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Bom dia!
Hoje o agro acorda com a Europa fazendo cara de poucos amigos na entrada de alimentos, o seguro rural ganhando novas regras pra não estourar a conta e o mercado de carbono tentando arrumar a casinha. No meio disso, a terra aparece com preços que assustam até quem já tá acostumado com planilha e, no canavial, uma descoberta explica por que o controle de pragas andou falhando onde não devia.
Pra você acordar bem informado
Por Enrico Romanelli
TÁ QUANTO?
Os dados são publicados por BCB. A variação considerada nesta tabela é semanal.
DE OLHO NO PORTO
Visto negado: frutas do Mercosul são barradas na França

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A França decidiu começar 2026 mais chata do que nunca e anunciou que vai suspender a importação de frutas e outros produtos agrícolas vindos da América do Sul e de outras regiões quando aparecer resíduo de moléculas proibidas pela União Europeia. Na lista que virou manchete entram abacate, manga, goiaba, cítricos, uva e maçã, com portaria prometida pra sair nos próximos dias e uma brigada especializada pronta pra fazer o famoso pente fino nas cargas que chegarem.
O cardápio de substâncias proibidas tem 4 nomes que ninguém quer ver no laudo: mancozebe, glufosinato, tiofanato-metílico e carbendazim. A ministra da Agricultura francesa deixou claro que o recado vale pra mais de uma dúzia de produtos e que só entra no país o que tiver dentro do padrão deles, numa tentativa de matar 2 coelhos de uma vez: proteger consumidor e, de quebra, serrar o que chamam de concorrência desleal no comércio.
O timing desse anúncio não caiu do céu, caiu no asfalto: agricultores franceses tão fazendo bloqueios e protestos, e o assunto Mercosul-UE segue como novela das 9, com resistência forte na França. A medida aparece justamente quando a assinatura do acordo volta pro radar de janeiro, então a mensagem política vem embalada em laudo fitossanitário, com direito a carta aberta e discurso de proteção das cadeias locais.
Pro Brasil, o impacto direto parece pequeno no volume, mas grande na vitrine. A França responde por menos de 1% das exportações brasileiras de frutas pra União Europeia, com 7,8 mil toneladas de um total de 889,6 mil toneladas até novembro de 2025, então não é o tipo de notícia que vai falir alguém de uma vez. Só que quando um país resolve apertar o cerco, o resto da Europa tende a olhar a caixa com mais atenção, e aí pode brecar a entrada no bloco todo.
COLHENDO CAPITAL
Proagro entrou na dieta

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O Banco Central resolveu colocar o Proagro no modo economia e criou um teto de gastos pras indenizações do seguro rural voltado aos pequenos produtores. O programa agora tem gatilho e trava automática: se o orçamento do ano começar a ficar comprometido, novas contratações vão ficar travadas temporariamente em municípios considerados de maior risco, tudo aprovado pelo CMN com a promessa de dar previsibilidade pro caixa e menos susto pra União.
A motivação veio com números que não cabem direito no bolso. Em 2023, o orçamento inicial girava em torno de R$ 2,7 bilhões e a conta pulou pra R$ 9,4 bilhões, com perdas puxadas por eventos climáticos extremos e o governo tendo que remanejar verba de outras áreas pra fechar a tampa da panela. Pra 2026, a verba prevista pras despesas entra em R$ 6,6 bilhões, somada ao adicional pago pelo produtor, e o BC quer evitar aquela cena clássica do Proagro virando cheque em branco.
Na prática, o programa ganha um semáforo e o BC trava onde a chance de indenização é maior. Quando 80% do orçamento anual tiver comprometido, o Proagro suspende novas contratações pra produtores em municípios que concentram 25% do risco do programa. Com 90% comprometido, o bloqueio sobe pra municípios que representam 50% do risco. Se a previsão de gastos passar do total do ano, trava a bagaça toda até reequilibrar as contas, e o BC promete monitorar isso no máximo a cada 15 dias, compartilhando os dados com Fazenda, Planejamento, Agricultura e Desenvolvimento Agrário pra tentar agir antes da porteira fechar.
Só que, do lado de quem planta, a sensação é outra. A Fetag-RS diz que as restrições tão ficando cada vez mais pesadas e que o governo tá tratando o Proagro como gasto, não como investimento, com o produtor ficando mais exposto justamente quando clima e custo tão brigando pra ver quem aperta mais. Na safra 2024/25, o Proagro teve 264,6 mil contratos, com valor amparado perto de R$ 20 bilhões e arrecadação de R$ 1,7 bilhão no adicional, e na safra 2025/26, até 26 de dezembro, mais de 7 mil apólices já tinham comunicação de perdas que resultaram em R$ 4,2 bilhões em indenizações.
E como toda mudança vem com um plus de tecnologia, o BC já falou em usar satélite com inteligência artificial pra checar enquadramento e tirar do Proagro quem não estiver dentro das regras antes de dar problema, tipo um VAR do financiamento rural. O MDA disse que não participou do desenho da medida e pode discutir revisão depois de analisar, mas também promete apertar na fiscalização e suspender peritos envolvidos em irregularidades.
O AGRO EM NÚMEROS
Grão tá bombando, mas o trator tá com o pé no freio

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O agro começou 2026 com cara de recorde no comércio exterior, porque a soja brasileira fechou 2025 em máxima histórica: 108,68 milhões de toneladas embarcadas, alta de 11,7% contra 2024, puxada por uma colheita grande e por uma China que passou boa parte do ano olhando torto pra soja dos EUA por causa da treta tarifária. E não foi só o grão que pegou carona: o farelo também bateu recorde, acima de 23,07 milhões de toneladas, e o milho fechou 41,7 milhões de toneladas exportadas, quase 4 milhões a mais que em 2024.
Só que, pra continuar enchendo porão em 2026, a lavoura precisa entregar, e a StoneX deu aquela força no otimismo: projetou 177,6 milhões de toneladas pra safra de soja 2025/26, um tiquinho acima do relatório anterior e 5,2% maior que a produção passada. Mas a letrinha miúda pede uma atenção a mais: chuva irregular e calor intenso pedem atenção, com áreas de ciclo tardio dependendo de clima decente até meados de março. No milho, a primeira safra levou um corte e caiu pra 26 milhões de toneladas, enquanto a safrinha segue estimada em 105,8 milhões, o que mantém a conta total em 134,3 milhões, quase no zero a zero.
Só que enquanto grão e produtividade estão fazendo barulho, o mercado de máquinas agrícolas tá no sapatinho: depois de crescer 10% em 2025 e bater R$ 68 bilhões de receita, a previsão pra 2026 é um avanço bem mais fraco, de 3,4%. O motivo é aquele combo que ninguém pediu: juros altos e produtor com o bolso pressionado pelo custo elevado, juro lá no teto e commodity sem muita promessa de valorização.
PAUTA VERDE
Destrava esse carbono aí

Foto: Adobe Stock
O BNDES pegou o mercado de carbono pelo colarinho pra perguntar o básico que ninguém responde direito: quem certifica, quanto custa e por que demora. O banco lançou um edital pra contratar uma instituição que vai fazer um estudo técnico sobre certificação de créditos de carbono no Brasil, com até R$ 10 milhões do Fundo de Estruturação de Projetos e prazo de até 6 meses pra entregar o diagnóstico. A ideia é preparar o terreno pro mercado regulado de carbono, aquele modelo em que empresas com meta obrigatória de emissões precisam comprovar corte de CO2 ou comprar “créditos” pra compensar o que não deu pra reduzir.
Antes de tudo, é sempre bom explicar melhor pra quem não tá tão inserido nesse mundo. Crédito de carbono é, na prática, uma unidade que representa a redução ou remoção de 1 tonelada de CO2 equivalente, gerada por um projeto tipo restauração, conservação, sistema agroflorestal ou recuperação de pastagem degradada. Já a certificação é o selo que diz que o projeto mediu direito, seguiu uma metodologia aceita, foi auditado e vai ser monitorado ao longo do tempo. Sem esse carimbo, o crédito vira papinho bonito no PowerPoint. O edital do BNDES tá aí pra mostrar que o Brasil tem potencial grande justamente em agricultura, florestas e uso da terra, mas também admite que o sistema atual anda travado e concentrado.
O problema, segundo o próprio texto do edital, é que hoje muita coisa fica na mão de poucas certificadoras, o que gera fila, atraso e padrão que nem sempre conversa com as especificidades locais. E tem o bolso: auditoria, validação técnica e monitoramento contínuo custam caro, e muito, virando uma barreira pra projetos pequenos, agricultores familiares, comunidades e povos tradicionais. O estudo, então, vai mapear oferta de serviços, lacunas metodológicas e alternativas pra reduzir custo e ganhar escala, sem propor regra nova, mas deixando o mapa da mina pronto pra políticas públicas.
SAFRA DE CIFRAS
Hectare de grife e hectare de pechincha

Foto: Adobe Stock
O Incra soltou o Atlas do Mercado de Terras 2025 e mostrou o preço da terra em cada canto desse Brasilzão. O levantamento mapeia quanto custa o hectare pelo país, separando por região, por pedacinho dentro de cada Estado e também pelo uso da terra. E tem lugar onde o hectare agropecuário já tá virando artigo de luxo: em Xanxerê (SC), área pra grãos aparece por volta de R$ 209.400 por hectare, e no centro-norte do Espírito Santo, hectare voltado pro café pode passar de R$ 215.700.
Só que o show mesmo é quando a terra encosta na cidade e muda de personalidade. Em zonas periurbanas da região da Mogiana (SP), onde o uso já nem é agropecuário direito, o Atlas cita hectare chegando a R$ 2.400.000. Aí não é mais terra pra plantar, é terra pra virar outra coisa, com a especulação fazendo o papel de adubo.
No placar por região, o Sul aparece como o camarote VIP do hectare, com médias a partir de R$ 40.000 pra cima, seguido do Sudeste (entre R$ 35.000 e R$ 30.000), Centro-Oeste (R$ 25.000), Norte (R$ 15.000 a R$ 20.000) e Nordeste (abaixo de R$ 10.000). A média nacional ficou em R$ 22.951,94 por hectare, com base no último mês de 2024, e isso representa valorização de 28,36% frente ao estudo anterior (dados de 2022). No recorte por uso, quem mais acelerou foi a terra pra pecuária, com alta média de 31,24% em 2 anos, enquanto as áreas agrícolas subiram 12% e as de florestas plantadas avançaram 17,92%.
CONTROLE SANITÁRIO
Cigarrinha nova, dor de cabeça velha

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Quando o defensivo de sempre começou a falhar contra a cigarrinha das raízes, o setor praticamente aceitou que a praga tinha criado resistência e não tinha o que fazer. Só que a Unesp, junto com a PUCRS, resolveu checar a identidade do suspeito antes de acusar o de costume, e achou uma surpresa: uma nova espécie atacando a cana, a Mahanarva diakantha. Traduzindo pra vida real: tinha gente aplicando o remédio certo, mas pro paciente errado, e por isso o controle tava rendendo mais frustração do que resultado.
O tamanho do pepino é proporcional ao tamanho da cana no Brasil. A cultura roda na casa de 700.000.000 de toneladas por ano desde 2010, alimentando açúcar, etanol e energia, e em 2024 ainda colocou US$ 18,61 bilhões em exportação de açúcar no bolso do país. A cigarrinha das raízes, aquela marronzinha que suga seiva e entrega toxina de brinde, pode derrubar sacarose, queimar folha e, em casos brabos, levar a perdas de até 80% na produção.
Até então o vilão era carimbado como Mahanarva fimbriolata e Mahanarva spectabilis, só que vários produtores vinham relatando que o manejo já não pegava igual. A pista veio de uma pesquisadora da Embrapa em Araras (SP), que levantou a hipótese mais perigosa pra diagnóstico preguiçoso, “e se for outra espécie?”. Aí entraram os Sherlock Holmes de laboratório, com análise genética e morfológica em mais de 300 indivíduos coletados, até cravar que era, sim, um grupo diferente.
No campo, o recado é simples: o controle é direcionado, então eficiência não é herança de família. Um método que funciona muito bem numa cigarrinha pode ter desempenho bem meia boca em outra, mesmo que as duas pareçam iguais na correria da lavoura. E tem um detalhe que dá até arrepio em coleção de inseto: a Mahanarva diakantha não parece novidade de 2026, só novidade descoberta em 2026. Revisões em coleções entomológicas sugerem que ela já podia estar por aqui desde os anos 1960, só que confundida com as primas. Imagina quanta cana a gente perdeu sem nem saber o motivo.
A boa notícia é que o controle biológico com o fungo Metarhizium anisopliae segue como principal arma. A leitura dos pesquisadores é que a nova cigarrinha não vira um apocalipse sozinha, mas pede um estudo dedicado pra entender biologia, reprodução e comportamento, ainda mais depois das mudanças na cana na última década, tipo avanço da colheita mecanizada.
PLANTÃO RURAL
México botou cota na carne. O México liberou 70.000 t de carne bovina e 51.000 t de suína com tarifa 0% em 2026. Passou do limite, vem pedágio: 20% na bovina e 16% na suína. O arroz em casca perdeu a isenção e ficou com cota de 200.000 t.
Cannabis na fila da Anvisa. Um grupo com 58 pesquisadores mandou proposta pra Anvisa pra destravar pesquisa e cultivo de Cannabis sativa com regras mais proporcionais ao risco. No pacote, entra a crítica ao teto de 0,3% de THC e a defesa de menos burocracia pra ciência não ficar refém de importação.
Adeus nota de papel. Desde hoje, produtor rural de todo o Brasil só emite nota fiscal eletrônica, até quem fatura menos de R$ 360.000 por ano. A sugestão geral tá no app Nota Fiscal Fácil, com login gov.br. Dá pra emitir no celular, mesmo com internet capenga.
Espanha em choque na biossegurança. A Espanha começou 2026 lidando com 3 alarmes ao mesmo tempo: Doença de Newcastle reaparecendo na Comunidade Valenciana, gripe aviária em granja de postura na Catalunha com 235.000 aves e monitoramento da peste suína africana, com 29 casos em javalis na fronteira nordeste.
Gênica no modo menos é mais. A Gênica enxugou portfólio de 19 pra 9 produtos e cortou distribuidores, mas fechou 2025 mirando +30% em receita e Ebitda até 300% maior. A meta pra 2026 é bater R$ 300 milhões, com 2 lançamentos inéditos por ano e bandeira forte em biofungicidas.
SE DIVERTE AÍ
Hoje o desafio é o Contexto, aquele jogo em que você tenta adivinhar a palavra secreta chutando termos e vendo o quão perto tá pelo sentido, não pelas letras. Vale começar com palavras do agro tipo soja, boi, clima, crédito, fertilizante e ir afinando até chegar na resposta. Joga aí, testa seu dicionário e depois conta quantos chutes você precisou pra matar a charada.
VIVENDO E APRENDENDO
Resposta da edição passada: Amaranto
Pergunta de hoje: Qual tubérculo africano foi levado ao Brasil pelos escravizados e se tornou parte da base alimentar do país?
A resposta você fica sabendo na próxima edição!

