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Bom dia!
Se você achou que essa semana ia começar no piloto automático, pode acordar. A Expodireto abriu com clima pesado e recado bem claro do RS, enquanto Brasília tenta decidir se o diesel vai ser resolvido na mistura ou na importação, e o crédito rural dá sinais de cautela que já tão aparecendo na estatística. No meio disso, tem terra virando liquidez pra produtor respirar, Belagrícola correndo pra manter o plano vivo, alerta sanitário batendo na fronteira e um plantão com frete, adubo, soja e proteína.
Pra você acordar bem informado
Por Enrico Romanelli
TÁ QUANTO?
Os dados são publicados por BCB. A variação considerada nesta tabela é semanal.
NAS CABEÇAS DO AGRO
Protesto abre o primeiro dia da Expodireto

Foto: APER/Divulgação
A Expodireto Cotrijal abriu nesta segunda-feira (9) em Não-Me-Toque (RS) com menos clima de festa e mais clima de velório. Produtores gaúchos foram vestidos de preto pra abertura e fizeram um cortejo fúnebre simbólico, com caixão e cruzes de madeira, e atravessaram os corredores da feira pra dizer que o sufoco financeiro não tá mais cabendo no bolso, nem na garganta. Um protesto forte e que marca o momento tenso que o agro gaúcho vive.
O ato foi puxado pela APER, que já tinha feito algo parecido na Expointer, e os alvos principais foram o endividamento e o que eles chamam de desrespeito à Política Pública de Crédito Rural pelos bancos e instituições financeiras, principalmente as cooperativas de crédito. Arlei Romeiro, presidente da associação, citou o Manual de Crédito Rural e a Súmula 298 do STJ pra defender que prorrogar dívida em frustração de safra é direito do produtor, não um favor que depende do humor do gerente.
O caixão e as cruzes vão ficar expostos na entrada do parque durante toda a feira e a associação quer sepultar simbolicamente essa falta de atenção na sexta-feira (13), no encerramento. O produtor gaúcho tá batendo na mesa e dizendo que não vai mais fazer cara de paisagem enquanto a conta cresce e a renegociação vira uma disputa de braço.
E não foi só dívida na treta, teve royalties também. A galera entregou documentos pra Bayer cobrando esclarecimentos sobre a cobrança de royalties de sementes e sobre uma multa de 7,5% aplicada nas moegas, alegando que não existe contrato com a empresa pra justificar essa cobrança. A Bayer disse que recebeu os representantes, ouviu as demandas e quer manter o diálogo, mas bateu na tecla de que patentes protegem a propriedade intelectual da empresa e que a biotecnologia é uma escolha do produtor, citando que, desde a Intacta RR2 Pro, a produção brasileira de soja quase dobrou e que o RS foi de 12,9 milhões de toneladas há 12 anos pra mais de 20 milhões, segundo projeção da Conab.
ASSUNTO DE GABINETE
Biodiesel vira plano A enquanto diesel fóssil vira dor de cabeça

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O diesel virou personagem principal da semana e o biodiesel tá tentando roubar a cena pra salvar o roteiro. Com a guerra no Oriente Médio mexendo no petróleo e deixando o Brasil lembrando que exporta petróleo bruto, mas ainda importa diesel e gasolina, o agro começou a pedir reação rápida. Se o fóssil ficar mais caro e mais raro, alguém vai ter que segurar a bronca pra colheita e escoamento não virar novela.
A CNA foi direto no ponto e pediu ao Ministério de Minas e Energia um salto imediato da mistura obrigatória de biodiesel no diesel, de 15% pra 17%, o famoso B17. No ofício, a entidade citou o Brent chegando a US$ 84 e subindo até 20% desde o fim de fevereiro, e lembrou que em 2022, com guerra na Ucrânia e Rússia, o barril disparou e o diesel acompanhou, com alta média de 21% na distribuição e 23% na revenda. Pra CNA, avançar a mistura ajuda a ampliar a oferta no mercado interno e reduzir a pressão na logística, ainda mais porque o B16 que era pra entrar em 1º de março já tá atrasado.
As usinas também tão no mesmo bonde, só que com cuidado pra não parecer que tão se aproveitando da guerra. O presidente da Aprobio, Jerônimo Goergen, disse que o B16 já poderia entrar sem teste nenhum, e que, se o governo fizer questão de validação, o setor topa acelerar e até bancar ensaio pra misturas maiores. A Aprosoja Brasil entrou no coro pedindo avanço do biodiesel e, de quebra, mais etanol na gasolina além dos 27%, citando preocupação com falta de diesel no campo em plena colheita e alertando pro risco de oportunismo durante a escassez.
Só que, do outro lado da mesa, tem gente tentando puxar a solução pelo caminho da importação. Importadores e entidades do setor de combustíveis querem autorização pra importar biodiesel e complementar oferta, e a proposta tá na pauta prévia do CNPE desta semana. Se passar, até 20% da demanda nacional poderia ser atendida com produto estrangeiro, flexibilizando a regra que hoje amarra o mandato ao Selo Biocombustível Social.
A indústria nacional do biodiesel chiou, dizendo que a capacidade instalada sobra e ociosidade tá alta, então importar seria mais bagunça regulatória do que necessidade técnica, ainda mais porque óleo vegetal o Brasil já importa sem drama. Agora a expectativa tá na quinta-feira (12), quando o CNPE se reúne, e o dilema tá claro. De um lado o agro pedindo mais mistura pro diesel parar de mandar na lavoura, do outro importador pedindo porta aberta pra chacoalhar preço, e no meio o governo tentando escolher o caminho que dá menos dor de cabeça e mais combustível no tanque.
O AGRO EM NÚMEROS
Crédito engata a ré e nossa carne já tem lugar reservado na mesa da UE

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O Plano Safra 2025/26 tá com freio de mão puxado. De julho de 2025 até fevereiro de 2026, o crédito rural nas linhas tradicionais caiu 13% na comparação com o mesmo período do ciclo anterior, com R$ 227,4 bilhões desembolsados contra R$ 260,3 bilhões. O baque mais feio veio nos investimentos, que recuaram quase 22% e foram de R$ 72 bilhões pra R$ 56,2 bilhões, enquanto custeio caiu 13,6% pra R$ 125,9 bilhões e comercialização escorregou quase 19% pra R$ 21,7 bilhões. A única turma que nadou contra a corrente foi industrialização, que subiu 50% e chegou a R$ 23,4 bilhões, e até o total de contratos caiu 3% pra 1,5 milhão.
O Ministério da Agricultura tentou mostrar outro ângulo e trouxe a CPR pra foto. De julho de 2025 a fevereiro de 2026, as contratações via CPR cresceram 39% e bateram R$ 163,4 bilhões, só que tem um detalhe importante, contratar não é a mesma coisa que receber, tem R$ 15,1 bilhões já contratados que ainda não viraram desembolso. No recorte do ministério pra médios e grandes, as contratações somaram R$ 354,4 bilhões, alta de 7%, com a cautela ficando bem clara nos programas de investimento, Moderfrota caiu 49% pra R$ 3,48 bilhões e Pronamp investimento recuou 34% pra R$ 3,65 bilhões.
E quando o crédito aperta, a fila do fórum cresce. A Serasa Experian registrou 1,99 mil pedidos de recuperação judicial no agro em 2025, alta de 56,4% sobre 2024 e recorde desde o início da série em 2021. No recorte, produtor pessoa física somou 853 pedidos, produtor pessoa jurídica bateu 753 e empresas ligadas ao setor fecharam 384, com a Serasa apontando crédito mais restritivo, custo alto e alavancagem elevada como o combo que pressiona o caixa. No mapa, Mato Grosso liderou com 332 pedidos, seguido por Goiás com 296 e Paraná com 248, com MS em 216, MG em 196, SP em 189 e RS em 159.
E no acordo Mercosul-União Europeia, a carne bovina já sabe o tamanho do prato do Brasil. Por causa de um acordo empresarial que foi fechado lá em 2004, o país fica com 42,5% da cota do bloco, com Argentina em 29,5%, Uruguai em 21% e Paraguai em 7%. A cota anual do acordo é de 99 mil toneladas com tarifa de 7,5%, sendo 55 mil toneladas pra carne fresca ou refrigerada e 44 mil toneladas pra congelada, e a implementação entra aos poucos ao longo de 6 anos, até completar o volume total.
SAFRA DE CIFRAS
Exa e Fibra lançam Fiagro de R$ 200 M pra comprar fazenda e realugar pro produtor

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Quando o crédito some e a margem aperta, o agro começa a olhar pra terra como caixa de emergência. A Exa Capital estreou no mundo dos fundos de terras e, junto com a Fibra Asset, lançou um Fiagro de R$ 200 milhões com prazo de 10 anos, o Fibra Exa Red Heifer Terras Brasil I, feito pra dar liquidez a produtor endividado sem pedir que ele desligue a fazenda. A maior parte do dinheiro vem da Fibra e uma fatia menor é da própria Exa, num fundo de cota única, sem essa de sênior e mezanino, aqui é tudo no mesmo balde.
A jogada do fundo é o famoso sale and leaseback. O fundo compra a fazenda do produtor, mas ele continua tocando a operação e ganha a opção de recomprar a terra lá na frente. Pra segurar essa opção, ele paga uma quantia pré-fixada e também o arrendamento, com pagamentos anuais desde o início, só que a parte da recompra mesmo pode ter carência de até 6 anos, pra dar tempo de o produtor pegar uns ciclos bons e não precisar vender a alma junto com a matrícula do imóvel.
O sócio da Exa, Fábio Fanti, disse que a tese é de que em 5 a 6 anos o produtor vai ter altos e baixos, mas a expectativa é que ele tenha pelo menos 2 anos bons pra fazer dinheiro e recomprar a fazenda depois. Mas também tem o lembrete que ninguém gosta, mas todo mundo entende, se o produtor não honrar os pagamentos ou não tiver grana pra recomprar no prazo, a gestora pode vender a terra pra outro comprador.
Com o fundo já captado, a meta é concluir as alocações em até 6 meses e depois ficar só de olho na carteira. Até agora, o veículo já entrou numa fazenda na Bahia com 1,50 mil hectares produtivos e tá fechando outra no Mato Grosso do Sul com mil hectares, mirando propriedades entre mil e 3 mil hectares e de 5 a 7 aquisições com esse montante. No radar também entram MT, GO, PR, MG e SP, com disciplina de preço e até compra abaixo de mercado quando der, e tudo passa por comitê de crédito, precificação, risco e compliance com aprovação unânime, pra ninguém ter surpresa e dor de cabeça no longo prazo.
COLHENDO CAPITAL
Belagrícola antecipa prazo, mostra apoio dos credores e bate o pé pra salvar recuperação

Foto: Reprodução/AgFeed
A Belagrícola tá vivendo aquela novela em que a Justiça tá discutindo o formato da recuperação, se vai ser judicial ou extrajudicial, mas a dívida não espera e tá cobrando o pix. Mesmo com a recuperação extrajudicial ainda pendurada numa disputa jurídica, a empresa segue tratando a RE como trilho principal pra reestruturar suas dívidas, que já são mais de R$ 2,2 bilhões, e decidiu apertar o passo. Na noite de sexta (6), a empresa protocolou a lista de adesões ao plano anunciado em dezembro, antes do prazo legal que ia até hoje (10).
No papel que foi entregue à Justiça do Paraná, a empresa diz ter conseguido a adesão de 1.428 credores, sendo 1,4 mil produtores rurais, e que atingiu o requisito chave, os detentores de mais de 50% dos créditos sujeitos à RE deram sinal verde. A Belagrícola também destacou apoio de fornecedores e parceiros estratégicos e emplacou a narrativa de confiança, que tão apostando que a companhia ainda consegue honrar compromissos sem precisar virar fumaça.
Só que a treta maior ainda tá no jurídico. A companhia prepara um recurso pra tentar derrubar a decisão que barrou a RE unificada do grupo e mandou escolher entre transformar tudo em recuperação judicial ou dividir em várias REs, uma por empresa. A aposta dos advogados é que já existe jurisprudência permitindo o agrupamento em um processo só, citando casos como o da Lavoro, e a Belagrícola quer usar esse caminho pra manter a reestruturação mais organizada e menos picotada.
Enquanto o recurso não sai do forno, o novo CEO, Eron Martins, segue cortando gordura pra focar no que dá retorno e ficar mais longe do que suga capital de giro. A empresa já arrendou 7 estruturas de armazenagem pra Cocamar e fechou acordos envolvendo outras 19 unidades com Coamo e Lar, com a intenção de vender esses ativos nos próximos meses pra fazer caixa e bancar o plano.
RADAR SANITÁRIO
Mais um foco na Argentina e a gripe aviária tenta conquistar 24 territórios

Foto: Canva/Creative Commons
A Argentina confirmou mais um foco de gripe aviária em granja comercial e, de novo, a província de Buenos Aires apareceu como endereço da dor de cabeça. O Senasa identificou o caso em um estabelecimento em Bolívar no sábado (7), e isso já vira o segundo registro em granja comercial em menos de 1 mês, porque no fim de fevereiro o vírus já tinha dado as caras em Ranchos, também em Buenos Aires.
Pra evitar que o problema vire tour pela vizinhança, o Senasa acionou o plano de contingência e já desenhou o mapa da contenção. Entrou isolamento num raio de 3 km ao redor do surto e uma zona de vigilância de 7 km, com restrição de movimentação e reforço de biossegurança, aquele pacote que ninguém quer usar, mas todo mundo precisa ter pronto.
Dentro desses perímetros, as equipes vão fazer contenção, monitoramento e rastreamento epidemiológico pra checar outras unidades de produção na área e tentar achar possíveis contaminações ligadas ao foco. A missão é cortar o caminho do vírus antes que ele ganhe embalo e transforme o entorno num dominó sanitário.
PLANTÃO RURAL
Senar entra no AgNest. O Senar passou a integrar o Conselho Gestor do AgNest Farm Lab, o hub de inovação da Embrapa em Jaguariúna (SP), ao lado da Embrapa e do Banco do Brasil. A ideia é juntar ciência, capacitação e crédito no mesmo time pra acelerar tecnologia no campo e fazer startup parar de viver só de pitch.
Cotrisul bate R$ 2,19 bilhões, mas sobra encolhe. A Cotrisul faturou R$ 2,19 bilhões em 2025 e fez recorde, com 77,81% do bolo vindo da soja, mas os custos subiram 19,92% pra R$ 1,9 bilhão e apertaram o resultado. O operacional ficou pouco acima de R$ 20 milhões, e as sobras caíram pra R$ 2,1 milhões.
Frete sobe bem na hora do pico. O frete tá encarecendo no pior momento possível, com o Brent fechando a US$ 92,69 após alta de 27% em 1 semana e o escoamento da safra no talo. A ValeCard estima que, se o petróleo encostar em US$ 100, o diesel pode subir de R$ 0,40 a R$ 0,70 por litro, e a Aprosoja lembra que frete e combustível pesam 25% a 30% do custo no campo.
Aprosoja pede cabeça fria no adubo. A Aprosoja Brasil recomendou não antecipar compra de fertilizante por medo, dizendo que decisão tem que ser técnica e casada com fluxo de caixa. A entidade alertou que compra em excesso abre espaço pra oportunista e pode sair mais cara que o susto, e só faz sentido antecipar quando melhora margem ou garante disponibilidade de verdade.
Bayer quer Monsoy de volta ao topo. A Bayer tá puxando a Monsoy pro centro da estratégia pra ganhar capilaridade na soja via multiplicadores de sementes, depois de um período com menos lançamentos. A empresa diz que tá acelerando melhoramento com mais dados e promete encurtar o ciclo de desenvolvimento, com foco em variedade mais estável pra segurar o tranco em ano ruim.
Cepea vê soja do Brasil mais disputada. O Cepea avalia que a guerra no Oriente Médio pode aproximar compradores que não costumam fechar com o Brasil, e cita projeção do USDA de 61% da soja negociada no mundo vindo daqui nas próximas semanas. Com Ormuz mexendo no petróleo e no frete, produtor tá acelerando venda pra não ver a conta do transporte comer o prêmio.
Reino Unido puxa freio em suínos do Vietnã. O Reino Unido retirou produtos suínos de uma empresa vietnamita após uma investigação apontar uso de carne contaminada com peste suína africana em patê enlatado, além de outros itens com presença do vírus e casos de Salmonella. O episódio virou alerta sobre controle de importação e biossegurança.
SE DIVERTE AÍ
Hoje o desafio é o Contexto, aquele jogo em que você tenta adivinhar a palavra secreta chutando termos e vendo o quão perto tá pelo sentido, não pelas letras. Vale começar com palavras do agro tipo soja, boi, clima, crédito, fertilizante e ir afinando até chegar na resposta. Joga aí, testa seu dicionário e depois conta quantos chutes você precisou pra matar a charada.
VIVENDO E APRENDENDO
Resposta da edição passada: Seringueira
Pergunta de hoje: Qual programa criado em 1975 fez do etanol de cana um pilar da matriz energética brasileira?
A resposta você fica sabendo na próxima edição!
