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Bom dia!
No meio da semana, a cozinha do agro está cheia, e cada panela ferve num ponto diferente. Na despensa do pecuarista paulista, o ingrediente que mais encareceu no ano foi a vacina. A Europa vai colher menos milho do que se via em décadas. A China encheu a mesa do boi e, no mesmo dia, puxou mais duas cadeiras. E o frango brasileiro passou na prova da panela separada, mas o prato ainda não saiu da cozinha. Rolando a tela, tem mais no fogão.
Pra você saber o que está no ponto antes de servir a próxima decisão.
Por Luciana Stival
TÁ QUANTO?
Os dados são publicados por BCB e Brapi.
As variações são calculadas em % diária e %YTD (Year to date)
O mercado de trabalho segue aquecido a ponto de reduzir o espaço para novos cortes da Selic, e em agosto a agropecuária foi o setor que menos abriu vagas. Para quem vai financiar a próxima safra, juro que demora a cair é custo que chega antes de qualquer preço na saca.
RADAR SANITÁRIO
Auditoria europeia do frango fecha sem pedir correção, com uma condição

Fonte: Giphy
Se você exporta frango, a pergunta desde 3 de setembro é uma só: quando a União Europeia volta a comprar. A resposta começou a chegar na segunda (28), quando a Comissão Europeia publicou o relatório final da auditoria feita no Brasil entre 24 de agosto e 4 de setembro. E ele termina sem pedir nada ao Brasil. Traduzindo, o inspetor visitou a cozinha, olhou tudo e foi embora sem deixar lista de correções.
O detalhe está na condição. Pelo relatório, os controles brasileiros sobre antimicrobianos são capazes de dar as garantias que a regra europeia exige no frango e no mel, e, no frango, essa garantia depende de separar a produção que vai para a União Europeia. É como o prato sem glúten do restaurante, que só vale se sair de uma panela separada.
E a panela não é pequena. Em 2025, o bloco comprou 230,3 mil toneladas de frango brasileiro. Só que o relatório, mesmo sem nenhuma pendência, ainda não autoriza a volta dos embarques. Quem decide é o Scopaff, comitê da Comissão Europeia, e o Ministério da Agricultura pediu que o relatório entre na pauta da reunião de 20 e 21 de outubro.
Para o boi, a fila é outra: até dois anos, na conta de Eric Thévenard, diretor de auditorias alimentares da União Europeia. Inspetor não assina alvará: se o seu contêiner é de frango, a data que importa agora é a do comitê.
COMO TÁ LÁ FORA?
Corteva aceita dez anos de limite no bônus ao distribuidor

Fonte: Giphy
Nos Estados Unidos, o bônus de fidelidade que a Corteva pagava ao distribuidor de defensivos foi parar num acordo antitruste. A Corteva fechou acordo com a FTC, a agência americana de concorrência, e 12 estados: prevê pagar US$ 35 milhões aos estados e desmontar de imediato o programa de fidelidade. A Corteva, do seu lado, se disse satisfeita de encerrar a pendência.
Segundo a acusação, o programa limitava a chance do distribuidor fazer negócio com o genérico que chega quando a patente da Corteva vence, e fazia o produtor americano pagar milhões de dólares a mais pelos defensivos. A patente é a cerca que a lei dá por um tempo; pela acusação, o bônus era uma cerca que ficava de pé mesmo depois de vencida a patente.
Pelo acordo, que só ganha força de lei quando o juiz assinar, a Corteva fica dez anos sem poder condicionar pagamento ao distribuidor a que ele compre mais da metade do que precisa de qualquer ingrediente ativo dela com patente vencida. Vale só para a Corteva: o processo contra a Syngenta, também acusada pela FTC, continua.
Enquanto uma cerca é desmontada, outra molécula pede licença para entrar. Na outra ponta está a FMC, que pediu registro no Brasil do rimisoxafen, um herbicida novo para as daninhas da soja e do milho. É uma das maiores apostas da FMC para sair de uma crise financeira, e a própria empresa calcula que o produto pode faturar até US$ 600 milhões por ano. A molécula ainda não tem registro em nenhum país, e a FMC busca aprovação para começar a vender até o fim da década.
O detalhe curioso é que a mesma Corteva que não poderá condicionar o bônus do distribuidor à fidelidade nas moléculas de patente vencida já pagou US$ 200 milhões pelo direito de usar a nova da FMC em produtos próprios.
A CONTA DA LAVOURA
Ureia argentina prevista para 2029; Galvani a 70% da capacidade

Fonte: Giphy
Na conta do adubo, chegaram uma promessa de longe e um aperto de perto. A promessa: a argentina Pampa Energía levou ao Ministério da Agricultura o projeto de uma fábrica de ureia e, segundo a Pampa, o Brasil deve ser o principal mercado da exportação. O presidente da Pampa chama o Brasil de mercado natural da ureia dele. Acontece que a operação está prevista só para o fim de 2029, e o ministério confirmou o encontro, mas até agora não houve negociação de compra. É chuva prometida com data longe e sem contrato.
O aperto: por aqui, a Galvani, fabricante nacional de fosfatado, reduziu a produção para 70% da capacidade, a fim de administrar o estoque de enxofre. E ela é das que seguem produzindo: enquanto multinacionais fecham ou paralisam fábricas temporariamente, a produção de fosfatado no país já caiu mais de 50%, e muitas empresas têm estoque que só dura até outubro. Fábrica abaixo da capacidade é caixa-d'água com o registro apertado.
A questão é que o comprador também apertou a torneira. Na soja, a queda na compra de adubo pode ter chegado a 15%, pelo que conta a Galvani, e muitos produtores estão usando o fósforo acumulado no solo. Mesmo assim, a empresa espera vender o mesmo volume do ano passado ou um pouco mais. A Galvani diz ter enxofre até dezembro e, seguramente, até janeiro. Se você ainda vai comprar fosfatado, é esse o calendário que a fábrica daqui te dá.
QUEM COMPROU E QUEM SÓ OLHOU
Cade aprova, sem restrição, a Cofco nas usinas da Bunge

Fonte: CNN Brasil
Duas usinas de cana em São Paulo estão trocando de dono, e o Cade não viu problema nisso. A Superintendência-Geral do órgão aprovou sem restrições a compra das usinas pela Cofco International, em despacho publicado no Diário Oficial de segunda (28). Pela conta do Cade, a participação das duas empresas no mercado brasileiro de açúcar e etanol fica abaixo de 20%, e nenhuma tem posição dominante. Posição dominante é escolher a música que o salão dança.
E se você está antes ou depois da usina na cadeia? O Cade olhou também esses mercados: lá as duas empresas não chegam a 30%, e o órgão afasta o risco de fechamento de mercado, que é quando quem está nos dois lados do salão tranca a porta para os outros.
Por enquanto, a festa não acabou. A venda ainda não foi concluída: o Cade era uma das condições, e faltam as outras previstas no acordo. Com a transferência feita, a companhia chinesa passará a ter no Brasil capacidade instalada de 25 milhões de toneladas de cana.
Repare em quem está saindo do salão. A Bunge sai de vez da cana no Brasil, depois de ter vendido em 2024 a parte que tinha na sociedade com a BP. A BP, segundo a Bloomberg, avalia sair também. E a compra amplia a presença da Cofco no setor. Quem fica no salão é a Cofco, e o Cade diz que ela não escolhe a música.
DE OLHO NO PORTO
China lota a cota do boi e habilita dois frigoríficos de boi

Fonte: Giphy
Se você tem boi padrão China, a terça (29) tirou a dúvida se a cota deste ano tinha estourado. Tinha. A China informou que a carne bovina brasileira atingiu 100% da cota de 2026, de 1,106 milhão de toneladas, e, a partir de 2 de outubro, o que passar da cota paga sobretaxa de 55%. Só o que passar: a sobretaxa não vale para todo o comércio de carne bovina.
O detalhe é que o mercado estranhou a demora do anúncio. Ele chegou depois porque a China conta pela data de desembaraço das cargas lá. É a catraca do show, que só conta quem já chegou de frente ao palco. E ainda pode haver operação residual, a depender do contrato, mas quem deve arcar com os 55% é o importador, pelo que sinalizou a Abiec.
E aí que, no mesmo dia, a China habilitou quatro frigoríficos brasileiros, dois deles de carne bovina: o Supremo Carnes, de Carlos Chagas (MG), e a Masterboi, de Canhotinho (PE), com registro de cinco anos. Ganharam a “pulseira VIP” no dia em que a casa lotou.
Para 2027, a Abiec avisa que, se nada for feito e a média mensal histórica se mantiver, a cota pode acabar já em março ou, no mais tardar, abril. A indústria deve voltar a pedir que o Ministério da Agricultura faça a gestão dos volumes embarcados, para a cota não se esgotar ainda mais cedo em 2027.
Pela conta da Abiec, os embarques para a China já caíram cerca de 90%, e a dificuldade pode passar de três meses neste ano para uns seis no próximo. Se o seu boi é para lá, o show do ano que vem começa mais cedo e acaba mais cedo também, então fique esperto.
NOS CORREDORES DE BRASÍLIA
MP cobriu 9,9% da dívida problemática gaúcha

Fonte: Giphy
Produtor em dia que não tinha renegociado antes pode ganhar acesso à renegociação da dívida rural, por enquanto no papel.
O texto alternativo que o deputado Paulo Pimenta apresentou na segunda (28), como relator da MP 1.376, tira essa exigência e abre a renegociação a CPRs emitidas a favor de bancos, cooperativas de produção e revendas de insumos. O que não muda: juro e prazo de pagamento continuam os da MP, e segue a exigência de laudo de perda em duas ou mais safras entre 2019 e 2025. Traduzindo, o remendo ficou mais largo, não mais barato.
A Frente Parlamentar da Agropecuária não gostou do que ficou de fora: ao rejeitar as emendas sobre juro, garantia, comprovação da perda e fundo garantidor, o relator manteve os entraves. Já a Farsul vê no texto a correção de parte das distorções e quer o relatório votado até 1º de outubro.
Repare no tamanho do buraco. Pelo levantamento da Farsul sobre o painel do Banco Central, o que a MP contratou no Rio Grande do Sul equivale a 9,9% do saldo problemático do crédito rural gaúcho. Entre abril e julho, pela conta da entidade, esse saldo subiu R$ 5,1 bilhões, mais do que tudo o que a medida contratou no estado. O buraco cresceu mais do que o remendo.
E a obra não tem data. O texto ainda não tem votação marcada na comissão mista, e a MP perde a validade em 11 de novembro. Na leitura da Farsul, sem votação até 1º de outubro, a lei chega depois do plantio da safra de verão, com o crédito já decidido pelos bancos. Se você depende dessa renegociação para plantar, o buraco está na sua estrada.
PLANTÃO RURAL
O diesel subiu em quase todo o país: o diesel S-10 subiu 2,43% em setembro, para R$ 7,333 por litro na média nacional do levantamento da ValeCard, com alta em 26 das 27 unidades da Federação.
A Polônia perdeu a primeira rodada contra o acordo com o Mercosul: o Tribunal de Justiça da União Europeia negou o pedido da Polônia para suspender a aplicação provisória do acordo comercial com o Mercosul, com a ação de anulação ainda em análise.
No custo do pecuarista paulista, quem mais subiu foi a vacina: a vacina contra clostridiose no frasco de 250 ml ficou 219,7% mais cara em São Paulo entre agosto de 2025 e agosto de 2026, a maior alta entre os insumos acompanhados pela Faesp.
A mistura de 35% mudaria a conta do anidro em 2027: o consumo de etanol anidro pode crescer 8,3% em 2027 se a mistura de 35% entrar em vigor em agosto, pela projeção da StoneX, numa mudança ainda sujeita a testes técnicos e aprovação.
A UE prevê a menor safra de milho em décadas: a Comissão Europeia cortou a previsão de milho da UE neste ano para 48,3 milhões de toneladas, o menor nível desde pelo menos 2000, com a previsão de importação mantida em 25 milhões de toneladas.
A soja da safra nova recuou em Alta Floresta: a soja para janeiro de 2027 caiu R$ 3,46 na curva a termo de Alta Floresta (MT), para R$ 116,15 a saca no fechamento de 28 de setembro, pela análise da Grão Direto.
O leite gaúcho desceu mais um degrau: o Conseleite/RS projetou a referência de setembro em R$ 2,3910 por litro, 0,90% abaixo da projeção de agosto, com a intenção de pedir ao Ministério da Agricultura flexibilização temporária do prazo de 48 horas da coleta.
Mais DDG no mercado, menos folga para a usina: a produção brasileira de DDG e DDGS, coproduto do etanol de milho, deve chegar a 6,1 milhões de toneladas em 2026/27, com a oferta maior reduzindo o preço do DDG, na leitura do Bradesco BBI.
DIVIRTA-SE
No AtoZ, a primeira palavra sai fácil; depois, toda letra gasta num buraco faz falta em outro, e o jogo só aponta os erros depois que metade estiver certa. Comece pelas curtas e guarde o X e o Z: alguma palavra ainda vai pedir por eles.
VIVENDO E APRENDENDO
Resposta da edição passada: uma área de baixa pressão com centro frio, formada fora dos trópicos e sempre ligada a uma frente fria, que traz vento forte e chuva volumosa.
Pergunta de hoje: o que é a clostridiose?
A resposta você confere na próxima edição!
