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Bom dia!
Depois de 26 anos de novela, Mercosul e União Europeia assinaram o acordo que promete mexer com tarifa, cota e ambição de exportador, mas também muda etiqueta de produto na prateleira. Na edição de hoje, tem foco novo de gripe aviária, a colheita de soja arrancando acima da média e a cana fechando dezembro com produtividade e ATR em alta, além de um giro pela citricultura da Flórida em queda livre, inadimplência no campo subindo, BTG reduzindo posição na Marfrig, investimentos bilionários na agroindústria e goiaba recebendo banho de luz pra não virar perda.
Pra você acordar bem informado
Por Enrico Romanelli
TÁ QUANTO?
ASSUNTO DE GABINETE
Mercosul e UE assinam acordo gigante, abrem mercado e fecham a porta pro presunto parma

Foto: Parlamento Europeu/Divulgação
Depois de 26 anos de negociação, quase uma eternidade, Mercosul e União Europeia finalmente assinaram no último sábado (17), em Assunção, no Paraguai, o Acordo de Associação e o Acordo Interino de Comércio. Com a assinatura, nasce uma área de livre comércio com mais ou menos 720 milhões de pessoas e PIB pra lá dos US$ 22 trilhões.
Na parte que interessa pro bolso, a UE vai eliminar tarifas pra 92% das exportações do Mercosul, algo perto de US$ 61 bilhões, e ainda dá acesso preferencial pra mais 7,5%, que deve dar mais uns US$ 4,7 bilhões. Do outro lado, o Mercosul vai cortar tarifas de 91% das exportações europeias, incluindo automóveis, num cronograma de até 15 anos. Ou seja, a porteira abre, mas com cronograma, carimbo e aquela letrinha miúda dizendo que tá sujeito a condições.
Só que a empolgação precisa vir com cinto de segurança: assinar o papel não é sinônimo de começar a embarcar amanhã cedo. Ainda tem aprovação no Parlamento Europeu e nos Legislativos de Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, além do drama do rateio das cotas dos produtos considerados sensíveis dentro do Mercosul, tipo carne bovina e etanol. Até as listas do 1º ano e a tradução jurídica das mais de 1.000 páginas entram no pacote, então o exportador já pode planejar, mas sem achar que a Europa vai mandar o caminhão buscar amanhã.
No lado do agro que pode ganhar mais, o mercado aponta café, aves, etanol e açúcar como os queridinhos do acordo e tem o maior potencial de ganho com a assinatura, só que no ritmo de quem viaja de teco-teco, não foguete. Café torrado moído e café solúvel têm tarifas atuais de 9%, que vai diminuir aos poucos ao longo de 4 anos, aves entram com cota livre que começa em 30 mil toneladas e pode chegar a 180 mil toneladas em 2031, e o etanol ganha uma cota de 650 mil toneladas, sendo 450 mil sem tarifa e 200 mil com tarifa reduzida.
A parte que vai dar mais trabalho pra design de embalagem e branding de produto é a novela das indicações geográficas. A UE protege um punhado de nomes e o recado é simples: pode até fazer aqui, mas não pode vender chamando de presunto parma, conhaque, mortadela bolonha, salame milano, manchego, xerez e por aí vai. No Brasil, tem exceções pra quem já usava alguns termos há anos, como gorgonzola e parmesão, mas com regra de vitrine, nada de bandeirinha europeia na embalagem e o nome da marca precisa aparecer maior, senão o produto pode acabar banido.
RADAR SANITÁRIO
Gripe aviária aparece em Acorizal e o Indea já monta o cerco no quintal

Foto: Freepik (feita por IA)
O Ministério da Agricultura divulgou a informação de que apareceu um novo foco de H5N1 em aves domésticas de subsistência numa propriedade rural de Acorizal (MT), depois que o criador percebeu umas mortes repentinas e acionou o Indea, que confirmou a treta na sexta-feira (16). A prova veio também pelo LFDA de Campinas (SP), e o Mato Grosso já entrou no modo contenção pra evitar que o vírus faça turismo por aí.
O Indea já saiu avisando que o consumo de frango e ovos segue sem risco pra saúde humana e o episódio não mexe com a avicultura comercial do estado. Mesmo assim, na propriedade não teve espaço pra deixar pra depois. Já subiu uma barreira sanitária pra segurar o trânsito de animais, material e equipamento, e as instalações passaram por limpeza e desinfecção. Também foi necessário o abate sanitário de todas as aves do criador, com enterro em valas, porque com vírus altamente contagioso não dá pra negociar e nem ficar de bobeira.
Pra fechar mais ainda o cerco, o Indea instalou um sistema de vigilância em dois anéis: raio de 3 km na zona perifocal e 10 km na zona de vigilância, de olho em todas as propriedades nos arredores do foco. E o contexto pesa: Mato Grosso já tá em emergência zoossanitária desde 24 de dezembro por um foco em Cuiabá, que o órgão diz estar sob controle e em vazio sanitário, com 28 dias sem aves no local pra garantir que o H5N1 não volte pra pedir um TBT.
O AGRO EM NÚMEROS
Soja sai forte na largada e a cana fecha dezembro em alta

Foto: Freepik
A colheita da soja 2025/26 começou no pique de quem recebe por resultado, e não por hora: até sexta-feira (16), 1,39% da área do Brasil já tava colhida, bem acima dos 0,23% do mesmo período de 2025 e também maior que a média dos últimos 5 anos, que é 1,02%. Mato Grosso puxou a fila e já encostou em 5% da área finalizada, com resultado positivo até em regiões que largaram o ciclo com clima enchendo a paciência, enquanto o resto do país parece que ainda tá mais em colheita pontual do que com colheitadeira cantando.
Na cana do Centro-Sul, dezembro trouxe um alívio pra quem vive de tonelada e de qualidade: a produtividade média foi a 73,4 t/ha, alta de 26,6% em comparação com dezembro de 2024, quando a média era 58 t/ha. E o ATR também deu aquele upgrade que anima usina, subindo de 104,4 kg/t pra 117,9 kg/t, avanço de 12,9%.
Só que o boletim do CTC também lembra que o filme da safra não se resume ao último capítulo: no acumulado de abril a dezembro de 2025/26, a produtividade média caiu 4,6%, pra 74,7 t/ha, e o ATR acumulado ficou em 135,9 kg/t, abaixo dos 137,3 kg/t do ciclo passado. Em resumo, dezembro deu respiro, mas o restante do ciclo ainda tá cobrando a conta no caixa da moagem.
MENTES QUE GERMINAM
Embrapa põe a semente na sala de aula pra ela parar de dar susto no campo

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Se a semente de soja falasse, ela ia pedir 2 coisas no Brasil tropical e subtropical: sombra e água fresca. Como não dá pra plantar no ar condicionado, a Embrapa Soja vai fazer um curso pra quem trabalha com produção e armazenamento de sementes e quer diminuir o risco de ver um lote promissor virar novela na germinação.
A capacitação mira o Brasil e alguns outros países da América Latina e reúne pesquisadores da Embrapa com gente de universidades e outras instituições de ensino, cobrindo temas tipo: Tecnologia de Sementes e Grãos; Entomologia, Ecofisiologia, Fertilidade e Microbiologia do Solo; Genética e Melhoramento; Manejo do Solo e da Cultura; e Plantas Daninhas.
A programação pula de cabeça em tudo aquilo que derruba o desempenho da semente na vida real: deterioração por estresse climático e nutricional, dano de inseto e a festa dos microrganismos quando o manejo falha. A ideia é mostrar como minimizar esse combo de problemas pra semente sair do armazém com redondinha e chegar na lavoura rendendo do jeito que o produtor espera, sem susto na emergência e no vigor.
Pra entrar, a inscrição é só pela internet e as vagas são por ordem de chegada, com confirmação só depois do pagamento. O investimento é de R$ 3.000 e inclui material didático e transporte até a Embrapa Soja, saindo de um hotel na região. O curso é presencial, tem 40h e rola de 23 a 27 de março, em Londrina (PR). Pra quem vive de semente, é aquele tipo de custo que pode economizar um bom dinheiro em susto na germinação.
COMO TÁ LÁ FORA?
Flórida espreme cada vez menos e o greening continua bebendo o suco da citricultura gringa

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A Flórida, que um dia foi chamada de estado da laranja e até carrega uma laranjinha na placa de seus carros em homenagem à citricultura do estado, tá prestes a bater mais um recorde que ninguém esperava: o USDA estimou só 12 milhões de caixas na safra 2025/26, uma queda de mais 2% na comparação com a anterior. Pra lembrar o tamanho do tombo, há 15 anos o estado passava das 140 milhões de caixas.
O enredo tem 2 vilões que adoram aparecer juntos: clima extremo, com furacões dando aquela chacoalhada no pomar, e principalmente o greening, doença sem cura que apareceu nos EUA em 2005 e virou a maior ameaça da citricultura mundial pelo enorme poder destrutivo e pela facilidade de contágio. O resultado é uma queda que acelerou de vez a partir de 2014/15, quando a produção já caiu abaixo de 100 milhões de caixas, e que no ciclo 2024/25 já tinha cravado um recorde negativo, com recuo de 23% em comparação com 2023/24. Além dos resultados ruins, tem casos como o da Alico, empresa centenária que fechou a operação de citros na Flórida no ano passado e demitiu em massa seus funcionários.
Pra tentar segurar o rojão, a Flórida colocou US$ 140 milhões em fundos estaduais no último ano, com mais de US$ 100 milhões indo pra pesquisa, testes de campo e plantio de variedades mais resistentes. E uma boa notícia no meio desse suco azedo vem da Universidade da Flórida, que desenvolveu uma nova variedade de laranjeira com tolerância ao greening, reforçada com uma proteína natural que turbina o sistema imunológico da planta, mantendo a produção e a qualidade lá em cima.
Do lado de cá, o Brasil também conhece bem esse inimigo. Um levantamento do Fundecitrus aponta incidência de 48,64% de greening no cinturão citrícola de SP e Triângulo Mineiro, só que a captura média de psilídeo caiu pelo 2º ano seguido, sinal de redução depois do pico de 2023. E, pra não depender de sorte e reza, a Fapesp, a Esalq/USP e o Fundecitrus oficializaram em 12 de janeiro o CPA Citros, um centro de pesquisa aplicada pra organizar o combate com mais ciência e menos improviso.
E enquanto a Flórida conta caixa por caixa, na esperança de produzir um pouquinho mais, a safra brasileira 2025/26 deve bater 314,6 milhões de caixas, alta de 36% em relação a 2024/25, puxada por alternância de produção, mais árvores produtivas, mais frutas por árvore e um clima mais camarada de outubro a dezembro.
SAFRA DE CIFRAS
Inadimplência no campo continua subindo

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O campo tá colhendo um dado que ninguém queria ver na lavoura: a inadimplência bateu 8,3% no 3º trimestre de 2025, segundo a Serasa Experian, acima dos 7,4% do mesmo período de 2024. E a curva não tá de brincadeira: no 3º tri de 2023 era 6,1%, ou seja, desde lá o índice só subiu, embalado por margens apertadas, crédito mais difícil de acessar e commodities sem aquele up nos preços que costuma aliviar o caixa.
Segundo a Serasa, a história começou lá no tempo do boom das commodities, em 2022/23, quando muita gente expandiu, investiu e assumiu dívida longa na fase das vacas gordas. Aí o roteiro virou de gênero: custo de produção subiu, a guerra na Ucrânia bagunçou fertilizante, os preços das commodities esfriaram e o clima resolveu jogar contra. Em 2025, ainda teve o tempero extra do crédito mais restrito, banco pedindo mais garantia e liberando menos recurso, o que travou a rolagem de parte das dívidas e empurrou mais gente pra corda bamba.
Pra 2026, a previsão é aquela: pode parar de piorar, mas ninguém tá soltando foguete. A CNA vê um cenário ainda complicado, com insegurança dos agentes financeiros diante do endividamento e da epidemia de recuperações judiciais, enquanto o produtor segue procurando uma repactuação que caiba no bolso. Já a Serasa aposta em pelo menos estabilidade, porque crédito apertado também freia novos inadimplentes e tem produtor renegociando, com chance de commodity segurar um viés positivo, desde que não apareça mais nenhuma surpresa geopolítica pra virar o jogo no pior momento.
PLANTÃO RURAL
BTG diminuiu a aposta na Marfrig. A MBRF avisou que o BTG Pactual vendeu parte das ações da Marfrig e agora ficou com 53.181.792 ações ordinárias, cerca de 3,69% do total. O banco ainda disse que tem derivativos que dão uma exposição vendida de aproximadamente 54.622.225 ações, e jurou que a mexida é só financeira, sem querer trocar comando nem mexer na cadeira de ninguém.
Agroindústria investiu R$ 60 bi e 2025. Um levantamento feito pelo Valor apontou mais de R$ 60 bilhões anunciados em 2025 pra novos projetos e ampliações na agroindústria BR, com o etanol de milho puxando a fila: foram R$ 41 bilhões em 44 projetos. O maior barulho veio da Inpasa, com R$ 3,5 bilhões em Rondonópolis (MT) e ampliação em Nova Mutum (MT).
Exportar de SP ficou de graça e sem sair do escritório. A InvestSP abriu inscrições pro Exporta SP, curso online e gratuito de 3 meses, com 2 encontros semanais e até 4 mentorias individuais, pra micro, pequenas e médias empresas, startups e produtores rurais do estado. O prazo vai até 13/02 e a própria agência diz que, desde 2019, 1.574 empresas já passaram por lá e cerca de 25% começou ou ampliou exportações durante a capacitação.
Goiaba ganhou tratamento de luz pra evitar virar prejuízo. Um estudo da Embrapa mostrou que a luz UV-C modulada em pulsos ajudou a combater a antracnose e pode reduzir as perdas pós-colheita de goiaba, estimadas em 20% a 40%, sem fungicida e sem resíduo. O equipamento é um cilindro com espelho e 3 lâmpadas germicidas pra maximizar a radiação na fruta, inativar microrganismos e preservar a qualidade, e o próximo passo é validar em condição real de produtor e adaptar pra linha de processamento.
SE DIVERTE AÍ
Hora de dar um descanso pros números e espremer o cérebro em outra lavoura: o vocabulário. Hoje a pedida é o Termo, aquele jogo em que você tem 6 tentativas pra adivinhar a palavra do dia. Vale combinar com o pessoal da fazenda, do escritório ou da república e ver quem acerta primeiro. Depois do café, já sabe: abre o Termo, chuta uma palavra qualquer e deixa a cor dos quadradinhos dizer se sua cabeça tá mais pra lavoura bem manejada ou pra área que precisa de reforço técnico.
VIVENDO E APRENDENDO
Resposta da edição passada: Cravo-da-índia
Pergunta de hoje: Qual planta do Mediterrâneo foi cultivada por fenícios e romanos e é até hoje a principal fonte de azeite?
A resposta você fica sabendo na próxima edição!

