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Bom dia!

A edição de hoje tem empresa de açúcar e etanol que oficializou um rombo histórico e entrou com o maior pedido de recuperação extrajudicial do Brasil, tem produtora de grãos que fechou o ano com recorde na receita e olho no hedge pra 2026, e tem investigação no Paraná com boi que existia só na tela. No meio disso, o biodiesel segue pressionando porta em Brasília, o milho do MT tá pagando a conta do atraso da soja e a Cargill resolveu segurar o embarque pra China sem avisar muito bem por quê.

Pra você acordar bem informado

Por Enrico Romanelli

TÁ QUANTO?

MERCADO
IBOVESPA (B3) 183.969,64 14,18%
SLCE3 R$16,83 4,86%
SMTO3 R$18,77 24,14%
RAIZ4 R$0,49 -39,51%
VALE3 R$79,85 10,96%
Bitcoin US$70.739,73 -19,93%
Solana US$87,51 -30,22%

Os dados são publicados por BCB e Brapi.
As variações são calculadas em YTD (Year to date)

  • Bolsa no verde, Raízen no vermelho. O Ibovespa fechou com alta de 0,28% no dia, puxado pela Petrobras, que surfou o Brent em alta de 4,8% e terminou em US$ 91,98 com o noticiário de ataques e tensão no Estreito de Ormuz. No contraponto, Raízen caiu 5,77%.

SAFRA DE CIFRAS

SLC colhe safra cheia, quebra recorde de receita e entra em 2026 com planilha otimista

Foto: Reprodução/AgFeed

A SLC Agrícola fechou 2025 com cara de quem acertou o ponto da receita e não deixou queimar. A companhia cravou R$ 8,55 bilhões de receita líquida, alta de 23,7% e recorde lá dentro, e colocou R$ 565,21 milhões de lucro líquido no bolso, avanço de 17,3%. O Ebitda ajustado foi pra R$ 2,60 bilhões, salto de 30,8%, com margem de 31,2%, puxado por 2 coisas que o agro entende bem, área maior e produtividade melhor.

Na prateleira de volume, a SLC vendeu 3,5 milhões de toneladas de commodities em 2025, alta de 42,3%, com a soja brilhando em 1,4 milhão de toneladas e o milho segunda safra correndo atrás e chegando em 1,2 milhão, enquanto o algodão em pluma foi mais do mesmo e ficou em 369,3 mil toneladas. Na produtividade, soja entregou média de 3,9 mil kg por hectare, algo perto de 66 sacas, e o milho segunda safra fez bonito com recorde de 8,3 mil kg por hectare, 27,8% acima da média nacional. No algodão, teve os 2 humores, a segunda safra subiu pra 2,01 mil kg por hectare, mas a primeira safra caiu pra 1,8 mil kg.

Esse ano cheio também veio com a SLC plantando mais chão. A área da safra 2025/26 subiu pra 835,75 mil hectares, crescimento de 13,8%, com a compra da Sierentz Agro trazendo mais 96 mil hectares e o portfólio ganhando corpo. E crescer custa caro, então a dívida líquida saiu de R$ 3,6 bilhões no fim de 2024 pra R$ 5,2 bilhões no fim de 2025, mas a alavancagem foi pra 1,97x e ficou dentro da meta de menos de 2, com 78% da dívida sendo de longo prazo, o que dá uma tranquilidade a mais pra trabalhar.

Só que nem todo trimestre vem com música, e o 4º trimestre lembrou isso. A SLC fechou o período com prejuízo líquido de R$ 70,79 milhões, bem mais que a perda de R$ 51,35 milhões no 4º tri de 2024, mesmo com a receita líquida subindo 15% pra R$ 2,27 bilhões e o Ebitda ajustado crescendo 3,6% pra R$ 633,11 milhões. O CEO Aurélio Pavinato disse que o 4º tri costuma apertar porque não tem o efeito do ativo biológico nas lavouras e concentra mais despesa, um trimestre que gosta de testar a paciência do investidor.

Pra 2026, o discurso segue confiante, mas com o olho no céu e o outro na tela do hedge. A empresa disse que já colheu perto de 2/3 da soja e já vendeu e hedgeou 75% da safra com câmbio em R$ 5,77, enquanto no algodão já tá em 80% com hedge em R$ 6,10 e no milho em 61,9% com hedge em R$ 5,72. A dúvida maior tá no milho segunda safra e na chuva a partir de abril, e se chover menos, a produtividade pode cair, mas o preço pode subir junto e mudar a conta. No tabuleiro dos insumos, a SLC já comprou praticamente 100% dos fosfatados, mas ainda tá segurando a mão em nitrogenados e cloreto de potássio, esperando os próximos capítulos da treta no Oriente Médio.

E enquanto o campo roda, o Conselho também mexeu as peças. A SLC aprovou distribuir 76% do lucro líquido de 2025 na forma de dividendos, em cima de R$ 555,57 milhões, e ainda ampliou o limite de endividamento consolidado de R$ 8,10 bilhões pra R$ 9 bilhões, além de carregar o saldo remanescente do Capex pra 2026 e aprovar o plano interno de captação do ano, deixando a caixa de ferramentas pronta pra uma safra que promete trabalho e boletos com personalidade.

COLHENDO CAPITAL

Raízen pede maior Recuperação Extrajudicial da história

Foto: Divulgação

A Raízen resolveu oficializar o perrengue e protocolou ontem (11) o pedido de recuperação extrajudicial pra reestruturar R$ 65,1 bilhões em dívidas financeiras sem garantia. É coisa da grande, a maior Recuperação Extrajudicial da história do Brasil, e a empresa vende a ideia como um movimento pra criar um ambiente jurídico mais estável pra negociar sem o credor batendo na porta todo dia pedindo pagamento antecipado.

O plano já nasceu com 47% dos credores gritando que apoiam a RE, um empurrão bom, mas ainda não é linha de chegada. A partir do processamento, a Raízen corre contra o relógio com 90 dias pra bater o percentual mínimo e conseguir a homologação, fechando a porta pra discussão e amarrando 100% dos créditos sujeitos aos novos termos.

A empresa diz que a recuperação é estritamente financeira e deixa claro quem tá fora do pacote. Cliente, fornecedor, revendedor e parceiro de negócio continuam do mesmo jeito de sempre, com contrato valendo e operação andando. O objetivo é evitar que a operação vire um dominó, porque uma coisa é renegociar dívida com credor financeiro, outra é travar a engrenagem do dia-a-dia. A Raízen também ganhou um tempinho de respiro porque, com a RE, ela consegue estancar a briga formal por um período e sentar com bancos e bondholders pra desenhar o roteiro. E esse script pode ter de tudo, capitalização, conversão de dívida em participação, troca por novas dívidas, reorganização societária e venda de ativos.

No bastidor, tá rolando um cheirinho de que o pedido chegou antes do previsto por causa de rating. Um novo rebaixamento da Moody’s teria acelerado o processo porque esse tipo de corte geralmente aciona cláusulas de gatilho em contratos, daquelas que permitem que o credor chegue pedindo vencimento antecipado e transformando uma dívida longa em um incêndio imediato. A leitura de mercado é que a RE entra como guarda-chuva pra segurar esses efeitos e dar tempo de costurar a solução sem ter que apagar um fogo atrás do outro.

Do lado dos sócios, o clima não é de abraço coletivo. A Shell tá disposta a colocar R$ 3,5 bilhões e a holding Aguassanta, ligada ao Rubens Ometto, mais R$ 500 milhões, mas a Cosan já avisou que não vai participar diretamente e ainda soltou uma crítica que pesa. O CEO da Cosan disse que R$ 4 bilhões não resolve e voltou na tecla de que a não separação dos negócios de açúcar e etanol da distribuição de combustíveis é um problema, porque são bichos diferentes com geração de caixa e estrutura de capital diferentes.

E pra entender quem tá segurando o recibo dessa conta, 5 grupos concentram mais da metade da dívida. O maior é o Bank of New York Mellon, com R$ 18,78 bilhões. Depois vem um grupo ad hoc de bondholders com R$ 7,49 bilhões, a True Securitizadora com R$ 6,43 bilhões, a Pentágono DTVM com R$ 6,35 bilhões e o BNP Paribas com R$ 3,06 bilhões. Somados, eles dão cerca de R$ 42 bilhões e, segundo analistas, ainda pode ter título trocando de mão e indo parar com turma de crédito distressed, aquela que compra problema com desconto e paciência de monge.

O AGRO EM NÚMEROS

Cana acelera pro etanol e milho do MT vira refém da chuva

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A cana do Centro-Sul já tá aquecendo o motor pra safra 2026/27 e a Datagro botou número na mesa. A projeção é moer 635 milhões de toneladas, 4% a mais na comparação com 25/26, a partir de 1° de abril, quando a safra começa oficialmente. O mix do açúcar deve cair pra 48,5% depois dos 50,7% da safra passada, o ATR fica em 138,70 kg por tonelada, alta de 0,4%, e o açúcar deve bater 40,70 milhões de toneladas, praticamente a mesma coisa. Só que com mais cana indo pro etanol, a Datagro já fala em estoque global mais apertado no 2º trimestre de 2026, enquanto a produção total de etanol no Centro-Sul deve chegar a 38,42 bilhões de litros, alta de 13,4%, com 14,57 bilhões de anidro e 23,85 bilhões de hidratado.

No Mato Grosso, o milho tá sofrendo por causa de São Pedro, que não tá colaborando com a chuva. A semeadura chegou a 93,68% da área prevista, mas segue com mais de 20 dias de atraso por causa do efeito dominó da soja: plantou tarde por falta de chuva, colheu tarde por mais chuva, e agora o milho tá pagando a conta. O Aproclima apontou acumulados de 700 mm a 900 mm em 60 dias em regiões como Diamantino, Nova Mutum, Vera, Sinop, Cláudia, Matupá e Querência, e isso trava máquina no campo por risco de compactação e degradação do solo, além de aumentar o risco de enxurrada mexer no estande. E milho não perdoa, com menos planta por hectare, qualquer perda vira pancada direta na produtividade e na qualidade do grão, e tem produtor já admitindo que tá plantando fora da janela e indo na fé de que a chuva não vai cortar cedo lá na frente, porque a semente e o adubo já tão pagos e a lavoura não espera pelo bom humor do céu.

PAUTA VERDE

Agro quer B17 agora e imposto menor pra ontem

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A treta do petróleo lá fora virou conta aqui dentro, e 43 entidades do agro decidiram falar alto. Elas soltaram uma carta aberta pedindo pra aumentar imediatamente a mistura de biodiesel no diesel de 15% pra 17%, o B17, vendendo a ideia como um escudo pra blindar a economia de choques externos, reduzir risco de desabastecimento e dar uma segurada na montanha russa do petróleo em tempos de instabilidade geopolítica.

Na visão do setor, o timing não podia ser pior, com escoamento de safra no talo e o transporte rodoviário carregando a economia nas costas. O argumento é de que o Brasil tem dependência crônica de diesel importado e, se a guerra encarece ou atrapalha a chegada do fóssil, aumentar o percentual de biodiesel vira uma medida de segurança energética com efeito direto no bolso da logística e na competitividade no campo.

Só que o calendário tá jogando contra. A reunião do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), que poderia avaliar o tema, foi adiado de hoje (12) pra próxima quinta-feira (19), e nem tem garantia de que o B17 vai entrar na pauta. No texto, as entidades batem de que capacidade instalada, matéria-prima e logística pro biodiesel não faltam. E ainda lembram o elefante na sala, o B16 já era pra ter entrado em 1° de março e ficou pelo caminho.

Enquanto um lado pede mais mistura, a CNA resolveu atacar pela carteira e pediu redução imediata e temporária de todos os tributos sobre o diesel, mirando PIS/Pasep, Cofins e ICMS. Na conta que eles jogam na mesa os tributos federais somam perto de 10,5% do valor do diesel e os impostos estaduais colocam, em média, mais 38,4% no preço final. Em época de plantio e colheita da 2ª safra, qualquer centavo no litro vira custo no talhão e no caminhão.

E tem gente lá fora dando uma cutucada no Brasil mesmo sem querer. A Indonésia, que já roda com B40, tá acelerando os testes de estrada pra implantar o B50 e misturar 50% de biodiesel feito de óleo de palma no diesel ainda este ano, justamente pra se proteger da alta do petróleo. Por aqui, a realidade segue B15 desde agosto de 2025, com o setor pressionando pra sair do discurso e entrar no tanque.

DEU B.O.

Boi Fantasma e GTA inventada

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No Paraná, aconteceu um fenômeno com cara de filme non-sense, teve boi aparecendo do nada no sistema, mas não foi milagre nem genética de ponta. O Gaeco do Ministério Público do Paraná abriu a Operação Boi Fantasma pra investigar um esquema de fraude em transações de bovinos, com mandados de busca e apreensão cumpridos na terça-feira (10) em Jaguariaíva e Ibaiti. A suspeita é de um esquema pra turbinar transações com bovinos que, na prática, só existiam na versão gado em PDF.

O cardápio da apuração mistura corrupção ativa e passiva, falsidade ideológica na emissão de Guias de Trânsito Animal, as GTAs, e inserção de dados falsos nos sistemas da Adapar, a agência de defesa sanitária do Estado. Os mandados foram expedidos pelo Juízo de Garantias da Comarca de Jaguariaíva, e o objetivo é entender como esse rebanho invisível ganhou CPF sanitário.

Segundo o Gaeco, a investigação começou em julho de 2024 depois de um relatório enviado ao MPPR pela própria Adapar. A suspeita é que uma funcionária da Prefeitura de Jaguariaíva, cedida à agência, tava fazendo os cadastramentos fraudulentos de bovinos, registrando animais sem documentação e fora da área em que ela deveria atuar. Tudo isso a pedido de uma empresa de leilões.

O roteiro seria simples e eficiente, do jeito que fraude gosta. Entrava animal novo no rebanho, saía GTA na sequência e pronto, boi com passe livre, mesmo sem ter existido fora da tela. O Gaeco afirma que encontrou evidências das fraudes e do recebimento de vantagens indevidas pela servidora, que teria agido no interesse de criadores e do leiloeiro.

As buscas foram na casa da servidora, que já foi desligada da Adapar, e na residência do leiloeiro, onde também funciona a sede da empresa de leilões. No meio da operação, um dos investigados ainda foi preso por posse irregular de armas e munições. A Adapar disse que, até agora, não recebeu comunicação oficial sobre a operação, reforçou que a servidora citada não atua mais na agência e que, quando houver comunicação formal, vai analisar os fatos e adotar as medidas administrativas cabíveis.

PLANTÃO RURAL

  • Paraná acende a luz do diesel. A Faep diz que produtores relatam risco de falta de diesel e de cobrança abusiva nos postos, com TRR dificultando entrega e alguns lugares até limitando volume. No Oeste, tem produtor entrando na fila e esperando 2 dias, sem saber o preço que vai cair na nota, e o medo é bater em suínos, aves e peixes também.

  • Irã fala em petróleo a US$ 200. Teerã avisou que o mundo devia se preparar pra barril a US$ 200 e, no mesmo pacote, teve relato de ataques a navios mercantes no Golfo. A AIE sugeriu liberar 400 milhões de barris de reservas estratégicas, mas o mercado segue nervoso porque Ormuz é a torneira de cerca de 1/5 do petróleo do mundo.

  • Óleo de cozinha vira combustível de verdade. A Biopower, da JBS, disse que já coletou 50 milhões de litros de óleo usado em 10 anos e transformou isso em biodiesel. Em 2025, foram 11,3 milhões de litros, recorde do programa Óleo Amigo, com captação direta em Lins (SP), Curitiba (PR) e Campo Verde (MT) e atuação em mais 115 municípios.

  • Cargill pisa no freio na soja pra China. A Cargill suspendeu as exportações e até a compra de soja no Brasil por causa de uma inspeção fitossanitária mais rígida do Ministério da Agricultura, feita após pedido do governo chinês. Segundo o presidente da Cargill no Brasil, o modelo novo tá dificultando cumprir as normas e conseguir autorização de embarque.

  • Suzano emite debênture, celulose com cheque longo. A Suzano aprovou a 12ª emissão de debêntures simples no total de R$ 179 milhões, com prazo de 15 anos. A taxa final vai ser definida na colocação e os juros devem ser pagos a cada semestre, com uso dos recursos previsto pra reembolso de despesas ou gastos ligados a projetos da companhia.

  • FPA quer uma Farm Bill versão Brasil. Pedro Lupion (Republicanos-PR) e Tereza Cristina (PP-MS) defenderam reformular o Plano Safra e criar uma lei plurianual, com mais previsibilidade e menos orçamento que já fica velho em julho. No discurso, a guerra já tá pressionando diesel e fertilizantes e, com commodity barata, a conta não fecha se não tiver medida pra segurar o tranco.

  • Pancada nos insumos pode ser maior que na Ucrânia. A CNA avalia que combustíveis e fertilizantes devem sentir mais agora, no conflito do Irã, do que sentiu na guerra da Ucrânia, com produtor endividado, juros altos e adubo já caro.

SE DIVERTE AÍ

Hoje a brincadeira é com o Tradle, o joguinho estilo wordle da balança comercial. Você recebe a lista dos principais produtos que um país exporta e tem que adivinhar quem é o dono dessa pauta. Vale ler com olhar de agro nerd mesmo: reparou muito grão, carne e minério, já pode chutar Brasil ou vizinho forte no campo. Se pintou muito eletrônico, máquina e química, talvez seja alguém lá da Europa ou da Ásia. Bora testar se você tá afiado pra bater o olho na lista de exportações e adivinhar o país antes do sexto palpite.

VIVENDO E APRENDENDO

Resposta da edição passada: Laranja

Pergunta de hoje: Qual fibra do semiárido baiano colocou o Brasil entre os maiores produtores mundiais de cordoaria natural?

A resposta você fica sabendo na próxima edição!

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