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Bom dia!
Sexta de fim de mês é quando as faturas chegam todas juntas, e as de hoje vêm assinadas pelo outro lado do balcão. A Raízen manda a dela logo depois da assembleia, pondo à venda o pedaço do negócio que mais dá dinheiro. O seguro rural recebe uma com letra miúda. A FMC reenvia a fatura refeita, com desconto só no defensivo que já saiu da loja. E a que abre a edição é a da Bunge, que quase dobrou o lucro esmagando menos soja. Descendo a tela tem mais.
Pra você saber qual fatura é sua e qual é do vizinho.
Por Luciana Stival
TÁ QUANTO?
Os dados são publicados por BCB e Brapi.
As variações são calculadas em % diária e %YTD (Year to date)
O IGP-M de outubro subiu menos que o de setembro, e a FGV atribui a folga do atacado à desaceleração dos produtos agropecuários, com milho e soja entre os principais responsáveis. Para os próximos meses, a FGV espera volatilidade nos preços dos alimentos in natura.
NAS CABEÇAS DO AGRO
A Bunge ganhou mais na soja esmagando 3% menos grão

Fonte: Giphy
A manchete está boa de ler: a Bunge quase dobrou o lucro no trimestre, US$ 318 milhões contra US$ 166 milhões um ano antes, puxada pelo processamento de soja. Mas antes de levar esse número para a sua conta, vale olhar a balança de onde ele saiu, porque dobrar fica fácil quando a foto do ano passado era de um boi magro.
Na pesagem limpa, sem ganhos e encargos pontuais e sem a marcação a mercado, o lucro da empresa inteira subiu 10,2%, para US$ 496 milhões. É alta de dois dígitos de verdade, só que de um décimo, não do dobro. E a parte que fala direto com quem vende grão é esta: a Bunge esmagou 3,2% menos soja, 11,7 milhões de toneladas, e mesmo assim foi o processamento de soja que puxou o resultado, com o ganho ajustado do segmento crescendo mais que o da empresa. Conclusão: a Bunge engordou sem pôr mais soja no cocho.
De onde veio esse ganho? A América do Norte foi o motor; Brasil e Argentina melhoraram no processamento, e a Bunge não abre quanto o Brasil pesou nisso. O que ela abre é a letra miúda: para o ano, já prevê em processamento e refino de soja um resultado ligeiramente abaixo do que projetava antes.
O AGRO EM NÚMEROS
Com o juro alto, o Brasil vendeu 38% menos colheitadeiras, estima a AGCO

Fonte: Giphy
Aquela troca de colheitadeira que ficou para o ano que vem virou estatística no balanço da AGCO, e a explicação é a mesma que você daria no balcão da concessionária: trator se vende como se vende crédito, e o cliente olha a parcela, não a máquina. A AGCO, dona de Massey Ferguson, Fendt e Valtra, escreveu isso no balanço com as palavras dela: juros elevados, restrição de crédito e menor rentabilidade agrícola seguraram o investimento do produtor, e a incerteza econômica e política ajudou a adiar a compra.
O tamanho do freio: pela estimativa da própria AGCO, o Brasil vendeu 17% menos tratores e 38% menos colheitadeiras ao consumidor final em nove meses, e a queda veio principalmente das máquinas de maior porte. No mundo, a AGCO respondeu cortando 19% das horas de produção no trimestre e prevê continuar esvaziando o estoque das concessionárias.
E não é só uma marca falando. Pela Abimaq, a receita da indústria de máquinas agrícolas caiu 21,6% no ano, e a associação dá a mesma causa, a baixa rentabilidade de soja, milho e cana. Ela diz que o fundo do poço passou e projeta 2027 sem queda ou até uma leve melhora, sem recuperação forte por causa do endividamento rural.
Sobre o "lucro 83% menor" que você pode ver nas manchetes, cuidado com o retrovisor: a base de 2025 tinha o ganho da venda da fatia na indiana TAFE, e no ajustado o lucro por ação foi de US$ 1,35 para US$ 1,05. É comparar a máquina deste ano com o cheque extra do ano passado.
A CONTA DA LAVOURA
A FMC refaz o preço do defensivo que já vendeu ao distribuidor

Fonte: Globo Rural
Três notícias do mesmo dia contam a mesma história de três cadeiras diferentes, e a quarta cadeira é a sua. A primeira é a da FMC, que fechou o 3º trimestre com prejuízo de US$ 2,07 bilhões, contra US$ 569,9 milhões um ano antes. Antes de assustar, repare que o grosso desse rombo é contábil, de ativo fiscal diferido e de intangível, e não passa pelo caixa.
O que vai faltar no caixa, mais adiante, está em outra linha: cerca de US$ 175 milhões de ajuste no preço de produto que já está parado no distribuidor do Brasil, da Argentina, dos EUA e do Canadá, sem mudar o preço de venda de hoje. É baixar o nível do açude que encheu de produto caro, sem mexer na torneira de quem compra agora. E a FMC conta no documento à SEC de onde veio o aperto: o canal, em mercados-chave, cortou forte os pedidos de reposição nas últimas semanas do trimestre, e o volume caiu 21%.
A segunda cadeira é a da Adama, que viu o mesmo açude pelo lado do Brasil: prejuízo de US$ 115 milhões no trimestre e vendas em queda aqui, mesmo com mais ação comercial antes da safra de soja, por pressão de preço, produtor sem liquidez e concorrência pesada no defensivo vendido como commodity.
A terceira cadeira é a da semente, e ela mostra a nascente desse açude, que é o caixa do produtor. A CropLife calcula que a soja plantada com semente não certificada triplicou em quatro safras, para 9,6 milhões de hectares, 20% da área, entre semente salva e pirata, e a Apassul diz que as sementeiras gaúchas vendem mais, mas com margem praticamente zerada. A Aprosoja dá um dos motivos: a troca que era de 2,5 quilos de soja por quilo de semente passou a 6 ou 7 quilos, por causa do royalty de biotecnologia. Quem não tem caixa para a torneira do insumo planta com a água da própria cisterna.
E a sua cadeira? Se a ideia é salvar semente, a matéria traz os dois lados na mesa: um produtor de Mato Grosso diz que a prática corta o custo de produção em torno de 30%, e a CropLife avisa que semente sem origem, se não germinar, não tem a quem recorrer.
QUEM COMPROU E QUEM SÓ OLHOU
Aurora compra ativos do complexo de pescados da Mar & Terra em MS

Fonte: Giphy
Quem cria peixe em Mato Grosso do Sul acordou com um vizinho de tanque de outro porte, uma cooperativa de frango e suíno. A Aurora, central de Chapecó, formalizou a compra de ativos isolados do complexo de pescados da Mar & Terra, da Bello Alimentos, em Itaporã, com a indústria, a fábrica de rações e as fazendas de produção própria.
Por que isso interessa a quem não é da Aurora? Porque muda quem é quem na cadeia. Até aqui a cooperativa comprava e distribuía pescado processado por terceiros, sobretudo a C.Vale; com a planta, passa a controlar abate, processamento e parte da origem. Deixou de ser freguesa para ser dona do viveiro. É o passo que faltava ao plano de julho, quando ela anunciou a entrada definitiva na piscicultura dentro de um ciclo de investimentos acima de R$ 1,1 bilhão, para garantir abastecimento e abrir renda ao associado que não trabalha com ave nem suíno.
O tamanho da compra: o frigorífico de Itaporã tem capacidade para 60 toneladas de peixe por dia e certificação FDA e BAP, as credenciais do mercado americano. Na rede da Aurora, porém, o pescado ainda é peixe pequeno: R$ 270 milhões das vendas no mercado interno em 2025.
Ninguém precisa mexer em contrato esta semana: valor, perímetro e prazo não foram divulgados, a conclusão depende do Cade, e até lá as duas seguem operando de forma independente.
A CONTA CHEGOU
Amaggi usa caixa para recomprar US$ 257 milhões da dívida de 2028

Fonte: Giphy
Dívida de trading parece assunto de banco, até você lembrar que é essa trading que paga o seu grão. Desde julho, quando a Fitch rebaixou a nota da Amaggi por causa da alavancagem da compra da fatia na FS, o balanço dela virou leitura de quem vende para ela. Na terça, a resposta veio em dinheiro: a trading recomprou US$ 257,4 milhões do título sustentável que vence em janeiro de 2028, pagando com caixa próprio.
Como funciona isso? A empresa oferece ao investidor comprar de volta o papel antes do vencimento, em dinheiro. A Amaggi pagou US$ 990 por cada US$ 1.000 de face do papel emitido em 2021 e deixou US$ 397,9 milhões em aberto. A oferta buscava até US$ 300 milhões e fechou em 85,8% da meta: a Amaggi quis comprar mais tijolo do que o mercado quis vender.
E o que isso muda no muro? A operação tira cerca de um quinto do vencimento de 2028, o ano em que vencem US$ 1,3 bilhão no cronograma que a Fitch divulgou. Quem chamou a adesão de bem-sucedida e ligou a decisão ao acúmulo de caixa foi uma fonte próxima da empresa; a Amaggi não comentou. E a Fitch segue projetando alavancagem alta para a empresa até 2028.
COLHENDO CAPITAL
O governo projeta R$ 142 bi em biocombustíveis até 2036

Fonte: Globo Rural
Planta de casa não paga pedreiro, mas diz onde vai ficar a cozinha. A que o governo acaba de pendurar na parede é o Plano Decenal de Expansão de Energia, o PDE 2036, da EPE com o MME, que prevê R$ 142 bilhões em investimentos em biocombustíveis entre 2027 e 2036.
Onde fica cada cômodo? O maior é o de SAF e diesel verde, R$ 39 bilhões em cinco indústrias já em construção e um projeto, pelo quadro do próprio plano; depois vêm o biometano, com R$ 31,1 bilhões, e o etanol de milho, com R$ 25,3 bilhões e 21 usinas novas. A cana entra com R$ 24,1 bilhões só em formação de canavial para etanol, e a soja, pelo biodiesel: R$ 9,9 bilhões, nove usinas novas e dez esmagadoras. Para quem planta milho, cana ou soja, isso é demanda futura desenhada em papel. Pela conta do plano, a oferta de etanol cresce 2,5% ao ano e vai de 41,6 para 53,1 bilhões de litros; a demanda, de 50,7 bilhões, já conta com a mistura de 30% de anidro na gasolina.
Agora a parte que segura a empolgação: planta não é obra. O PDE é indicativo, a conta dos R$ 142 bilhões deixa de fora distribuição, comercialização e custo de operação, e o plano está em consulta pública até 6 de novembro.
PLANTÃO RURAL
A Pilgrim's lucrou 65,7% menos no trimestre: com frango sobrando nos EUA, onde a oferta ficou 2,2% maior que a do ano anterior e acima da demanda, segundo o USDA, e a margem Ebitda ajustada caiu de 13,3% para 6,8%.
A Suzano sobe a celulose em US$ 50 a partir de novembro: o reajuste vale na Europa e na América do Norte, e a lista europeia vai a US$ 1.410 a tonelada, depois de já ter subido US$ 20 na Ásia e US$ 50 nas Américas em outubro.
Uma usina pagou insumo da Syngenta com CBio: a Usina Santa Terezinha, do Paraná, entregou créditos de descarbonização equivalentes a R$ 370 mil por químicos e biológicos, a primeira negociação assim da Syngenta na cana.
O macho abriu a maior vantagem sobre a fêmea para outubro desde 2022: o Cepea mede R$ 33,98 por arroba de diferença em São Paulo até o dia 27, por oferta mais restrita de macho pronto desde o começo do ano.
A verba blindada do seguro rural depende de lei nova: o Planejamento quer cobrir a conta de 2027 com um projeto de lei complementar ainda não enviado, não com a MP prometida no Senado em setembro, sem avisar os parlamentares nem o Ministério da Agricultura.
A Raízen vai pôr à venda parte da distribuição, diz a Bloomberg: a fatia mais lucrativa da empresa; o anúncio deve sair hoje, depois da assembleia de acionistas, com a venda só após a conversão de dívida em 80% da empresa e a Shell com menos de 20%.
O México libera a carne de aves que já estava no navio: fontes de mercado dizem à Globo Rural que vale para cargas de fora de Santa Catarina embarcadas até 19 de outubro, até 20 mil toneladas pelos rumores, sem reduzir a restrição ao Brasil inteiro.
A inadimplência rural da pessoa física teve a maior queda da série: a taxa caiu de 9,7% para 8,7% em setembro, na série do BC iniciada em 2011; o banco diz que as renegociações podem ter contribuído, e a parcela a juros de mercado ainda está em 15,8%.
DIVIRTA-SE
No Kyudoku você tem um desafio. A ideia é riscar os repetidos e ficar com nove, de 1 a 9, sem que nenhuma linha ou coluna passe de 9 na soma. Um toque risca o número, e na hora a grade fica mais enxuta. Comece pelo número que só aparece uma vez: ele tem que ficar. Vai lá.
VIVENDO E APRENDENDO
Resposta da edição passada: a torta de filtro é o resíduo que sobra quando a usina filtra o lodo do caldo da cana, rico em matéria orgânica e fósforo, e que volta ao canavial como adubo.
Pergunta de hoje: o que é a semente salva?
A resposta você confere na próxima edição!

