
APRESENTADO POR

Bom dia!
Sexta-feira, semana fechando, e o governo abriu a carteira duas vezes, uma para o etanol e outra para o arroz. Num caso o dinheiro chegou, no outro ninguém quis, e em cinco minutinhos de café você entende os dois. O trigo da próxima safra encolheu um quarto e o pão da padaria nem tomou conhecimento. O trator vai ganhar um assistente que lê os dados da máquina e devolve conselho em português. A China marcou data para voltar a comprar carne, e a bolsa já está correndo na frente. E o etanol ganhou uma ajuda do governo que dura um mês, se durar. Descendo a página tem mais coisa boa te esperando.
Pra você fechar a semana sabendo onde a conta vai apertar.
Por Luciana Stival
TÁ QUANTO?
Os dados são publicados por BCB e Brapi.
As variações são calculadas em % diária e %YTD (Year to date)
Um banco global elevou o preço-alvo de uma agrícola do Ibovespa, mesmo alertando que o clima pode cortar a produtividade da safra que vem. É apostar na margem antes de saber se a chuva confirma o risco, e é esse otimismo que seu banco também lê antes de fechar o crédito.
ASSUNTO DE GABINETE
O desconto veio com data de validade

Fonte: Canal Rural
Abasteceu a colheitadeira essa semana e sentiu o diesel pesar? Pois o governo resolveu pagar uma parte da conta do nada. Saíram dois cheques em 48 horas: um decreto de quarta que dá R$ 0,25 por litro de etanol hidratado à usina, por 30 dias, com a condição do desconto aparecer na nota fiscal; e a Petrobras avisando que repassa integralmente a subvenção do diesel às distribuidoras a partir de quinta, sem mexer no próprio preço.
Na bomba do etanol, a conta da StoneX é modesta, uns 1,5% a menos, porque a subvenção obriga a repassar, mas a isenção de imposto da semana passada não obriga, e usina com margem apertada pode ficar com essa parte.
É promoção de supermercado: vale por trinta dias, só com a nota, e a Fazenda pode tirar o cartaz da gôndola depois de quinze, antes mesmo da ANP escrever a regra de como se paga.
No diesel, a Farsul já avisou a ANP que subvenção sem oferta não resolve, e os importadores seguem adiando compra com o produto de fora bem mais caro que o daqui, e desconto em produto que não chega é desconto no papel.
A CONTA DA LAVOURA
Faltou enxofre, e 450 contratos ficaram em suspenso

Fonte: Giphy
O adubo que você vai comprar para a safrinha depende de uma pedra amarela que o Brasil importa quase toda, e ela ficou escassa e cara.
A EuroChem suspendeu por três meses, prorrogáveis a cinco, o contrato de uns 450 trabalhadores da unidade de Serra do Salitre, em Minas; o sindicato contou primeiro, a empresa confirmou.
O motivo apontado é o enxofre, o ingrediente que ninguém cita na receita e que, quando falta, para a cozinha inteira: vira ácido sulfúrico, que vira fosfatado, e hoje custa mais que o triplo do ano passado, com a rota do Golfo apertada e Rússia e Cazaquistão segurando embarque.
Não é caso isolado: a Mosaic já reduziu operações em unidades de fosfatado e fala em vender ativos em Araxá, e a produção nacional de matéria-prima de adubo caiu no primeiro semestre pelo mesmo motivo, com as entregas de fertilizante ao mercado brasileiro abaixo do ano passado. É uma fileira de dominó que começa num estreito no Oriente Médio e termina no depósito da sua adubadeira.
Vale reparar que a escassez não é a história inteira: a Anda fala em crédito curto e juro alto do lado de quem compra, e a própria EuroChem condiciona a volta à melhora do mercado de fertilizantes. Fábrica que para por falta de insumo e de cliente ao mesmo tempo conta a versão que lhe convém, e a do insumo caro é a que segura o preço na tabela. Mas nenhuma das duas pontas trabalha a favor do seu orçamento.
DE OLHO NO PORTO
A China volta a comprar (mas calma)

Fonte: Giphy
A gente contou ontem que a cota chinesa de carne acabou em sete meses; o capítulo de hoje é o calendário da volta.
Desde a virada de junho o frigorífico que vivia de mandar boi padrão China está vendendo para quem paga menos. A Abiec contou na quinta que a fila volta a andar entre meados de outubro e novembro, quando as negociações para a cota de 2027 recomeçam, com embarque em novembro para chegar em janeiro.
A conta que ela mesma fez é o que interessa: a cota do ano que vem é praticamente a deste ano, e se todo mundo correr de novo ela pode acabar entre março e abril. Seriam seis meses sem China em vez de três, e cota é rodízio com hora marcada: quem chega primeiro come mais. A B3 já precifica a corrida, com o contrato de outubro passando pela primeira vez dos R$ 380, e uma missão chinesa desembarca domingo para habilitar mais plantas, o que põe mais cadeira no rodízio, não mais comida.
A proposta da Abiec para o governo é dividir a cota entre as empresas por histórico de exportação, e vale reparar no critério: histórico favorece quem já está acostumado a vender para a China, que é justamente quem propõe. Claro né. O próprio presidente da entidade ressalva que a China está com estoque alto e a produção de suíno no pico, e que o apetite de 2027 é um enigma. Para quem cria, a corrida é boa em outubro, mas pode ser terrível em abril.
RADAR SANITÁRIO
O frango tem carta da Europa; falta a lista

Fonte: Globo Rural
O frango que deixou de embarcar para a Europa no começo do mês tem previsão de voltar, mas a previsão veio do lado de cá. O Ministério da Agricultura disse na quarta que a União Europeia enviou uma carta no dia 14 aceitando os protocolos brasileiros para a volta da carne de frango.
O que falta é o protocolo detalhado e as etapas formais para o Brasil voltar à lista, e portaria de bloco europeu não deixa entrar com convite na mão se o nome não está na lista. Até lá, o regulamento que tirou o Brasil continua valendo, e o que está em jogo é o volume de agosto, umas 42 mil toneladas só de frango, mês em que os exportadores correram para estocar antes da suspensão.
Para o boi, a conversa é outra e mais longa. A ideia anterior de um período de transição não foi bem recebida pelo bloco, a nova proposta ainda está sendo negociada aqui dentro e nem foi levada à Europa. A Abiec trabalha com a volta no primeiro semestre de 2027, o que é expectativa de quem exporta, não sinal de quem importa.
E detalhe que pesa: mais de vinte países seguem a legislação europeia para decidir de quem compram.
POR DENTRO DO MERCADO
O governo quis comprar arroz, mas o navio pagou mais

Fonte: Giphy
Quem ainda tem arroz no armazém teve dois compradores na porta esta semana, e um deles era o governo, que perdeu.
A Conab separou dinheiro para formar estoque público, abriu o primeiro leilão na quarta e voltou para casa com a sacola quase vazia: do que se propôs a comprar no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, fechou uns 5%.
O motivo cabe numa linha de planilha. O teto do leilão ficou uns dez reais por saca abaixo do que o porto de Rio Grande está pagando para carga de exportação, e ninguém vende para o governo por menos do que o navio paga. A portaria que criou o programa amarra a Conab a um limite sobre o preço mínimo: o governo chegou ao leilão com o lance máximo escrito na testa, o mercado leu, e o próximo só enche se a régua subir.
A safra veio menor, e a disputa é da exportação com a indústria daqui, mas a Conab sustenta que o abastecimento está garantido e ainda sobra algum volume para exportar, e o arroz no supermercado mal saiu do lugar no ano. Ou seja, o governo quer estocar para um problema que o mercado ainda não sente, oferecendo menos que o concorrente.
Quem tem arroz na mão está fazendo a conta certa: vende para quem paga mais e deixa o estoque público para quando o preço cair. Se cair.
SAFRA DE CIFRAS
A margem do algodão ficou bonita no papel

Fonte: Globo Rural
Se você planta em Mato Grosso e ainda está decidindo o que vai na segunda safra, o banco fez a conta por você, e ela ficou bonita.
O Itaú BBA refez a margem do algodão de segunda safra para 2026/27 e ela saltou para uns 38%, quase metade a mais do que o banco calculava em abril, puxada pela fibra em alta em Nova York e por um mundo que vai consumir mais algodão do que colhe. Com margem assim, o banco já enxerga a maior área da história no próximo ciclo, e margem bonita em boletim de banco é churrasco de portão aberto: aparece mais gente do que carne.
Agora repare no que o mesmo boletim diz duas linhas abaixo: a produção deve cair, porque o El Niño vai até abril e a produtividade desta safra não se repete, e área maior é mais pluma chegando junto na colheita de 2027, apertando o preço na porteira justamente na hora de vender. A Abrapa fechou a conta da safra que está saindo do campo um pouco menor que a anterior, com menos área, a Bahia colhendo a melhor safra da sua história e já preocupada com por onde escoar. E no balcão de agora o Cepea conta que ninguém está fechando negócio: quem tem pluma está ocupado entregando contrato, quem compra desanimou com Nova York, e setembro está devolvendo preço.
Ou seja, a margem existe na planilha do banco com o preço de hoje, e o próprio banco avisa que a área nova vai bater nesse preço lá na frente. Para quem decide agora, o recado é fechar preço enquanto a margem é essa: o boletim que abriu o apetite é o mesmo que avisa quanto ele vai custar na colheita.
PLANTÃO RURAL
O trator vai ganhar um assistente que fala a língua do produtor: a John Deere testa na América Latina um agente de IA que lê os dados das máquinas conectadas e devolve recomendação, com lançamento previsto até o fim do ano.
O café nunca embarcou tanto num mês de agosto: o Brasil exportou 4,16 milhões de sacas no mês, recorde para agosto desde 1990, segundo o Cecafé.
A Europa tirou o couro da lista do desmatamento: o regulamento publicado quinta retira couros e peles bovinas do escopo do EUDR a partir desta sexta, aliviando curtume e frigorífico exportador.
Tem R$ 22 bilhões na mesa para quem perdeu cliente nos Estados Unidos: o BNDES abriu quinta o protocolo do Brasil Soberano III, com entrada para exportador que tinha ao menos 1% do faturamento vindo dos americanos e para fabricante de fertilizante.
O juro caiu de novo, e pode ter sido a última vez no ano: o Copom cortou a Selic a 13,75%, quinto corte seguido, com o Rabobank sem enxergar outro antes de março.
O trigo encolheu um quarto, mas o pão nem percebeu: a Conab projeta a safra 27% menor, com o pão francês em alta de menos de 4% no ano e a farinha mais barata no mesmo período.
O agro fez menos negócio, mas negócio maior: as fusões e aquisições do setor caíram 60% em valor no primeiro semestre, com 34 operações e um segundo trimestre de menos transações e cheques maiores, segundo a KPMG.
Produzir leite ficou 4% mais caro este ano: o índice da Embrapa subiu 4,13% de janeiro a agosto, puxado pelos minerais, apertando a margem de quem tira leite.
DIVIRTA-SE
Uma foto de cidade vista de cima, quatro nomes e um relógio de dois minutos já correndo: é o Adivinhe a Cidade. Você acerta Lucerna pelo castelo à beira do lago e se acha viajado, aí aparece a orla do Guaíba, em Porto Alegre, disputando com Xangai e Düsseldorf, e o dedo hesita. Abra e conte em quantas o Brasil te pega de surpresa.
VIVENDO E APRENDENDO
Resposta da edição passada: basalto, uma rocha vulcânica que, moída e espalhada na lavoura, reage com a água da chuva e prende o CO₂ por milhares de anos, além de devolver minerais ao solo.
Pergunta de hoje: o que é o salitre e para que ele serve?
A resposta você confere na próxima edição!
