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Bom dia!
Na xícara de hoje tem Anvisa liberando a produção de cannabis pra fins medicinais, Raízen encontrando uma luz no fim do túnel, vendas de maquinários a todo vapor, frete podendo disparar em breve, café solúvel bate recorde mesmo com tarifaço atrapalhando, Ozempic alterando os hábitos dos consumidores e produtores de soja dos EUA revoltados.
Pra você acordar bem informado
Por Enrico Romanelli
TÁ QUANTO?
Ibovespa segue batendo recorde. O Ibovespa fechou em alta de 1,46% e renovou recorde de fechamento em 184.583,97 pontos, depois de cravar 185.064,76 no intradia.
NAS CABEÇAS DO AGRO
Anvisa libera cultivo medicinal mas deixa a ganja sob vigilância constante

A Anvisa apertou o botão do sim e liberou cultivo, comercialização e industrialização de cannabis no Brasil. Mas calma lá, é com finalidade exclusivamente medicinal e farmacêutica. A decisão foi aprovada nesta quarta-feira (28) e atende a uma determinação do STJ de novembro de 2024, feita em meio a uma judicialização que tava virando rotina, e entra como um marco regulatório pra tentar organizar um tema bem do polêmico.
Mas não é festa não, a liberação tá vindo com manual de instruções passo a passo e fiscal que fica do lado pra conferir tudo. O cultivo comercial fica restrito a pessoas jurídicas, mas ainda tem outras regrinhas, precisa de autorização especial da Anvisa, inspeção sanitária prévia e produção limitada ao tamanho da necessidade da farmacêutica que vai industrializar o medicamento.
E como confiança no Brasil costuma vir com escolta, ainda entram monitoramento por câmeras 24 horas e georreferenciamento da área, pra ninguém tentar sumir com a planta medicinal e fazer virar fumaça. A norma também abre espaço pra associações de pacientes produzirem em pequena escala e sem fins lucrativos, pra se ajudar ali mesmo. Mas essa modalidade tem um prazo maior de adequação, e a regra só passa a valer de verdade depois da publicação no Diário Oficial, que ainda pode levar um tempinho.
O ponto mais espinhoso ficou no teor de THC. A Anvisa cravou teto de 0,3% por lote e isso tomou crítica na própria reunião, de associações e da Embrapa, que apontaram que assim não dá, fica inviável pra atender parte das necessidades dos pacientes. A pesquisadora Daniela Bittencourt defendeu que o limite deveria subir pra pelo menos 1%, pra não correr risco de ter que descartar lote ou de distribuir remédio que não faz efeito direito.
Esse marco chega num Brasil que já consome cannabis medicinal, só que do jeito mais caro e burocrático. Hoje existem 49 produtos autorizados pela Anvisa, de 24 empresas, disponíveis em farmácias, e o uso disparou recentemente, puxado pela importação individual, com mais de 660 mil autorizações entre 2015 e 2025. No paralelo, mais ou menos 500 decisões judiciais já permitiam o plantio do verde por pessoas físicas ou jurídicas, e 5 estados aprovaram leis sobre cultivo medicinal. Então essa mudança tenta tirar o tema do improviso e colocar num trilho técnico, embasado em pesquisas e dados, não em opinião e moral.
SAFRA DE CIFRAS
Parece que já tá ruim, mas pode piorar

Foto: Divulgação
A Raízen, que já tá numa fase daquelas faz um bom tempo, soltou uma prévia operacional e, pra variar, o retrato do trimestre veio com número vermelho. No 3º trimestre da safra 2025/26, de outubro a dezembro, a gigante do setor sucroenergético moeu só 10,6 milhões de toneladas de cana, um baque de 25% na comparação anual, deixando ainda mais claro que tá difícil ver a luz no fim do túnel.
E o aperto não ficou só no trimestre. De abril a dezembro, a moagem somou 70,3 milhões de toneladas, 9,2% abaixo do mesmo período da safra passada, bem no período em que a indústria costuma fazer hora extra até não aguentar mais. A empresa lembra que a base de comparação do ano anterior tinha 1,5 milhão de toneladas vindas lá da usina Leme, em Leme (SP), que foi vendida. Mas mesmo tirando esse valor do total, o volume anterior ainda ficaria acima.
E como se não bastasse, a produtividade no campo também escorregou, com rendimento agrícola em queda e a companhia apontando clima adverso na safra anterior, entressafra mais seca, queimadas no segundo semestre e geadas em algumas regiões, além da venda de cerca de 2 milhões de toneladas de cana pra outras usinas no pacote de otimização e desinvestimentos.
Ainda sobre produtividade, mas falando exclusivamente desse trimestre, entre outubro e dezembro o ATR subiu 4% e foi pra 143, enquanto o TCH recuou 3% e ficou em 65 toneladas por hectare, ou seja, a cana até pode tá mais docinha, mas tá entregando menos por área. Já em outro recorte divulgado, a companhia reportou piora na qualidade e disse que o teor de sacarose caiu, e o efeito apareceu no resultado industrial, com a produção de açúcar equivalente recuando 10,4% pra 9,126 milhões de toneladas, além de queda na energia cogerada do bagaço no acumulado, que também foi pro chão.
Só que, enquanto a cana tá entregando menos, a bolsa resolveu entregar mais. Os papéis da Raízen (RAIZ4) dispararam 20% e fecharam em R$ 1,08, voltando a respirar acima de R$ 1 depois de algum tempo, embalada por expectativa de reestruturação e notícia de aumento de capital entre US$ 1 bilhão e US$ 1,5 bilhão. O mercado também tá de olho no tamanho da fatura que a empresa tem pra pagar, dívida líquida de R$ 53,437 bilhões e ninguém pra rachar a conta, mas parece que tá começando a ficar otimista de novo.
O AGRO EM NÚMEROS
Trator vendendo, frete subindo e dívida tentando respirar

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O agro voltou a olhar pra vitrine do maquinário com menos medo e mais vontade de comprar. Em 2025, as vendas de tratores e colheitadeiras cresceram 14,1% e passaram de 61 mil unidades, segundo a Abimaq, com tratores subindo 14,8% e colheitadeiras 3,8%. O cachê limpo chegou a R$ 66,7 bilhões, alta de 7,4%, num ano em que o clima ajudou e a safra deu aquele empurrão que faz o produtor ver que dá pra trocar a máquina sem vender a alma pro gerente. Pra 2026, a Abimaq fala em continuidade do avanço, só que mais comportado, tão achando que dessa vez vai ter um aumento de só 3,4% na receita, porque os juros altos seguem ali, plantados, firmes e fortes e acabam assustando um pouco.
No embalo dessa colheita grandona, quem já tá fazendo a festa é o frete. A Conab tá esperando um aumento forte dos preços em fevereiro, quando a colheita da soja deve ganhar ritmo e disputar caminhão com milho ainda sobrando em armazém e silo, especialmente em Mato Grosso, onde tá sendo esperada uma safra perto de 49 milhões de toneladas de soja. Dentre os vários motivos, a Conab fala de produção elevada, armazéns cheios e pico de demanda por transporte, com referência de rotas como Sorriso (MT) - Santos (SP) em R$ 480 por tonelada, enquanto Sorriso - Paranaguá (PR) caiu de R$460 pra R$ 450.
No financeiro, a conta do clima também chegou no banco, só que com fila e carimbo. A renegociação de dívidas rurais via MP 1.314/2025 já passou da metade e bateu R$ 6,3 bilhões liberados, de um total de R$ 12 bilhões previstos, com R$ 5,9 bilhões indo pro Rio Grande do Sul e R$ 400 milhões pros demais estados, mas produtores seguem reclamando de entraves e burocracia. A maior parte dessa bufunfa passou por Banco do Brasil, Sicredi e/ou Banrisul, somando 23,6 mil operações inadimplentes renegociadas. E quando entra na soma as linhas com recursos livres, o volume total renegociado chega a R$ 37,1 bilhões em 46,6 mil operações desde 15 de outubro do ano passado.
DE OLHO NO PORTO
Café solúvel tanka o tarifaço, diminui em volume mas bate recorde em receita

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O café solúvel tupiniquim fechou 2025 daquele jeito que a gente se acostumou, menos volume, mais cascalho Foram 85,1 mil toneladas exportadas, o equivalente a 3,68 milhões de sacas, queda de 10,6% contra 2024. Mas mesmo assim a receita bateu recorde e chegou em US$ 1,1 bilhão, alta de 14,4%, porque o café verde ficou salgado, arábica, conilon e robusta, e o solúvel foi junto no elevador.
Aí os EUA resolveram virar o fiscal do cafezinho e enfiaram uma tarifa de 50% no solúvel brasileiro a partir de agosto, o que travou o ritmo bem na hora do embalo. No ano, os embarques pros americanos recuaram 28,2% e ficaram em 558.740 sacas. Entre agosto e dezembro, que foi quando o tarifaço valeu de verdade, a queda foi de 40% contra o mesmo período do ano anterior. Não deu nem pra culpar o clima ou o agrônomo dessa vez.
Mesmo com o tombo e com o tarifaço ainda rolando pra esse tipo de café, os EUA seguiram como principal destino. Só que o resto do mapa começou a ganhar protagonismo, porque o mercado viu que não dá depender de um cliente só, ainda mais um que muda a regra no meio do jogo. Nas nossas exportações, a Argentina cresceu 40,2% e importou 292 mil sacas e a Rússia levou 278 mil sacas com alta de 9,8%. E teve um detalhe bem curioso, países que também fazem solúvel comprando do Brasil, Indonésia, México, Vietnã e a Colômbia dando um salto de 178,2% pra 130 mil sacas. Até concorrente vira cliente pra ajudar a fechar a conta no fim do mês.
A dor de cabeça continua rolando e tá difícil achar uma solução definitiva. Redirecionar rápido o volume que ia pros EUA não é simples, ainda mais com o Brasil tendo poucos acordos comerciais amplos e tomando tarifa de tudo quanto é lado, o que atrasa a reação. Enquanto isso, o mercado interno virou um amigo, com consumo recorde de 27,008 mil toneladas, 1,170 milhão de sacas, alta de 9,5%, ajudado por uma inflação menor no solúvel, 34% em 2024/25 contra 75% no torrado e moído. Por aqui foi assim, quem não tem cão caça com gato, e quem não consegue comprar o moído, compra o solúvel.
COLHENDO CAPITAL
Ozempic mexe até na listinha do mercado

Foto: Imyskin/Getty Images
O varejo tá percebendo um movimento que não vem da lavoura nem do câmbio, vem da farmácia. Belmiro Gomes, CEO do Assaí, disse que a onda das canetas emagrecedoras tipo Ozempic e Wegovy já tá derrubando vendas de carboidratos, principalmente arroz, farinhas e macarrão. Primeiro caiu o goró, depois os doces, e agora o corte chegou no básico do prato, com deflação que, segundo ele, não tem cara de excesso de safra e nem de preço de commodity flutuando, tem cara de gente mudando hábito mesmo.
E o vento pode virar vendaval até 20 de março, data que tá prevista a quebra da patente da semaglutida no Brasil. Com genéricos e similares entrando no jogo, o uso desses remédios deve disparar e, tanto o varejo quanto a indústria, já tão se mexendo pra dar mais espaço pra proteína e fibra. No arroz, Gomes falou em ajuste do lado da oferta porque, se o preço no mercado cair pra perto do custo de produção, alguém vai ter que recompor essa conta pra não sobrar só pro produtor a fatura do emagrecimento alheio.
Enquanto o carbo perde espaço, a proteína tá fazendo jornada tripla. Existe uma curva de alta no consumo de ovos, filé de frango e carne. Gomes ainda disse que uma nova geração de medicamentos deve puxar ainda mais a conversa sobre massa muscular e percentual de gordura, o que costuma virar sinônimo de mais frango na sacola e menos macarrão na panela e vai fazer todo mundo, ou quase, querer ficar sliced, na marra ou com a ajuda do Ozempic.
COMO TÁ LÁ FORA?
EUA plantam soja e colhem prejuízo

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A soja nos EUA tá no 3º ano seguido de prejuízo e já dá pra ouvir o barulho da calculadora pedindo arrego. A Associação Americana de Soja diz que o produtor tá levando porrada de todos os lados: o custo tá batendo nível histórico e o preço recebido tá deprimente. O economista chefe Scott Gerlt cravou que a colheita de 2025 deve ser a mais cara da história em custo por área, um combo nada romântico pra quem ainda precisa fechar conta no fim do mês.
No meio do caminho tem a China, que virou o elefante na sala e ainda pisando no pé dos outros. Depois do vai e vem de tarifas no começo de 2025, os EUA ficaram sem exportar soja pro país asiático do fim de maio até o fim de novembro, enquanto Pequim foi fazer compra grande no Brasil e na Argentina sem nem olhar pra trás. O governo americano falou em compromisso chinês de pelo menos 12 milhões de toneladas nos 2 últimos meses de 2025, mas a associação acha que esse cronograma tá virando elástico, e, se continuar assim o ano todo, daria uma queda de 50% frente à média dos 2 ciclos anteriores.
Pra não depender só do humor geopolítico, a ASA tá pressionando por biocombustível pra puxar consumo dentro de casa. A ideia é destravar logo as Obrigações de Volume Renovável pra 2026 e 2027 propostas pela EPA, o que poderia aumentar o esmagamento anual em quase 200 milhões de bushels, algo perto de 5,45 milhões de toneladas. E ainda sobrou bronca pro programa de assistência agrícola recém anunciado, que, segundo a associação, paga pouco e mal, deixando prejuízo estimado de US$ 75 por acre mesmo somando tudo, com a cereja de ter usado preço defasado de dezembro, US$ 10,50 por bushel, acima do mercado, pra diminuir a ajuda.
PLANTÃO RURAL
Leite desvalorizou e a conta não fechou. No RS, a Farsul calculou que o custo de produção do leite cru caiu 3,62% em 2025, só que o preço pago ao produtor despencou 19%. Fertilizante, silagem e concentrado aliviaram, mas sal mineral, energia e combustível seguraram o freio. Pra janeiro, milho, soja e dólar mais baixos podem dar uma respirada no custo.
Rosa Branca volta pro mapa do Sul. A Bunge retomou a produção da farinha Rosa Branca no moinho de Ponta Grossa (PR) e recolocou a marca na rota da região Sul. A marca entrou no portfólio após a combinação com a Viterra em julho de 2025 e não era trabalhada na região desde 2022.
FriGol desembarca em Rondônia pra ampliar originação. A FriGol fechou parceria com a RioBeef, em Ji-Paraná, e ganhou abate e desossa em Rondônia, com planta habilitada pra exportar pra China. A tacada diversifica a compra de gado e reforça o plano de expansão internacional, num embalo em que exportação já responde por 62,1% da receita bruta da companhia.
CNN vai ligar o agro na programação principal. A CNN Brasil vai lançar o CNN Agro no próximo dia 9, com cobertura multiplataforma e promessa de traduzir o campo pro público urbano sem virar palestra. O pacote inclui o telejornal CNN AgroNews no CNN Money de segunda a sexta, às 12h30, e quadros diários como Conexão Agro, com foco em dados, política e mercado.
SE DIVERTE AÍ
Hoje a brincadeira é geográfica. O Flagle te joga uma bandeira qualquer no meio da tela e te deixa adivinhar que país é aquele com base nas cores, formatos e nos chutes anteriores. Vale testar conhecimento de geopolítica, decorar bandeira de parceiro comercial do agro e ainda disputar quem acerta em menos tentativas no grupo da fazenda ou da firma.
VIVENDO E APRENDENDO
Resposta da edição passada: Cominho
Pergunta de hoje: Qual fruta tropical foi chamada de “maçã das Índias” pelos europeus e hoje é uma das mais produzidas no Brasil?
A resposta você fica sabendo na próxima edição!
