APRESENTADO POR

Bom dia!

Hoje o dinheiro do agro aparece com cara de CPR, enquanto o algodão já admite que 2025/26 vem menor na lavoura e maior no estoque. No porto, o milho acelera embarque, a soja começa a rodar a colheitadeira e a carne dá uma respirada depois do sprint da 1ª semana. No café, o tarifaço de 2025 ainda deixa gosto amargo e, pra piorar a vida do picareta, a Embrapa tá testando uma tecnologia que acha terroir e pega grão batizado em segundos. Pra fechar, tem boi gordo se recuperando na B3, Ibovespa batendo recorde, China reabrindo a porta pro frango do RS e um gene da Embrapa que deixa a planta ligada no 220 sem estourar a conta de energia.

Pra você acordar bem informado

Por Enrico Romanelli

TÁ QUANTO?

COMMODITIES
Açúcar (Saca 50kg) R$103,44 -5,96%
Algodão (Centavos R$/LP) 350,13 0,43%
Arroz (Saca 50kg) R$53,27 -0,34%
Boi gordo (Arroba 15kg) R$321,00 0,56%
Café Arábica (Saca 60kg) R$2.146,33 -1,31%
Etanol anidro (Litro) R$3,4913 4,25%
Milho (Saca 60kg) R$67,46 -2,94%
Soja (Saca 60kg) R$130,95 -7,13%
Trigo (Tonelada) R$1.189,70 0,64%

Os dados são publicados por Cepea. As variações são calculadas em YTD (Year to date).

  • Boi gordo acordou e pulou a cerca. Na B3, os futuros do boi gordo subiram forte nos preços futuros, com fevereiro (BGIG26) ganhando R$ 6,70 e fechando em R$ 325,20, maio avançando R$ 6,15 e outubro indo a R$ 339,10. A leitura do mercado mistura recuperação depois das pancadas de cota e tarifa, exportação com número mais bonito na semana passada e a conta do USDA de produção menor em 2026.

  • Bolsa ignorou o mau humor lá fora e bateu recorde. O Ibovespa fechou em alta de 0,87%, com 166.276,90 pontos, e teve máxima intradia perto de 166.467, puxado por blue chips. Lá fora, Wall Street caiu com tensão de tarifas e ruído geopolítico, enquanto por aqui o mercado também segue de olho em movimentos políticos que mexem com percepção de risco, mas no pregão do dia o pessimismo ficou do lado de fora do portão.

CAMPO ATUALIZADO

Embrapa treina tecnologia pra achar terroir e desmascarar café batizado

Gif by impastortv on Giphy

Se o café brasileiro quer brilhar lá fora, ele precisa de 2 coisas além de aroma: origem comprovada e zero história mal contada. E pra ajudar nisso, a Embrapa Rondônia tá validando uma tecnologia que já roda em outras cadeias do agro, mas ainda tá chegando no café. A espectroscopia no infravermelho próximo, também chamada de NIR, é uma tecnologia que lê a química do grão e transforma isso numa impressão digital. A promessa é de ajudar com indicações geográficas e certificações, reforçar a rastreabilidade e ainda pegar adulteração em segundos, sem destruir a amostra e sem precisar de laboratório.

E no fim é mais simples do que parece. A luz bate no grão, que responde com um sinal químico, o software compara com um banco de dados cheio de referências e devolve a sentença. O estudo, feito ao longo de 5 anos no doutorado do Michel Baqueta na Unicamp em parceria com a Embrapa, juntou NIR com quimiometria, que é a parte matemática que organiza a bagunça dos dados e encontra padrão onde a gente não enxerga nada além de número. Desse jeitinho, dá pra diferenciar cafés por região e chegar no nível da área produtiva, pra identificar o terroir.

Nos testes, deu pra separar robustas amazônicos, incluindo variedades indígenas, dos conilons do Espírito Santo e da Bahia, tudo dentro do universo do canéfora, e ainda identificar adulteração com materiais como milho, soja, casca, borra e até semente de açaí, que entrou na lista como fraude emergente. Ou seja, além de dizer de onde veio, a tecnologia também te fala o que não devia tá aqui, do jeito que fiscal gosta e picareta odeia.

Além de tirar o café fake do caminho, a NIR ainda pode virar atalho pra melhoramento genético e rastreabilidade digital. A ideia é aplicar a técnica no banco de germoplasma com 1.000 acessos de café pra achar perfis químicos ligados a teor de cafeína e minerais, acelerando e facilitando a seleção e valorizando cafés de origem. A leitura é rápida, não usa reagentes, corta tempo em relação a análise tradicional que pode levar horas ou dias, e ainda tem chance de ir pro campo com equipamento portátil, o que deixa cooperativa, certificadora e fiscalização com uma lupa mais moderna, mesmo quando o orçamento tá com cara de café coado na pressa.

NAS CABEÇAS DO AGRO

IA entra na usina e faz o ATR render mais

Foto: Divulgação

Geralmente, usina de cana tá acostumada a tomar decisão com dado de laboratório que chega de 4 em 4 horas, tipo dirigir olhando só o retrovisor. Mas a Usina São Manoel, no interior de São Paulo, resolveu trocar a planilha por câmera ao vivo e colocou pra rodar o MM.IA, um sistema da consultoria piracicabana ITC que junta sensor de infravermelho próximo com Inteligência Artificial pra ler a cana na moenda em tempo real e ajustar a operação enquanto a matéria-prima ainda tá passando, não quando o estrago já virou estatística.

A sacada é que cada touceira chega com um humor diferente em termos de açúcar, fibra e água, e esses números mandam direto no ATR. Com a leitura acontecendo durante a moagem, em tempo real, o sistema aciona a calibragem automática das máquinas, que já tinham essa função, só faltava alguém avisar pra ela a hora certa de mexer. A usina descreve isso como sair de fotos do passado pra um filme rodando na hora, ao vivo, com o operador ganhando mais precisão sem ter que virar mãe Dináh.

E o melhor é que essa nerdice pinga em dinheiro. Com investimento de R$ 3,5 milhões ao longo de 5 anos, a usina começou com testes lá em 2020, escalonou em 2021 e colocou essa regulagem automática em 2022. Hoje, a São Manoel diz que ganhou 0,25% no índice de recuperação de açúcar na última temporada e colocou no caixa entre R$ 2,5 milhões e R$ 3 milhões a mais. Parece pouco, mas em moenda 0,25% é aquele tipo de detalhe que, quando você soma no volume, vira caminhão de receita.

O infravermelho próximo não é novidade no setor, tá por aí desde a década de 1990, mas o pulo do gato é a IA com ajuste fino e calibragem sob medida, porque dado impreciso atrapalha quase tanto quanto dado nenhum. No caso da São Manoel, são 2 sensores, um na entrada da cana e outro na saída do melaço, que ficam de olho em até 40 parâmetros por segundo e alimentam um modelo treinado pro jeito da usina, com histórico operacional junto no pacote.

E o plano é expandir pra fermentação e fabricação de açúcar, com mais R$ 2 milhões diluídos em 5 anos e expectativa de retorno extra de R$ 1 milhão por ano nessas 2 etapas. A cana segue a mesma, mas a usina tá claramente tentando fazer a inteligência trabalhar pra moenda parar de dar bobeira.

O AGRO EM NÚMEROS

Crédito via CPR engorda, algodão emagrece e exportações pisam no freio

Foto: Freepik

O dinheiro do campo tá cada vez mais com cara de CPR, aquele papel que virou plano B quando o banco faz cara de paisagem. Entre julho e dezembro de 2025, as CPR pra custeio da safra 2025/26 somaram R$ 121,9 bilhões, um aumento de 30% na comparação anual, segundo o Boletim de Desempenho do Crédito Rural do Mapa. A fatia no total das CPRs no crédito usado pelo produtor brasileiro deu um pulo, saindo de 34% pra 45%, mostrando que sempre tem como dar um jeitinho.

No algodão, a história tá mais pé no chão. A Abrapa tá projetando uma área 5,5% menor em 2025/26, com 2,05 milhões de hectares, e produtividade caindo 4,7% pra 1.866 kg de pluma por hectare, o que levaria o total da produção pra 3,83 milhões de toneladas, queda de 10%. Só que o guarda roupa do setor tá com gaveta cheia: o estoque inicial deve subir 65,7% e chegar a 835 mil toneladas, o que empurra a oferta total pra 4,76 milhões de toneladas, 17,6% acima da temporada passada. E, mesmo com menos pluma saindo da lavoura, a associação ainda vê exportação crescendo pra 3,2 milhões de toneladas, alta de 13%, com China, Índia, Bangladesh e Turquia querendo comprar.

Falando em exportação, o milho já abre janeiro batendo na mesa e mostrando que não tá pra brincadeira. A Anec elevou a estimativa de exportação de milho em janeiro pra 3,45 milhões de toneladas, quase 200 mil acima do número da semana anterior, e também puxou um tiquinho a projeção de soja pra 3,79 milhões de toneladas, com farelo mantido em 1,82 milhão.

Na soja, a colheita tá embalando. A AgRural apontou 2% da área colhida na safra 2025/26 até a última quinta-feira (15), 1,7% acima do mesmo período do ano passado, com Mato Grosso puxando o ritmo nas poucas brechas de sol entre as chuvas. No Paraná, o ciclo alongou com tempo mais frio e nublado, mas as produtividades iniciais tão boas e reforçam expectativa de safra grande, mesmo com Rio Grande do Sul e Matopiba precisando que fique de olho por causa de chuva irregular.

Na carne bovina, janeiro mostrou que entusiasmo também cansa. Depois de uma 1ª semana com 89 mil toneladas embarcadas de in natura, a 2ª semana caiu pra 36,95 mil toneladas, o menor volume semanal desde julho de 2025, com recuo de 50,36% na média diária em relação à semana anterior, segundo a Agrifatto. Os preços ficaram mais firmes, mas o ritmo mostrou que nem todo começo de ano mantém o mesmo fôlego depois que a empolgação passa pelo primeiro pedágio.

E o café fechou 2025 provando que o grão é ótimo, mas a política amarga. Cálculos da Bloomberg Línea com dados do Cecafé estimam um rombo de R$ 2,4 bilhões por causa das tarifas extras de até 50% entre julho e novembro, com prejú de US$ 441,6 milhões. No ano, os embarques pros EUA somaram 5,38 milhões de sacas, queda de 55% em comparação com 2024, e a recuperação não acontece de uma hora pra outra porque rolou washout, cancelamento e compra empurrada pra frente.

DE OLHO NO PORTO

China tira o frango gaúcho do castigo e o RS volta pro cardápio do maior cliente

Foto: Reuters

A China anunciou nesta terça-feira (20) o fim do embargo à carne de frango do Rio Grande do Sul, que tava valendo desde maio de 2025 e transformou o frango gaúcho em turista forçado, procurando destino alternativo no mapa. A geladeira começou por causa da Doença de Newcastle registrada em 2024 na região de Anta Gorda (RS) e ainda ficou mais tempo no freezer por causa de um caso de gripe aviária em Montenegro (RS) em 15/05 do ano passado. Agora, segundo o Mapa, as compras já tavam liberadas desde sexta-feira (16), então o setor só faltava receber o pode entrar oficial pra começar a recompor a rotina.

Pra avicultura gaúcha, isso é tipo voltar a jogar de titular depois de ficar um bom tempo afastado do time principal. A China é o principal mercado internacional do estado e a reabertura ajuda a recuperar fluxo, preço e previsibilidade, depois de meses de produção ajustada e produto sendo empurrado pra outros destinos na força do ódio. Em 2025, o estrago apareceu em câmera lenta: 686,3 mil toneladas exportadas, queda de 0,77% vs 2024, e receita de US$ 1,24 bilhão, recuo de 1,35%. Não parece ser grande coisa, mas pra produtor pequeno pode complicar muito as coisas.

E a ABPA (Associação Brasileira de Proteína Animal) saiu comemorando com carimbo e tudo. Segundo a entidade, a reabertura foi formalizada via nota da Administração Geral das Alfândegas da China (GACC), com base em análise de risco sanitário e no reconhecimento da erradicação do foco e das medidas adotadas por aqui. A associação ainda creditou o resultado à articulação técnica e diplomática do Mapa, adidos e embaixada em Pequim. Tudo resolvido proseando.

MENTES QUE GERMINAM

Embrapa descobre gene que deixa a planta ligada no 220 e ainda economiza bateria

Foto: Marcos Esteves/Cultivar

A Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia (DF), junto com parceiros do Brasil e de fora, identificou genes de espécies silvestres de amendoim capazes de turbinar a tolerância de plantas cultivadas a estresses que vivem andando em bando: seca, nematoides e doenças fúngicas. A ideia é ajudar no melhoramento genético de culturas como amendoim, soja, tomate e algodão, usando uma resiliência que a domesticação foi deixando pelo caminho.

O astro do estudo é o gene AdEXLB8, isolado da espécie silvestre Arachis duranensis, um tataravô do amendoim cultivado. Ele não faz mágica, nem vira um escudo anti-praga, mas ativa um esquema chamado priming de defesa, uma memória molecular que deixa a planta em alerta, pronta pra reagir mais rápido quando o estresse bate na porteira. A pesquisadora Ana Brasileiro resumiu com a metáfora perfeita: é como manter a adrenalina pronta pra agir, sem gastar energia à toa.

Nos testes, plantas transgênicas de tabaco, soja e amendoim aguentaram melhor a seca, sofreram menos com nematoides das galhas (Meloidogyne spp.) e ficaram mais resistentes a fungos como Sclerotinia sclerotiorum. Em alguns casos, a infecção por nematoides caiu até 60%, e o detalhe que faz diferença no mundo real é que isso rolou sem bater na produtividade nem na qualidade.

O caminho até essa descoberta também é um tapa de luva em quem acha que banco de germoplasma é bobagem ou só um museu. O gene foi encontrado em uma espécie coletada lá em 1953 e guardada no Banco Ativo de Germoplasma da Embrapa, em Brasília, num programa que conserva um dos maiores acervos do mundo pro gênero Arachis. E o estudo ainda mostra que a biotecnologia ajudou a contornar um problema clássico do melhoramento com silvestres: trazer traço ruim junto no pacote do gene bom.

Agora o projeto segue pra etapa de sair do papel, do estudo, e virar solução de verdade pra cadeia produtiva. A tecnologia associada ao AdEXLB8 tá em processo de patenteamento e a pesquisa avança pra outras culturas estratégicas, com potencial de reduzir dependência de defensivos e aumentar a resiliência do sistema produtivo.

PLANTÃO RURAL

  • Internet no campo segue falhando. Um levantamento do BB com produtores registrados na plataforma Broto mostrou que só 25,3% das propriedades têm conexão boa em toda a sua extensão. Em 74,7% falta cobertura integral, sendo 59,6% com sinal só na sede e 15,1% no escuro total. Fibra (23,7%) e satélite (23,3%) lideram, 5G aparece em só 9,1%, e quase metade descreve a conexão como lenta ou instável, com 87% dizendo que já perdeu negócio, produtividade ou eficiência por causa disso.

  • Governo fala em banir “ultra perigosos”. Paulo Teixeira (PT-SP), do MDA, disse que o governo deve anunciar em breve medidas do Pronara, incluindo banimento de alguns defensivos classificados como ultra perigosos quando houver similares em bioinsumos.

  • Paraná aperta o cerco na brucelose e tuberculose. A Adapar publicou uma nova portaria dizendo que propriedades com casos confirmados dessas doenças não podem movimentar bovinos e bubalinos, exceto pra abate imediato, até concluir todo o saneamento. A lógica é evitar espalhar doença da forma mais simples possível, e o estado ainda fala em reforçar rastreabilidade com identificação individual.

  • Biodiesel virou briga. A Frente Parlamentar do Biodiesel e entidades do setor dizem que não faz sentido liberar importação de biodiesel com a ociosidade perto de 50% na capacidade instalada e risco de desregular o mercado interno e desestimular novos investimentos. Do outro lado, entidades de óleo e gás defendem importar pra aumentar alternativas, reduzir volatilidade e mitigar riscos de sazonalidade, paradas e gargalos logísticos.

SE DIVERTE AÍ

Hoje a brincadeira é com o Tradle, o joguinho estilo wordle da balança comercial. Você recebe a lista dos principais produtos que um país exporta e tem que adivinhar quem é o dono dessa pauta. Vale ler com olhar de agro nerd mesmo: reparou muito grão, carne e minério, já pode chutar Brasil ou vizinho forte no campo. Se pintou muito eletrônico, máquina e química, talvez seja alguém lá da Europa ou da Ásia. Bora testar se você tá afiado pra bater o olho na lista de exportações e adivinhar o país antes do sexto palpite.

VIVENDO E APRENDENDO

Resposta da edição passada: Taro

Pergunta de hoje: Qual fruta africana, usada para fazer farinha e cerveja artesanal, é chamada de “árvore da vida”?

A resposta você fica sabendo na próxima edição!

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