APRESENTADO POR

Bom domingo!

Hoje a gente desacelera e olha pro agro que não cabe na correria da semana. Tem o documentário que ganhou Cannes e fugiu da pergunta mais difícil do setor, o colono que podia vender pro Brasil inteiro e preferiu a feira, o que fazer desde agora pra o El Niño não escolher a sua lavoura, a distância entre o campeão da soja e a média do país, as sacas que somem antes de a semente germinar, e o mapa das 30 vozes que mandam no agro digital. Ainda tem 5 indicações pra curtir com calma, um passatempo e a agenda dos eventos.

Pega o café sem pressa, desce o dedo e vem comigo.

Por Luciana Stival

RURALIDADES

  • 1883 (série, Paramount+): a origem de Yellowstone, com a família Dutton atravessando as Grandes Planícies atrás de pasto. É a conta real do que custava mover gado antes da cerca e do caminhão.

  • O Menino e o Mundo (animação, Alê Abreu): indicado ao Oscar, conta sem uma linha de diálogo o menino que sai do sítio atrás do pai e esbarra no algodão, na fábrica e no porto. O êxodo rural explicado em cor.

  • Ilha das Flores (curta, 13 min): Jorge Furtado segue um tomate do plantio até o lixão e desmonta a cadeia inteira do alimento no caminho. Eleito pela crítica europeia um dos curtas mais importantes do século, e cabe num intervalo de café.

  • Armas, germes e aço (livro, Jared Diamond): o Pulitzer que responde por que alguns povos domesticaram planta e bicho antes dos outros, e como isso decidiu o mapa do mundo. Agro como motor da história, não como apêndice dela.

  • Café Orfeu (produto): o café brasileiro mais premiado do mundo, tocado da semente à xícara em Minas. Prova de que dá pra sair da commodity sem sair da lavoura.

PAUTA VERDE

O agro regenerativo ganhou Cannes e escapou da pergunta difícil

Fonte: Giphy

Todo setor merece um filme bonito sobre si mesmo, e o agro ganhou três:

  • Kiss the Ground, de 2020, apresentou a tese ao grande público, com o solo vivo puxando carbono da atmosfera como a peça que faltava no quebra-cabeça do clima;

  • Common Ground, de 2023, desceu do solo para as pessoas e foi atrás de produtores americanos que quebraram ou adoeceram dentro do sistema convencional;

  • Groundswell agora fecha a trilogia rodando cinco continentes, com narração de Woody Harrelson e Demi Moore, e vem terminar no Cerrado.

Os três estão no Prime Video, e o terceiro foi premiado em Cannes neste ano. Saiu de lá com uma campanha para levar a prática regenerativa a 404 milhões de hectares, perto de 10% da terra agrícola do planeta. Ambição do tamanho da tela.

Mas o problema não é o que o filme mostra, é a conta que ele não faz. No telão, transição regenerativa é lavoura bonita e solo fofo. No talhão, é semente de cobertura comprada que não vira saca, máquina diferente para o manejo novo e produtividade menor nos primeiros anos. O retorno chega, mas chega depois, e ninguém no roteiro respondeu a pergunta de quem banca o intervalo.

Desde 2003 a Nespresso roda um programa que paga ao produtor acima da cotação de mercado quando o lote cumpre os critérios de qualidade e de manejo. A empresa diz já tirar 95% do café brasileiro dela de área regenerativa. Já a soja, milho, cana e boi são vendidos por especificação, não por história, e ninguém paga a mais num contrato porque a lavoura tem palhada. E é exatamente aí, na commodity, que está a área que o filme quer converter.

A pujança da soja ainda aparece como vilã da história, sem que ninguém responda quem alimenta os 10 bilhões de pessoas que o planeta deve ter até 2086. Mas nada disso derruba a parte boa da trilogia, porque solo coberto infiltra mais água, segura melhor o tranco da seca e alivia o custo de insumo com o tempo.

E aí vem a pergunta que ficou fora do roteiro: de qual bolso ela deveria sair, do consumidor, da trading, do banco ou do produtor?

RETRATO DO CAMPO

Ele podia vender pro Brasil inteiro, mas escolheu a feira

Fonte: Forbes

Tem um movimento crescendo no agro e pouca gente botou nome nele. O pequeno produtor cansou de brigar por espaço na gôndola e foi buscar o dinheiro onde ele ainda está inteiro, na mão de quem come. Em São Paulo, os registros de queijaria artesanal quadruplicaram em três anos, o setor já movimenta R$ 235 milhões por ano, e o governo do estado saiu desenhando rota turística pra ligar uma queijaria na outra. Até o Senar entrou na dança, com um programa de sete meses que ensina a montar a banca, abordar cliente e fechar preço. Porque boa parte da turma chegava sabendo produzir e não sabendo vender.

No Sítio Esperança, a tuberculose bovina levou a maior parte do rebanho leiteiro, a propriedade ficou um ano interditada e a renda virou zero. Laércio Lerin e Sandra Piovesan sentaram perto do fogão num dia de chuva e decidiram parar. A decisão durou duas horas. Financiaram novilhas e, em vez de voltar a vender leite, montaram a queijaria. A Sandra se formou veterinária no meio do aperto e tocou a papelada até o sítio virar a primeira agroindústria da agricultura familiar gaúcha com SIF, o carimbo que libera vender de Roraima ao Chuí. E aí, com o Brasil na mão, adivinha onde eles vendem: na feira, quase tudo, entregando na mão. Pra eles, compensou demais.

DICA AGRO ESPRESSO

O que fazer para lidar com o El Niño?

Fonte: Giphy

A primeira coisa a entender sobre a safra 26/27 é que não existe um El Niño, existem três:

  • No Sul a previsão é de chuva acima do normal, com erosão e ambiente redondo pra doença fúngica;

  • No Norte e no Nordeste o risco é o contrário, chuva menor e mal distribuída;

  • No Centro-Oeste e no Sudeste o efeito tende a ser discreto, às vezes só um atraso no início das águas.

E não é passageiro: os modelos do Inmet dão probabilidade acima de 90% de o fenômeno durar até pelo menos o começo de 2027. Quase tudo o que dá pra fazer acontece antes da semente entrar. Respeitar a janela do Zarc, que já embute os anos de El Niño no cálculo do município. Formar palhada com planta de cobertura, aveia e nabo no Sul pra segurar a gota da chuva, braquiária e milheto no Norte e no Nordeste pra segurar a água que tem. E escalonar a semeadura combinando cultivares de ciclos diferentes, pra que um evento extremo não pegue a lavoura toda no mesmo estágio. No Sul entram ainda semeadura em nível e terraço. Nenhuma dessas medidas é nova nem cara, e é justamente por isso que existe o risco de ficarem esquecidas. Clima a gente não escolhe, exposição sim.

O AGRO EM NÚMEROS

A distância entre o campeão da soja e você não é tecnologia

Fonte: Canal Rural

No Desafio Nacional de Máxima Produtividade, o campeão de sequeiro fechou em 156 sacas por hectare. A melhor média que a Conab já anotou pro Brasil inteiro foi 60. O sujeito tira duas vezes e meia do mesmo hectare, com semente que você compra na mesma revenda.

Só que área de concurso é pequena, auditada e caprichada até o último centímetro, e ninguém repete isso no talhão inteiro. O próprio comitê que criou o desafio, lá em 2008, diz que a ideia era puxar a média do país, não distribuir troféu. E um campeão de outra edição entregou a receita de graça: muitas vezes não é investir mais pra colher mais, é enxergar onde você está perdendo: regulagem, população de plantas, janela de semeadura, hora da aplicação. No fim das contas, a lição é que a distância que dá pra encurtar não é até o campeão, é até a sua própria lavoura bem feita. E, quase sempre, ela não custa dinheiro novo, custa atenção.

PRA DENTRO DA PORTEIRA

As sacas que você perde antes da semente germinar

Fonte: Giphy

Aposto um café que a sua semeadora não está igual em todas as linhas. O pessoal do Grupo de Plantio Direto da Unesp de Botucatu abre máquina em São Paulo há anos, e nenhuma que passou pela mão deles estava uniforme na deposição de adubo e de semente. Nenhuma. E isso tem preço: no exemplo que eles montaram com milho, só reduzir a falha na linha já devolve onze sacas por hectare. Mesma semente, mesmo adubo, mesmo trator, mesmo dia de plantio. O que muda é a regulagem.

Dá pra conferir neste fim de semana: estica a trena em dez metros de linha, conta as plantas, marca onde faltou e onde saiu dobrado, e repete em três linhas da mesma máquina. Fica de olho na velocidade também, porque a mecânica não deveria passar de 6 km/h e a pneumática de 8. Acima disso a semente quica dentro do tubo e cai onde quer. O contraponto honesto é que aquelas onze sacas saem de uma simulação, com preço e população fixados no papel, então o número da sua lavoura vai ser outro. O método é que não muda. E regulagem é a única tecnologia da lavoura que não vem com boleto junto. Então, aproveita.

POR AÍ NAS REDES

Os Primos Agro são os maiores do agro, mas o mapa diz que tamanho é o de menos

Fonte: TheAgriBiz

Você já parou pra pensar em quem o produtor escuta de verdade na hora de decidir uma compra? A Deck e a Nexus, duas empresas do grupo FSB, foram atrás disso e montaram o Pulso 2026/2027, um levantamento de quem tem influência em 21 setores da economia. No agro deu uns 30 nomes, e no alto do alcance estão os Primos Agro, com mais de 3 milhões de seguidores.

Muita gente acha que influência é seguidor. Só que não. O estudo somou uma nota de reputação em cima do alcance, que é uma forma de perguntar não quantos veem, mas quantos confiam. Pensa na diferença entre o vendedor que grita na feira e o vizinho que te empresta a plantadeira: os dois falam com você, um só é ouvido. O próprio levantamento lembra o caso da influenciadora com 2 milhões de seguidores que não conseguiu vender 36 camisetas.

Aí você olha a lista e entende o recado. Metade é executivo de crachá, de Syngenta, Yara, Bayer, Rabobank, Mosaic, Corteva e Embrapa. A outra metade é quem grava todo dia, do Manual do Operador ao Carona do Agro, do Ruralbook à turma que filma no meio do talhão.

Mas vale uma ressalva antes de sair contratando: quem assina o levantamento é um grupo de comunicação que vive de construir reputação, então o critério também é o produto da casa. E o estudo jura que não é ranking, é mapa, o que não impede de ser confundido cardápio de compras.

E AÍ, BORA?

Agosto

Setembro

  • AgroMKT Summit 2026: o maior congresso de marketing, comunicação e inovação para o agro da América Latina, dias 4 e 5 de setembro, em Goiânia (GO).

  • Feedlot Summit Brazil: o maior encontro técnico de confinamento da América Latina. De 16 a 18 de setembro em Goiânia (GO).

  • Fórum Pecuária Brasil: um dia inteiro de mercado do boi, do indicador do preço ao futuro na B3, reunindo frigoríficos e pecuaristas, no dia 16 de setembro, em São Paulo (SP).

Outubro

  • GAFFFF, Global Agribusiness Festival: o festival que junta painéis, música e gastronomia do agro num estádio. Dias 1 e 2 de outubro no Allianz Parque, São Paulo (SP).

  • Seafood Show Latin America: feira da cadeia do pescado e da aquicultura, com foco em sustentabilidade e mercado internacional. De 20 a 22 de outubro em São Paulo (SP).

  • AveSui América Latina 2026: a feira de referência em aves, suínos e peixes, com tecnologia e negócios da proteína animal, de 27 a 29 de outubro, em Cascavel (PR).

Novembro

  • ACATE AgTech Summit: o encontro das agtechs, com foco em IA e rastreabilidade. Dia 5 de novembro em Florianópolis (SC) e online.

SE DIVERTE AÍ

Domingo pede passatempo que não cobra pressa, e a dica de hoje é de olho treinado: o Artle, da National Gallery of Art, mostra quatro obras de um mesmo artista, uma de cada vez, e você tenta cravar quem pintou. Acertou na primeira, é gênio.

VIVENDO E APRENDENDO

Resposta da edição passada: a monção é a circulação de ar que inverte de direção conforme a estação, uma espécie de brisa gigante criada pelo contraste de aquecimento entre o continente e o oceano. É ela que traz a estação chuvosa na Índia, e por isso monção fraca no noticiário significa safra curta lá e preço mexido aqui.

Pergunta de hoje: por que a famosa terra roxa do Paraná e do interior paulista tem esse nome, se ela é vermelha?


A resposta você fica sabendo na próxima edição!

PROGRAMA DE INDICAÇÃO

CONTATO

📧 Leitor: [email protected]

📧 Imprensa: [email protected]

Keep Reading

VOLTAR À PÁGINA INICIAL