APRESENTADO POR

Bom dia!

Pega o café e senta, que hoje o cardápio tem gente lá fora abrindo porta que jurava fechada, e gente aqui dentro fechando as contas na base da venda de patrimônio. Um empresário da carne tomou café com o Trump, e no dia seguinte uma porteira se abriu sozinha do outro lado do mundo. O tempo brasileiro não conseguiu se decidir entre pegar fogo e virar dilúvio, e escolheu fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Mais um pedaço do açúcar made in Brasil trocou de dono, e o comprador não é daqui. Uma gigante do combustível abriu mão de mais dois pedaços do que era dela, só pra respirar. O seguro oficial do produtor ficou mais fino bem na véspera da tempestade. E o campo até jogou bem no trimestre, só que o time que banca esse caixa está com o bolso mais curto.

Pra você começar o dia já por dentro.

Por Luciana Stival

TÁ QUANTO?

MERCADO valor % dia % YTD
IBOVESPA (B3) R$179.722,48 1,30% 11,54%
IFIX R$3.741,80 -0,56% -0,98%
RAIZ4 R$0,26 13,04% -67,90%
CSAN3 R$3,97 1,79% -25,38%
SMTO3 R$21,21 7,39% 40,28%
JBSS3 R$69,52 -1,03% -12,14%
VGIA11 R$8,61 0,70% -14,41%
RZAG11 R$8,15 -2,74% -13,76%
Ethereum US$2,412.92 -2,72% -19,23%
Bitcoin US$77,111.65 -2,39% -12,72%

Os dados são publicados por BCB e Brapi.
As variações são calculadas em % diária e %YTD (Year to date)

A Bolsa brasileira embala numa onda de capital fugindo da tensão lá fora, não um voto de confiança na própria casa, e a dívida pública que segue subindo por baixo do otimismo lembra que esse dinheiro pode sair tão rápido quanto entrou.

O AGRO EM NÚMEROS

PIB do agro dispara, crédito no campo trava

Fonte: Giphy

Tem hora que um jogador só decide a partida. Foi a cena do boletim trimestral do IBGE de ontem (01/09): o PIB cresceu 0,5% no 2º trimestre de 2026 ante o anterior, e o gol foi da agropecuária, que avançou 2,8%, quase seis vezes o ritmo da economia como um todo.

Pense no PIB como o resultado consolidado do grupo Brasil S.A.: a divisão "campo" cresceu 2,8% enquanto a média do grupo mal saiu do zero a zero.

Só que esse número é sobre o que sai da terra, não sobre o cano que financia o que sai da terra. E esse cano está mais estreito: a concessão de crédito rural recuou 17% em 2025, R$ 36,8 bilhões a menos segundo a Serasa Experian, no mesmo período em que distribuidoras de insumo como a Lavoro (R$ 2,5 bilhões em débitos, recuperação extrajudicial) e a Belagrícola (R$ 2,2 bilhões em passivo renegociado) viraram manchete por dívida, não por faturamento.

A questão é que comemorar o gol é fácil. A pergunta é se o time inteiro aguenta o segundo tempo com o caixa que sobrou.

ASSUNTO DE GABINETE

Seguro do campo fica mais fino em 2027

Fonte: Giphy

Enquanto os modelos climáticos apontam pra um El Niño que pode entrar pro pódio dos mais fortes já registrados, o orçamento que o governo mandou pro Congresso essa semana encolhe justo o colchão que existe pra isso.

Primeiro, o Proagro, que reembolsa o banco quando sua lavoura financiada quebra por geada, seca ou enchente. O PLOA 2027 reserva R$ 5,606 bilhões pro programa, R$ 1 bilhão a menos que os R$ 6,618 bilhões de 2026 e 40,4% abaixo dos R$ 9,405 bilhões efetivamente gastos em 2023.

Segundo, o Seguro Rural (PSR), que paga direto na sua conta, não no banco. O orçamento também reserva R$ 1,2 bilhão pro PSR em 2027, mas só R$ 318,5 milhões, 26,5% do total, são garantidos. Os outros R$ 881,5 milhões só saem se o Congresso liberar ao longo do ano. E mesmo se cair tudo, a cobertura fica em 50,6% do que era em 2021.

A conta é direta: Proagro e PSR existem pra baratear a apólice, com o governo bancando parte do risco. Menos verba pública ali é prêmio mais caro no seguro privado ou lavoura descoberta numa safra que o boletim climático já avisou que vem torta.

Moral da história: o governo tá economizando no guarda-chuva bem na hora em que o boletim diz que vem tempestade.

NAS CABEÇAS DO AGRO

Raízen vende mais dois pedaços pra respirar

Fonte: CNN Brasil

Você já vendeu alguma coisa boa só pra fechar o mês? Foi a semana da Raízen, que fechou duas dessas vendas quase juntas.

A companhia concluiu a saída da Argentina, negócio majoritariamente de combustíveis vendido pra empresas ligadas à trading suíça Mercuria por US$ 1,42 bilhão, parte em caixa e parte em assunção de dívida. E a Adecoagro (controlada pela empresa de cripto Tether) bateu o martelo na compra da Usina Caarapó, em Mato Grosso do Sul, por R$ 705 milhões, 7% abaixo dos R$ 760 milhões anunciados em julho, o ajuste de preço pós-fechamento que desconta capital de giro e dívida embutida.

Não é coincidência. A Raízen (joint venture Cosan e Shell) terminou junho com dívida líquida de R$ 56,87 bilhões, depois de em fevereiro ver S&P, Fitch e Moody's Local cortarem o rating quase ao mesmo tempo, com a nota da Moody's Local caindo de AAA.Br pra CCC+.Br. Traduzindo, é perder o selo de "empresa segura" e virar contraparte que banco olha com lupa, e cobra mais caro, antes de emprestar.

O recado é duplo: crédito mais caro no setor sucroenergético como um todo, e ativo açucareiro saindo do balanço de um player grande com desconto, oportunidade pra quem tem caixa e alerta pra quem só olha o preço de tabela. Pechincha ou sintoma, você decide, mas não olhe ativo barato do setor sem perguntar por que ele ficou barato.

COLHENDO CAPITAL

China compra mais um pedaço da usina do Brasil

Fonte: AGFeed

Rola uma máxima no agro que ninguém fala em voz alta: quem não decide o preço do açúcar e do etanol lá fora, decide quem manda aqui dentro. E a Cofco International, a trading estatal chinesa, acabou de comprar mais uma cadeira nessa mesa, fechando a compra de duas usinas da Bunge em São Paulo, a Rio Vermelho e a Nova Unialco.

Moagem é a régua que mede quanta cana uma usina processa numa safra. As duas somam até 7 milhões de toneladas por ano e empurram a Cofco de 18,5 para 25,5 milhões de toneladas no Brasil, colocando-a no grupo das maiores potências do setor sucroenergético do país, ao lado de Raízen e BP Bioenergia.

O valor não foi revelado, mas o "e daí pra mim" não é o cheque, é o que ele compra: pricing power. Quanto mais moagem a Cofco controla, menos ela depende de comprar açúcar e etanol de terceiros e mais ela decide o próprio preço de saída, inclusive pro consumidor chinês. É a China comprando o pedágio, não só o produto.

E ESSE TEMPO, HEIN?

Clima manda recado trocado pro produtor

Fonte: Globo Rural

O clima brasileiro não se decide essa semana. O Inmet emitiu hoje aviso de tempestade pra um corredor que vai da Zona da Mata e do Vale do Rio Doce, em Minas, ao Espírito Santo e ao Rio de Janeiro, enquanto boa parte do Nordeste sofre com o ar seco. Tudo isso na véspera da janela de plantio da safra de verão.

Aos números: chuva de 20 a 30 mm por hora (até 50 mm no dia), vento de 40 a 60 km/h e granizo em quase 20 regiões entre MG, ES e RJ. Outro aviso, de baixa umidade, cobre do sertão de PE e do CE até o Norte de Minas, com umidade relativa entre 20% e 30%.

Pra fechar, RS e SC amanhecem com sol e frio: geada esperada nas áreas mais altas da Serra Gaúcha e do planalto catarinense, com mínimas entre 0°C e 4°C, puxadas por uma área de alta pressão, não por ciclone. Isso depois de chuvas que passaram de 170 mm em municípios de SC, PR e RS entre 29/08 e 01/09, com 86 ocorrências de granizo.

E daí pra você? O calendário virou aposta regional: quem está sob tempestade em MG, ES e RJ pensa em segurar a máquina ou adiar a pulverização, quem está no Sul confere o termômetro antes de arriscar muda nova, e quem está no sertão reza pra chuva chegar.

COMO TÁ LÁ FORA?

Trump “miando” fino?

Fonte? Giphy

Lembra do Trump prometendo, no fim de agosto, agir contra o que chamou de "nasty monopoly" no setor de carnes, sem citar nomes, mas com JBS e Tyson na mira de quem lia a notícia? A plateia aplaudiu, mas nos bastidores a cena era outra.

Joesley Batista se reuniu pessoalmente com Trump em 20 de agosto e defendeu o fim da tarifa de 26% sobre a carne bovina importada. No dia seguinte, 21/08, Trump abriu uma cota de 300 mil toneladas isentas de imposto por 90 dias, com preço até 25% abaixo do praticado nos EUA. O setor que ele mirou como monopólio num dia virou, no outro, o setor cujo pitch de porta fechada virou política pública. Foi o próprio Joesley quem ajudou a moldar o desenho da medida.

Cota tarifária é uma porta lateral que o governo abre pra deixar entrar volume sem taxa, sem mexer na tarifa geral, mais fácil de abrir e fechar por decreto do que reformar lei.

Os pecuaristas americanos já mandaram recado pedindo pra ele "ficar fora do caminho deles", porque carne importada barata não recompõe rebanho. No microfone é proteção ao produtor local, no privado é audiência com quem processa carne. Não é teoria da conspiração, são fatos.

PLANTÃO RURAL

SE DIVERTE AÍ

Pra testar se você reconhece o resto do mapa, o Adivinhe a Bandeira separa a bandeira certa entre quatro países parecidos, cronômetro correndo e pontuação subindo a cada acerto. Vamos ver como você se sairá neste desafio.

VIVENDO E APRENDENDO

Resposta da edição passada: é o período da entressafra em que fica proibido semear ou manter pé de soja vivo no campo, de 60 a 90 dias, conforme o estado, pra tirar do fungo da ferrugem asiática qualquer planta viva onde se multiplicar, e ele chegar fraco na safra nova.

Pergunta de hoje: qual a diferença entre o Proagro e o Seguro Rural (o PSR), que o produtor tanto ouve falar?

A resposta você confere na próxima edição!

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