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Bom dia!

Hoje a xícara vem com Paris engarrafada por trator e o acordo UE Mercosul virando teste de fogo político. Enquanto aqui o agro fecha 2025 vendendo alto lá fora e já abre 2026 com soja acelerando no porto, carne bovina olhando a China com mais cautela por causa de cota e tarifa e uma estreia curiosa no Sul com a 1ª usina de etanol de trigo do país. No meio disso, tem fundo novo pra agtech com produtor validando na prática e quarentena na mandioca, tilápia pedindo revisão de acordo em Itaipu, leilão de genética bombando e arroz usando a Venezuela como boia pra não afundar preço de um grão.

Pra você acordar bem informado

Por Enrico Romanelli

TÁ QUANTO?

MERCADO
IBOVESPA (B3) 162.936,48 1,12%
MDIA3 R$24,39 1,79%
SMTO3 R$14,09 -6,81%
BEEF3 R$5,17 -10,24%
VALE3 R$75,58 5,03%
Bitcoin US$91.114,54 3,13%
Ethereum US$3.116,48 4,32%

Os dados são publicados por BCB e Brapi.
As variações são calculadas em YTD (Year to date)

COMO TÁ LÁ FORA?

Protesto em Paris e Mercosul na mira

Foto: Reuters

Paris acordou caótica ontem (8), com trator na Champs-Élysées e rodovia toda parada antes mesmo do horário de pico. Vários agricultores franceses bloquearam entradas da capital, furaram barreiras e ainda travaram o entorno do Arco do Triunfo pra protestar contra o acordo UE-Mercosul, que pode ir pra votação entre os países do bloco hoje (9). O ministro dos Transportes da França falou em até 150 Km de filas nas estradas, mas ainda deve ser menos estressante que o trânsito de SP em uma segunda-feira qualquer.

O medo do campo francês é até compreensível: abrir a porteira pra mais importação de comida sul-americana pode apertar o preço do produtor local, e ainda tem as reclamações internas sobre como o governo tá lidando com a dermatite nodular contagiosa no gado. A turma quer menos abate e mais vacinação, e usa o Mercosul como símbolo de um sentimento de tamo sendo deixado pra trás que já vinha fervendo.

O protesto caiu como adubo em cima do governo Emmanuel Macron, que já tá pisando em casca de ovo sem maioria no seu próprio parlamento. Com esse cenário, ele decidiu botar a posição no papel digital e anunciou que a França vai votar contra o acordo. Macron ainda soltou que é “a favor do comércio, mas não desse jeito”. A Irlanda também avisou que vai votar contra, mesmo reconhecendo avanço nas conversas, dizendo que ainda não viu proteção suficiente pra não jogar o agricultor irlandês numa pressão econômica extra.

Do lado de Bruxelas, a Comissão Europeia tentou baixar a pressão na marra, oferecendo uns agrados pra acalmar o campo: antecipação do acesso a cerca de € 45 bilhões em recursos pra agricultura e discutir redução de tarifas de importação de fertilizantes como ureia e amônia. No tabuleiro político, Alemanha e Espanha seguem empurrando o acordo, a Itália dá sinais de que pode apoiar, e isso vai ser importante porque a maioria qualificada na UE depende de número de países e população somada.

MENTES QUE GERMINAM

Fundo de investimento de bota, chapéu e de olho no pitch

Foto: Envato

Depois de 2 anos investindo do próprio bolso e testando a tese de financiar startups na raça, André Amorim, ex-XP, tá fechando a captação de um fundo de R$ 50 milhões pela Rural Ventures pra apostar só em tecnologia pro agro. A diferença do papinho bonito pra coisa séria tá no método que eles usam, e já chegaram dizendo que no agro não tem investimento de PowerPoint. A gestora quer cotistas que entram com capital e também com conhecimento técnico pra validação, porque testar e aprovar com produtor reduz a chance de apostar em solução que só fica bonita no pitch.

Na lista aparecem nomes como Fábio Barbosa da NovaAmérica, Daniel Randon e André Perrone do Confinamento Monte Alegre, e outros. Amorim ainda mandou a real: o mais difícil não é captar dinheiro, é escolher quem tem conhecimento pra sentar na mesa junto. O fechamento do fundo tá previsto pra fevereiro, com cerca de 70% já levantado, principalmente com empresários do agro. A estratégia prevê tíquete médio de R$ 2 milhões por startup e espaço pra 3 ou 4 rodadas de follow-on, pra não largar a investida na mão quando o bicho pega.

E pra não ficar dependendo de feeling e chute, a Rural montou a Ruraltech, um banco de dados com mais de 650 agtechs e umas 30 novas entrando por mês, divulgado pelo próprio Amorim como uma Bloomberg do agro, e já vende pra gigantes do setor, tipo Cargill e BRF.

O AGRO EM NÚMEROS

Agro vendeu o mundo em 2025 e começou 2026 com soja na fila do porto

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O agronegócio brasileiro fechou 2025 com exportações recordes de US$ 169,2 bilhões, alta de 3,0%, colocando 48,5% de tudo que o Brasil vendeu lá fora nas costas do campo, estilo 10 e faixa. Com importações agro de US$ 20,2 bilhões, o superávit do setor bateu US$ 149,07 bilhões, e dezembro ainda veio com US$ 14 bilhões exportados, mais um recorde.

Na largada de 2026, a soja já tá toda apressada: a Anec projeta 2,40 milhões de toneladas exportadas já em janeiro, um salto de 113,8% contra janeiro de 2025, puxado pela chegada mais cedo da safra 2025/26 aos portos, com a colheita já rolando em MT e PR.

No suco de laranja, o copo veio menos cheio no 1º semestre da safra 2025/26: entre julho e dezembro de 2025, o volume exportado caiu 8,1% pra 395 mil toneladas, e a receita recuou 23,2% pra US$ 1,44 bilhão, sinal de que preço alto cobra juros até na gôndola. Os Estados Unidos puxaram o carrinho e continuaram como o principal destino, com 218 mil toneladas, alta de 34,9%, enquanto a Europa sentiu a pancada dos preços mais altos e caiu 31,9% em volume, com 155 mil toneladas.

E quando o assunto é proteína, 2025 teve ovo com passaporte carimbado pro mundo inteiro: as exportações bateram recorde histórico com 41 mil toneladas, alta de 121,4%, e a receita saltou 147,5% pra US$ 97,24 milhões, com os Estados Unidos liderando o volume anual com quase 20 mil toneladas. O setor diz que o tarifaço esfriou o ritmo em algum momento, mas a rota se reorganizou e destinos como Japão ganharam força, ajudando a manter o fluxo. Mesmo com o recorde, no fim, o Brasil exportou pouco mais de 1% da produção e segurou 99% no mercado interno.

NAS CABEÇAS DO AGRO

Forte Agro entrou na fila das RJs

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O Grupo Forte Agro, de Rondonópolis (MT), ganhou carimbo da Justiça pra entrar em recuperação judicial no fim de dezembro de 2025, com o processo correndo em off. A revenda, que também mexe com máquinas, produção de grãos e pecuária, quer reorganizar um passivo de R$ 260 milhões, porque o caixa tá apertado e o crédito virou item de luxo no catálogo.

Na decisão, o juiz comprou a tese de que a crise começou a azedar em 2023 com a clássica treta de juros altos apertando o crédito rural, produtor segurando compra de máquina e insumo, custo de produção subindo, clima atrapalhando e o mercado ficando mais arisco. Pra completar o bingo, o grupo diz que apanhou da inadimplência geral no campo e soma cerca de R$ 50 milhões em créditos não recebidos, aquela grana que tá sempre pra semana que vem.

Um perito judicial fez a constatação prévia e apontou que o grupo segue rodando e tem viabilidade econômica, então veio o fôlego oficial: 180 dias de suspensão das execuções e uma trégua provisória em protestos e negativações. Agora, o Forte Agro tem 60 dias pra apresentar o plano de recuperação, que vai cair na mesa dos credores e da Justiça, com a missão de transformar R$ 260 milhões em reestruturação.

DE OLHO NO PORTO

2026 vai ser complicado pras carnes

Gif by looneytunes on Giphy

A carne bovina brasileira fechou 2025 batendo recorde de exportação, mas já entrou em 2026 com a China tirando o pé do acelerador. O Cepea lembra que o mercado chinês segue como principal destino e isso aumenta a pressão na cadeia, porque, quando metade do jogo depende de um comprador, qualquer regra nova vira o jogo e pode complicar tudo.

E a regra nova tem nome e sobrenome: salvaguardas, com cota e tarifa. Dados da Secex mostram que o Brasil mandou 1,65 milhão de toneladas pra China em 2025, alta de 24,6% vs 2024 e 48% de toda a carne que a gente exportou. Só que, pra 2026, a cota chinesa pra carne brasileira fica em 1,106 milhão de toneladas, e o que passar disso paga 55% de tarifa. No ritmo médio dos últimos 4 meses de 2025, de 175 mil toneladas por mês, o Cepea calcula que a cota pode estourar já entre junho e julho de 2026, ou seja, no meio do ano o setor já pode tá procurando plano B com urgência.

No preço, 2025 foi bom: a média geral da carne exportada ficou em US$ 5,15/kg, 15,42% acima de 2024. A China pagou em média US$ 5,29/kg, 17,24% a mais que no ano anterior e o 2º melhor resultado, atrás só de 2022. O problema é que, se a cota estourar e entrar a tarifa de 55%, o custo teórico iria pra algo como US$ 8,2/kg (usando a média de 2025), um nível que passa da carne premium e chega na carne a preço de ouro, aquela que ninguem pode e nem quer pagar, então diversificar destino e escoamento vai deixar de ser discurso bonito do Mapa e vira sobrevivência de mercado.

PAUTA VERDE

Trigo entra no tanque e o RS inaugura um etanol meio diferente

Foto: Divulgação

A ANP deu sinal verde pra CB Bioenergia começar a operar em Santiago (RS) a primeira usina de etanol de trigo do Brasil, com autorização publicada no Diário Oficial da União. Pra um país acostumado a ver etanol com cara de cana e, as vezes, sotaque de milho, o trigo chegou de surpresa, mas prometendo bastante coisa.

O projeto recebeu um investimento de cerca de R$ 100 milhões e ocupa uma área de 150 mil m². Na capacidade, a planta promete produzir mais de 1.300 m³ mensais de álcool hidratado e 1.140 m³ de álcool neutro, colocando o cereal no mapa energético brasileiro.

E, pra ninguém dizer que foi no improviso, a empresa já tinha conseguido em novembro do ano passado a licença de operação da Secretaria do Meio Ambiente e Infraestrutura do RS e da Fepam. Agora, com a ANP liberando a largada, Santiago vira endereço oficial do etanol de trigo e o Sul ganha mais uma rota pra agregar valor no campo.

PLANTÃO RURAL

  • Mandioca entrou em quarentena. O Mapa colocou Óbidos e Oriximiná (PA) e a área da Terra Indígena do Parque do Tumucumaque no mapa da vassoura de bruxa da mandioca, praga quarentenária que ninguém quer ver viajando de carona. Com a portaria, entra em cena regra dura de trânsito: nada de mandar material de propagação dessas áreas pra regiões não afetadas.

  • Hereford e Braford venderam genética com fila na porteira. A ABHB fechou 2025 com 55 leilões oficiais, mais que os 45 de 2024, e faturamento acima de R$ 47 milhões, com liquidez forte mesmo com mais oferta de reprodutores e matrizes. O efeito respinga no Carne Certificada Hereford, e 2026 já vem com promessa de mais remate, terneiro valorizado e bônus pra raça britânica.

  • Tilápia pode ganhar passaporte de Itaipu. O Paraguai sancionou uma lei no fim de 2025 que cria licenciamento ambiental pra cultivo de espécies exóticas em corpos d’água fechados e semiabertos, abrindo caminho pra discutir tilápia no reservatório. Só que o próximo degrau é alto: revisar o acordo binacional que proíbe espécie exótica em Itaipu, e do lado brasileiro isso passa por Congresso.

  • Árabes botaram a carne brasileira no carrinho grande. Em 2025, as importações de carne bovina do Brasil explodiram nesses 3 mercados, com altas de 292,6% na Argélia, 222,5% no Egito e 176,1% nos Emirados, segundo Abiec com dados do MDIC. No total, o Brasil embarcou 3,50 milhões de toneladas e faturou US$ 18,03 bilhões, vendendo pra mais de 170 países, com a China puxando 48% do volume.

  • Arroz com boia salva-vidas venezuelana. Com estoque alto e consumo interno mais tímido, 2026 deve depender de exportação pra segurar preço, e a Venezuela virou o principal destino do arroz em casca na safra 2025/26, com previsão de levar mais de 165 mil toneladas. O lado B é óbvio: concentrar muito em 1 cliente deixa o produtor refém de qualquer soluço logístico, financeiro ou político (e ainda devem ter vários esse ano).

  • Cacau amazônico tá virando chocolate premium e renda na aldeia. A Mágio Chocolates aposta no cacau fino de comunidades indígenas em Roraima e paga prêmio de 50% a 55% acima do preço de commodity, com rastreabilidade e investimento em capacitação e estrutura.

  • Feijão encolheu a área e pode cobrar a conta em 2026. Com soja e milho parecendo mais rentáveis, a área do feijão na 1ª safra caiu 12,4% e a Conab projetou produção de 3 milhões de toneladas em 2025, 1,8% menor que 2024, com estoque de passagem estimado em 118,4 mil toneladas. Oferta mais curta no começo de 2026 tende a sustentar preço mais alto, enquanto o setor pede crédito, seguro, novas variedades e irrigação pra voltar pro jogo.

SE DIVERTE AÍ

Hoje o rolê é testar se tu reconhece mais lavoura que o Google. No GeoGuessr, o jogo te joga no meio de uma estrada aleatória do planeta, em visão de rua, e tu tem que adivinhar onde tá no mapa. Vale procurar pista em placa, tipo de solo, pivô de irrigação, padrão de cerca, tipo de caminhão e até formato de telhado de galpão. Entra lá, escolhe um modo mundo ou América do Sul, chuta o lugar e depois conta pra gente se tu mandou o palpite certeiro ou jogou uma fazenda do Kansas no meio do Mato Grosso.

VIVENDO E APRENDENDO

Resposta da edição passada: Teff

Pergunta de hoje: Qual fruta amazônica, conhecida pelo sabor exótico e aroma forte, já foi chamada de “carne vegetal” por exploradores europeus?

A resposta você fica sabendo na próxima edição!

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