aí veio a tentativa de meter um rebranding na história: em 2025, Bittencourt, em nome da Alliance, procurou o Incra pra tocar um novo projeto dentro do assentamento. O Incra diz que não assinou TAC nenhum, que a Procuradoria travou o avanço por óbices jurídicos e falta de documentos. Pra piorar, os assentamentos da região disseram que ninguém falou com eles, foi tudo na encolha, segundo a reportagem. Enquanto isso, Bittencourt nega ser sócio e diz não representar a Alliance, e o Incra mantém o caso na mesa, com papelada pedida e a caneta ainda no bolso.
O AGRO EM NÚMEROS
Conta aperta no MT, tilápia acelera no PR e insumos fecham 2025 em alta

Foto: Divulgação C.Vale
Em Mato Grosso, o Imea trouxe um retrato bem direto da realidade do produtor de lá: o custo subindo mais rápido do que a paciência. No milho 2025/26, o custo total foi estimado em R$ 6.684,91 por hectare, alta de 9,69%, com pressão forte das sementes e fertilizantes. Com produtividade de 116,61 sacas por hectare e preço médio de R$ 45,95 por saca em dezembro, o cachê até cobre o custo operacional efetivo, mas não fecha o custo total. Na soja o custo total chegou a R$ 7.657,89 por hectare, alta de 7,69%, e a receita bruta média estimada em R$ 6.656 por hectare deixa uma perda média de R$ 1.001,89 por hectare, com fertilizantes e defensivos mordendo 37,58% do custo.
E enquanto a lavoura faz malabarismo com fatura e boleto, no Paraná tem produtor tratando tilápia como ouro. Em Palotina, tem um piscicultor investindo R$ 7 milhões pra sair de 1,2 milhão de peixes por ciclo pra pouco mais de 2 milhões, alta de 72%, usando tanques com geomembrana que elevam a lotação de 7 pra 30 peixes por metro quadrado e prometem cortar o uso de água em 90%. O panorama geral ajuda a explicar a empolgação toda: a produção paranaense foi de 71 mil toneladas em 2015 pra 192 mil toneladas em 2024, alta de 170,4%, e o VBP da tilápia saltou de R$ 1,25 bilhão em 2022 pra R$ 1,83 bilhão em 2024, avanço de 46%.
No comércio exterior, a indústria de insumos fechou 2025 em alta. O CropData, plataforma de dados da CropLife Brasil, saiu mostrando pra todo mundo que as exportações de insumos subiram 7% e bateram US$ 976 milhões, a melhor marca em 14 anos. Dentro desses números, defensivos responderam por 63% do valor, sementes por 27% e bioinsumos por 7%. Do outro lado, as importações não ficaram pra trás e somaram US$ 14,3 bilhões e mais de 1,8 milhão de toneladas, com defensivos químicos representando 96,3% desse valor. Parece até que toda semana tem um recorde novo.
CAMPO ATUALIZADO
Nematóides na mira da Basf

Foto: José Florentino / Globo Rural
A Basf chamou uma galera pra ir pra Sinop (MT) pra participar dos crop tours, passeios guiados ali pelas áreas experimentais da empresa. Nessa excursão, a gigante alemã apresentou sua nova estrela que promete mudar o jogo, a soja transgênica NRS, uma biotecnologia feita pra ser imune a dois nematóides chatos que vivem sabotando lavoura por baixo do chão: Pratylenchus brachyurus, o das lesões radiculares, e Heterodera glycines, o nematóide de cisto.
A empresa diz que a proteção vem de dentro pra fora, com uma resistência biotecnológica que cresce junto com a planta, e que os ensaios de campo feitos nos últimos 7 anos mostraram controle acima de 90% contra o nematóide das lesões, além de proteção consistente contra o de cisto, em mais de 160 testes no Brasil.
A aposta é grande e a comparação também: a Basf fala que o NRS pode ser tão disruptivo quanto a soja RR foi pras daninhas, lá atrás. O motivo pra isso é que nematóide não bate na porta e nem avisa quando já tá lá dentro e aí, quando você percebe, já pagou a conta. A empresa cita números da Sociedade Brasileira de Nematologia que estimam perdas anuais de R$ 35 bilhões na agricultura, sendo R$ 16,2 bilhões só na soja, e crava que essa tecnologia poderia adicionar entre R$ 15 bilhões e R$ 20 bilhões em renda ao mercado ao reduzir essas perdas.
Pra tristeza de muitos, por enquanto o calendário de lançamento tá pausado, já que ainda tem carimbo pra pegar. A Basf diz que o NRS tá em processo de aprovação regulatória nos principais mercados e que quer lançar de forma alinhada em Brasil, EUA e Canadá. A empresa fala em chegar comercialmente daqui 2 ou 3 anos.
E não é só nematóide que tá no radar. No mesmo pacote, vem um novo inseticida com broflanilide, mirando lagartas com efeito residual de 14 a 21 dias, e um fungicida novo chamado Pavecto, mirando na ferrugem asiática e outras dores clássicas da lavoura, com promessa de ganho de pelo menos 3 sacas por hectare. No tamanho do investimento, a Basf manda o recado de que nunca é só mais um produto. A empresa diz que investe globalmente mais de € 915 milhões por ano em pesquisa e desenvolvimento e estima que só essas 3 inovações somem entre € 800 milhões e € 1 bilhão na última década. É tanta novidade nesse agro que tem que ficar esperto pra não perder nada.
SAFRA DE CIFRAS
Trigo cansou de esperar comprador e virou combustível, ração e farinha metida

Foto: Divulgação
O trigo do Rio Grande do Sul sempre teve aquele talento raro de chegar no fim da colheita e ver comprador mandando um “vou ver e te aviso”. Só que 2026 tá trazendo uma saída nova: usina de etanol. A CB Bioenergia, em Santiago, recebeu ok da ANP e começou a operar neste mês como a 1ª usina de etanol de trigo do país. Foram R$ 100 milhões pra botar a planta pra rodar e transformar o cereal de inverno em uma demanda mais constante, menos dependente de boa vontade do mercado.
O plano é processar perto de 100 toneladas de trigo por dia e tirar 40 mil litros de etanol, com um detalhe que muda o jogo pro produtor: o grão vai ser avaliado pela quantidade de amido, então até trigo com peso hectolitro mais baixo, aquele que apanha na balança, ganha chance de engordar o bolso. A conta fecha com 1 tonelada rendendo cerca de 400 litros de etanol e 300 kg de DDGS pra ração, e a planta ainda pode alternar com outras culturas com amido, tipo cevada, centeio, sorgo, triticale, milho e arroz. E a CB já avisou que o foco nem é disputar a bomba, o etanol sai de lá hidratado, mas a mira tá em virar álcool neutro pra cosméticos, bebidas e álcool em gel, onde o mercado tem menos treta.
Enquanto isso, a Be8 tá montando um projeto ainda maior do outro lado do estado, em Passo Fundo. A usina, com investimento de R$ 1 bilhão, começou a ser construída em julho de 2024 e tá com cerca de 40% da obra concluída, de olho em começar a operar em dezembro de 2026, com flexibilidade pra produzir etanol anidro ou hidratado. A capacidade projetada é de 1.500 toneladas por dia, ou 525.000 toneladas por ano, pra gerar 220 milhões de litros de etanol, o que já mataria a 23% da demanda do Rio Grande do Sul, e ainda 150.000 toneladas de DDGS. A motivação tem cara de logística e soberania estadual: hoje o RS precisa buscar fora boa parte do etanol que consome, e a usina vira um atalho pra reduzir essa dependência.
No fim, os analistas enxergam uma liquidez mais contínua pro trigo gaúcho, com impacto maior na disputa com exportação e trigo de ração, e uma precificação que tende a seguir a paridade de exportação. Mas pra quem planta, já é uma mudança e tanto: o trigo saiu da prateleira do difícil de vender e ganhou um cliente que compra todo dia.
PLANTÃO RURAL
Mosaic segura o superfosfato simples por mais 30 dias. A Mosaic estendeu por mais 30 dias a redução na produção de superfosfato simples no Brasil, por causa da alta recente do preço do enxofre, que entra na receita do fertilizante. A empresa disse que vai reavaliar o mercado nas próximas semanas e já avisou que não pretende comprar enxofre no Brasil no curto prazo.
Itaú BBA dá dicas pra investir no agro. O Itaú BBA listou as melhores e piores ações do agro pra investir esse ano. A consultoria vê 2026 com um ano de excesso de grãos e preço pressionado, então o apetite do investidor pro agro segue tímido. Mesmo assim, a 3tentos virou a preferida entre institucionais. O banco mantém compra pra Minerva, JBS, SLC Agrícola e Vittia, e fica mais neutro com BRF, BrasilAgro e Boa Safra.
Mapa destrava Vietnã e Arábia Saudita. O Mapa anunciou a abertura de mais dois mercados pro agro brasileiro, o Vietnã liberou a importação de gordura bovina do Brasil e a Arábia Saudita abriu mercado pra heparina bovina, usada em terapias e procedimentos clínicos. Em 2025, o Vietnã comprou mais de US$ 3,5 bilhões do agro brasileiro e a Arábia Saudita passou de US$ 2,8 bilhões. Com isso, o Mapa diz que o Brasil já chegou a 527 novas oportunidades desde o início de 2023.
SE DIVERTE AÍ
Hoje a brincadeira é com o Tradle, o joguinho estilo wordle da balança comercial. Você recebe a lista dos principais produtos que um país exporta e tem que adivinhar quem é o dono dessa pauta. Vale ler com olhar de agro nerd mesmo: reparou muito grão, carne e minério, já pode chutar Brasil ou vizinho forte no campo. Se pintou muito eletrônico, máquina e química, talvez seja alguém lá da Europa ou da Ásia. Bora testar se você tá afiado pra bater o olho na lista de exportações e adivinhar o país antes do sexto palpite.
VIVENDO E APRENDENDO
Resposta da edição passada: Baobá
Pergunta de hoje: Qual bebida fermentada feita de milho era consumida em rituais pelos incas e ainda é popular no Peru?
A resposta você fica sabendo na próxima edição!
