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Bom dia!
Feriado, mas a conta não tira folga, e em cinco minutos você sai daqui sabendo o que mudou. Um quarto do crédito rural do país já está em atraso, prorrogação ou renegociação, e uma fazenda de 2.727 hectares foi parar em leilão por causa disso. A Expointer fechou vendendo 40% mais, e mais de nove em cada dez máquinas saíram do estado com placa de vizinho. Chegou 43% menos adubo em agosto, e o susto não é da sua soja, é da safrinha que vem depois dela. O navio de carne saiu mais vazio e mais caro, porque os Estados Unidos compram apara e a Europa comprava corte nobre. O Conselho Monetário reabriu na sexta a porta que o próprio atraso do governo tinha fechado. E o Rio Grande do Sul perdeu 55 mil produtores de leite em dez anos sem perder um litro de produção.
Pra você começar a semana curta sabendo onde a sua está apertada.
Por Luciana Stival.
TÁ QUANTO?
Sexta, 11, juro e grão saem no mesmo dia. Às 9h o IBGE solta o IPCA de agosto, que o mercado espera negativo com comida puxando pra baixo; às 13h o USDA remede a safra americana no WASDE, e o milho é a briga, 180,7 bushels por acre na conta de agosto contra 173,2 na medição do Pro Farmer a pé na lavoura.
Terça, a China conta a soja de agosto. Julho foram 11,77 milhões de toneladas importadas, e o número novo diz se Paranaguá segue com fila ou com folga.
Brasília e Sinop no mesmo relógio. Quinta o comitê técnico do CNPE trata da gasolina com 35% de etanol, sexta os credores do Grupo Safras tentam de novo a assembleia sem quórum, e sábado a MP das dívidas rurais fecha 60 dias e se prorroga sozinha.
COLHENDO CAPITAL
A dívida do vizinho vai bater no seu juro

Fonte: Giphy
Tem conta que a gente empurra com a barriga e tem conta que empurra a gente. Em julho, no crédito rural, a segunda ganhou o saldo problemático, a soma de tudo que está atrasado, inadimplente, prorrogado ou renegociado, bateu R$ 207,4 bilhões, 23,5% da carteira, recorde da série do Banco Central desde 2020.
Num mês, a fatia inadimplente de verdade, a que passou de 90 dias sem pagar, pulou de R$ 38,1 bilhões pra R$ 45,7 bilhões, enquanto as renegociadas nem mexeram.
Em Miranda (MS), uma fazenda de 2.727 hectares recebe lances até 13 de outubro por R$ 161 milhões, numa execução judicial de Petrobras, Banco do Brasil e Bradesco, que é quando o credor pula a mesa e vai na garantia. Em 2024 o mínimo era de uns R$ 147 milhões. A única coisa que subiu foi a avaliação. E os credores do Grupo Safras, R$ 2,2 bilhões em recuperação, não juntaram quórum na sexta e voltam dia 11. Nem pra cobrar a turma aparece.
E daí pra quem está em dia? Banco precifica risco pela carteira inteira, não pela sua ficha.
QUEM COMPROU E QUEM SÓ OLHOU
O gaúcho olhou o trator. O paranaense levou.

Fonte: Canal Rural
A Expointer fechou com R$ 6,18 bilhões em negócios, 40% acima do ano passado. Bom sinal? Depende de qual ano você usa de régua.
Na régua curta, é festa. Máquinas responderam por R$ 5,46 bilhões, quase 90% do total, e o sindicato dos fabricantes gaúchos entrou na feira só torcendo pra empatar com 2025. Na régua longa, a festa tem menos convidado. Em 2024 a mesma feira fez R$ 8,1 bilhões, então o total de agora ainda está 24% abaixo, e passou 10% menos gente pela porteira.
O número que explica tudo está no endereço da nota fiscal. Mais de 90% das máquinas vendidas saíram do Rio Grande do Sul, com Paraná e Santa Catarina na frente. O gaúcho foi olhar, o vizinho foi assinar. Não é falta de vontade, é falta de folga: como você leu ali em cima, quatro em cada dez reais do crédito rural do estado estão atrasados ou empurrados, e ninguém troca de trator com o banco ligando.
Duas ressalvas antes de comemorar. O balanço é da própria indústria, sem auditoria, e o ano dela segue no vermelho, com receita 25,8% menor de janeiro a julho. Feira boa não faz ano bom.
Pra você, a leitura é uma só: máquina voltou a vender no Sul, mas pra quem teve safra. Quem teve ano ruim ainda tem boleto pendente pra quitar o antigo.
PRA DENTRO DA PORTEIRA
Seu milho de 2027 já pegou fila no porto?

Fonte: Giphy
Esperar o adubo baratear é um jogo que o produtor joga bem, até o dia em que o calendário entra em campo. Em agosto o Brasil recebeu 2,97 milhões de toneladas de fertilizante, contra 5,22 milhões um ano antes, queda de 43,2% na conta da Secex. Antes de alguém gritar falta, a Agrinvest põe água na fervura: demanda retraída e produção nacional um tiquinho maior. O mercado comprou menos porque quis, não porque não achou. O detalhe é que a tonelada que entrou veio 12,8% mais cara.
A soja 2026/27 já tem cerca de 90% do adubo comprado. A safrinha de milho de 2027 fechou só 45%, e os outros 55% seguem em aberto num mercado em que a ureia do Oriente Médio, 40% da importação no ano passado, chegou pela metade em 2026.
A relação de troca do milho está no padrão histórico e o preço cai desde abril, então a janela de comprar bem está aberta hoje. Acontece que adubo não vem por tele-entrega. Entre fechar negócio, embarcar e descarregar, cada semana de espera come um pedaço do calendário, e o colchão de nitrogenado, a folga de estoque que amortece um susto de oferta, está mais fino que em 2025. Do outro lado, ninguém prevê corrida ao balcão, e se a China soltar mais ureia o preço pode aliviar. Quem espera aposta nisso.
No fim das contas, preço de ureia ainda se negocia. Data de plantio, não.
DE OLHO NO PORTO
Elogio americano não paga o corte que a Europa levava

Fonte: CNN Brasil
Tem mês que o porto esvazia e o caixa quase não sente. Agosto foi desse tipo. O Brasil embarcou 195,7 mil toneladas de carne bovina, 27,1% a menos que um ano atrás, e cada tonelada saiu a US$ 6.165,74 na média, 10,1% acima de agosto de 2025. Menos navio, régua mais alta.
O freio tem endereço. A China avisou em 10 de agosto que 90% da cota de 1,106 milhão de toneladas já tinha ido, e o que passa disso paga 55% de sobretaxa. Cota, pra quem não vive de despacho aduaneiro, é a faixa de pedágio grátis. Fechou a cancela, o frigorífico segura o caminhão. No acumulado do ano a carne segue 4,7% acima em volume e 22,3% em valor. Faltou cota, não freguês.
Aí entra o Trump, que passou a sexta elogiando a carne de Brasil e Argentina, com a cota extra de 300 mil toneladas de carne magra que a Casa Branca abriu em agosto. Só que ele mesmo emendou que a compra é bem limitada, porque o pecuarista de lá dá conta. E o que os EUA querem é o dianteiro que vira hambúrguer, enquanto a Europa, parada desde quinta por regra de antimicrobianos, briga de papelada e não de qualidade, levava o corte caro. A Abiec avisa que não há substituição automática, porque cada destino pede um corte diferente.
No seu caixa, a Safras & Mercado enxerga arroba mais firme em setembro pela janela americana, sem espaço pra disparada com a Europa fechada.
ASSUNTO DE GABINETE
Caiu no vencido sem culpa? Tem segunda chamada

Fonte: Giphy
Imagina passar na peneira da renegociação e ficar de fora porque a planilha de Brasília chegou atrasada. A regra dava só 30 dias de prorrogação pra enquadrar a dívida, e a divisão dos R$ 25,8 bilhões de saldo equalizável entre os bancos, o dinheiro que o Tesouro põe pra baratear o juro da linha, só saiu em 13 de agosto, quase um mês depois da MP. Parcela venceu, produtor virou inadimplente e caiu da fila.
O Conselho Monetário chamou reunião extraordinária na sexta e aprovou a Resolução 5.340 pra reabrir a porteira a dois grupos, os dois já inadimplentes: quem prorrogou por até 30 dias com vencimento entre 14 de julho e 14 de agosto, e quem renegociou ou prorrogou até 31 de maio com vencimento entre 15 de agosto e 4 de setembro. A peneira segue a mesma, duas ou mais quebras de pelo menos 30% da safra entre 2019 e 2025, com laudo técnico. Contratação até 12 de novembro.
O custo do atraso deixa de ser seu, mas o calendário encurtou. Na letra miúda, a linha sai por conveniência e decisão do banco, que não é obrigado a abrir, e cada operação passa por nova análise de crédito, nova nota de risco e garantia reavaliada.
Ninguém disse quantos voltam nem quanto isso vale. Reenquadrar devolve a senha. A fila é a mesma, e quem passa, o banco decide.
RETRATO DO CAMPO
A vaca trocou de dono e o tanque nem notou

Fonte: Piranot
Tem número que assusta e tem número que confunde. O do leite gaúcho faz as duas coisas. O Rio Grande do Sul tinha 84.199 produtores de leite em 2015 e chegou a 2025 com 28.946, mais de 55 mil famílias a menos em dez anos, pelo levantamento da Emater na Expointer. E a produção? Parada em 3,84 bilhões de litros, praticamente igual a 2023. Menos gente, mesmo leite.
A conta fecha porque quem ficou cresceu. A média por propriedade foi de 14 para 26 animais, o volume diário pulou de 137 para 364 litros e o rebanho encolheu só 3,5% em dois anos. Vaca não sumiu. Mudou de endereço.
E ninguém saiu por moda. Das 571 famílias ouvidas, 79,3% culpam o preço, 66,7% o insumo, e quase 80% não pensam em voltar. Basta olhar o caixa. O tambo típico de 15 vacas e 150 litros por dia, que é 62% dos estabelecimentos do estado, fecha o ano com margem líquida de 1%. Nessa margem, a vaca espirra e o lucro do ano vira conta de veterinário. E o litro gaúcho saiu a R$ 2,6560 na referência de julho, 7,7% abaixo da média nacional do Cepea.
Pra quem capta, industrializa ou financia leite no Sul, o recado é de escala, não de escassez. A matéria-prima segue no tanque, mas vem de menos portas, e o tambo de 30 vacas e 500 litros, com margem de 15%, negocia preço, frete e prazo de outro jeito. Fornecedor que sobra é fornecedor que pesa. Não é crise de leite. É crise de quem tira o leite.
PLANTÃO RURAL
O Fiagro tem 1,2 milhão de cotistas e sete em cada dez reais na mão de poucos: o instrumento chegou a R$ 65,8 bilhões em julho, e 71,1% do patrimônio está com investidor qualificado e profissional, que é só 7,6% das contas, pelo levantamento da Oliveira Trust com dados da CVM.
Uma fábrica nova aposta que o cocho não para: a GFS anunciou no domingo R$ 55 milhões numa unidade de aditivos para nutrição animal, um dos poucos anúncios de investimento privado da semana.
A dona do frango da JBS foi buscar dinheiro na Europa: a Pilgrim's Pride prepara oferta de títulos para captar até 500 milhões de euros, na mesma semana em que o bloco suspendeu a compra de proteína brasileira.
Quem produz ovo em São Paulo nunca comprou tão pouca ração: a relação de troca caiu ao pior nível desde fevereiro, porque a alta do milho e do farelo de soja passou por cima da recuperação do preço do ovo.
Uma baiana comprou passagem para o Centro-Oeste com dinheiro de fundo: a Gran7 estruturou um FIDC de R$ 100 milhões para financiar a expansão, num momento em que o crédito bancário está caro.
O milho brasileiro embarcou um terço a menos: foram 4,65 milhões de toneladas em agosto, 32% abaixo das 6,85 milhões de um ano antes, o que segura grão dentro do país e pressiona o prêmio interno bem na hora em que a indústria de ração compra.
A China agora quer soja que aguente a viagem: empresas brasileiras de sementes ouviram de compradores chineses, em viagem à China no início de agosto, o pedido de grãos com melhor conservação em transporte e armazenagem, o que leva a exigência do comprador para dentro do melhoramento genético.
O açaí virou negócio de R$ 1,1 bilhão: o consumo fora de casa movimentou esse valor nos doze meses até junho, com alta de 20%, puxado pelo mercado longe da região produtora.
SE DIVERTE AÍ
Feriado é bom pra isso: jogo curto que não cobra nada de você. No Palavras Quebradas o site embaralha pedaços de palavras e dá uma lista de dicas, e você junta os cacos até cada palavra voltar a fazer sentido. São três modalidades diárias, cada uma com quatro rodadas novas por dia, mais um arquivo com mais de mil edições anteriores pra quando bater a teimosia.
VIVENDO E APRENDENDO
Resposta da edição passada: enterrada. Depois que a flor é fecundada, o amendoim solta uma haste que cresce para baixo, fura o chão, e é lá embaixo que a vagem se forma e enche. Por isso a planta inteira é arrancada na colheita.
Pergunta de hoje: a soja quase não leva adubo nitrogenado, mesmo precisando de muito nitrogênio para encher o grão. Quem entrega esse nitrogênio para ela?
A resposta você confere na próxima edição!
