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Bom dia!
A edição de hoje tá com cara de planilha que dá susto. O crédito rural segue em modo tensão até depois de maio, com renegociação podendo virar bola de neve e a carteira estressada crescendo rápido. Ao mesmo tempo, a novela da soja ganhou capítulo ambiental, com pressão em cima de quem largou a Moratória e risco de barulho lá fora. No campo, São Paulo reforça a tropa contra o greening, o arroz sente queda na cotação e crédito caro, o milho enche porão e o açúcar vende, mas com a ressaca do preço. E ainda tem Fiagros e mercado de capitais tentando voltar pro jogo e uma cadeia que vai “do farelo ao adubo” mostrando que regenerativo, às vezes, pode ser mais contrato do que discurso.
Pra você acordar bem informado
Por Enrico Romanelli
TÁ QUANTO?
Os dados são publicados por Cepea. As variações são calculadas em YTD (Year to date).
SAFRA DE CIFRAS
Crédito no osso até maio

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O crédito rural começou 2026 com cara de segunda-feira chuvosa e sem café. A Farsul tá dizendo que o estresse financeiro do agro deve continuar piorando pelo menos até a metade de 2026, porque 2025 deixou um baita rastro de inadimplência e a taxa de juros continua alta o bastante pra transformar custeio em causo. Na leitura da entidade, o 1º semestre ainda tende a piorar, com alguma chance de estabilizar só depois de maio, se o lado fiscal parar de tropeçar e não pintar mais susto na economia.
O que complica é que muita renegociação vem rolando com recursos livres, com carência e parcelamento, mas em ambiente de juros elevados isso pode virar esteira de academia: você corre, corre e o saldo devedor fica lá, só que mais resistente. A nota técnica fala que a Selic só deve bater 12% no fim de 2026 e alerta pro risco de efeito bola de neve, porque refinanciar a juros de mercado pode aliviar hoje e apertar amanhã, principalmente pra quem já tá no limite do fôlego.
E os números mostram que não é drama, é planilha. A carteira estressada do crédito rural, que junta atrasos, prorrogações, renegociações e inadimplência, saiu de R$ 72,2 bilhões em julho de 2024 pra R$ 123,6 bilhões em novembro de 2025, o que dá perto de 15% de todo o crédito ativo do agro com algum aperto. A Farsul diz que as medidas atuais não resolveram e cobra uma saída mais estrutural, citando o PL 5.122/2023, que permitiria usar até R$ 30 bilhões do Fundo Social do Pré-Sal pra renegociar dívidas com juros mais baixos. Falta esperar o PL tramitar e ver se vai ser aprovado. Mas mesmo assim, parece só remendo em barco furado.
RADAR SANITÁRIO
Caça ao greening reforçada

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O greening tá fazendo hora extra no cinturão citrícola de São Paulo: a incidência subiu de 44,35% em 2024 pra 47,63% em 2025, com aumento também na severidade média das plantas afetadas, segundo o Fundecitrus. Pra não deixar o psílideo virar síndico do pomar, o governo paulista abriu o Edital Público SAA nº 03/2025 pra contratar 28 novos profissionais que vão atuar junto da Defesa Agropecuária, com investimento anual estimado em R$ 3,6 milhões.
A contratação vai rolar via termo de colaboração com uma Organização da Sociedade Civil, com validade de 1 ano e possibilidade de prorrogação. Na prática, os reforços vão ser divididos em 6 times, cada uma com 4 inspetores de pragas, 2 engenheiros agrônomos e 2 pessoas na parte administrativa, com atuação em regiões que ainda vão ser definidas pra regionalizar as ações conforme a incidência da doença. As OSCs interessadas podem mandar proposta até 26 de janeiro de 2026.
No pacote de combate, a legislação já prevê medidas duras contra o HLB, incluindo a proibição do comércio ambulante de mudas cítricas, que é convite aberto pra contaminação. Em 2025, a Defesa Sanitária Vegetal fiscalizou 17.549 propriedades e tirou 60.316 mudas de circulação. E no meio do susto tem um alívio: o Fundecitrus diz que, pelo 2º ano seguido, a taxa de crescimento da doença diminuiu, com queda forte da incidência em pomares mais jovens, indicando que erradicação de plantas doentes e manejo preventivo tão começando a render mais do que promessa de ano novo.
O AGRO EM NÚMEROS
Superávit no pódio, açúcar na ressaca e EUA cobrando demais

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O Brasil fechou 2025 com um superávit comercial de US$ 68,293 bilhões. Caiu 7,9% contra 2024, mas ainda ficou entre os maiores da série, aquele bronze que dá pra postar sem passar vergonha. No total, as exportações somaram US$ 348,676 bilhões com alta de 3,5%, as importações foram a US$ 280,383 bilhões e cresceram 6,7%. Pra 2026, a Secex tá mirando superávit entre US$ 70 bilhões e US$ 90 bilhões, ou seja, o país quer seguir vendendo muito e reclamando do frete com convicção.
Dentro desse bolo, o agro apareceu com fôlego e faturou US$ 77,6 bilhões em 2025, alta de 7,1%. O café verde acelerou forte e chegou a US$ 14,8 bilhões depois de crescer 31,1%, enquanto a soja seguiu mandando na banca com US$ 43,5 bilhões e alta de 1,4%, o que dá 12,5% de tudo que o Brasil exportou no ano. Já o algodão tropeçou um pouco e fechou em US$ 4,9 bilhões, com queda de 4,39%, e a pauta ainda ganhou tempero com especiarias subindo 67,59% pra US$ 623,6 milhões e animais vivos batendo US$ 1,1 bilhão com alta de 24,06%.
Só que nem todo mundo celebrou com taça cheia. O açúcar exportou um pouco mais em dezembro e foi a 2,91 milhões de toneladas, acima das 2,83 milhões de toneladas de dezembro do ano anterior, mas o preço médio da tonelada despencou 21,6% e foi de US$ 478 pra US$ 374,60. Resultado: o faturamento médio diário levou um banho de água fria e recuou 19,4%, aquela clássica história de vender muito mas ganhando pouco.
E a relação com os EUA também veio com aquela taxa extra no final da conta. As exportações brasileiras pra lá caíram 6,6% em 2025 e ficaram em US$ 37,716 bilhões, enquanto as importações subiram 11,3% e chegaram a US$ 45,246 bilhões, gerando déficit de US$ 7,530 bilhões. A culpa disso tudo aí é o tarifaço, mas ainda bem que já acabou esse surto.
PAUTA VERDE
Sorgo ganhou carona no etanol

Foto: Flávio Dessaune Tardin / Embrapa
O sorgo passou anos naquele papel ingrato de cultura alternativa e de rotação que todo mundo elogia, mas ninguém compra. Só que o jogo tá virando no oeste da Bahia: o produtor Augusto José Montani planta sorgo em São Desidério (BA) há 8 anos e sempre penou pra escoar, até aparecer a Inpasa querendo levar tudo. A empresa quer o grão pra abastecer a nova usina de etanol à base de cereais no oeste baiano, e aí o sorgo finalmente vai deixar de ser coadjuvante encostado e vai virar contrato assinado.
Com usina chegando e demanda batendo na porteira, o Matopiba tá vendo o sorgo ganhar espaço como plano B do milho na fabricação de etanol e de DDG, com rendimento igual ao do milho nessa linha, segundo a Embrapa. Nos Estados Unidos, ele já faz esse papel faz tempo, aqui a diferença é que faltava comprador pra cultura parar de viver de boa intenção. A Conab já sente o cheiro: a área de sorgo no Brasil deve subir 10% na safra 2025/26, indo pra 1,796 milhão de hectares, depois de crescer 12% em 2024/25. Nas próximas 2 safras, o ganho deve passar de 300 mil hectares, puxado pelo Centro-Oeste, onde as usinas de etanol de milho já tão a milhão, seguido do Sudeste e do Nordeste.
E o produtor não tá flertando com o sorgo só por romance industrial, tá indo pelo bolso mesmo. Montani põe na conta que produzir sorgo em sequeiro custa em torno de R$ 3.000 por hectare, e irrigado passa um pouco de R$ 3.500, enquanto o milho tá na faixa de R$ 7.000 a R$ 8.000 por hectare. Com produtividade entre 100 sacas e 120 sacas por hectare, ele fala em receita de até R$ 6.000 por hectare e margem perto de 40%, contra 20% no milho na última safra. Pra completar o pacote, o sorgo aguenta mais a bronca, pede menos água e sofre menos com lagarta.
NAS CABEÇAS DO AGRO
Tamo junto, meu parça

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A Mantiqueira e a Bunge resolveram transformar sustentabilidade em contrato assinado e parceria. As 2 gigantes anunciaram uma parceria pra empurrar a tal da agricultura regenerativa pra fora do post bonitinho, levando essa treta pro chão da lavoura mesmo. Nesse casamento, a Bunge vai fornecer 12 mil toneladas de farelo de soja 100% rastreável pra ração das aves da Mantiqueira, com aquela promessa de uma cadeia mais limpa e controle do começo ao fim.
Do outro lado da troca, a Mantiqueira entra com o que ela tem de sobra e que, bem trabalhado, vira ouro: fertilizante orgânico feito com esterco de galinha poedeira. Já foram aplicadas cerca de 100 toneladas desse adubo em áreas de teste da Bunge, numa lógica bem agro raiz de economia circular: o que sai do galinheiro volta pra roça e ajuda a fechar a conta da produção com menos desperdício e mais solo vivo.
Na soma, a Bunge diz que seu programa de agricultura regenerativa já cobre 345 mil hectares no Brasil, e a Mantiqueira afirma que comercializa mais de 100 mil toneladas por ano de adubo orgânico à base de esterco. Traduzindo: tem escala, tem volume e tem cheiro de negócio que dá pra crescer.
O AGRO EM MAIS NÚMEROS AINDA
Milho bombando, arroz devagarinho e carne olhando pra fora

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O plantio da soja tá voando e já foi pra 98,2% da área projetada no Brasil, acima da média de 5 anos que fica em 97,6%. Tem estado que já cravou 100% e foi tomar um cafézinho pra esperar os colegas, enquanto SC e RS seguem em 96% e o PI ainda tá em 66%, porque cada região tem seu relógio e o clima adora mandar no cronograma. No Paraná, o Deral aponta 89% das lavouras em boas condições, 10% regulares e 1% ruim, com área de 5,778 milhões de hectares e projeção de 21,962 milhões de toneladas, cerca de 4% acima da safra passada, com produtividade estimada em 3.802 kg/ha.
No milho, dezembro foi de embarque grande e planilha feliz. A gente exportou 6,1 milhões de toneladas no mês, alta de 43,64% sobre dezembro do ano anterior, com receita acumulada de US$ 1,333 bilhão e preço médio subindo 1,7% e estacionanendo em US$ 217,7 por tonelada.
Já o arroz tá vivendo o lado mais amargo do cardápio. O Cepea aponta que a mistura de preço baixo em 2025, estoques grandes e restrição ao crédito devem derrubar a produção em 2025/26, e o termômetro do RS mostra isso sem dó: o arroz em casca caiu 47% no ano e saiu de R$ 99,72 pra R$ 53,06 por saca de 50 kg. A Conab estima produção brasileira em 11,17 milhões de toneladas com queda de 12,4% em comparação com a safra anterior.
Na proteína, 2025 foi aquele ano de recorde com a carne bovina in natura exportando 3,1 milhões de toneladas e faturando US$ 16,6 bilhões, com alta de 21,4% em volume e 42,5% em receita. A China levou 1,64 milhão de toneladas e ficou com 45,4% do total, os EUA compraram 271,79 mil toneladas e o México virou assunto ao importar 118 mil toneladas depois de crescer 156,15%. Só que 2026 começa com a pulga atrás da orelha, porque o Itaú BBA estima que as cotas chinesas podem reduzir a produção brasileira em 2%, algo perto de 200 mil toneladas, então diversificar destino deixa de ser papo bonito e vira plano de sobrevivência.
E o frango fechou 2025 com recorde de mais de 5,3 milhões de toneladas exportadas, alta de 0,6%, mesmo depois do caso de gripe aviária em granja comercial em maio. Só que a receita recuou 1,4% e ficou em US$ 9,79 bilhões, porque nem sempre volume resolve quando o preço decide fazer cara de paisagem. Ainda assim, o setor tá vendendo essa história como “resiliência”, e convenhamos: depois de sobreviver a embargo, qualquer contêiner liberado já parece vitória.
PLANTÃO RURAL
Trigo em baixa. O Cepea diz que a forte queda nos preços do trigo em 2025 deve seguir tirando a vontade do produtor de plantar trigo em 2026. No Paraná, o trigo pão caiu 16% e no Rio Grande do Sul o trigo brando recuou 18%. Com esse cenário, tem muita gente que vai é abandonar a cultura.
Mighty Earth mira as tradings. A ONG ambientalista Mighty Earth pediu que empresas de alimentos cortem compras de soja das tradings que abandonaram a Moratória da Soja, depois que a Abiove anunciou saída do acordo. A Moratória proíbe a compra de soja de áreas desmatadas na Amazônia após julho de 2008, mesmo quando o desmate é legal.
Mercosul UE segue em “bem encaminhado”. O vice-presidente Geraldo Alckmin disse que o Brasil mantém otimismo com o acordo Mercosul-União Europeia e reforçou o peso estratégico do tratado num mundo mais protecionista. A assinatura, que era esperada pra dezembro, ficou pra janeiro por falta de consenso na Europa, com resistência puxada por agricultores franceses e uma ala conservadora italiana.
Fiagros e crédito privado voltam pro jogo. Depois do tombo de 2024, o mercado projeta mais Fiagros e emissões em 2026, depois de um 2025 marcando uma reorganização do apetite e da precificação de risco. As emissões de CRA somaram R$ 52,1 bilhões até novembro de 2025 e o estoque de instrumentos privados do agro chegou a R$ 1,41 trilhão. A aposta pra 2026 é continuidade da normalização, separando melhor crédito high grade de casos estressados, com Selic e debate regulatório no radar.
SE DIVERTE AÍ
Hoje a brincadeira é com o Tradle, o joguinho estilo wordle da balança comercial. Você recebe a lista dos principais produtos que um país exporta e tem que adivinhar quem é o dono dessa pauta. Vale ler com olhar de agro nerd mesmo: reparou muito grão, carne e minério, já pode chutar Brasil ou vizinho forte no campo. Se pintou muito eletrônico, máquina e química, talvez seja alguém lá da Europa ou da Ásia. Bora testar se você tá afiado pra bater o olho na lista de exportações e adivinhar o país antes do sexto palpite.
VIVENDO E APRENDENDO
Resposta da edição passada: Inhame
Pergunta de hoje: Qual fruta do Mediterrâneo foi símbolo de fertilidade na Grécia Antiga e é consumida até hoje in natura ou em sucos?
A resposta você fica sabendo na próxima edição!

