APRESENTADO POR
Bom dia!
Pega o café e senta, que em 5 minutinhos você sai daqui atualizado. Contra o El Niño que vem, o governo recebeu um cardápio inteiro de tecnologia e admitiu que não sabe servir. Tem uma consulta pública em Brasília mexendo na conta de carbono da usina, e o sorgo acabou de entrar na fila. O greening parou de se espalhar no pomar e começou a se aprofundar. O adubo da Amazônia ganhou o incentivo que pedia, e o alívio de preço não vem junto. Lá fora, o confinamento americano recebeu boi mais gordo do que esperava, e o discurso de lá azedou na mesma semana. E a Europa marcou dia e hora para a carne brasileira, com a chave da porta na mão de quase ninguém.
Pra você começar setembro sabendo onde pisa.
Por Luciana Stival.
TÁ QUANTO?
Os dados são publicados por BCB. A variação considerada nesta tabela é semanal.
Os bancos que projetam a atividade já assumiram que o impulso menor do governo tirou tração da economia, e o número do trimestre sai hoje pelo IBGE com o mercado esperando menos do que esperava no começo do ano.
DE OLHO NO PORTO
A Europa fecha quinta e o bezerro já nasce fora

Fonte: Globo Rural
Você tem até quarta. Depois disso o contêiner que ia para o bloco vira contêiner procurando comprador, porque a suspensão europeia às carnes brasileiras entra em vigor na quinta 03/09, sem prazo extra. Pega bovina, aves, ovos, mel, tripas e pescados. Quando a Europa fecha, ela fecha até o que fingia não comprar. Na bovina, bezerro que nascer amanhã já nasce fora desse mercado. O motivo é a falta de comprovação do controle de antimicrobianos proibidos por lá, decisão que já vinha de maio, e os negociadores próximos a Lula avaliam que reverter ficou difícil e puseram reciprocidade no radar, com impacto potencial de quase US$ 2 bilhões em um ano.
O incômodo é que a chave dessa porta já existe e quase ninguém tem. A Beef Passion, que é marca de uma pecuarista e não frigorífico, recebe de R$ 370 a R$ 450 pela arroba do boi rastreado, contra R$ 340 do Cepea no fim de julho, e o Sisbov está em menos de 1.300 fazendas de gado, 0,05% dos 2,5 milhões que existem no país.
Do lado de quem compra a régua já é lei: o passaporte auditável da MyTS e da Groundd atende ao EUDR, a norma europeia que só deixa entrar mercadoria com endereço de origem comprovado, sob multa de até 4% do faturamento europeu. Vale a ressalva de que na porteira comum o ágio do boi apto à Europa é de cerca de 1%, e produtor de escala diz que só fecha a conta a partir de 10%.
AGRO EM NÚMEROS
Tem terra de sobra e não tem caixa nenhum

Fonte: Tenor
Olha o valor da sua terra e olha o seu extrato. Um dos dois não paga a parcela deste mês. A inadimplência do crédito rural entre produtores voltou a subir em julho e bateu novo recorde, 8,8% da carteira, pelas Estatísticas Monetárias do Banco Central.
A conta fica menos misteriosa quando alguém que administra esse dinheiro explica. O multifamily office Ghia, de Uberlândia, que é a firma que cuida do patrimônio inteiro de uma família e não só das aplicações, diz que o cliente típico do agro tem R$ 10 milhões líquidos e R$ 150 milhões em terra, proporção bem mais apertada que a de qualquer outro setor. Pelo menos 35% do dinheiro novo que entra lá vem do campo, e o produtor chega procurando sucessão, serviço tributário e administração de patrimônio, não aplicação. Vão dizer que 8,8% ainda é pouco, e é verdade, noventa e um por cento da carteira segue pagando em dia. O problema é a direção, porque quem atrasa agora é quem ia comprar insumo em janeiro.
COMO TÁ LÁ FORA?
Os americanos acharam o boi agora?

Fonte: TheAgriBiz
Chegou gado do México mais gordo do que os confinamentos esperavam. Os primeiros lotes entraram com 328 quilos por cabeça, bem acima dos 220 a 250 que eram usuais antes do embargo da bicheira, flexibilizado em 24 de agosto. O México deve valer 5% dos abates americanos, ao menos 1,2 milhão de animais a mais em 2027, e o J.P. Morgan já refez a conta, levando a margem Ebitda da National Beef, da MBRF, de 0,5% no primeiro semestre para 1,5% em 2027. Ebitda aqui é o que sobra da operação antes de juro e imposto, e sair de meio ponto para um e meio é muito bom.
Nesta segunda, o governo americano lançou a Ranchers First Initiative, com o rebanho de lá no menor nível em 75 anos, oferecendo seguro para segurar novilha em reprodução e mais acesso a programas de recuperação de pastagem e de infraestrutura destruída por incêndio e desastre. E a secretária de Agricultura, Brooke Rollins, emoldurou o pacote como defesa do produtor americano num mercado dominado por estrangeiros, recado que sobra para JBS e MBRF. No palanque é mercado de gringo, na planilha do banco é margem saindo do chão.
NAS CABEÇAS DO AGRO
O potássio de Autazes ainda procura quem assine

Fonte: Globo Rural
O governo sancionou o Profert na sexta com R$ 10 bilhões em créditos fiscais para novas plantas de fertilizante, e a Brazil Potash calcula que o programa somado à Zona Franca de Manaus vale até US$ 190 milhões de economia tributária. Só que incentivo fiscal não é dinheiro na conta. O projeto ainda precisa levantar de US$ 300 milhões a US$ 400 milhões em equity, que é dinheiro de sócio e não de banco, e sócio cobra em participação, não em juro.
A produção comercial só aparece no fim de 2030, com 2,2 milhões de toneladas por ano, perto de 17% do que o Brasil consome, e 91% desse volume já está travado em take or pay de 10 a 17 anos com Amaggi, Keytrade e Kimia, contrato em que o comprador paga mesmo se não retirar.
O que interessa na sua conta de adubo é a franqueza do CEO, Matt Simpson. Ele diz que o potássio nacional não vai baratear o insumo, vai amortecer, porque metade da oferta do mundo está na Rússia e na Belarus e o preço já passeou de US$ 280 a US$ 1.200 a tonelada em choque geopolítico. Ou seja, você vai ter potássio brasileiro pelo preço da Rússia, sem o risco da Rússia acordar de mau humor. O que se compra aqui é seguro contra susto, não desconto, e mesmo esse seguro só começa a existir quando alguém puser o cheque de sócio na mesa.
RADA SANITÁRIO
A doença parou de andar e começou a cavar

Fonte: Tenor
Depois de nove anos apanhando, a citricultura ganhou uma boa notícia e ela vem com armadilha embutida. O levantamento anual do Fundecitrus achou o greening em 48,08% das laranjeiras do cinturão paulista e do Triângulo Mineiro, alta de apenas 0,45 ponto contra 3,28 no ano passado e 6,27 no retrasado. É a menor evolução em nove anos, e não foi sorte. Vieram 45% menos psilídeos capturados, clima menos favorável à bactéria e, principalmente, uma troca de endereço do parque, com 74% da área erradicada concentrada nas regiões mais infestadas e 45% do plantio novo indo para as de menor risco. Na planta de três a cinco anos a incidência despencou de 39,18% para 29,50%.
Agora a armadilha. Enquanto a doença parava de se espalhar, ela ficou mais funda, com a severidade subindo de 22,7% para 27%, e chegando a 31% só nos pomares em produção. No pomar acima de dez anos a incidência foi de 58,43% para 63,27%, e a distância entre Limeira, com 82,10%, e o Triângulo Mineiro, com 0,31%, mostra que a média nacional não descreve talhão nenhum. A pergunta mudou de "quantos pés estão doentes" para "quão doente está o pé", e as duas respostas cobram em lugares diferentes do seu orçamento. Vencer o vetor é despesa de manejo. Perder o pomar velho é decisão de capital, e essa não se toma em setembro.
ASSUNTO DE GABINETE
O sorgo entrou na planilha que decide quanto vale seu carbono

Fonte: Embrapa
Tem uma consulta pública correndo em Brasília que mexe na receita da usina e quase ninguém está olhando. A ANP pôs em participação social a nova RenovaCalc, aberta desde 17 de agosto e com prazo até 16 de setembro, que é a planilha usada para calcular a intensidade de carbono do biocombustível e, por consequência, quantos CBIOs cada litro gera. A novidade que muda o mapa é o sorgo entrando entre as biomassas aceitas, que eram só cana, milho e soja, junto com a rota nova do etanol de melaço de soja e o desdobramento da usina flex em duas contas separadas, uma de cana e outra de milho.
O sorgo chega com currículo. A área saltou 32,9% em uma safra, de 1,632 para 2,168 milhões de hectares, a Conab projeta 7,56 milhões de toneladas, e o grão rende 429,5 litros de etanol por tonelada contra 424,5 do milho, custando de 15% a 25% menos e se contentando com 250 a 300 milímetros de chuva onde o milho pede o dobro. Quem sente o desdobramento da rota flex são as 11 usinas flex entre as cerca de 30 plantas de etanol de milho do país, que hoje calculam tudo junto e passam a ter a parcela de milho medida com a régua do milho, cujo balanço energético é bem pior que o da cana. A sua nota de carbono não nasce no talhão, nasce numa célula de planilha em consulta pública, e quem não manda contribuição até dia 16 descobre a regra nova quando ela já estiver valendo.
MENTES QUE GERMINAM
A Embrapa entregou 163 respostas e ninguém sabe entregar a conta

Fonte: Tenor
A Embrapa passou ao Ministério da Agricultura uma nota técnica com 163 medidas contra perda climática, sendo 14 transversais a todo o setor, 139 específicas por segmento produtivo e dez que não dependem do produtor, porque são de política pública. Cada uma vem com o risco que trata, o horizonte de implementação e a condição de adoção, o que já é raro num documento de governo. Nas transversais estão coisas nada exóticas, monitoramento de previsão, uso de dado meteorológico local, diversificação no espaço e no tempo, integração lavoura-pecuária e lavoura-pecuária-floresta. Nasceu do El Niño de 2026/27, mas a presidente Silvia Massuhrá deixa claro que a leitura é mais larga que o fenômeno.
O detalhe honesto está na boca do próprio governo. Bruno Leite, que coordena o grupo de trabalho, diz que o cardápio de tecnologia já é grande e que o desafio é fazer esse conhecimento chegar ao produtor rural, e uma das recomendações do relatório final, que sai na quinta, é um plano de comunicação entre as instituições. Ou seja, a nota técnica que resolveria o risco climático termina propondo resolver antes o problema de comunicação.
PLANTÃO RURAL
O cacau segue caro em Nova York, com a próxima safra em xeque: o contrato de dezembro subiu 1,85% e fechou a US$ 6.771 a tonelada, depois de alta de 7% na sessão anterior, com dúvida sobre a qualidade da safra 26/27 nos principais produtores.A Embrapa vai validar genética Brangus com criador na Expointer: a Embrapa Pecuária Sul, a Fapeg e o grupo de criadores Malta Agropecuária assinam na 49ª Expointer o projeto Origem Brangus, para ampliar a validação de genética de linhagens da raça.
A Agrogalaxy empurrou o balanço de 2025 pela segunda vez: a empresa em recuperação judicial levou o resultado de 2025 de junho para agosto e agora para 30 de novembro.
O milho subiu mais de 6% em agosto, com a segunda safra ainda entrando: o indicador do Cepea em Campinas fechou a sexta 28/08 a R$ 69,51 a saca, alta de 6,53% no mês, com o produtor segurando lote e o comprador aceitando o preço pedido.
O café brasileiro está quase todo colhido, e ainda assim atrasado: a Safras & Mercado põe a colheita em 97% da área, contra a safra passada já encerrada nesta altura, com o arábica em 96% ante 99%.
A Raiar virou fabricante de óleo sem querer: ao trocar a compra de farelo por soja orgânica em grão de cerca de 20 produtores parceiros, a produtora de ovos ficou com 300 toneladas de óleo bruto por ano na mão e criou uma marca para vendê-lo.
O presidente da Abag quer o Brasil sentado onde a regra é escrita: Ingo Ploger diz que o agro tropical roda em just in time por fazer até três safras por ano, então evento em Ormuz mexe no planejamento de insumo na hora.
SE DIVERTE AÍ
Terça já chega com tabela cheia de número, então bora treinar o olho de encaixar cada um no lugar certo. O Numerox, o passatempo da velha Coquetel das bancas, abre uma grade vazia e uma lista de números de três a nove dígitos, e cabe a você achar onde cada um entra, cruzando com o vizinho igual palavra cruzada. Errou o encaixe, travou a linha inteira. Número solto não diz nada, o que vale é onde ele encaixa.
VIVENDO E APRENDENDO
Resposta da edição passada: é o hedge, o seguro do preço. Você trava num contrato futuro o valor da saca que só vai colher em março, sem tirar um grão do armazém. O outro lado é que quem se protege da queda também abre mão da alta.
Pergunta de hoje: o que é o vazio sanitário da soja?
A resposta você confere na próxima edição!

