APRESENTADO POR

Bom dia!

Café na mão, que em cinco minutinhos o agro de hoje tá resolvido. O galpão do algodoeiro encheu justo no ano em que ele mais mandou fibra pra fora. O Rio Grande amanheceu amarelo, e a canola que tomou o lugar do trigo vive de uma canetada que não é dela. A beterraba europeia quebrou de sede, mas quem manda no preço do açúcar é a moenda do vizinho aqui. Uma trading das grandes entrou na fila do crédito, e o tamanho do pedido diz mais da fila do que dela. O adubo que você cortou ainda vai passar a fatura na safra que vem. E o convite americano pro nosso boi chegou com uma exigência que ninguém leu antes de comemorar, bem na hora em que o maior freguês fechava a porta do outro lado.

Pra você entrar na quinta sabendo onde pisa.

Por Luciana Stival

TÁ QUANTO?

MERCADO valor % dia % YTD
Soja (Paranaguá, R$/saca 60kg) R$154,57 0,57% 9,62%
Boi gordo (R$/arroba 15kg) R$342,50 -0,25% 7,30%
Açúcar cristal (SP, R$/saca 50kg) R$107,98 1,37% -1,83%
Algodão em pluma (¢R$/libra-peso) ¢R$428,45 0,08% 22,90%
Arroz em casca (RS, R$/saca 50kg) R$76,79 -0,07% 43,67%

Os dados são publicados por BCB e Brapi.
As variações são calculadas em % diária e %YTD (Year to date)

A inflação americana veio mais salgada do que se esperava, o investidor correu de volta pro título do governo de lá e o dólar se firmou contra quase tudo, real incluído. Por aqui, o gringo segue desconfiado do Brasil por causa de eleição, e banco grande já anda tirando o pé da bolsa daqui.

DE OLHO NO PORTO

A carne troca de porta

Fonte: Canal Rural

Dá para comemorar um mercado que chega com o preço já combinado por quem compra? A caneta que o setor esperava saiu ontem. São 300 mil toneladas que podem entrar nos Estados Unidos a partir de 1º de setembro, por 90 dias, com a taxa de importação de 26,4% suspensa para esse volume. A novela vem desde a semana passada. O capítulo novo é o preço. A carne tem de ser vendida lá com desconto obrigatório de 25%. Abertura com etiqueta de liquidação na entrada, e quem banca a promoção é quem criou o boi. A própria Abiec, que comemorou, avisou que a medida não substitui a China.

O problema é de tamanho. No acumulado do ano a China já levou perto de 857 mil toneladas, e os Estados Unidos, 234 mil. A porta que abriu é uma fresta de três meses. A que está fechando é o corredor principal. Em julho o embarque à China caiu 47,8%, e em 10 de agosto os chineses avisaram que a cota do ano, o teto de quanto eles compram, já estava 90% ocupada.

E na sua arroba, isso dá o quê? A média de julho ficou em R$ 335,50, o segundo menor mês de 2026. O que segura o preço agora não é comprador animado, é boi que não tem no pasto.

Aí a história vira. Quem mais precisa da troca é quem não pode fazê-la. O Pará mandou para a China quase 90 mil das 130 mil toneladas que embarcou até julho, e não tem habilitação para os Estados Unidos. Habilitação é o visto que o comprador dá planta por planta, e ele não sai por investimento. A FriGol pôs mais de R$ 50 milhões nas plantas de Água Azul do Norte e São Félix do Xingu e saiu batendo em outras portas. Dinheiro compra fábrica. Não compra carimbo.

SAFRA DE CIFRAS

Safra encolhe antes do plantio

Fonte: Globo Rural

Adubo cortado não cobra no mesmo ano, cobra no seguinte. Em 2022 o país usou cerca de 11% menos fertilizante e a Conab ainda anotou produtividade recorde de soja, porque o solo tinha reserva.

A falta de fosfatado de ontem já tem número: 356 milhões de toneladas de grãos em 2026/27, 1,38% a menos. Carlos Cogo crava que a culpa não é do El Niño, é do pacote tecnológico.

O detalhe é que quem cortou não errou a conta. A margem do produtor mato-grossense deve subir de 3,3% para 4,1%, mesmo com 80% da safra vendida antes de a soja subir e o endividamento do setor caminhando para 2,8 vezes o Ebitda.

O que não fecha é o ano que vem. A extração do solo chegou perto do limite, a importação de ureia até julho veio 25% menor, e repor em 2027 não vai ser escolha.

Solo não dá calote, ele parcela.

COLHENDO CAPITAL

A Amaggi foi buscar meio bilhão num mercado seco

Fonte: Giphy

Em 2026, o difícil no agro não é o juro, é achar quem empreste. As emissões de CRA, o papel que vira safra em dinheiro, caíram 56% de janeiro a maio, de R$ 12,3 bilhões para R$ 5,3 bilhões, pela Anbima. Por isso a Amaggi pedir R$ 500 milhões diz mais da fila que dela. Duas fatias de sete anos, uma a 105% do CDI, que sobe com o juro, e outra a 15,10% travado, num mercado que chegou a CDI+2%. Em R$ 47 bilhões de receita da holding, não é taxa de aflito. Acontece que a escritura não conta onde o dinheiro vai, o "vou resolver umas coisas" em versão cartorial. O pedido cobre um CRA em dólar com resgate em 31 de agosto, e trocar dólar por real antes do plantio é caixa arrumado, não socorro. E tem mais, na véspera, os credores da emissão velha aceitaram baixar o covenant de cobertura da holding, a régua que mede se a geração de caixa dá conta da dívida, de 2,5 para 1,5 vez. Quem está com tudo arrumado raramente pede folga na régua. No fim das contas, crédito vale menos pelo preço e mais pelo acesso. E, nem sempre, quem consegue captar é quem está mais folgado.

E ESSE TEMPO, HEIN?

O açúcar encolhe em 2026/27

Antes de culpar o sol da França, olhe a moenda do vizinho. A cana que vira etanol aqui dentro mexe no preço do açúcar tanto quanto a beterraba que secou lá fora, e essa chave quem gira é a usina do Centro-Sul.

O estrago lá fora é real. A Tereos põe a safra europeia no menor nível desde 1988/89 e cortou a campanha, a safra de beterraba deles, de 130 para 100 dias.

A França deve fazer mais de 20% menos açúcar que a média de cinco anos, e isso segurou Nova York ontem. O contrato de outubro subiu 32 pontos, a 17,59 centavos de dólar por libra-peso, quase meio quilo.

E daí pra quem decide o mix da usina, quanto da cana vira açúcar e quanto vira etanol. Quem ainda tem safra na mão negocia de cima.

Só que déficit projetado, a falta que o mundo deve ter, não é dinheiro na conta. Petróleo em baixa tira a graça do etanol, e a usina que voltar pro açúcar tapa o buraco que ajudou a cavar.

O preço do açúcar não se decide na beterraba francesa, se decide na moenda do Centro-Sul.

CAMPO ATUALIZADO

O amarelo do Rio Grande tem CNPJ

Fonte: TheAgriBiz

Na foto, é a canola conquistando o Sul. Na planilha, é o trigo desistindo dele. A Conab mostra o trigo gaúcho encolhendo 31,5% neste ano, e a canola crescendo 74%. Quem está saindo da lavoura é o trigo. A oleaginosa saiu do desconto e hoje leva prêmio de R$ 5 a R$ 10 por saca, porque o biodiesel quer o óleo que ela tem em dobro. A 3tentos pôs R$ 60 milhões na fábrica de Ijuí. Na terça ela era aposta de analista aqui, hoje é lavoura. Tales Pezzini plantou 130 hectares onde iria trigo. Aí é que mora o perigo. O prêmio não vem do mercado, vem de quem compra, e a mistura de biodiesel quem define é o governo. Trocar de cultura porque a outra piorou resolve a safra, não resolve a estratégia. A planilha manda hoje. A foto de amanhã depende de quem vai querer comprar o amarelo.

O AGRO EM NÚMEROS

O algodão sobra em 2026

Fonte: Giphy

Safra recorde é manchete fácil. A linha que muda a sua decisão é a de baixo, a que conta quanto fica parado no galpão.

O boletim de ontem da Anea, a associação que reúne os exportadores de algodão, subiu a safra 2025/26 para 4,178 milhões de toneladas de pluma, a fibra já limpa do caroço. No mesmo papel, o estoque de dezembro de 2026 foi de 2,794 para 2,914 milhões, o que fica no galpão quando o ano vira.

O exportador subiu a conta do que vai embarcar e a do que vai ficar parado, na mesma folha. Produzir mais, vender mais e ainda sobrar mais tem cara de problema.

Na letra miúda, o próprio exportador já vende essa sobra como previsibilidade pra quem compra lá fora. É munição ou é encalhe, e quem decide isso é a fábrica de fio do outro lado do mundo, não o armazém daqui.

Galpão cheio vale ouro enquanto o mundo tiver pressa.

PLANTÃO RURAL

SE DIVERTE AÍ

O agro de hoje foi um jogo de pontas: os Estados Unidos abriram uma, a China fechou outra, e quem tinha carne pra vender correu atrás de onde encaixar. O Dominó do Racha Cuca é essa conta na mesa, você olha a mão, vê que número está aberto nas duas beiradas e decide se joga agora ou segura a peça boa pra depois. Ganha quem sabe a hora de segurar a pedra.

VIVENDO E APRENDENDO

Resposta da edição passada: Porque quem passa o adubo é bactéria. Os rizóbios se alojam no nódulo da raiz, capturam o nitrogênio do ar e entregam pronto pra planta. Cada tonelada de grão pede 80 kg de nitrogênio, e essa fábrica de graça poupa ao Brasil uns US$ 8 bilhões por ano em adubo.

Pergunta de hoje: de onde vem o nome da canola?


A resposta você confere na próxima edição!

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