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Bom dia!
Vamos começar bem a semana, porque o final de semana acabou, sem prorrogação. Hoje a gente conta como o aperto de crédito derrubou usina, holding e cooperativa de uma vez, e por que o El Niño finalmente saiu da previsão e entrou na lavoura. No meio disso, o governo abriu R$ 9 bilhões pra socorrer a fila do maquinário, a Syngenta foi ao tribunal barrar a BASF, e o piso do frete ficou mais leve pro caminhão do agro.
Pra você começar a segunda um passo à frente.
Por Luciana Stival
TÁ QUANTO?
Os dados são publicados por CEPEA-Esalq/USP Indicadores sob licença CC BY-NC 4.0. As variações são calculadas em % diária e %YTD (Year to date)
COLHENDO CAPITAL
O aperto de crédito virou onda

Fonte: CNN Brasil
Não é mais um caso isolado, é maré. No mesmo fim de semana, o Grupo Itajobi (dono das usinas Itajobi, Carolo e Rio Pardo) abriu uma mediação para reestruturar R$ 3,76 bilhões antes de correr pra recuperação judicial, a Moody's cortou o rating da Cosan (holding de Rubens Ometto), citando dificuldade de desalavancar com o dividendo menor da Raízen, e a cooperativa gaúcha Languiru parou de pagar os CRAs, deixando a gestora Valora com R$ 126 milhões em risco e uma garantia da JBS que a própria JBS diz não ter dado.
Quando usina, holding e cooperativa quebram o passivo na mesma semana, o problema deixou de ser de gestão e virou de sistema. O açúcar cristal caiu abaixo de R$ 100 a saca (nível não visto desde 2020), o custo da cana bateu recorde e o crédito secou, tudo junto. Pro produtor, o recado é frio: quem tem contrato com esses nomes precisa olhar a garantia com lupa, porque, como mostrou a Languiru, papel de garantia sem a anuência do garantidor não vale o PDF em que está escrito.
E ESSE TEMPO, HEIN?
O El Niño saiu da previsão e entrou na lavoura

Fonte: TheAgriBiz
Agora é pra valer. Depois de meses de "vem aí", o padrão típico de El Niño assume o comando do clima pelas próximas duas semanas: chuva forte e persistente no Sul (a Campanha gaúcha pode dobrar o acumulado de três dias) e calor fora de época no Sudeste e Centro-Oeste, com o Pantanal passando dos 40°C. É a mesma moeda com dois lados: no Centro-Sul, o tempo seco e quente ajuda a acelerar a colheita da cana que atrasou com a chuva de junho; no arroz, é o contrário.
O El Niño não é bom nem ruim, é caro. Pro arroz, a Safras & Mercado já vê a safra 26/27 encolhendo pra perto de 10 milhões de toneladas, com o produtor gaúcho segurando a compra de insumo à espera de uma previsibilidade que o céu não dá. Foi essa incerteza que já reergueu a saca no RS (R$ 62,83, alta de 8,3% no mês). O recado pra quem planta: neste ano, o escalonamento do plantio deixa de ser teoria e vira seguro, porque apostar tudo numa janela de clima é o tipo de aposta que o El Niño adora ganhar.
ASSUNTO DE GABINETE
O governo pôs R$ 9 bi na mesa pra máquina

Fonte: Globo Rural
Chegou reforço pra fila do maquinário, no papel. A MP 1.377/2026, publicada em edição extra do Diário Oficial na quinta, abriu R$ 9 bilhões de crédito extraordinário para financiar a compra de máquinas e equipamentos de fabricação nacional, engordando o Plano Safra 26/27. O repasse aos bancos vai pela Finep, dentro do programa Move Agricultura.
Com o crédito privado secando (é só ver a maré de dívidas aí em cima), o governo entra pra não travar a renovação da frota, que é o que segura a produtividade. Mas tem dois asteriscos. O primeiro: o dinheiro é só para máquina nacional, ou seja, é crédito com sotaque de política industrial, não só de safra. O segundo, e o que mais pesa no seu bolso: a MP ainda não foi regulamentada, então o recurso não está disponível para empréstimo. É fôlego anunciado, não fôlego no balcão, e quem precisa comprar agora faz bem em não contar com esse dinheiro antes de a regra sair.
NAS CABEÇAS DO AGRO
A Syngenta foi ao tribunal barrar a BASF

Fonte: CNN Brasil
No mundo dos defensivos, a disputa saiu da lavoura e foi pro fórum. A Syngenta processou a BASF nos Estados Unidos, alegando que o novo herbicida de milho da alemã, o Ridivex, copia a fórmula patenteada do seu Storen, e pediu à Justiça de Delaware que impeça o lançamento antes da temporada de compras (junho a setembro), a janela que decide as vendas do ano inteiro. E não para aí: a mesma Syngenta adiou de novo o IPO em Hong Kong para 2027, de olho num mercado que a guerra e o Estreito de Ormuz deixaram nervoso.
O que ninguém diz em voz alta é que essa briga de patente é, no fundo, uma briga de preço na sua prateleira. Menos concorrência entre gigantes na hora do lançamento significa menos pressão pra baixar o custo do herbicida que você aplica. Uma companhia que ao mesmo tempo trava a rival na Justiça e segura o próprio IPO está sinalizando uma coisa só: quem controla a molécula controla a margem, e essa margem sai do bolso de quem pulveriza.
POR DENTRO DO MERCADO
A Yara ganhou mais margem e vendeu menos

Fonte: AGFeed
Parece contradição, mas é o retrato do momento. A norueguesa Yara, gigante do fertilizante, fechou o trimestre com margem 39% maior e, ao mesmo tempo, 17% menos entregas. O motivo é o mesmo das últimas semanas: a guerra no Oriente Médio e o fechamento do Estreito de Ormuz dispararam o preço do nitrogênio, e o produtor, sem precisar aplicar agora, simplesmente adiou a compra. O Ebitda de US$ 906 milhões veio 20% abaixo do que o mercado esperava.
Quando o vendedor de adubo lucra mais vendendo menos, é sinal de que o preço subiu por medo, não por demanda. E medo tem prazo de validade: a própria Yara já viu a compra voltar em julho, e a ureia saltou 24% no Egito em três semanas, puxada por Brasil e Argentina. O recado é de calendário: comprar fertilizante virou apostar no timing da geopolítica, e quem esperar demais pela queda pode acabar comprando na próxima alta, quando a safra do Hemisfério Norte voltar a puxar a fila.
PLANTÃO RURAL
Júnior Friboi volta às compras: a Prima Foods comprou o frigorífico do Frialto em Ji-Paraná (RO), e a família Bellincanta deixa de operar em Rondônia.
Governo fecha a porta pro biodiesel importado: o CNPE proibiu o uso de biodiesel importado na mistura obrigatória (hoje em 15%), medida que atinge a Argentina e agrada o produtor local.
Frango perde terreno pro suíno: a competitividade da carne de frango ante a suína caiu 70% em um ano, mexendo com a escolha do consumidor.
Indústria de insumos aposta na virada da soja: fabricantes esperam a reação nas vendas de insumos com a proximidade do plantio da nova safra.
Robótica encara a falta de mão de obra: especialista chinês defende que a robótica pode suprir a escassez de gente no campo, apesar do custo alto ainda travar a adoção.
Ciência mira o solo da batata: estudo do IF Goiano com Syngenta e PepsiCo adaptou uma metodologia da Embrapa para medir a saúde do solo na bataticultura.
Alerta de granizo no Centro-Sul: granizo e vendaval colocam o Centro-Sul em alerta, com o Rio Grande do Sul como o mais suscetível.
SE DIVERTE AÍ
Ressaca de final de Copa? Bom, se o Mundial já mexeu com a geografia, hoje a brincadeira segue nesse clima. A dica é o Travle: você recebe um país de partida e um de destino e precisa ligar um ao outro passando pelos vizinhos, no menor número de passos. Pra quem é do agro e vive traçando a rota de um carregamento do porto ao comprador lá fora, é quase treino de logística disfarçado de jogo.
VIVENDO E APRENDENDO
Resposta da edição passada: a Índia, berço do boi zebu (como o Nelore), que chegou ao Brasil e virou a espinha do nosso rebanho de corte, adaptado ao calor dos trópicos.
Pergunta de hoje: o que significa a sigla ANTT?
A resposta você confere na próxima edição!
