
APRESENTADO POR

Bom dia!
Sexta tem quebra-cabeça no fim da edição, e as peças de hoje já começam a se encaixar aqui em cima. A primeira sai de Pernambuco, de onde a carne bovina do Nordeste embarca para a China, a segunda vem do café, com um banco enxergando sobra onde faltava grão, e a terceira é o adubo da Yara, que ficou mais caro de fazer enquanto o comprador segura a compra. A peça que fecha o desenho é o crédito rural, que pinga em vez de jorrar no balcão do banco. Descendo a tela tem mais.
Pra você montar a semana com as peças certas.
Por Luciana Stival
TÁ QUANTO?
Os dados são publicados por BCB e Brapi.
As variações são calculadas em % diária e %YTD (Year to date)
O Goldman calcula que a Petrobras teria de subir o diesel em cerca de metade para chegar ao preço de fora se o subsídio extra aos importadores acabar, mas não põe o reajuste no cenário-base. O subsídio vale até meados de novembro, prazo que importa a quem toca a lavoura a diesel.
A CONTA CHEGOU
Banco do Brasil liberou 44,1% menos crédito ao agro nesta safra por enquanto

Fonte: Giphy
Se o seu custeio ainda não saiu, a demora não está só na sua agência: a torneira do Banco do Brasil está pingando como um conta-gotas.
Ele desembolsou R$ 31,633 bilhões ao agronegócio na safra 2026/27 até 19 de outubro, 44,1% abaixo do mesmo intervalo da safra passada. Em Goiás, por exemplo, o crédito rural somou R$ 5,049 bilhões entre julho e setembro, queda de 42,18%, segundo a Faeg.
O detalhe é que as duas pontas, o banco que empresta e a federação de quem toma, apontam para o mesmo problema na torneira: o risco da carteira.
Sobre isso, o vice-presidente do BB, Gilson Bittencourt, diz que a redução na agricultura empresarial acompanha cooperativas e outros bancos, em meio ao aumento da inadimplência e à maior percepção de risco. Em Goiás 27,6% da carteira já é saldo problemático, nem tudo inadimplência, mas, pela Faeg, isso pode trazer mais exigência de garantia e restrição a novos recursos.
Porém, há uma letra miúda: o BB liga parte da queda no Pronamp à antecipação do pré-custeio na safra passada, ou seja, nessa linha parte do que falta agora já saiu antes.
Por outro lado, no Bradesco, a carteira de crédito rural para pessoa jurídica cresceu 30,2% em um ano. No banco como um todo, o atraso acima de 90 dias subiu um pouco em relação ao trimestre anterior, puxado pela carteira rural, mais na pessoa física, e pelo capital de giro de micro, pequenas e médias empresas.
São réguas diferentes: o Bradesco fala do tamanho da carteira, o BB fala do que liberou no período. E, no Bradesco, a água segue correndo para a empresa, enquanto o atraso aparece na pessoa física.
No fim das contas, o problema é que a data de plantio não vai esperar o encanador.
A CONTA DA LAVOURA
Com gás caro e compra adiada, Yara lucra 38% menos

Fonte: CNN Brasil
A conta deste trimestre também apertou para quem fabrica o adubo.
A norueguesa Yara lucrou US$ 199 milhões no 3º trimestre, contra US$ 320 milhões um ano antes, queda de 38%.
A empresa aponta três causas:
o gás caro na Europa;
problemas de confiabilidade operacional em algumas fábricas;
o comprador adiando a compra de fertilizante.
O gás é a conta de luz dessa fábrica, e o gás natural na Europa subiu 57%, para US$ 18.1 por milhão de BTU. A resposta da Yara foi mexer no interruptor: cortou 150 mil toneladas da produção europeia de amônia e 115 mil de produtos acabados por causa do custo do gás.
A terceira causa é a que chega em você. Segundo o relatório, as compras de fertilizantes nitrogenados para a safra 2027 ficaram "significativamente atrás" dos anos anteriores em todos os mercados relevantes, e no Brasil as entregas foram de 1,842 milhão de toneladas no trimestre, contra 1,910 milhão um ano antes. E a Yara avisa que uma parcela significativa das compras sazonais ainda precisa ser feita, num cenário de oferta mais restrita vinda do Oriente Médio.
Dois avisos antes de tirar conclusão. Quem conta a história é a própria Yara, e ela não abre o Ebitda por país: o Brasil vem dentro do segmento Américas. E o alívio que vem dos EUA é para lá e para depois: o USDA selecionou oito projetos de fábricas de fertilizante, com mais de US$ 1.34 bilhão, mas a queda de preço que o governo estima, para o mercado americano, só vale quando os projetos estiverem operando.
Fica o quadro: o comprador segurando a compra, e do outro lado do balcão a Yara já abaixou a chave.
O AGRO EM NÚMEROS
Abiove projeta esmagamento recorde em 2027 considerando o B16

Fonte: AgFeed
A soja de 2027 já tem destino na planilha da indústria, e parte dele conta com uma assinatura que ainda não saiu.
A Abiove projeta que as indústrias vão processar 66 milhões de toneladas em 2027, 3,8% acima do previsto para este ano, enquanto a exportação de soja em grão recua 0,8%, para 113 milhões de toneladas. Mais grão esmagado aqui e menos grão no porto, e a conta do esmagamento vem com uma premissa.
A premissa é o B16. Questionada pela Reuters, a Abiove disse que a estimativa considera a possibilidade de a mistura de biodiesel no diesel subir um ponto percentual, para 16%, e a exportação menor está possivelmente ligada a uma maior demanda interna por soja. Do óleo que sair dessa soja, mais da metade, 7,8 milhões de toneladas, iria para o biodiesel. É o adiantamento lançado na planilha antes do patrão assinar.
É aí que entra quem olha de fora. A StoneX vê a demanda de biodiesel subir 7% em 2027 se a mistura for a 16%, e só 1,2% se ficar no B15, e diz que não há sinais claros do governo nessa direção.
Mas a conta parece ter um alívio para quem vende: as exportações do complexo soja podem somar receita recorde de US$ 69.3 bilhões em 2027, contra US$ 60.3 bilhões previstos para 2026. Só que é receita de grão, farelo e óleo juntos, não o preço da sua saca.
Antes de contar com o esmagador na porteira em 2027, vale saber que o adiantamento dele ainda não foi assinado.
PAPO DE CURRAL
Carne bate recorde no atacado, e a arroba não cede

Fonte: Globo Rural
No atacado da Grande São Paulo, a carcaça casada chegou a R$ 26,05 o quilo à vista, o maior valor nominal da série acompanhada pelo Cepea, e o recorde veio com o balcão travado: os frigoríficos paulistas relatam dificuldade para escoar a carne bovina, o que tem limitado o ritmo das compras de animais para abate.
O consumo doméstico perdeu força na segunda quinzena. O menor apelo ao consumo na segunda quinzena reduz a disposição dos frigoríficos de promover novos reajustes generalizados, segundo a Safras & Mercado, com o frango e o porco mais baratos na concorrência. Pela lógica do balcão, a arroba deveria ceder. Não cede: pela Agrifatto, a oferta restrita de animais terminados vem anulando a tentativa dos frigoríficos de baixar o valor pago pela arroba.
E tem mais oferta sumindo no pasto. Pela Scot, a maior atratividade da cria estimulou a retenção de fêmeas, restringindo ainda mais a oferta à indústria. Traduzindo, a vaca que ficou no pasto fazendo bezerro é o boi que falta na escala, e enquanto ela ficar lá quem tem animal pronto segura a caneta.
Para quem termina boi, a conta de reposição também mudou: o Cepea calcula o ágio do boi magro sobre o gordo em 2,3% na parcial de outubro, contra 12,6% no mesmo mês de 2025: o boi gordo subiu mais que o magro. Já a Agrifatto, olhando a curva da B3 e as análises do setor, lê menor espaço para altas expressivas, mas não uma queda obrigatória do físico. Fica você entre um atacado que escoa com dificuldade e um pasto que não solta, e a caneta, por enquanto, continua na sua mão.
DE OLHO NO PORTO
Abitrigo pede crédito para moinhos em ano de importação recorde

Fonte: Giphy
Quem vende trigo no Sul e quem compra farinha estão olhando para o mesmo navio, e ele nunca veio tão cheio.
A Abitrigo calcula que o Brasil pode importar 9 milhões de toneladas ou mais nesta safra, a maior importação de trigo dos últimos 30 anos, contra os 6 milhões que o setor costumava trazer. O volume a gente já contou aqui em setembro; o novo é a lista de pedidos que vem junto com o navio.
A lista vai para quem vencer a eleição no domingo. O presidente da Abitrigo, Rubens Barbosa, diz que a entidade prepara um documento para o candidato que vencer a eleição presidencial, e uma das prioridades é crédito para os moinhos investirem em armazenamento: a indústria já foi duas vezes ao BNDES pedir uma linha, sem avanço.
Outra preocupação é o imposto: na conta da entidade, a carga tributária sobre o trigo importado subiu 1,17% desde agosto, com corte de 10% no crédito presumido. "Nunca trouxemos tanto trigo de fora", resume Daniel Kümmel, presidente do conselho deliberativo da Abitrigo, para quem a escala exige porto, armazém, capital de giro e câmbio ao mesmo tempo.
E o navio vem cheio porque a produção daqui encolheu: a Emater estima 2,16 milhões de toneladas de trigo no Rio Grande do Sul, 37,48% menos que em 2025, e a TF Agroeconômica, via Agrolink, relata indústrias buscando alternativas no mercado externo pela escassez de lotes adequados à moagem. Menos trigo e pior trigo é o que abre espaço no porão.
Para quem colhe agora, o que interessa está na outra ponta: o trigo argentino chegou a ser cotado a US$ 320 por tonelada em Porto Alegre, abaixo das referências do nacional de melhor qualidade, segundo a TF. Antes de vender o seu lote, olhe essa régua também.
MENTES QUE GERMINAM
Oito uvas resistentes dispensaram fungicida contra o míldio em dois ciclos

Fonte: Giphy
A pesquisa desta semana chega em três estágios, e a ordem é a de quem anda do vinhedo até a bancada.
No campo, o resultado já está na parreira. A Epamig avaliou oito variedades de uvas resistentes a doenças num vinhedo experimental em Andradas, no Sul de Minas, e no último ciclo de verão e no de inverno não precisou aplicar fungicida contra o míldio, com só três pulverizações contra o oídio nos dois ciclos. A produtividade variou de 1,5 a 3,5 quilos por videira, conforme a cultivar, e para o viticultor a redução das aplicações pode diminuir o custo de produção.
Um degrau atrás, na lupa, a notícia ainda é diagnóstico. Pesquisadores identificaram o fungo Colletotrichum theobromicola como agente da antracnose em hastes florais de cebola em Belém do São Francisco, em Pernambuco, numa área de produção de sementes onde cerca de 10% das plantas apresentavam sintomas nas hastes florais. O detalhe é que o trabalho não avaliou a contaminação de sementes, então a transmissão pela semente segue sem prova.
E no último degrau, na placa, o resultado ainda é um aviso de dose. A UFSCar e parceiros testaram em laboratório um material híbrido, de dióxido de titânio com extrato de frutos de pau-ferro, no tratamento de sementes, e na dose mais alta ele impediu a germinação de alface, tomate e melancia, enquanto o milho germinou 100%. Mas os próprios resultados ainda não permitem apresentá-lo como bioestimulante de uso geral, e o material pede novas etapas de investigação.
Do vinhedo à placa, vale destacar que o primeiro degrau é o que já traz uma redução de aplicações medida em campo.
PLANTÃO RURAL
A fusão de Marfrig e BRF virou caso de arbitragem: o requerente pede a anulação das deliberações das assembleias de aprovação, numa disputa estimada em R$ 10 milhões e com pedido contraposto de R$ 50 milhões da MBRF e da BRF.
A Inpasa vai passar de 8 bilhões de litros em seis meses e olha para Singapura: a empresa, que hoje exporta menos de 10% do etanol que produz, aposta em reprecificar as geografias do etanol no Brasil, nas palavras do diretor de trading Renato Zicardi.
O Rabobank vê o café virando de escassez para superávit nesta safra: a sobra de 8,9 milhões de sacas levaria os estoques globais a 11,9 milhões ao fim de 2026/27, contra estimados 3 milhões na safra passada pela ICO, num equilíbrio ainda incerto para o banco.
A Comissão Europeia quer o Brasil de volta na lista do frango e do mel: a proposta ainda passa pelo voto dos Estados-membros na próxima reunião do Comitê Permanente de Plantas, Animais, Alimentos e Rações, em data que a Reuters não confirmou.
O Nordeste embarca hoje o primeiro contêiner de carne bovina para a China: o ministro André de Paula acompanha em Pernambuco o envio de 27 toneladas para Xangai pela Masterboi, único frigorífico de bovinos da região sob SIF habilitado a exportar carne bovina para a China.
A Índia estendeu até o fim do ano a importação de açúcar sem imposto: a prorrogação veio num dia de baixa em Nova York, com os fundos, na semana encerrada em 13 de outubro, na maior posição comprada líquida em mais de cinco anos.
O poder de compra do produtor em fertilizantes subiu 7% em setembro, enquanto o preço da ureia avançou 12%: o IPCF encerrou o mês em 1,17, refletindo principalmente a valorização das commodities agrícolas, com preços de fosfatados e potássicos em pequenos ajustes para baixo.
A nova geração do campo puxa o aluguel de máquinas: com 38% das propriedades alugando colheitadeira, segundo a BIM³, o preço das plantadeiras subiu entre 131% e 225% de 2019 a 2025, pela conta da CNA, e o das colheitadeiras, entre 57% e 124%.
DIVIRTA-SE
Quem já viu o mapa de colheita ganhar cor aos poucos vai tirar de letra o Quebra-Cabeça do Racha Cuca: as peças caem espalhadas sobre a silhueta cinza, e você arrasta uma por uma até a foto aparecer, como o talhão que só fica inteiro quando a máquina fecha a última linha. Dica: comece pelas bordas.
VIVENDO E APRENDENDO
Resposta da edição passada: bicheira é a infestação por larvas da mosca-da-bicheira, que põe os ovos em feridas e no umbigo do animal; as larvas se alimentam do tecido vivo.
Pergunta de hoje: o que é o míldio da videira?
A resposta você confere na próxima edição!
