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Na edição de hoje, o agro aparece com cara de planilha e de bastidor ao mesmo tempo: tem Big Tech fechando contrato de 12 anos no mercado voluntário de carbono, a Embrapa rearrumando o cofrinho pra manter pesquisa de pé, e os números da safra virando duelo de estimativa entre IBGE e Conab. No meio do caminho, a JBS acelera a Pilgrim’s no México, o RS oferece alívio fiscal pros frigoríficos e a gripe aviária volta a dar sinal em granja comercial nos EUA, enquanto o Plantão Rural costura imposto, crédito, pasto e feijão sem deixar a xícara esfriar.
Pra você acordar bem informado
Por Enrico Romanelli
TÁ QUANTO?
Os dados são publicados por Cepea. As variações são calculadas em YTD (Year to date).
COLHENDO CAPITAL
Microsoft investe pesado em crédito de carbono

Foto: Getty Images
A Microsoft resolveu trocar parte do discurso climático por recibo e fechou a compra de 2,85 milhões de créditos de carbono da Indigo, empresa americana de insumos biológicos com programa de agricultura regenerativa nos EUA. O contrato é longo, o pacote vai ser entregue durante 12 anos, e vai deixar as compras anteriores com cara de troco de pinga. Pra se ter uma ideia, nos últimos dois anos somados, a empresa tinha comprado só 100 mil créditos de carbono.
A Indigo vende crédito, mas também vende método. A empresa trabalha hoje com agricultores em 3,24 milhões de hectares e já repassou a pequenina bolada de US$ 40 milhões aos produtores que entraram nessa jogada. No Brasil, a empresa roda um programa só pra nós, o Source, que faz a ponte entre indústrias interessadas em compensar emissões e produtores que adotam práticas que capturam carbono no solo.
E o acordo ainda vem com cinto e airbag: além do que a certificação pede, a venda inclui medidas extras pra reduzir o risco de o carbono “voltar pro ar” num período de 40 anos, com monitoramento e compensação. E o protocolo usado pela Indigo já exige garantia de captura ao longo de 100 anos, com créditos emitidos via Climate Action Reserve, onde a empresa já colocou mais de 900 mil créditos pra jogo usando o protocolo de enriquecimento do solo.
NAS CABEÇAS DO AGRO
A Embrapa e o desafio de manter a ciência no campo

Foto: Divulgação/Embrapa
Depois de quase 1 década vendo o caixa encolher, a Embrapa entrou em 2025 com um desafio puxado: manter pesquisa rodando com a verba curta e o fiscal olhando torto. A presidente Silvia Massruhá, que assumiu em maio de 2023, tá redesenhando o modelo financeiro pra tentar dar mais previsibilidade e estabilidade pra empresa, porque ciência nenhuma funciona de improviso.
E sente só o drama, a verba de custeio e investimento em pesquisa caiu de cerca de R$ 800 milhões em 2014 pro piso de R$ 160 milhões em 2022, reagiu pra R$ 335 milhões em 2025 e a LOA de 2026 prevê algo perto de R$ 410 milhões dentro de um orçamento total de R$ 4,84 bilhões.
O tamanho da engrenagem explica o aperto: são 43 centros de pesquisa, 7,5 mil funcionários e 2,1 mil pesquisadores, além de trabalhos e pesquisas nos 6 biomas do Brasil e presença lá fora com unidades e parcerias nos EUA, na França e agora até na Etiópia. A aposta da gestão tá num arranjo híbrido, com o recurso público como base de soberania e o privado ajudando a bancar as demandas de curto e médio prazo, tirando um pouco da pressão do Tesouro e acelerando a transferência de tecnologia. Hoje já rodam cerca de 1.170 acordos de inovação aberta com empresas, que colocam no bolso da Embrapa uma média de R$ 100 milhões por ano, e ainda tem uma discussão de criar um fundo próprio e outro articulado pela CNA que pode chegar a R$ 100 milhões.
O pulo do gato foi arrumar o caminho do dinheiro da inovação. Em 2024, a Embrapa implantou o Núcleo de Inovação Tecnológica pra destravar a reinjeção de royalties na própria pesquisa, em vez de ver esse valor sumir no orçamento geral. Junto disso, a Embrapa quis reforçar o time em 2025 com 1.000 novas contratações, levando o elenco pra 8,5 mil funcionários, com foco em trazer carne nova e mente curiosa pra áreas como: agricultura digital, biotecnologia, ciência de dados, IA e sustentabilidade.
E os planos pra mudar e melhorar não param. As prioridades da Embrapa tão se transformando também, e agora tão mirando bioeconomia, descarbonização e rastreabilidade, com exemplos que viram dinheiro de verdade no campo, tipo Fixação Biológica de Nitrogênio reduzindo dependência de fertilizante importado. Em cima disso tudo, ainda tem a vitrine internacional crescendo com os Labex (laboratórios no exterior) e novas parcerias em negociação na Ásia, América Central e Oriente Médio. Fica até difícil não se orgulhar da empresa desse jeito.
O AGRO EM NÚMEROS
IBGE fala em recuo e a Conab insiste no recorde

Foto: Gilson Abreu/Arquivo AEN
O IBGE chegou chegando nessa quinta-feira (15) e já avisou que 2026 não vai ter o mesmo ritmo do ano passado: a safra deve somar “só” 339,8 milhões de toneladas, queda de 1,8% ou 6,3 milhões de toneladas em comparação ao ano passado, que fechou em 346,1 milhões de toneladas e virou recorde histórico. O motivo do freio tá bem claro pra eles: milho, sorgo e arroz, além daquele detalhe que sempre manda no agro, a tal da janela de plantio e o humor do clima.
Só que a Conab chegou no mesmo dia e soltou outra leitura do termômetro: 353,1 milhões de toneladas de grãos em 2025/26, recorde novo e 0,3% acima de 2024/25, mesmo com um ajuste pra baixo de 1,3 milhão de toneladas em relação à última previsão que eles tinham feito, lá em dezembro. A soja segue liderando o pelotão, com 176,1 milhões de toneladas. O milho aparece com 138,8 milhões de toneladas e queda de 1,5%, enquanto o arroz cai 13,39% e estaciona em 11 milhões de toneladas.
Saindo dos grãos, a nossa exportação de carne bovina pros países árabes foi bem demais em 2025. Só as negociações com eles renderam quase US$ 1,8 bilhão em 2025, alta de 1,91%, com Egito em US$ 375,35 milhões, Arábia Saudita em US$ 333,10 milhões e Argélia em US$ 286,58 milhões. Segundo a Câmara Árabe-Brasileira, teve reforço de estoques por medo de bagunça na oferta global e, nessa hora, quem tem boi sobrando vira o fornecedor da vez.
SAFRA DE CIFRAS
JBS bota US$ 1,3 bi no México e tenta trocar frango importado por frango muchacho

Giphy
A Pilgrim’s Pride, braço de frango da JBS, anunciou que vai investir US$ 1,3 bilhão no México, com o dinheiro entrando parcelado nos próximos 5 anos, segundo o ministro da Economia mexicano, Marcelo Ebrard. A meta dessa jogada é reduzir em cerca de 35% as importações de carne de frango e botar a produção nacional pra ocupar essa vaga, principalmente num momento em que o México quer menos vulnerabilidade na cadeia de suprimentos e mais indústria girando.
Além de mexer no saldo da balança, o plano também mexe no tamanho da produção. O investimento vai botar mais 373 mil toneladas na capacidade da linha e criar 4 mil empregos diretos, em áreas como operação industrial, logística e administrativo. O governo ainda espera um efeito cascata de empregos indiretos, porque quando a fábrica cresce, o entorno inteiro vira fornecedor, transporte ou serviço.
A Pilgrim’s já opera no México há quase 4 décadas e o CEO, Fabio Sandri, usou o anúncio pra reforçar o compromisso com o país. No panorama geral, o investimento entra na estratégia da JBS de fortalecer a presença industrial na América do Norte, aproximar a produção de grandes centros consumidores e ganhar mais e mais eficiência, enquanto simplifica o portfólio: na mesma semana, a empresa informou ao Cade a venda dos 50% que tinha na Meat Snack Partners pra Jack Link’s, liberando espaço pra focar em ativos considerados essenciais e deixar o frango fazer o resto do trabalho.
MENTES QUE GERMINAM
Desconto bom demais pra ser verdade, mas é

Foto: Foto: Adobe Stock
O Rio Grande do Sul levantou da cadeira e lançou o Refaz Frigoríficos, um programa de regularização de débitos de ICMS feito pra quem abate bovino e mexe com subproduto, com potencial pra alcançar 194 empresas. A conta que tá na mesa chega perto de R$ 1 bilhão e o Estado ofereceu o tipo de condição que parece mentira: desconto de até 100% em juros e multas, com adesão aberta até 29 de maio.
O pacote vale pra débitos vencidos até 31 de dezembro de 2024, em Dívida Ativa ou não, inclusive judicializados, desde que a atividade principal do frigorífico seja o abate de bovinos ou abate e preparação de carne e subprodutos. O governo diz que a ideia é dar fôlego pro setor se recuperar depois de pancadas de eventos climáticos extremos e de fatores econômicos como as sobretaxas dos EUA nas exportações brasileiras.
Na prática, tem 2 caminhos. O primeiro é pra quem tem pressa, pagamento à vista até 29 de maio, com redução de 100% nos juros e até 95% nas multas. O outro é pra quem ainda tá meio apertado e não consegue pagar tudo de uma vez, parcelar a dívida com descontos que variam pelo tamanho do carnê, 90% em juros e multas em até 60 vezes, 80% entre 61 e 120 e também 80% entre 121 e 180 para empresa em recuperação judicial ou cooperativa em liquidação.
E ESSE TEMPO, HEIN?
Gripe aviária com visto americano

Foto: Lance Cheung/USDA
O APHIS, órgão de saúde animal e vegetal dos EUA, confirmou 2 novos casos de gripe aviária de alta patogenicidade (H5N1) em granjas comerciais nos EUA, daqueles que fazem o setor dormir de olho aberto. Um foco apareceu numa produção de frango de corte em Delaware, e o outro numa unidade na Georgia, e os 2 seguem listados como ativos, ou seja, ainda não dá pra guardar o alarme.
Nos números do estrago, a Georgia teve mais de 70 mil aves atingidas e Delaware levou a pior com quase 150 mil, um estrago somado de quase 220 mil aves nesses 2 focos. Em Delaware, o Estado colocou a instalação em quarentena e abateu as aves da propriedade pra evitar que o vírus saia correndo por aí, porque com H5N1 não tem conversa, tem protocolo.
E o histórico mostra por que o radar fica ligado: desde 8 de fevereiro de 2022, quando apareceu o primeiro caso, os EUA já contabilizam mais de 185 milhões de aves infectadas, com 2.022 focos em 50 Estados e 1 território. Desse total, 917 focos foram em granjas comerciais e 1.105 em aves domésticas, num vírus que se espalha pelo ar e por secreções e fezes, ou seja, basta um espirro ou um frango indo ao banheiro no lugar errado pra transformar galpão em camisa de saudade.
PLANTÃO RURAL
Tilápia importada ganhou pedágio. O Paraná sancionou uma lei que aplica ICMS de 22% na tilápia vinda do exterior e ainda cortou diferimento e crédito presumido na importação. A Faep comemorou a barreira dizendo que ela protege o maior produtor do país, que fez 38,2% da produção nacional em 2024, mais de 190 mil toneladas, e responde por 70% das exportações.
Crédito de etanol virou máquina nova. O governo do Mato Grosso publicou um decreto que autoriza usinas do estado a usar créditos de ICMS ligados ao etanol anidro pra investimento. A Sefaz diz que a regra aumenta a segurança jurídica com critérios e limites, e o governo vende como incentivo com monitoramento pra gerar emprego sem bagunçar o caixa.
Árabes querem virar sócios do pasto. O Ministério da Agricultura pretende apresentar a fundos soberanos da Arábia Saudita, Emirados Árabes e Catar a ideia de entrar como cotistas minoritários em Fiagros pra financiar a conversão de pastagens degradadas. O plano mira o Caminho Verde Brasil, que quer transformar 40 milhões de hectares, e aposta que o investidor ganhe na valorização da terra.
Feijão pode perder a Venezuela pro tio Sam. O Ibrafe alertou que o feijão brasileiro corre risco de perder mercado na Venezuela pros EUA, e sem esse destino o excedente pode apertar os preços no mercado interno e desanimar o produtor. Em 2025, a Venezuela comprou do Brasil cerca de 16 mil toneladas, gerando US$ 13,5 milhões, bem abaixo de 2024, quando levou 39 mil toneladas e US$ 45 milhões.
SE DIVERTE AÍ
Hoje o rolê é testar se tu reconhece mais lavoura que o Google. No GeoGuessr, o jogo te joga no meio de uma estrada aleatória do planeta, em visão de rua, e tu tem que adivinhar onde tá no mapa. Vale procurar pista em placa, tipo de solo, pivô de irrigação, padrão de cerca, tipo de caminhão e até formato de telhado de galpão. Entra lá, escolhe um modo mundo ou América do Sul, chuta o lugar e depois conta pra gente se tu mandou o palpite certeiro ou jogou uma fazenda do Kansas no meio do Mato Grosso.
VIVENDO E APRENDENDO
Resposta da edição passada: Milho roxo
Pergunta de hoje: Qual especiaria asiática já foi mais cara que o ouro e motivou expedições marítimas nos séculos XV e XVI?
A resposta você fica sabendo na próxima edição!

