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Bom dia!
Pega o café e acomode-se, pra se atualizar em 5 minutinhos. O Conselho Monetário mexeu numa regrinha de banco e o balcão da dívida amanheceu com fila dobrada. O maior comprador da sua soja passou o mês estudando genética pra precisar menos da gente. No mesmo dia a CNA mediu a falta de mão de obra no campo e apresentou a máquina que promete ajudar. O enxofre, que ninguém enxerga no talhão, virou o dono do que você vai pagar pelo saco. O arroz que promete ser o de primeira voltou do laboratório com outro nome. E um satélite foi ver se a soja do seu custeio estava mesmo plantada onde você disse que estava.
Pra você começar a quarta um passo à frente.
Por Luciana Stival
TÁ QUANTO?
Os dados são publicados por BCB e Brapi.
As variações são calculadas em % diária e %YTD (Year to date)
O barril desabou depois que Irã e Omã anunciaram a travessia liberada e a retirada das minas da água, num pregão em que o dinheiro voltou a topar bolsa e o câmbio cedeu junto. Pro agro é a primeira boa notícia do lado da oferta desde que a rota do Golfo travou, com a ressalva de que trégua anunciada em coletiva demora bem mais a virar carga no armazém.
O MAPA DO AGRO
O satélite da Serasa dedurou a sua soja?

Fonte: Giphy
O mesmo estudo saiu ontem com duas manchetes se estranhando. Numa, 17,4% de desvio. Na outra, 82,6% de uso correto. As duas certas, tiradas da mesma tabela, e escolher qual vai pra capa não é estatística, é editorial. Só que essa discussão tapa a notícia de verdade, que é o satélite ter virado “dedo duro” do seu contrato de custeio. O do tipo que não aceita “cafezinho”.
O "Mapa da Soja", da Serasa Experian, cruzou o cadastro de crédito rural do Banco Central com imagem de satélite pra ver se a soja financiada estava plantada onde o produtor disse que estaria. Quando não estava, o nome técnico é desvio de finalidade, que é pegar dinheiro subsidiado prometendo soja e aplicar em outra coisa, e esse pedaço carrega R$ 2,2 bilhões em crédito.
A própria Serasa avisa que divergência não é prova, é triagem, o mapa de onde o banco vai conferir papel. Mas o assunto já saiu do escritório e foi parar no tribunal, porque em abril a CNA foi ao Supremo contra a regra que obriga o banco a olhar satélite antes de liberar crédito, alegando que o produtor é condenado antes de se explicar. Afinal, você não precisa ter desviado nada pra levar o susto, basta ter desenhado a cerca errada.
DEU B.O.
O Tipo do pacote de arroz é confiável?

Fonte: Giphy
A Federarroz, a federação dos arrozeiros gaúchos, virou fiscal de supermercado por conta própria em seis estados, mandou pra análise pacote vendido como Tipo 1, e 80,22% voltou com classificação pior do que a da embalagem.
O carimbo não é marketing, é norma do Ministério da Agricultura. No arroz branco polido, grão quebrado e quirera juntos não podem passar de 7,5% do peso do pacote. Acima disso vira Tipo 2, e daí vai piorando. O levantamento achou pacote com quase cinco vezes esse limite vestido de Tipo 1. Traduzindo pra quem vai fazer o almoço, você paga grão inteiro e leva um bocado de quirera junto.
Agora a parte que a manchete engole: a própria Federarroz avisa que não sorteou nada, foi atrás de propósito do que já parecia ruim no olho e do mais barato da prateleira. Pesquisa que sai caçando suspeito acha suspeito, e esse índice é a taxa de acerto da caçada, não o retrato do arroz brasileiro. A indústria já tinha reclamado disso em março, lembrando que o grão também quebra no transporte e no manuseio, então nem todo defeito nasce na embaladora. Moral da história, o que está no rótulo é declaração de fabricante, palavra de honra, não certificado.
NAS CABEÇAS DO AGRO
O adubo aperta em setembro

Fonte: CNN Brasil
Adubo caro o produtor negocia, e quando não tem?
A Mosaic, maior fornecedora de fosfatado do país, avisou que o estoque formado no começo do ano acaba agora e que a falta começa em setembro. Não é conversa de palanque, porque a empresa já parou ou reduziu quase metade das fábricas que tem aqui e pôs a unidade de Araxá à venda.
O vilão tem nome e endereço: enxofre, que a indústria queima pra atacar a rocha e transformar em fosfatado, e metade do que o mundo usa passava pelo Estreito de Ormuz, que a guerra fechou. Antes da confusão, o enxofre era mais ou menos um quinto do preço de uma tonelada de MAP, o adubo mais vendido do país. Hoje é dois terços.
Só que o enxofre é metade da conta, tem também o caixa. Com juro alto e crédito curto, muita gente empurrou a compra pra frente, e quem empurrou vai comprar justamente no mês mais apertado do ano. O governo pôs R$ 4 bilhões do Brasil Soberano 3 na mesa, com juro de BNDES, e o Profert deve ser sancionado nos próximos dias, obrigando o adubo vendido aqui a levar um pedaço de produto nacional. A indústria agradeceu e já pediu mais dois bilhões só pra bancar a importação de enxofre, avisando que, sem compra nas próximas semanas, o parque de fosfatado pode parar. O nervosismo se explica, porque o Brasil importa quase 90% do que espalha no talhão.
E ninguém combinou o tamanho do estrago. A Agroconsult, a Agrinvest, a Yara e a própria Mosaic dão quatro números diferentes pra mesma coisa. E a análise é que quando quatro casas que vivem de medir e vender adubo não fecham numa conta, é porque a decisão ainda está sendo tomada lá na porteira.
Pra quem está com o caixa curto, André Pessôa, da Agroconsult, deu o conselho que ninguém quer ouvir: pode valer mais plantar menos área do que espalhar menos adubo na área toda, porque cortar dose derruba a produtividade da soja em torno de 5% a 7%, e o tombo é pior em terra nova. Além disso, o calendário piora antes de melhorar, porque a proteção do enxofre comprado barato está acabando.
Nesse mesmo evento, a Yara e a Coopercitrus assinaram um memorando pra estudar café e cacau de baixo carbono. O estranho é que descarbonizar a lavoura é pauta de quem já resolveu como vai adubar ela.
CAMPO CONECTADO
Falta gente, e chegou o robô?

Fonte: Giphy
O agro passou anos preocupado com chuva e cotação, e o que mais aperta agora é achar quem trabalhe. De cada cem produtores ouvidos pela CNA, noventa e cinco penaram pra contratar. Metade atrasou serviço, a outra metade engavetou plano de crescer. Não é campo encolhendo, é campo que não consegue expandir.
E aí, na mesma coletiva, veio a resposta. A CNA soltou o JoIA, um assistente que atende pelo WhatsApp de graça. Manda áudio, ele responde. Manda foto da lavoura, ele opina no manejo. Manda a receita da dieta, ele calcula o custo da ração. Até lembra de inseminar a vaca na quarta às duas.
Não foi só ela. Em Ilhéus, a universidade estadual soltou um chatbot que lê a foto do talhão e crava vassoura-de-bruxa. E na China um cão-robô passou a safra do chá carregando folha até a fábrica.
Mas o que ninguém fala é que nada disso tapa o buraco que o estudo mediu. Ninguém inventou ainda o que substitui o tratorista, o operador de colheitadeira, o ordenhador. A tecnologia entrou pela porta de cima, e a falta é lá embaixo.
COMO TÁ LÁ FORA?
Seu maior freguês ta “colando”

Fonte: Giphy
Comprador grande não avisa que vai embora, ele começa a plantar. E a China acabou de pôr no papel que quer comprar um quarto a menos de soja até 2030. Aí, essa doeu.
Quem conta é o chefe da Embrapa Soja, que passou o último mês lá dentro e voltou achando a meta até modesta. "É isso ou até mais. Se for 25% de redução, ainda a gente fica feliz." E aqui racha a mesa. A Embrapa troca material genético com eles e já trouxe de lá soja que aguenta terra pobre em fósforo, o que alivia a sua conta de adubo. Tem quem chame isso de entregar a receita pro freguês. A Embrapa rebate que é troca, porque a semente chinesa já está aqui de qualquer jeito. E o Carlos Cogo lembra que a China já prometeu ser autossuficiente em soja antes, e não foi.
E daí pra você? Se ele vai comprar menos grão, a saída é ter outra coisa pra vender. A conta da Esalq é essa: a mesma tonelada vale três vezes e meia mais saindo como carne do que saindo como grão. É por aí que a Embrapa aposta, junto da soja alto oleico, um óleo mais nobre que não vira borra na fritura e que o Brasil ainda nem tem no catálogo.
ASSUNTO DE GABINETE
O mesmo bolo agora atende duas filas

Fonte: Giphy
Por lei, o banco separa uma fatia do que está na conta corrente dos clientes e empresta pro agro, com juro controlado. Na segunda, o Conselho Monetário liberou o banco a usar até 40% dessa fatia pra rolar dívida velha em vez de emprestar dinheiro novo. Destravou uma linha que estava parada desde julho por causa de uma data numa planilha. Pra quem está afogado, é oxigênio, com juro bem abaixo do de mercado.
Agora vire a moeda. O bolo não cresceu um centavo. O mesmo dinheiro que financiaria a sua próxima safra agora também paga a dívida do vizinho. Além disso, o Conselho tirou a desculpa do banco, não tirou o direito de dizer não. Dá pra levar laudo, comprovar tudo e ainda ouvir um não no guichê.
O prazo vai até 12 de novembro, e o teto de 40% é do bolo de cada agência, não do país. Ou seja, quem tem dívida cara e perda documentada senta com o gerente esta semana logo, não deixe pra depois. E quem só quer custeio novo pergunta quanto daquele limite já foi comprometido.
E tem mais, na segunda abriu outra torneira, os R$ 13,5 bilhões pra quem se machucou no tarifaço, onde vale prejuízo de exportação e não perda de safra. Moral da história, destravar a torneira não garante encher a caixa d'água.
PLANTÃO RURAL
O Egito resolveu puxar um rio novo pra dentro do deserto: o projeto Novo Delta, de US$ 15 bilhões, quer transformar 924 mil hectares de areia em lavoura de trigo e milho até 2030, num país que hoje importa 40% da comida que come.
A CNA botou um agrônomo digital no WhatsApp do produtor: o JoIA é gratuito, responde sobre custo de produção, relação de troca e financiamento, e puxa das planilhas do Campo Futuro, que junta 17 anos de levantamento de preço de insumo.
Plantar soja em Mato Grosso ficou mais caro, mas a saca ainda paga a conta: o custeio da safra 2026/27 subiu 3,39%, para cerca de R$ 4,3 mil por hectare, puxado pelos R$ 1,9 mil de fertilizante.
As cooperativas paranaenses saíram de Curitiba com R$ 1,3 bilhão no bolso: o balanço do BNDES no primeiro semestre inclui R$ 500 milhões para a Coamo erguer em Campo Mourão uma planta de etanol de R$ 1,66 bilhão.
O boi mexicano voltou a cruzar a fronteira depois de mais de um ano parado: os Estados Unidos reabriram as importações pelo Arizona na segunda, primeira flexibilização do bloqueio imposto contra a mosca da bicheira, ainda sob protesto de pecuaristas americanos.
O maior inimigo da lavoura hoje não é a seca, é a falta de gente: para 44,5% dos produtores ouvidos pela CNA a escassez de trabalhador é o principal desafio do setor, à frente de custo, preço e clima.
Os sul-coreanos foram ver de perto o que o boi brasileiro come: uma missão técnica auditou a indústria de nutrição animal do Grupo Real, em Mato Grosso do Sul, etapa das vistorias que decidem a abertura do mercado à carne bovina do Brasil.
Uma soja que aguenta percevejo vale mais que um tanque de inseticida: pesquisadores da Unesp, da Esalq-USP e da UFSCar identificaram quatro linhagens tolerantes à praga, caminho para uma cultivar que dispense parte do químico.
SE DIVERTE AÍ
Todo mundo já começou uma safra sem saber direito o que tinha do outro lado da porteira. O Dungleon é essa aflição em versão de bolso: em seis tentativas você chuta quem está dentro do calabouço, herói, monstro, baú ou caveira, e as cores vão soprando o que existe e o que já está no lugar certo. Ainda tem umas regras secretas que só aparecem jogando. Palpite com pista, que é o que a gente faz o ano inteiro.
VIVENDO E APRENDENDO
Resposta da edição passada: Mato Grosso, e com folga. O estado sozinho responde por mais de 70% do algodão do país. Na safra 2024/25 foram 6,92 milhões de toneladas de caroço e pluma colhidas por lá, 8,3% a mais que no ciclo anterior.
Pergunta de hoje: por que a soja não precisa de adubo nitrogenado?
A resposta você confere na próxima edição!
