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Bom dia!

A edição de hoje começa no porto, com a China recuando na inspeção e a soja brasileira respirando de novo, mas no meio do caminho tem Plano Safra já nascendo complicado, fertilizante cada vez mais caro e dependente de quem tá em guerra, VLI batendo recorde nos trilhos e Fonterra mostrando que leite também vira resultado.

Pra você acordar bem informado

Por Enrico Romanelli

TÁ QUANTO?

FOCUS 2026 Semana 2027 Semana
Câmbio (R$/US$) 5,40 0,00% 5,45 -0,29%
IPCA (%) 4,17 1,51% 3,80 0,00%
PIB (%) 1,84 0,67% 1,80 0,00%
Selic (% a.a.) 12,50 2,04% 10,50 0,00%

Os dados são publicados por BCB. A variação considerada nesta tabela é semanal.

DE OLHO NO PORTO

China afrouxa regra da soja e embarque brasileiro respira

GIF: latenightseth on Giphy

A soja brasileira passou os últimos dias vivendo um pesadelo burocrático em que o navio tá pronto, a carga tá lá, mas o papel resolve virar o verdadeiro dono da operação. Depois de reclamações de exportadores sobre mudanças no processo de inspeção fitossanitária exigido pela China, uma missão do Ministério da Agricultura desembarcou no país pra discutir as regras. O incômodo veio porque essas novas exigências tavam dificultando a emissão dos certificados que tem que ter pra poder embarcar, tipo um visto, justo no momento em que o Brasil tá no auge da temporada e não tá exatamente com vontade de ficar na fila.

O rolo ganhou mais enredo porque cada hora parecia sair uma versão diferente da história. Carlos Fávaro negou que o Brasil tivesse afrouxado a fiscalização da soja enviada pra China, enquanto reportagens apontavam que Pequim teria topado flexibilizar as regras sobre a presença de ervas daninhas nas cargas brasileiras. O ministério preferiu pisar no freio e disse que as conversas só tinham começado e que ainda não tinha nada decidido.

Só que o tom da conversa melhorou. Segundo um documento do próprio Ministério da Agricultura, as autoridades chinesas entenderam e aceitaram que não vai ser aplicado nenhum critério de tolerância zero pra presença de plantas daninhas nos carregamentos de soja importados do Brasil. Isso alivia a pressão sobre os embarques e evita que a safra brasileira fique presa enquanto o comprador espera do outro lado do oceano. A decisão também vale pras cargas que já tinham falhado nas inspeções e ficado sem o certificado, que agora vão poder seguir seu caminho sem precisar de nova checagem.

ASSUNTO DE GABINETE

Guerra trava a queda dos juros e complica o Plano Safra 2026/27

GIF: Giphy

O próximo Plano Safra nem saiu do papel e já tá todo ferrado. A combinação de endividamento no campo lá em cima, corte tímido da Selic e guerra no Oriente Médio tá deixando a montagem do programa de crédito rural ainda mais tensa em Brasília. A ideia do governo é, no mínimo, tentar manter o pacote ali na casa dos R$ 600 bilhões do ciclo atual, mas a esperança de juros mais baixos já foi pro ralo. Com a Selic em 14,75% e sem nenhum sinal de que vai ter um alívio mais forte no curto prazo, a conta ficou simples e indigesta ao mesmo tempo, o crédito deve continuar caro.

O recado vindo do Ministério da Agricultura tá longe de ser animador. Guilherme Campos deu o papo de que o cenário é bem desafiador, nebuloso e quase uma tempestade perfeita, com recuperações judiciais, custo de captação alto e pouca margem fiscal pra inventar milagre. Dentro do governo, a avaliação é que a demanda por custeio na safra 2026/27 deve encostar em R$ 865 bilhões, enquanto a necessidade de investimento deve passar de R$ 200 bilhões, mas o caixa público não tá exatamente em clima de generosidade. Pra piorar, boa parte da verba usada pra bancar a equalização dos juros já tá comprometida com contratos antigos, então não vai ter espaço pra fazer gracinha com taxa mais camarada no novo plano.

Aí sobra pro governo fazer o que Brasília sabe fazer quando a conta não fecha, puxar engenharia financeira, apostar mais em instrumentos privados e tentar destravar algumas garantias pra não deixar metade do campo falando sozinha com o gerente. O FGO também aparece como aposta pra ampliar acesso ao crédito, principalmente pra agricultura familiar e pra quem tá enrolado com inadimplência.

O AGRO EM NÚMEROS

Colheita da soja acelera, exportações dando show e milho safrinha quase pronto

Foto: REUTERS/Diego Vara

A safra de soja 2025/26 chegou a 67,7% da área colhida, segundo a Conab. O ritmo ainda corre atrás dos 76,4% registrados no mesmo momento de 1 ano atrás, embora siga um tiquinho acima da média dos últimos 5 anos, que ficou em 66,4%. No Sul e em parte do Matopiba a chuva continua enchendo o saco, atrasando operação e mexendo na qualidade dos grãos. Mas o ritmo deve engrenar nas próximas semanas.

E já que o céu anda interferindo no campo, do lado de fora da porteira a conta da carne bovina veio mais animadora. Nas 3 primeiras semanas de março, o Brasil exportou US$ 966,2 milhões, com média diária de US$ 64,4 milhões, bem acima dos US$ 55,5 milhões de março/25. O volume embarcado ficou em 167,1 mil toneladas, com média de 11,1 mil toneladas por dia útil, levemente abaixo do registrado no ano passado. Saiu um pouco menos de carne, mas cada embarque saiu valendo mais, o que sempre ajuda a deixar o caixa mais bonitinho.

No milho, o ritmo dos embarques também chamou atenção. O Brasil exportou 784,2 mil toneladas até agora em março, volume que já representa 90% de tudo o que foi embarcado em março/25. A média diária ficou em 52,3 mil toneladas, avanço de 14% na comparação. O que pesou contra foi o preço médio por tonelada, que caiu 5,5% e foi pra US$ 227,10.

E a safrinha 2026 de milho chegou a 97% da área estimada no Centro-Sul até 19/03, contra 91% na semana anterior, segundo a AgRural. Mato Grosso e Goiás já encerraram os trabalhos, Mato Grosso do Sul e Minas Gerais tão praticamente no fim, mas São Paulo ainda enfrenta dificuldade pra concluir a semeadura. O maior gargalo, porém, segue no Paraná, que concentra boa parte dos 415 mil hectares que ainda tão pra plantar.

COLHENDO CAPITAL

Fonterra lucra US$ 450 milhões e eleva projeção pra 2026

Foto: Divulgação

A Fonterra começou o ano fiscal de 2026 com o caixa bem alimentado. A gigante neozelandesa dos lácteos registrou receita de US$ 8,3 bilhões no 1º semestre do seu ano fiscal (que começou em agosto) e lucro operacional de cerca de US$ 739 milhões, acima dos US$ 664 milhões do mesmo período anterior. No resultado final, o lucro líquido ficou em cerca de US$ 450 milhões, mostrando que a cooperativa conseguiu transformar leite em margem com uma eficiência que muita empresa por aí adoraria copiar.

Com esse desempenho na mão, a empresa anunciou dividendo intermediário de US$ 0,14 por ação e decidiu subir a régua pro restante do ano. A projeção de lucro anual das operações contínuas, que antes ficava entre US$ 0,27 a US$ 0,39 por ação, agora passou pra US$ 0,30 a US$ 0,39.

Segundo o CEO Miles Hurrell, a melhora veio de carona com preços globais mais favoráveis pras commodities, margens sólidas e controle de custos. Ainda assim, ele reconheceu que o cenário continua na mão da geopolítica, com o conflito no Oriente Médio funcionando como mais um ingrediente de tensão no mercado. Por enquanto, a Fonterra segue com demanda forte, contratos já firmados pro 2º semestre e confiança suficiente pra subir a projeção.

NAS CABEÇAS DO AGRO

Brasil planta grão e colhe dependência nos fertilizantes

Foto: Divulgação

O Brasil tá vendo a crise dos fertilizantes bater na porta de novo, com cara de quem esqueceu de fazer a lição de casa. Segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI), o país vive uma situação de extrema vulnerabilidade justamente num dos insumos mais sensíveis pro agro, e não tem nem plano pra tentar resolver essa treta toda. O problema fica ainda mais feio com a guerra no Oriente Médio e o bloqueio no Estreito de Ormuz travando toda a circulação global de fertilizantes. Hoje, mais de 80% dos fertilizantes usados por aqui vêm de fora. No potássio, a dependência chega a bater 97,8%. No nitrogênio, 89%. E a ureia, que entra forte no milho, já subiu mais de 50% desde o início do ano. Não é um cenário bonito.

Segundo a entidade, esse aperto não caiu do céu sozinho, não. Entre 2002 e 2024, a nossa produção de fertilizantes murchou 30%, por conta do fechamento de grandes fábricas de nitrogenados. Já a produção dos intermediários químicos, que são as matérias-primas centrais nessa engrenagem, caiu 48% entre 2012 e 2024. Nesse meio tempo, o Brasil foi ficando cada vez mais refém de alguns poucos fornecedores. Os nitrogenados vêm principalmente de China, Rússia e Omã. Os fosfatados saem mais de Egito, Israel e Marrocos. E o potássio segue concentrado em Rússia, Canadá e Uzbequistão.

Pra piorar, produzir aqui dentro também não tá saindo barato. O gás natural, que é uma peça-chave na fabricação de fertilizantes nitrogenados, custa no Brasil US$ 18,64 por MMBtu, quase 5 vezes mais que os US$ 3,67 dos Estados Unidos. A conta espanta qualquer investimento, esfria a vontade da indústria e deixa o agro ainda mais exposto a qualquer espirro geopolítico. A CNI defende que temos que acelerar políticas como o Plano Nacional de Fertilizantes, que quer reduzir a dependência externa pra 45% até 2050, além de ampliar pesquisa e inovação e correr atrás de novas jazidas de potássio e fósforo.

SAFRA DE CIFRAS

VLI acelera no trilho, bate 23 mi t e mostra que safra sem logística não sai do silo

GIF: john56477 on Giphy

A VLI, gigante da logística que junta num balaio só ferrovias, portos e terminais, fechou 2025 com recorde no transporte de grãos e farelo, deixando claro que soja e milho até podem brilhar no campo, mas sem trilho e porto a festa para no estacionamento.

A companhia movimentou 23 milhões de toneladas úteis de grãos e farelos pelas ferrovias, alta de 16% sobre 2024. Nos portos operados pela empresa, os embarques chegaram a 15,4 milhões de toneladas, avanço de 14%. O resultado acompanha a safra forte e a pressão por operações mais eficientes pra tirar a produção do interior e colocar no navio sem transformar o escoamento num reality show de atraso.

No consolidado do ano, a VLI embarcou 43,9 milhões de toneladas nos portos, alta de 2%. A receita líquida ficou em R$ 9,95 bilhões, o Ebitda bateu R$ 5,26 bilhões e o lucro líquido chegou a R$ 1,4 bilhão, com avanço de 5,3%. A margem Ebitda foi a 52,9%, novo recorde da empresa, enquanto os investimentos somaram R$ 3,5 bilhões pelo 2º ano seguido, mantendo a aposta deles em expansão e manutenção da infraestrutura pra dar conta de um agro que segue produzindo em escala industrial.

PLANTÃO RURAL

SE DIVERTE AÍ

Hoje o desafio é o Contexto, aquele jogo em que você tenta adivinhar a palavra secreta chutando termos e vendo o quão perto tá pelo sentido, não pelas letras. Vale começar com palavras do agro tipo soja, boi, clima, crédito, fertilizante e ir afinando até chegar na resposta. Joga aí, testa seu dicionário e depois conta quantos chutes você precisou pra matar a charada.

VIVENDO E APRENDENDO

Resposta da edição passada: Cajuína

Pergunta de hoje: Qual semente de árvore da Mata Atlântica é assada e comida como iguaria de inverno no Sul?

A resposta você fica sabendo na próxima edição!

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