
APRESENTADO POR
Bom dia!
Puxa o banquinho, que em cinco minutinhos a gente resolve a terça do agro inteira. O milho resolveu subir bem na semana em que ele deveria estar de joelhos, e quem mandou subir mora do outro lado do oceano. No meio do aperto, o pecuarista abriu a carteira pra uma coisa só, e o Angus disparou na frente do resto. A chuva que caiu em Minas não estragou o tamanho da safra de café, estragou coisa pior. O crédito mais barato do país estreou na Caatinga, e quem levou não planta árvore nenhuma. O emprego no agro encolheu, e o suspeito de sempre saiu ileso dessa. E a bolsa decidiu comemorar justo no dia em que o balanço do trimestre mandou o recado oposto.
Pra você tocar a terça já sabendo onde a conta aperta.
Por Luciana Stival.
TÁ QUANTO?
Os dados são publicados por BCB. A variação considerada nesta tabela é semanal.
Washington avisou que quem mantiver negócio com o Irã pode ser expulso do sistema financeiro do dólar, e a mira não é o navio que zarpa daqui, é quem liquida a fatura lá fora, aviso duro num dia em que a moeda americana ganhou força no mundo inteiro.
QUEM COMPROU E QUEM SÓ OLHOU
O agro virou de página, o caixa ainda não

Fonte: Giphy
Otimismo de analista chega bem antes do dinheiro. Numa conferência com os donos do setor no Rio, o pessoal do mercado saiu dizendo que o humor do agro virou, e a bolsa comprou na hora, tanto que a ação da São Martinho disparou 26% numa semana só.
O detalhe é que, no mesmo dia, saiu o balanço do trimestre e a maioria das companhias do agro lucrou menos que um ano atrás, boa parte delas no vermelho. Não é contradição, é fuso horário. O analista está comprando 2027, e o preço que o Santander enxerga na 3tentos, quase o dobro do que a ação vale hoje, só vence lá na frente.
Quem está no talhão não vive de projeção. A fila da recuperação judicial no agro voltou a crescer no começo do ano, e essa conta não espera 2027. Relatório de banco fala do ano que vem, mas boleto de banco vence esse agora.
TRAMPO NO CAMPO
O agro perdeu 267 mil vagas pra robô?

Fonte: Giphy
Toda vez que o emprego no agro cai, o culpado já chega algemado, e é sempre o mesmo, a máquina.
Mas dessa vez o trator tem álibi. O setor fechou o primeiro trimestre com 267 mil vagas a menos, mas quem mandou embora não foi a lavoura, foi o escritório, o galpão e a revenda, a turma que trabalha de gravata.
Dentro da porteira, olha só, contratou mais. E onde ainda se colhe no braço foi melhor ainda, com a citricultura fechando a safra com mais gente de carteira assinada que no ano passado.
Então cadê o aperto? Tá no preço. O PIB do agro caiu porque o que o produtor vende está valendo menos, não porque ele produziu menos, e margem curta demite bem antes de qualquer robô.
PAUTA VERDE
A Agrovale achou padrinho pra cana no sertão

Fonte: Globo Rural
Todo mundo acha que dinheiro verde termina em muda de árvore. Esse terminou em canavial.
Deixa eu contar como esse dinheiro chega aqui. O governo criou o Eco Invest Brasil, botou capital barato na mesa e mandou os bancos brigarem por ele num leilão. Quem leva entra com uma parte do próprio bolso, junta tudo e repassa pra quem vai tocar o projeto, com juro que banco nenhum faz no balcão. É dinheiro carimbado de transição climática, então todo mundo imaginou floresta em pé, nascente cercada, esse tipo de coisa.
Pois a estreia do programa dentro da Caatinga foi a Agrovale, usina de açúcar, etanol e energia em Juazeiro, no sertão da Bahia, pegando R$ 200 milhões com o Itaú BBA pra replantar canavial velho. Sete anos pra pagar, juros abaixo do mercado. Sai o sulco, entra o gotejamento, aquela irrigação gota a gota direto na raiz, e a promessa é colher bem mais gastando menos água. Cana no sertão bebendo no conta-gotas, num lugar onde chove quase nada.
E aí começa a discussão boa:
De um lado, é transição de verdade, porque a área já estava degradada, volta a produzir, e gotejamento gasta muito menos água que a irrigação que se pratica ali;
Do outro, é uma usina de açúcar levando juro de projeto climático pra plantar cana no bioma mais seco do país. É o tipo de coisa que rende aplauso em painel de COP e sobrancelha levantada em mesa de bar.
As duas leituras fecham. O que não fecha é a fila. O leilão soltou mais de R$ 30 bilhões pra recuperar área degradada, e quem chegou na frente não foi o médio produtor com o pasto acabado, foi quem já tinha balanço auditado, engenheiro no time e papel em dia. O recado pra quem tem área ruim em casa não é que o dinheiro não existe. É que ele existe, vai ter próximo leilão, e ele vai passar por cima de quem não estiver com o projeto pronto na gaveta. Dinheiro verde é barato pra quem consegue provar que merece. Mas provar custa caro.
HORA DO CAFÉ
A conta da chuva mineira chegou na Starbucks

Fonte: Bloomberg Línea
Café bom não é o que sobra, é o que passa na peneira. E este ano a peneira apertou.
Quem compra café na bolsa de Nova York não aceita qualquer saca. Tem um padrão de qualidade, e o grão precisa passar nele pra valer o preço cheio. Em ano normal, mais ou menos um terço da safra brasileira passa nesse crivo. Este ano, no Cerrado Mineiro, esse pedaço encolheu pra metade disso.
O motivo veio do céu. Choveu demais em Minas em junho e julho, bem na hora da colheita, e o fruto maduro caiu no pé do cafeeiro. Café que passa dias no chão molhado perde qualidade, e ali a regra dos cinco segundos não vale. O que sobrou foi grão pra catar, aquele que precisa ser separado do lote antes de virar bebida.
Aí a conta muda de mão. O Brasil não está com menos café, está com menos café bom, e quem sente isso primeiro não é quem planta, é quem compra. Starbucks, Lavazza e Illy vivem do grão fino e agora disputam um bolo bem menor. Em Nova York o arábica subiu quase 6% num dia, com o produtor segurando a venda pra ver se melhora.
A Illy diz que o prêmio vem de produtor capitalizado segurando saca, não de problema de qualidade. Pode ser. Mas nas duas versões o poder está no mesmo lugar, com quem tem café bom guardado na tulha.
MENTES QUE GERMINAM
Tem criador saindo na frente

Fonte: Giphy
Quando aperta, todo mundo corta alguma coisa do carrinho. O pecuarista cortou quase tudo, menos a genética. A venda de sêmen de corte disparou no primeiro semestre enquanto a do leite ficou parada no lugar, e dentro do corte quem correu na frente foi o Angus. Não é vaidade de catálogo. Do jeito que o bezerro valorizou, repor pasto com animal mediano virou luxo que ninguém pode pagar.
E o produtor paga mesmo, tanto que na ExpoGenética saiu metade de um animal por quase R$ 6 milhões, preço de apartamento com vista pro mar, só que muge. Na letra miúda, porém, isso ainda é coisa de minoria, porque o rebanho brasileiro passa de 238 milhões de cabeças e a maior parte segue no sistema de sempre. Quem insemina hoje não está seguindo o mercado, está saindo na frente.
POR DENTRO DO MERCADO
Ninguém avisou o milho que é época de colheita

Fonte: CNN Brasil
Preço de grão em plena colheita costuma ir pra baixo. É quando tem milho novo entrando de todo lado e o produtor precisa de espaço no armazém. Pois a safrinha já está 92% colhida no Centro-Sul e o milho subiu cinco pregões seguidos, fechando ontem a R$ 68,19 a saca no Cepea. É feira fechando com o tomate mais caro do que quando abriu.
O motivo não é daqui. A caravana do Pro Farmer cortou a lavoura americana bem abaixo do número oficial, e o monitoramento da Comissão Europeia derrubou o rendimento do milho europeu pela segunda vez seguida, com perda total em algumas áreas de seca. Milho quando falta lá fora, o preço chega aqui pela porta da frente.
O produtor leu o recado e sumiu do balcão. Parou de negociar à vista, de vender pra entrega futura e de fechar exportação, tudo ao mesmo tempo. Não é medo, é aposta. Quem acha que amanhã vale mais guarda a saca hoje, e a espera se paga sozinha, porque quanto menos milho aparece, mais o comprador precisa oferecer pra encher o armazém.
Agora, o outro lado, e ele tem duas velocidades. A lavoura queimada lá fora não se recupera nesta safra, isso é dano feito. Mas o prêmio que ela criou aqui é frágil, porque milho no Brasil não está faltando. Logo ali a Argentina colheu safra recorde e já bateu recorde de embarque, com carga esperando comprador.
Pra quem tem milho guardado, a janela é de preço, não de safra, e janela de preço fecha sem avisar. Pra quem compra milho pra engordar bicho, o recado está no março de 2027 lá na B3, e ele não é animador. Milho caro é custo que o avicultor paga e não controla, refletindo na galinhada também.
PLANTÃO RURAL
Gana e a Costa do Marfim abriram a temporada um mês antes do combinado: os dois maiores produtores da África Ocidental já trabalham com uma safra 2026/27 cerca de 10% menor que a do ciclo passado.
A fábrica de ração cresceu enquanto o resto do agro apertava o cinto: a indústria de alimentação animal produziu 22,6 milhões de toneladas no primeiro trimestre, alta de 5,4%, puxada por aves e suínos.
O greening chegou no limão e não tem remédio: a praga ameaça o Tahiti, que responde por 97% da produção brasileira de limão, e o pomar depende de controle rigoroso porque cura não existe.
Odessa está parada e o grão ucraniano não acha o navio: as exportações semanais caíram 11,4%, para 188,2 mil toneladas entre 13 e 19 de agosto, com os terminais do Mar Negro fora de operação desde o fim de julho.
O fungo que mata a lagarta finalmente coube num tanque industrial: o processo desenvolvido pela Embrapa com a Efense saiu do laboratório para biorreatores de 1.200 litros, com mortalidade de 70% a 93% contra mosca-branca e lagarta-do-cartucho.
A poda das lavouras deixou a indústria de fécula sem raiz: a oferta restrita sustenta o preço da mandioca pela oitava semana seguida, com o produtor pouco disposto a negociar a raiz de primeiro ciclo.
A Espanha descobriu o boi mato-grossense de uma hora pra outra: os embarques do estado para o país saltaram 172% de junho para julho, de 549,7 para 1,4 mil toneladas.
Tem R$ 40 milhões a fundo perdido esperando projeto até o fim do mês: o segundo ciclo do BNDES Bioinsumos recebe inscrições de cooperativas e associações da agricultura familiar até 31 de agosto, com projeto mínimo de R$ 5 milhões.
SE DIVERTE AÍ
O Anagramas solta um punhado de letras embaralhadas e desafia você a formar o máximo de palavras possível, ordenando letra por letra até a lista fechar toda inteira, que nem quem separa o grão bom sem pressa.
VIVENDO E APRENDENDO
Resposta da edição passada: são duas proteínas na casca do vírus da gripe. A hemaglutinina (H) ajuda o vírus a entrar na célula, e a neuraminidase (N) ajuda ele a sair depois de se multiplicar. O número ao lado de cada letra marca a versão da proteína, e é por isso que H5N1 e H3N2 são cepas diferentes.
Pergunta de hoje: qual estado brasileiro concentra mais de 70% da produção nacional de algodão?
A resposta você confere na próxima edição!

