
APRESENTADO POR

Bom dia!
Café na mão, que a quinta inteira do agro cabe em cinco minutinhos. O dinheiro do deserto rondou o Cerrado por um bom tempo e desistiu, e quem ficou com vontade de comprar terra atravessou a fronteira. O estoque de CPR nunca esteve tão gordo e, mesmo assim, o papel que banca a sua safra anda minguando. O bioinsumo cresceu mais rápido que a regra que deveria mandar nele, e a caneta que falta segue parada em Brasília. O abate subiu justo quando o setor jurava que estava faltando boi no pasto, e lá fora o freguês fugiu bem na temporada do churrasco. O açúcar acordou do sono mais longo dos últimos tempos sem que um único armazém ficasse vazio, e a mão que mexeu no preço veio de fora do canavial. E uma gigante da carne quer o resto do galinheiro pagando com a própria ação, numa proposta que oferece exatamente nada a quem vai ter de aceitar.
Pra você sentar na reunião de hoje já sabendo o que mudou.
Por Luciana Stival.
TÁ QUANTO?
Os dados são publicados por CEPEA-Esalq/USP Indicadores sob licença CC BY-NC 4.0. As variações são calculadas em % diária e %YTD (Year to date)
Juro futuro em queda barateia o custeio que ainda vem pela frente, enquanto o câmbio mais fraco tira gordura da receita de quem embarca. O barril segue caro pelo impasse no Golfo, e nem o diesel do caminhão nem o adubo importado deram trégua. Só que o estrangeiro ainda não voltou a comprar, esse fôlego emprestado tem prazo.
NAS CABEÇAS DO AGRO
A JBS quer o frango todo sem gastar um dólar

Fonte: Giphy
Sabe quando o sócio quer comprar a sua parte e te paga com cota da própria empresa? É o que a JBS botou na mesa. Ela já manda em quase tudo na Pilgrim's, a dona do frango dela nos Estados Unidos, e quer os 18% que faltam pra levar tudo. Mas não vai ter cheque. A proposta é trocar papel por papel, US$ 1,2 bilhão em ações que não tiram um centavo do caixa. E a troca saiu no valor de tela, sem prêmio nenhum.
Jeremiah O'Callaghan, que preside o conselho da JBS, vende como a chance de o minoritário seguir participando do crescimento. O minoritário leu diferente, participar ele já participava, e o que se pede agora é entregar a fatia sem prêmio nenhum. Tanto que a ação subiu 8,8% assim que a notícia saiu, e papel que passa do valor da oferta é o mercado pedindo mais.
Viemos acompanhando esse fio desde o tombo do lucro da Pilgrim's. E quem decide é justamente quem está sendo espremido, um comitê que já barrou a mesma jogada anos atrás.
POR DENTRO DO MERCADO
A São Martinho colheu na bolsa

Fonte: TheAgriBiz
Você viu o açúcar dormir o primeiro semestre inteiro. Ficou parado na casa dos 14 centavos, mês depois de mês, sem dar sinal de vida. Em agosto acordou de uma vez, e o contrato de outubro fechou terça no maior valor desde abril de 2025. Quem tem usina listada sentiu no mesmo dia, com São Martinho e Jalles disparando na bolsa. Dentro da porteira a conta é a mesma, o açúcar subiu cerca de R$ 400 por tonelada em pouco mais de um mês.
Mas aí vem a pergunta que interessa: o que aconteceu no armazém pra justificar isso?Nada. Nenhum estoque secou, nenhum navio deixou de carregar. O que virou foi a mão dos fundos, que em duas semanas compraram mais contrato do que em qualquer quinzena das últimas duas décadas. Compraram medo, e o medo tem nome, El Niño chegando forte na Ásia, com a chuva 20% abaixo da média na Tailândia e a monção fraca na Índia.
E aqui está a parte que quase ninguém põe na conta: pro canavial do Centro-Sul, El Niño forte historicamente não é desgraça, é o contrário. Em 90% dos anos de El Niño forte a produtividade ficou acima da média. Ou seja, o mercado está pagando prêmio de risco pelo mesmo fenômeno que costuma engordar a nossa lavoura.
Pro gestor, é aí que a decisão muda de lugar. Se o prêmio na tela nasceu de um susto de volume que a história desmente, essa alta é uma janela que alguém abriu por você. Fixar uma parte agora não é apostar no El Niño, é aproveitar que o mercado está pagando pelo medo dele. Alta feita de susto não avisa a hora de descer.
SAFRA DE CIFRAS
Dois números pro mesmo boi

Fonte: NPAgro
Você leu hoje que o abate cresceu. O IBGE fechou o segundo trimestre em 10,72 milhões de cabeças, mais que no trimestre anterior e mais que um ano atrás. Se você vende boi, o recado parece claro, tem gado saindo e a arroba vai sentir.
Mas o frigorífico vem dizendo o contrário há meses, e dessa vez com número na mão. A Minerva, maior exportadora de carne bovina da América do Sul, olhou o mesmo trimestre e o mesmo país e contou 7,3 milhões de cabeças. Não 10,72. E onde o IBGE enxerga alta no ano, ela enxerga queda. A leitura da companhia é de virada do ciclo pecuário, com menos animal pronto pra abate no Brasil.
Enquanto isso, tem uma parte da história que não depende de quem contou certo. Nos Estados Unidos, o freguês que aguentou dois anos de aumento cedeu justo na temporada de churrasco, com o varejo de carne bovina recuando e o frango levando a diferença. Se falta boi ou se sobra, a gente ainda vai descobrir. Que o freguês mais rico do mundo começou a trocar de carne, isso já está contado.
AGRO EM NÚMEROS
O biológico já vale bilhões e joga sem juiz

Fonte: Giphy
O produtor não esperou a lei ficar pronta pra decidir. A área tratada com biológico subiu 35% numa única safra, e o mercado de bioinsumos já movimenta R$ 7 bilhões por ano. Pra você ter ideia do ritmo, a área plantada no Brasil cresce uns 3% ao ano e a tratada com biológico cresce dez vezes isso. Mas nem tudo virou biológico. Ele ainda é 6% do mercado de defensivo e inoculante, porque ganhou de goleada onde funciona muito bem, o nematoide na soja, e mal saiu do lugar no resto.
E aqui está o que quase ninguém olha: a lei que organiza esse mercado saiu, mas o decreto que a faz valer está quase 20 meses esperando assinatura, tempo em que nasce um elefante e ainda sobra. Sem ele, registro, rotulagem e fiscalização próprios do biológico continuam no papel. Enquanto a caneta não desce em Brasília, o juiz de linha do frasco é você, na sua lavoura, com a sua safra de garantia.
COLHENDO CAPITAL
O trilhão que não chega no talhão

Fonte: Globo Rural
Se o crédito do agro nunca esteve tão grande, por que ele não aparece na hora de plantar?
O papel privado que banca a lavoura somou R$ 1,409 trilhão em julho, e o número impressiona até você ler a letra miúda da própria conta, que avisa ter repetição no meio, a mesma cédula servindo de lastro pra outro título que mora dentro de um fundo, o mesmo boi pesado três vezes na balança.
Descontada a repetição, o avanço no ano foi de 3,7%, quase parado. E o que mexe com a sua safra está em outra linha. Esse total é estoque, tudo que já foi assinado e ainda não venceu. Dinheiro novo é a emissão, e a de CPR, o papel em que o produtor promete safra lá na frente em troca de caixa hoje, caiu 8% no primeiro mês da safra.
Joga a favor o fato de que ao menos 60% do que está em LCA é obrigado por regra a voltar pro financiamento do setor. Mas dinheiro obrigado a voltar não é dinheiro novo entrando. Já mostramos a CPR virando a principal fonte de recurso do campo, e agora ela está mais rolando dívida do que bancando plantio. Estoque grande mede o que já passou. E, nem sempre, número que impressiona vira crédito no balcão.
O MAPA DO AGRO
A Al Dahra desistiu e a Riza fez as malas

Fonte: TheAgriBiz
Um executivo da Al Dahra, firma agrícola do fundo soberano de Abu Dhabi, dizendo que o Brasil era foco e que eles só olhavam fazenda de dez mil hectares pra cima. Chegaram a avaliar os 15 mil hectares da Serra Bonita e, quase dois anos depois, foram embora sem assinar nada. Antes de você concluir que o Brasil perdeu a graça, não é veredito sobre o Cerrado, é reorganização de dono.
Mas aí vem o que interessa. Na mesma semana, a Riza levantou R$ 100 milhões pra comprar pasto no Beni, norte da Bolívia, colado em Rondônia, e virar soja. É private equity aplicado à terra, comprar o que ainda não foi transformado e embolsar a diferença na saída. O motivo de atravessar a fronteira é que o hectare de lá sairia até 20% mais barato que o de Rondônia. Se você tem área pra vender, o comprador que puxava o seu preço anda olhando mais longe. Terra não anda, dinheiro sim.
PLANTÃO RURAL
A Cosan cansou de Nova York: a empresa notificou a NYSE na terça sobre o desligamento voluntário de suas ADSs, com último pregão em 18 de setembro e as ações seguindo no Novo Mercado da B3.
A soja brasileira parou de crescer e as contas não fecham: a Hedgepoint projeta 181,7 milhões de toneladas em 2026/27 ante 181,5 milhões, com área subindo 0,9%, enquanto a S&P Global vê juros e dívida travando a expansão.
Mais da metade do Brasil está debaixo de seca: a área afetada saltou de 45% para 52% do território em julho, cerca de 4,43 milhões de km², com o fenômeno se intensificando em 12 estados.
O algodão nunca embarcou tanto num ano só: o Brasil exportou 3,37 milhões de toneladas no ano comercial encerrado em julho, alta de 19% e a primeira vez acima de 3 milhões, com receita de US$ 5,3 bilhões.
Tinha safra paralela rodando em Mato Grosso: a fiscalização apreendeu 217 toneladas de fertilizante adulterado na terça, avaliadas em cerca de R$ 645 mil, num estabelecimento sem registro e com falha de rotulagem e rastreabilidade.
A Europa quer o café brasileiro sem nem sombra de agrotóxico: Bruxelas estuda tolerância zero a resíduos de certas substâncias, e o pior cenário do estudo põe o café 332% mais caro para o consumidor europeu.
O BNDES resolveu bancar o motor que bebe etanol: aprovou R$ 123,6 milhões para a Toyota erguer em Sorocaba um centro de desenvolvimento de tecnologias para biocombustíveis, com foco em veículos híbridos flex.
Falta lenha para o etanol de milho e o mercado abriu o cofre: a FS Florestal levantou R$ 200 milhões no primeiro FIDC da casa para financiar o plantio de eucalipto por terceiros, o tal fomento florestal.
SE DIVERTE AÍ
Hoje a edição inteira é gente decidindo o que leva e o que deixa pra trás, uns recolhendo a empresa da bolsa, outros devolvendo terra aqui e comprando lá na Bolívia. O Lobo e a Ovelha é essa dor de cabeça em tamanho barquinho: atravessar o rio com o lobo, o carneiro e o repolho, sendo que o barco carrega um por vez. Vacilou na ordem, alguém vira almoço do outro. Não adianta ser rápido, tem que ser na ordem certa.
VIVENDO E APRENDENDO
Resposta da edição passada: não sai do filé. O colágeno do pote vem do couro, mais exatamente da derme, a camada de dentro da pele do boi, e também de osso, tendão e cartilagem. O que ninguém queria no churrasco virou cápsula na prateleira.
Pergunta de hoje: o que é o rendimento de carcaça de um boi?
A resposta você confere na próxima edição!
