APRESENTADO POR

Bom dia!

Pega o café e senta, que em 5 minutinhos você sai daqui atualizado. Contra o El Niño que vem, o governo recebeu um cardápio inteiro de tecnologia e admitiu que não sabe servir. Tem uma consulta pública em Brasília mexendo na conta de carbono da usina, e o sorgo acabou de entrar na fila. O greening parou de se espalhar no pomar e começou a se aprofundar. O adubo da Amazônia ganhou o incentivo que pedia, e o alívio de preço não vem junto. Lá fora, o confinamento americano recebeu boi mais gordo do que esperava, e o discurso de lá azedou na mesma semana. E a Europa marcou dia e hora para a carne brasileira, com a chave da porta na mão de quase ninguém.

Pra você começar setembro sabendo onde pisa.

Por Luciana Stival.

TÁ QUANTO?

FOCUS 2026 % sem. 2027 % sem.
Câmbio (R$/US$) 5,20 0,00% 5,30 0,00%
IPCA (%) 5,01 -0,20% 4,28 0,59%
PIB (%) 1,92 -1,37% 1,50 0,00%
Selic(% a.a.) 13,75 0,00% 12,00 0,00%

Os dados são publicados por BCB. A variação considerada nesta tabela é semanal.

Os bancos que projetam a atividade já assumiram que o impulso menor do governo tirou tração da economia, e o número do trimestre sai hoje pelo IBGE com o mercado esperando menos do que esperava no começo do ano.

DE OLHO NO PORTO

A Europa fecha quinta e o bezerro já nasce fora

Fonte: Globo Rural

Você tem até quarta. Depois disso o contêiner que ia para o bloco vira contêiner procurando comprador, porque a suspensão europeia às carnes brasileiras entra em vigor na quinta 03/09, sem prazo extra. Pega bovina, aves, ovos, mel, tripas e pescados. Quando a Europa fecha, ela fecha até o que fingia não comprar. Na bovina, bezerro que nascer amanhã já nasce fora desse mercado. O motivo é a falta de comprovação do controle de antimicrobianos proibidos por lá, decisão que já vinha de maio, e os negociadores próximos a Lula avaliam que reverter ficou difícil e puseram reciprocidade no radar, com impacto potencial de quase US$ 2 bilhões em um ano.

O incômodo é que a chave dessa porta já existe e quase ninguém tem. A Beef Passion, que é marca de uma pecuarista e não frigorífico, recebe de R$ 370 a R$ 450 pela arroba do boi rastreado, contra R$ 340 do Cepea no fim de julho, e o Sisbov está em menos de 1.300 fazendas de gado, 0,05% dos 2,5 milhões que existem no país.

Do lado de quem compra a régua já é lei: o passaporte auditável da MyTS e da Groundd atende ao EUDR, a norma europeia que só deixa entrar mercadoria com endereço de origem comprovado, sob multa de até 4% do faturamento europeu. Vale a ressalva de que na porteira comum o ágio do boi apto à Europa é de cerca de 1%, e produtor de escala diz que só fecha a conta a partir de 10%.

AGRO EM NÚMEROS

Tem terra de sobra e não tem caixa nenhum

Fonte: Tenor

Olha o valor da sua terra e olha o seu extrato. Um dos dois não paga a parcela deste mês. A inadimplência do crédito rural entre produtores voltou a subir em julho e bateu novo recorde, 8,8% da carteira, pelas Estatísticas Monetárias do Banco Central.

A conta fica menos misteriosa quando alguém que administra esse dinheiro explica. O multifamily office Ghia, de Uberlândia, que é a firma que cuida do patrimônio inteiro de uma família e não só das aplicações, diz que o cliente típico do agro tem R$ 10 milhões líquidos e R$ 150 milhões em terra, proporção bem mais apertada que a de qualquer outro setor. Pelo menos 35% do dinheiro novo que entra lá vem do campo, e o produtor chega procurando sucessão, serviço tributário e administração de patrimônio, não aplicação. Vão dizer que 8,8% ainda é pouco, e é verdade, noventa e um por cento da carteira segue pagando em dia. O problema é a direção, porque quem atrasa agora é quem ia comprar insumo em janeiro.

COMO TÁ LÁ FORA?

Os americanos acharam o boi agora?

Fonte: TheAgriBiz

Chegou gado do México mais gordo do que os confinamentos esperavam. Os primeiros lotes entraram com 328 quilos por cabeça, bem acima dos 220 a 250 que eram usuais antes do embargo da bicheira, flexibilizado em 24 de agosto. O México deve valer 5% dos abates americanos, ao menos 1,2 milhão de animais a mais em 2027, e o J.P. Morgan já refez a conta, levando a margem Ebitda da National Beef, da MBRF, de 0,5% no primeiro semestre para 1,5% em 2027. Ebitda aqui é o que sobra da operação antes de juro e imposto, e sair de meio ponto para um e meio é muito bom.

Nesta segunda, o governo americano lançou a Ranchers First Initiative, com o rebanho de lá no menor nível em 75 anos, oferecendo seguro para segurar novilha em reprodução e mais acesso a programas de recuperação de pastagem e de infraestrutura destruída por incêndio e desastre. E a secretária de Agricultura, Brooke Rollins, emoldurou o pacote como defesa do produtor americano num mercado dominado por estrangeiros, recado que sobra para JBS e MBRF. No palanque é mercado de gringo, na planilha do banco é margem saindo do chão.

NAS CABEÇAS DO AGRO

O potássio de Autazes ainda procura quem assine

Fonte: Globo Rural

O governo sancionou o Profert na sexta com R$ 10 bilhões em créditos fiscais para novas plantas de fertilizante, e a Brazil Potash calcula que o programa somado à Zona Franca de Manaus vale até US$ 190 milhões de economia tributária. Só que incentivo fiscal não é dinheiro na conta. O projeto ainda precisa levantar de US$ 300 milhões a US$ 400 milhões em equity, que é dinheiro de sócio e não de banco, e sócio cobra em participação, não em juro.

A produção comercial só aparece no fim de 2030, com 2,2 milhões de toneladas por ano, perto de 17% do que o Brasil consome, e 91% desse volume já está travado em take or pay de 10 a 17 anos com Amaggi, Keytrade e Kimia, contrato em que o comprador paga mesmo se não retirar.

O que interessa na sua conta de adubo é a franqueza do CEO, Matt Simpson. Ele diz que o potássio nacional não vai baratear o insumo, vai amortecer, porque metade da oferta do mundo está na Rússia e na Belarus e o preço já passeou de US$ 280 a US$ 1.200 a tonelada em choque geopolítico. Ou seja, você vai ter potássio brasileiro pelo preço da Rússia, sem o risco da Rússia acordar de mau humor. O que se compra aqui é seguro contra susto, não desconto, e mesmo esse seguro só começa a existir quando alguém puser o cheque de sócio na mesa.

RADA SANITÁRIO

A doença parou de andar e começou a cavar

Fonte: Tenor

Depois de nove anos apanhando, a citricultura ganhou uma boa notícia e ela vem com armadilha embutida. O levantamento anual do Fundecitrus achou o greening em 48,08% das laranjeiras do cinturão paulista e do Triângulo Mineiro, alta de apenas 0,45 ponto contra 3,28 no ano passado e 6,27 no retrasado. É a menor evolução em nove anos, e não foi sorte. Vieram 45% menos psilídeos capturados, clima menos favorável à bactéria e, principalmente, uma troca de endereço do parque, com 74% da área erradicada concentrada nas regiões mais infestadas e 45% do plantio novo indo para as de menor risco. Na planta de três a cinco anos a incidência despencou de 39,18% para 29,50%.

Agora a armadilha. Enquanto a doença parava de se espalhar, ela ficou mais funda, com a severidade subindo de 22,7% para 27%, e chegando a 31% só nos pomares em produção. No pomar acima de dez anos a incidência foi de 58,43% para 63,27%, e a distância entre Limeira, com 82,10%, e o Triângulo Mineiro, com 0,31%, mostra que a média nacional não descreve talhão nenhum. A pergunta mudou de "quantos pés estão doentes" para "quão doente está o pé", e as duas respostas cobram em lugares diferentes do seu orçamento. Vencer o vetor é despesa de manejo. Perder o pomar velho é decisão de capital, e essa não se toma em setembro.

ASSUNTO DE GABINETE

O sorgo entrou na planilha que decide quanto vale seu carbono

Fonte: Embrapa

Tem uma consulta pública correndo em Brasília que mexe na receita da usina e quase ninguém está olhando. A ANP pôs em participação social a nova RenovaCalc, aberta desde 17 de agosto e com prazo até 16 de setembro, que é a planilha usada para calcular a intensidade de carbono do biocombustível e, por consequência, quantos CBIOs cada litro gera. A novidade que muda o mapa é o sorgo entrando entre as biomassas aceitas, que eram só cana, milho e soja, junto com a rota nova do etanol de melaço de soja e o desdobramento da usina flex em duas contas separadas, uma de cana e outra de milho.

O sorgo chega com currículo. A área saltou 32,9% em uma safra, de 1,632 para 2,168 milhões de hectares, a Conab projeta 7,56 milhões de toneladas, e o grão rende 429,5 litros de etanol por tonelada contra 424,5 do milho, custando de 15% a 25% menos e se contentando com 250 a 300 milímetros de chuva onde o milho pede o dobro. Quem sente o desdobramento da rota flex são as 11 usinas flex entre as cerca de 30 plantas de etanol de milho do país, que hoje calculam tudo junto e passam a ter a parcela de milho medida com a régua do milho, cujo balanço energético é bem pior que o da cana. A sua nota de carbono não nasce no talhão, nasce numa célula de planilha em consulta pública, e quem não manda contribuição até dia 16 descobre a regra nova quando ela já estiver valendo.

MENTES QUE GERMINAM

A Embrapa entregou 163 respostas e ninguém sabe entregar a conta

Fonte: Tenor

A Embrapa passou ao Ministério da Agricultura uma nota técnica com 163 medidas contra perda climática, sendo 14 transversais a todo o setor, 139 específicas por segmento produtivo e dez que não dependem do produtor, porque são de política pública. Cada uma vem com o risco que trata, o horizonte de implementação e a condição de adoção, o que já é raro num documento de governo. Nas transversais estão coisas nada exóticas, monitoramento de previsão, uso de dado meteorológico local, diversificação no espaço e no tempo, integração lavoura-pecuária e lavoura-pecuária-floresta. Nasceu do El Niño de 2026/27, mas a presidente Silvia Massuhrá deixa claro que a leitura é mais larga que o fenômeno.

O detalhe honesto está na boca do próprio governo. Bruno Leite, que coordena o grupo de trabalho, diz que o cardápio de tecnologia já é grande e que o desafio é fazer esse conhecimento chegar ao produtor rural, e uma das recomendações do relatório final, que sai na quinta, é um plano de comunicação entre as instituições. Ou seja, a nota técnica que resolveria o risco climático termina propondo resolver antes o problema de comunicação.

PLANTÃO RURAL

SE DIVERTE AÍ

Terça já chega com tabela cheia de número, então bora treinar o olho de encaixar cada um no lugar certo. O Numerox, o passatempo da velha Coquetel das bancas, abre uma grade vazia e uma lista de números de três a nove dígitos, e cabe a você achar onde cada um entra, cruzando com o vizinho igual palavra cruzada. Errou o encaixe, travou a linha inteira. Número solto não diz nada, o que vale é onde ele encaixa.

VIVENDO E APRENDENDO

Resposta da edição passada: é o hedge, o seguro do preço. Você trava num contrato futuro o valor da saca que só vai colher em março, sem tirar um grão do armazém. O outro lado é que quem se protege da queda também abre mão da alta.

Pergunta de hoje: o que é o vazio sanitário da soja?


A resposta você confere na próxima edição!

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