APRESENTADO POR

Bom dia!

Hoje o agro acordou com a planilha em voz alta. A Ecoagro foi pra execução de garantias depois do calote da Aliança Agrícola, enquanto a cana corta investimento com o açúcar em baixa e o custo em alta. No meio do caminho, o calor já empurrou o preço das hortaliças, a soja promete recorde de safra e exportação, mas a saca segue escorregando, e Paranaguá mostra que o frio bom mesmo tá nos contêineres reefer.

Pra você acordar bem informado

Por Enrico Romanelli

TÁ QUANTO?

COMMODITIES
Açúcar (Saca 50kg) R$104,59 -4,91%
Algodão (Centavos R$/LP) 350,65 0,58%
Arroz (Saca 50kg) R$53,65 0,37%
Boi gordo (Arroba 15kg) R$321,20 0,63%
Café Arábica (Saca 60kg) R$2.107,84 -3,08%
Etanol anidro (Litro) R$3,4913 4,25%
Milho (Saca 60kg) R$66,72 -4,00%
Soja (Saca 60kg) R$129,34 -8,28%
Trigo (Tonelada) R$1.184,94 0,23%

Os dados são publicados por Cepea. As variações são calculadas em YTD (Year to date).

DE OLHO NO PORTO

JBS dobra a aposta na Arábia Saudita

Foto: Reuters

A JBS tá fazendo check-in definitivo em Jeddah e puxando o freio de mão nas carnes que vão do Brasil pra acelerar a máquina de lá. A empresa vai dobrar, até o fim desse ano, a produção da fábrica de frango que começou a rodar em 2025, usando a Arábia Saudita como polo halal pra abastecer o país e ainda despachar pra Kuwait, Omã e Emirados Árabes Unidos. O pacote entra no investimento de US$ 85 milhões desde 2021 e reforça a estratégia saudita de reduzir dependência de importação de comida.

Por lá, a operação roda via Seara e tá ficando cada vez mais parruda: a fábrica em Dammam foca em bovinos e processados, enquanto Jeddah puxa a fila do frango com mais valor agregado. Pra turbinar a prateleira, a JBS ainda fechou uma parceria com a Entaj, a Arabian Company for Agricultural and Industrial Investment, pra botar frango inteiro e cortes no mercado saudita. A lógica é reduzir importação, ganhar escala e deixar a cadeia mais resiliente, tudo embalado no selo halal, que não aceita improviso.

E, como todo plano grande precisa de gente, a expansão em Jeddah promete 500 empregos diretos, levando o total da JBS no país pra perto de 950. De bônus, tem clima de rivalidade no ar: a BRF também tá levantando uma fábrica em Jeddah, pra processar cerca de 40.000 toneladas por ano a partir de meados de 2026. A disputa pelo mercado halal tá quase virando um Fla-FLu.

SAFRA DE CIFRAS

Cana com escorpião no bolso e o açúcar que se vire

Gif by mostexpensivest on Giphy

A Orplana passou pra avisar que o canavial tá entrando na fase das vacas magras: com o preço do açúcar lá embaixo e o custo de produção em alta, os produtores tão cortando os investimentos na cultura. Na fila da guilhotina aparecem fertilizantes e outros insumos básicos que a cana precisa pra crescer direito. É aquele tipo de economia que alivia o caixa hoje, mas cobra juros na lavoura amanhã.

O panorama geral vem de fora, e ele não ajuda. A combinação de safras cheias em gigantes como Brasil e Índia, somadas a um consumo mais fraco, jogou o preço do açúcar pra perto do menor valor nos últimos 5 anos no mercado global. Se esse roteiro continuar, a tendência é o produtor repensar contrato com usina e até flertar com outras culturas, como soja ou milho, onde a planilha costuma brigar menos com o produtor.

Pelo menos o efeito não aparece do dia pra noite, porque cana não é cultura de improviso. A Orplana avalia que 2026/27 ainda deve ser parecida ou um pouco maior que a atual, dependendo das chuvas, e o desinvestimento de agora vai bater mais forte em 2028, com risco de queda no processamento. No meio disso, a Unica mostrou que, até a 2ª quinzena de dezembro, já tinham sido moídas 600,4 milhões de toneladas de cana na safra atual, com 40,2 milhões de toneladas de açúcar produzidas. Muita cana, muito açúcar, e um monte de produtor olhando pra planilha e tentando fazer a conta fechar.

O AGRO EM NÚMEROS

Calor encarece a salada, desconto alonga o boleto e a soja testa a paciência

Giphy

O termômetro subiu e a conta do hortifruti veio junto. Com ondas de calor ganhando força e alguns picos chegando perto dos 40°C no Sudeste e Centro-Oeste, as hortaliças tão sentindo o baque e o bolso também. Os dados da Conab mostraram uma alta generalizada dos preços nas Ceasas, com batata subindo 14,18% em algumas capitais, e cebola e tomate pegando carona. No mercado, Itaú e XP já falam em inflação de alimentos a 5,1% em 2026, com clima e câmbio fazendo dupla de vilões.

Se na gôndola o calor aperta, no campo o governo tentou dar uma folga no aperto do crédito. O Desenrola Rural fechou 440 mil acordos e renegociou R$ 20,3 bilhões, com desconto de até 70%, parcelamento em até 145 meses e entrada dividida em 12 vezes. As adesões seguem abertas até o dia 30 e a régua tá apontando pra passar de 450 mil acordos e bater mais de R$ 22 bilhões nessa reta final.

Só que nem todo número do agro tá com cara de sufoco: na soja, a Abiove tá vendo 2026 com motor cheio. A projeção da associação traz uma safra de 177,1 milhões de toneladas em 2025/26 e esmagamento recorde de 61 milhões de toneladas, acima de 58,5 milhões de toneladas em 2025. No comércio exterior, o complexo soja deve somar US$ 57,3 bilhões em exportações em 2026, alta de 8,3%, puxada pelas 111,5 milhões de toneladas de grão que devem ser despachadas a preço médio de US$ 425 por tonelada. Tudo isso sem falar das 24,6 milhões de toneladas de farelo a US$ 335 e 1,45 milhão de toneladas de óleo a US$ 1.140.

Aí vem o detalhe que faz produtor coçar a cabeça: a oferta tá grande, mas o preço tá escorregando. Em Paranaguá (PR), o indicador do Cepea marcou R$ 129,71 por saca em 21/01, queda de 0,95% no dia e tombo acumulado de 8% no mês, com relatos de saca abaixo de R$ 100 em praças do interior, especialmente no MT, arrastada pela queda do dólar.

E já que Paranaguá entrou na conversa, o porto também tá mostrando serviço fora da soja. Depois de ampliar a estrutura e erguer o maior pátio de contêineres refrigerados da América do Sul, a TCP elevou em 53% as exportações de carne bovina em 2025, pra 1,03 milhão de toneladas, e aumentou sua fatia nos embarques brasileiros de 23% pra 29%, com investimento de R$ 350 milhões e 5.268 tomadas pra reefer. A China levou 58% desse volume, e o terminal ainda manteve a liderança no frango, com 2,398 milhões de toneladas exportadas e 45% do total do país, mesmo com o soluço pós caso de gripe aviária em Montenegro (RS).

COLHENDO CAPITAL

Por bem ou por mal, vai ter que pagar

Giphy

A Ecoagro começou a executar as garantias da Aliança Agrícola do Cerrado, uma trading do grupo russo Sodrugestvo, depois do calote no pagamento de quem tem os CRAs que eles emitiram em 2023. O tropeço veio no dia 13/01, quando a empresa não pagou os juros mensais, e virou treta de vez no dia 16/01, quando a Ecoagro declarou o vencimento antecipado do saldo todo, com juros, multa e encargos, numa conta perto de R$ 112 milhões.

Sem pagamento e sem manifestação formal no prazo, a securitizadora jogou com o regulamento debaixo do braço e começou a executar as garantias, que existem justamente pra isso. Essas garantias incluem CDA/WA de soja depositada na Control Union, a cessão de contratos de compra e venda dessa soja com clientes da trading e uma conta escrow com dinheiro reservado. A Ecoagro disse que soja e caixa já dão conta de pagar integralmente os investidores, somando valor investido e juros, com liquidação prevista até 28/01.

A história vinha dando aviso no painel. A Aliança emitiu R$ 147 milhões em 2 séries de CRAs em 2023, com vencimento em 2028, juros mensais e amortizações semestrais, e vinha pagando certinho até dezembro de 2025. No último trimestre, começou a dar falha na razão de garantia, que pedia ativos equivalendo a 120% da dívida, e em 08/01 o índice tava em 119%. A empresa chegou a chamar assembleia pra 28/01 pra afrouxar o indicador pra 102% e incluir direitos de vendas ainda a performar nas garantias, mas a liquidez apertou e o juro do dia 13 ficou pelo caminho e desencadeou a treta toda.

CAMPO ATUALIZADO

2025 teve registro de monte, mas novidade que é bom, quase nada

Foto: Freepik

2025 foi ano de recorde no carimbo dos defensivos, mas a prateleira das novidades veio bem magrinha. No total, o Mapa deu passe livre pra 467 novos registros, mas a maior parte foi de genéricos, com 371 aprovações, enquanto só 6 ingredientes ativos químicos novos entraram na lista e apenas 19 produtos formulados vieram de substâncias que a gente ainda não usa por aqui. E pra acelerar o fluxo, mais ou menos 15% das autorizações saíram no empurrão do Judiciário, porque o prazo legal fez o que faz de melhor, atrasou.

E a fila não andou mais rápido, pelo contrário. O tempo médio pra conseguir registro subiu pra 46,3 meses, acima dos 42,3 meses de 2024, e quando o assunto é formulado novo a espera encosta perto dos 67 meses. A maior parte do que foi liberado tava parado desde 2021, e só 8 pedidos feitos em 2025 conseguiram sair no mesmo ano. O Mapa tirou o dele da reta e jogou a culpa pra fila e pro estoque de pedidos represados.

O Governo promete tentar destravar isso com o decreto que regulamenta a Lei 14.785/2023, com versão preliminar até o meio do ano, e com uma regra que faz sentido até pra quem já cansou de preencher formulário: se o ingrediente ativo novo for aprovado, o formulado baseado nele tem que ganhar preferência na fila, pra não ficar aquela situação do produto técnico passando na frente e o resto chegando quando a safra já virou saudade. A meta é registrar 15 ingredientes ativos novos em 2026, enquanto ambientalistas seguem pressionando, inclusive com pedido de nova reavaliação do glifosato e suspensão do registro durante o processo.

NAS CABEÇAS DO AGRO

Kepler Weber de malas prontas pra um novo projeto

Gif by mafs on Giphy

A Kepler Weber começou a embarcar equipamento pra um novo projeto em um destino meio improvável diante do cenário geopolítico atual: a Venezuela. A empresa vai subir uma unidade de beneficiamento e estocagem de milho branco por lá, espalhando com força as suas raízes na América Latina. A estrutura vai nascer com capacidade pra 80 mil toneladas, com chance de crescer ainda mais, e mira abastecer principalmente a indústria de farinha de milho branco. No calendário, a entrega da obra fica pro 2º semestre de 2026.

O contrato foi fechado com a MP Agro, empresa cerealista venezuelana que fornece insumos, equipamentos e até financiamento da safra, kit completo. Com a nova unidade, ela quer turbinar a originação e passar a receber milho de 3 frentes: produção própria, agricultores independentes e cooperativas parceiras. Vai ser mais milho entrando no funil e menos risco de ficar na mão quando a indústria chamar.

E não é só silo e boa vontade. O projeto leva máquinas de pré-limpeza e limpeza, 4 secadores e um sistema de termometria digital da Procer com sensores de umidade relativa pra ficar de olho no milho durante o armazenamento, parecendo um BBB de tanta câmera. Pra completar o capítulo corporativo, a Kepler tá com exclusividade de negociação até 15/02 após receber proposta não vinculante da Grain & Protein Technologies, a GPT, dona da marca GSI, com preço indicativo de R$ 11 por ação pra uma combinação de negócios.

PLANTÃO RURAL

  • Amônia verde encostando na cinza. Um estudo do Instituto E+ Transição Energética com o Rocky Mountain Institute diz que o custo da amônia feita com biometano e energia renovável no Brasil já fica muito parecido com o da rota com gás natural. Em projetos híbridos nos portos, a conta fecha. Hoje, 97% dos nitrogenados ainda vêm de fora.

  • Café com trabalho digno na pauta. Nesta sexta-feira (23), a cooperativa faz em Guaxupé (MG) o evento Café com Conhecimento, com o Ministério do Trabalho e Emprego e o Cecafé, pra espalhar boas práticas e diálogo no setor. O encontro pega carona na convenção coletiva inédita em construção no sul de Minas, mirando valer já na safra 2026.

  • RJ com 90 dias de respiro. O Grupo Formoso, dono da Uniggel, recebeu uma liminar na recuperação judicial de R$ 1,3 bilhão, em Palmas (TO). A decisão suspende execuções das dívidas por 90 dias, segura as rescisões de contratos e libera cerca de R$ 23,9 milhões que estavam retidos em CDBs, pra reforçar o caixa e manter a operação de pé.

  • Soja do RS fecha o plantio, milho ainda corre atrás. A Emater-RS aponta que 98% da área da safra 2025/26 já foi semeada: 6,7 milhões de hectares, com produtividade média estimada em 3.180 kg/ha. As lavouras tão andando bem e a ferrugem aparece só de forma pontual. Já o milho colheu 21%, ainda atrás dos 30% do mesmo período do ano passado.

  • Invernada no MT vira relógio contra o milho. A chuva irregular desde outubro já bagunçou a soja e empurrou o calendário, e as invernadas do 1º e 3º decêndios de fevereiro podem travar o plantio. Se fevereiro e março vierem abaixo da média e abril cair cedo, o ciclo vira corrida.

  • Memória de fábrica com capa dura. A AGCO reuniu ex-colaboradores em Jundiaí (SP) e lançou o livro Legendários Massey Ferguson, com histórias de 45 veteranos da companhia, do chão de fábrica à presidência. A homenagem veio no embalo de 65 anos de Brasil e mais de 175 no mundo, com exemplares entregues no evento

SE DIVERTE AÍ

Hoje o rolê é testar se tu reconhece mais lavoura que o Google. No GeoGuessr, o jogo te joga no meio de uma estrada aleatória do planeta, em visão de rua, e tu tem que adivinhar onde tá no mapa. Vale procurar pista em placa, tipo de solo, pivô de irrigação, padrão de cerca, tipo de caminhão e até formato de telhado de galpão. Entra lá, escolhe um modo mundo ou América do Sul, chuta o lugar e depois conta pra gente se tu mandou o palpite certeiro ou jogou uma fazenda do Kansas no meio do Mato Grosso.

VIVENDO E APRENDENDO

Resposta da edição passada: Chicha

Pergunta de hoje: Qual leguminosa indiana é base de pratos como dhal e tem registros de cultivo há mais de 4 mil anos?

A resposta você fica sabendo na próxima edição!

Keep Reading

No posts found